Escuro


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Escuro
Buio


Que estranho terreno inexplorado
Na área escura do meu cérebro
Impede o conhecimento de mim mesma?
Muralha intransponível
Que frustra o meu acordar
Para retroceder ao princípio do princípio
Das coisas irrepetidas.
Estranha área do escuro
Onde estaria o berço da luz única
Fechada em mão intocável,
Luz que explicaria a vida na escuridão, e
Não vedaria o despertar de mim mesma.
Que estranha área de trevas no meu cérebro
Impede o meu espírito de receber a luz divina?
Che strano terreno inesplorato
In una zona oscura del mio cervello
Impedisce che io conosca me stessa?
Muraglia invalicabile
Che frustra il mio risveglio
Per retrocedere al principio del principio
Delle singole cose.
Strana zona di buio
Dove starebbe la culla della luce unica
Chiusa in mano intoccabile,
Luce che spiegherebbe la vita nell’oscurità, e
Non impedirebbe il risveglio di me stessa.
Che strana area di tenebra nel mio cervello
Impedisce che il mio spirito riceva la luce divina?
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Stella Levi (Getty Images)
Ansia (2022)
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Aspiração


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Aspiração
Aspirazione


Antes que vingue outra esperança
Quero as sombras do branco espesso.
Antes que mais uma insônia se cumpra
Quero o torpor no abismo indecifrável
Do espírito amortalhado.
Antes que o pensamento acorde
E descubra os espaços petrificados,
Quero narcotizar-me sem sonhos
E deitar-me no mundo sem sombras,
Sem palavras nem gestos.
Antes que alguma crença me recolha,
Antes que eu entenda o obscuro,
Antes que o sensível me assalte,
Antes que eu distinga na lonjura
A morte da estrela cintilante,
O êxtase da solidão vertical,
Quero ser coisa sem motivo
Entregue aos ventos sem destino.
Prima che un’altra speranza s’imponga
Voglio le ombre d’un bianco intenso.
Prima di rivivere un’altra notte insonne
Chiedo il torpore nell’indecifrabile abisso
Dello spirito avvolto in un sudario.
Prima che il pensiero si risvegli
E scopra gli spazi pietrificati,
Voglio narcotizzarmi senza sogni
E stendermi in un mondo senz’ombre,
Senza parole né gesti.
Prima che qualche fede m’attragga,
Prima ch’io comprenda ciò che è oscuro,
Prima che l’emotività m’assalga,
Prima che io distingua in lontananza
La morte della stella scintillante,
L’estasi della solitudine verticale,
Voglio essere una cosa senza ragione
In balia dei venti senza meta.
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Will Barnet
Donna davanti al mare (1972)
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Abandono


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Abandono
Abbandono


A exaustão faminta
Procura elementos ainda vivos no meu ser
Talvez guardados em escuros vácuos
Que carrego sem saber.
Alimenta-se do sopro das imagens
Desenhadas pela minha imaginação
Pelo tato dos meus sentimentos,
Pelo pânico do desconhecido.
Aparece como febre constante dilatando as minhas carnes
Descoloridas e sem sabor de vida.
A exaustão sobe pelos meus pés,
Cobre os meus gestos incipientes,
Prende a minha língua,
Suga o meu cérebro, ninho de aranhas em fogo,
Pousa no meu cabelo como morcego.
Exaustão que funga o ar, que saqueia o meu silêncio,
Último repouso nos meus vácuos devassados.
Una famelica prostrazione
Cerca nell’esser mio elementi ancora vitali
Forse custoditi in oscuri anfratti
Che reco in me senza saperlo.
S’alimenta del respiro delle immagini
Disegnate dalla mia immaginazione
Dal tatto dei miei sentimenti,
Dal panico di fronte all’ignoto.
Appare come febbre costante dilatandomi le carni
Sbiadite e senza sapore di vita.
Lo sfinimento sale dai miei piedi,
Copre i miei gesti incipienti,
Paralizza la mia lingua,
Mi prosciuga il cervello, nido di ragni in fuoco,
S’appende ai miei capelli come un pipistrello.
Prostrazione che risucchia l’aria e depreda il mio silenzio,
Ultima quiete nei miei violati anfratti.
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Felix Vallotton
Donna addormentata (1899)
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Eis uma sede súbita de poemas…



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Nuno Rocha Morais »»
 
Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (maggio 2026) »»
 
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Eis uma sede súbita de poemas…
Ecco un’improvvisa sete di poesia…


Eis uma sede súbita de poemas –
Sede, não um pião vindo dos astros,
Não um raio, divino de vontade.
Percorro as sarças de palavras crepusculares,
Onde as espigas estão nuas e a terra
Exausta de cores.
Mas eis um pórtico
Onde as águas correm
Eis uma espiga que, de vários ângulos,
Brilha em fulvos diversos.
Eis o reflexo ilegível, eis o poema,
Refracção do dizer, momento
Em que, realmente, o poeta já não diz nada.
O poema é o incerto despertar
Do caminho na bruma,
Sem partitura ou norte,
A distância é ilegível,
Olhando para trás, a estrada
Antiga e fluente dorme,
Cansada do rumo e do tempo.
Ecco un’improvvisa sete di poesia –
Sete, non un capriccio venuto dalle stelle,
Non un baleno, di volontà divina.
Penetro nella sterpaglia di parole crepuscolari,
Dove le spighe sono spoglie e la terra
Disadorna di colori.
Ma ecco un varco
Dove le acque scorrono
Ecco una spiga che, da varie angolazioni,
Risplende in diversi toni di fulvo.
Ecco il riflesso illeggibile, ecco la poesia,
Rifrazione del dire, momento
In cui, in verità, il poeta già non dice più nulla.
La poesia è l’incerto risveglio
Del percorso nella nebbia,
Senza partitura né direzione,
La distanza è illeggibile,
Guardandosi indietro, la strada
Antica e fluida dorme,
Stanca della sua meta e del tempo.
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Dexter Dalwood
Night Mirror (2012)
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A essência imutável


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A essência imutável
L’essenza immutabile


Entre a estrela e o átomo
A matéria viva estabelece o traço original.
A fotossíntese realiza a assimilação
Da energia solar do homem,
Mecanismo-alimento da força biológica
Existente no grão de luz que ronda o corpo inanimado
Vindo da semente viajante dos ventos programados.
Cubos-pedra lançam o elétron
De uma órbita a outra dos planetas tranquilos
E voltam à origem do cansaço.
Desencadeia-se o calor que mata,
O mecanismo complica-se,
O elétron muda de órbita
E a sua volta é seguida de reações em cadeia
Para aniquilar o homem caminhante
Das estradas indecisas.
As múltiplas diferenças de forças
Convocam a origem da vida em cada rumo da poeira
 ardida
Enquanto a procissão do grande mecanismo
Mostra em todos os níveis, em todas as gamas da
 existência,
A sua ativa regulagem
Que ainda é mistério para o homem aniquilado
Pela surpresa do nada saber
Além das suas carnes esfarrapadas pela infinita agonia.
Tra la stella e l’atomo
La materia viva stabilisce la traccia originale.
La fotosintesi realizza l'assimilazione
dell'energia solare da parte dell’uomo,
Meccanismo-carburante di forza biologica
Insito nel frustolo di luce che circonda il corpo inanimato
Proveniente dal seme viaggiante di venti programmati.
Cubi di pietra lanciano l'elettrone
Da un'orbita all'altra di pianeti tranquilli
E tornano all’origine della fatica.
Si scatena il calore che uccide,
Il mecanismo s’inceppa,
L’elettrone cambia orbita
E a sua volta si succedono reazioni a catena
Per annientare l’uomo che s’incammina
Per incerti cammini.
Le molteplici differenze di forze
Evocano l’origine della vita da ogni direzione della polvere
 ardente
Mentre la processione del grande meccanismo
Mostra a tutti i livelli, in tutti gli ambiti dell’umana
 esistenza,
La sua regolazione attiva,
Che ancora è mistero per l’uomo annichilito
Dallo sconcerto di non saper nulla
Al di là delle sue carni devastate dall’infinita agonia.
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Paul Klee
I limiti della ragione (1927)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (27) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (39) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (41) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (31) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (32) Nuno Rocha Morais (539) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (30) Poesie inedite (347) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (28) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (32) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)