Os cafés



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Os cafés
I caffè


Procuras nas mesas
Uma enseada para a tristeza.
O vidro dá ao mundo
Essa distância teatral.
Deixa-te partir nos vapores,
Nos travos, nos rumores,
Nos rostos estranhos.
Aqui, o amor protege-se das noites,
Do desejo que não se cumpre,
E a solidão esconde-se da solidão.
Procuras nas mesas a redoma,
O ventre de uma pausa.
Aqui encontras na luz
As obscuridades possíveis.
Tra i tavolini vai cercando
Un approdo per la tua tristezza.
La vetrina stabilisce col mondo
Una distanza teatrale.
Lasciati rapire tra i vapori,
Tra gli amari sapori, tra i rumori,
Tra i volti sconosciuti.
Qui, l’amore si protegge dalle notti,
Dal desiderio inappagato,
E la solitudine si nasconde dalla solitudine.
Tra i tavolini cerchi una campana di vetro,
Il ventre di una pausa.
Qui ritrovi nella luce
Le possibili oscurità.
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Vincent van Gogh
Donna al Café du Tambourin (1887)
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Coruja


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Coruja
Civetta


Vôo onde ninguém mais - vivo em luz
mínima
ouço o mínimo arfar - farejo o
sangue

e capturo
a presa
em pleno escuro.
Volo dove nessuno va più - vivo col minimo
della luce
odo il minimo palpito - fiuto il
sangue

e catturo
la preda
nel buio pesto.
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Julie de Graag
Due civette (1921)
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Silêncio


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Silêncio
Silenzio


I
A madrugada.
Seu coração de silêncio.

II
O silêncio cheio
de peixes
de irisados peixes
úmidos.

III
Grandes árvores
ânforas
transbordantes de silêncio.

IV
Galos
no alto silêncio
impressos

seda
translúcida do silêncio.
I
L’alba.
Il suo cuore di silenzio.

II
Il silenzio colmo
di pesci
di iridescenti pesci
umidi.

III
Grandi alberi
anfore
traboccanti di silenzio.

IV
Galli
scolpiti
nel silenzio assoluto

seta
diafana di silenzio.
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Paul Klee
Fischbild (1925)
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Rélogio


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Rélogio
Orologio


Hora dos
peixes
hora dos
náufragos
hora do es
pesso
concreto abismo

hora das
algas
lentas flu
tuantes
hora das
ondas
brandas in
findas

hora dos
peixes
densos
obscuros
na obscuridade líquida
Ora dei
pesci
ora dei
naufraghi
ora dello
spesso
concreto abisso

ora delle
alghe
lente flut
tuanti
ora delle
onde
soffici in
finite

ora dei
pesci
densi
oscuri
nell’oscurità liquida
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Adrian Paci
At sea (2025)
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Poema


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Poema
Poesia


Saber de cor o silêncio
diamante e-ou espelho
o silêncio além
do branco.

Saber seu peso
Seu signo
– habitar sua estrela
 Impiedosa.

Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.

  Saber de cor o silêncio

– e profaná-lo, dissolvê-lo
  em palavras.
Conoscere a memoria il silenzio
diamante e/o specchio
il silenzio al di là
del bianco.

Conoscere il suo peso
Il suo segno
– abitare la sua stella
 impietosa.

Conoscere il suo centro: vuoto
splendore al di là
della vita
e vita al di là
della memoria.

  Conoscere a memoria il silenzio

– e profanarlo, dissolverlo
  a parole.
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Alberto Burri
Nero e oro (1993)
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