Poesia


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Poesia
Poesia


Ai deixa, deixa lá que a Poesia
no perfume das flores, no quebrar
das ondas pela praia,
na alegria
das crianças que riem sem porquê
– deixa-a lá que se exprima, a Poesia.

Fica sentado aí aonde estás, Poeta,
e não mexas os lábios nem os braços:
deixa-a viver em si;
não tentes segurá-la nos teus braços,
não pretendas vesti-la com palavras…

Se a queres ter,
se a queres sempre ver pairando à flor das coisas, fica aí
no teu cantinho, e nem respires, Poeta, e não te bulas,
pra que ela não dê por ti.

Não a faças fugir, toda assustada
com a tua presença…
Deixa-a, nua, pairando à flor das coisas,
que ela não sabe que a viste,
nem sabe que está nua,
nem sequer sabe que existe…
Suvvia, lascia, lascia che la Poesia
sia nel profumo dei fiori, nell'infrangersi
delle onde sulla spiaggia,
nell’allegria
dei bimbi che ridono senza un perché
– lascia pure che s’esprima da sé, la Poesia.

Resta seduto lì dove sei, Poeta,
e non muovere le labbra né le braccia:
lascia che viva in sé;
non tentare di trattenerla tra le tue braccia,
non cercare di vestirla di parole…

Se la vuoi possedere,
se vuoi vederla sempre aleggiare sopra le cose, resta lì
nel tuo cantuccio, senza respirare, Poeta, e non t’adombrare,
se lei non s’è accorta di te.

Non farla fuggire, tutta spaventata
dalla tua presenza…
Lasciala, nuda, aleggiare sopra le cose,
ché ella non sa che tu l’hai vista,
e non sa d’esser nuda,
e non sa nemmeno d’esistere…
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Carla Sá Fernandes
BB1.S1 - Arti digitali (2023)
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Pequeno poema


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Pequeno poema
Poemetto


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...
Quando son nato,
tutto restò come stava.
Nessuno si tagliò le vene,
né s’oscurò il Sole,
né ci fu una Stella in più...
Soltanto,
dimentica dei dolori,
mia Madre sorrise e ringraziò.

Quando son nato,
non ci fu niente di nuovo
se non io.

Le nuvole non si stupirono,
non impazzì nessuno...

Perché quel giorno fosse grandioso,
bastava
tutta la tenerezza che spuntava
negli occhi di mia Madre...
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Georges de La Tour
Il neonato (~1640)
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O Sol já se escondeu…


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O Sol já se escondeu…
Il Sole già era calato…


O Sol já se escondeu…
Precisamente quando,
feliz,
eu desatei a cantar.
(Só por feliz eu cantei.)

Agora quero acabar,
que já me dói a garganta,
mas vou ainda cantando,
temendo
dar por mim de novo triste
assim que esteja calado.
(… Como se a minha Alegria
nascesse de eu ter cantado.)
Il Sole già era calato…
Precisamente quando,
felice,
cominciai a cantare.
(Solo perché felice io cantai.)

Adesso vorrei finire,
ché già mi fa male la gola,
ma andrò avanti a cantare,
temendo
di ritrovarmi di nuovo triste
non appena tacerò.
(… Come se la mia Gioia
nascesse dall’aver io cantato.)
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Michelangelo Caravaggio,
Suonatore di liuto (versione Schleißheim) (~1590)
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Minuto


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Minuto
Istante


Ai como tu foste linda
naquele breve minuto!… …
Ninguém o viu senão eu…
Nem mesmo tu, que hás-de ainda,
com um sorriso, troçar
do que digo nestes versos.

Bem sei que tu és bonita…
Mas olha:
se eu algum dia passar,
sem dizer adeus, por ti,
não julgues que foi por mal:
é que não te conheci
-- pra mim só é verdadeira,
só me lembra sempre, a linda
que foste
naquele minuto breve…
Ah, come fosti bella
in quel breve istante!… …
Non lo vide nessuno se non io,…
Nemmeno tu, che ancora,
con un sorriso, ti burlerai
di quel che dico in questi versi.

So bene che sei graziosa...
Ma vedi:
se un giorno io ti passassi
accanto, senza salutarti,
non pensare che sia per villania:
è perché non t’ho riconosciuta
-- per me è vera solamente,
me ne ricordo sempre, la bella
che tu fosti
in quel breve istante…
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Amadeo de Souza-Cardoso
astrazione (1913)
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Itinerário


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Itinerário
Itinerario


Meu caminho é por mim fora,
até chegar ao fim de mim...
a encontrar-me com Deus...

Mas lá no fim
eu vou sentir-me tão outro,
tão igual
ao Senhor Deus que ali mora,
que hei-de ficar convencido
de que afinal
só Tu, Senhor, lá estás
e que eu fiquei para trás,
de cansado ou de perdido
no meu caminho comprido.

É só por mim é que eu vou
e as bermas do meu caminho,
são as passadas que dou.

E não me digam que não,
que eu não me importo de ir só;
minha Esperança, na minha
voz comovida espelhada,
sabe encher a solidão
das curvas mudas da estrada.
Il mio viaggio mi porta al di fuori di me,
finché io raggiunga la fine di me stesso...
per incontrarmi con Dio...

Ma là alla fine
io mi sentirò così diverso,
così simile
al Signore Dio che lì dimora,
che finirò per convincermi
che in fin dei conti
solo Tu, Signore, stai lì
e che io sono rimasto indietro,
perché stanco o sperduto
nel mio lungo viaggio.

È per me solo che io procedo
e i limiti del mio cammino,
sono i passi che faccio.

E non vengano a dirmi che no,
che non mi dispiace andare da solo;
la mia Speranza, riflessa
nella mia voce commossa,
è capace di colmare la solitudine
delle tacite curve della strada.
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André Derain
La strada in montagna (1907)
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