A Elisabeth foi-se embora


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A Elisabeth foi-se embora
Elisabeth è andata via


  (com algumas coisas de Anne Sexton)

Eu que já fui do pequeno-almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu anti-séptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida
  (con qualcosa di Anne Sexton)

Io che già sono passata dalla prima colazione alla follia
io che già mi sono ammalata studiando il codice morse
e bevendo il caffè con il latte
non posso vivere senza Elisabeth
perché l’ha licenziata, dottoressa?
che male poteva farmi Elisabeth?
io preferisco che sia Elisabeth
a lavarmi la testa
non sopporto che lei, dottoressa, mi tocchi la testa
io vengo qui, dottoressa, solo
perché Elisabeth mi lavi la testa
solo lei conosce i colori i profumi la viscosità
che mi piacciono negli shampoo
solo lei sa quanto mi piaccia l’acqua quasi fredda
che mi scorre giù dalla testa
io non posso vivere senza Elisabeth
non venga a dirmi che il tempo cura tutto
contavo su di lei per il resto della mia vita
Elisabeth era la principessa delle volpi
avevo bisogno delle sue mani sulla mia testa
ah se io avessi coltelli per tagliarle la
gola, dottoressa, io non faccio ritorno
al suo antisettico tunnel
sono già stata bella un tempo, ora sono io
non voglio essere turbolenta e solitaria
l’altra volta nel tunnel che cosa ha fatto a Elisabeth?
Elisabeth è andata via
è tutto qui quello che ha da dirmi, dottoressa,
con una frase così nella testa
io non voglio tornare alla mia vita
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Marian Dioguardi
Not So Still Life (2025)
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Os Amantes


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Sete Rios Entre Campos (1999) »»
 
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Os Amantes
Gli innamorati


Os amantes
fecham-se
um no outro
(como os punhos
do bebé
que dorme
no berço
e no útero
da mãe
como as caras
dos ícones
no escuro
das igrejas)
Gli innamorati
si chiudono
l’uno nell’altro
(come i pugni
del bebè
che dorme
nella culla
e nell'utero
della mamma
come i volti
delle icone
nel buio
delle chiese)
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Marc Chagall
Maternità (1913)
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A maldição dos lugares…



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A maldição dos lugares…
La maledizione dei luoghi…


A maldição dos lugares é esta:
São um tempo que acaba,
Prolongando-se em outro.
Porém, aqui, neste lugar,
Tantos ontens, ainda que residuais,
São audíveis e insistentes assaltam-nos,
Assustam-nos, dilaceram-nos
Com a sua presença de jamais regressarem.
O tempo passado vertebra os lugares,
Percorre-os como uma peste,
Recorda-nos que em nós
O tempo tem de ser extinto
Sempre duas vezes.
La maledizione dei luoghi è questa:
Sono un tempo che finisce,
Prolungandosi in un altro.
Però, qui, in questo luogo,
Tanti ieri, anche se sedimentati,
Sono udibili e insistenti ci angosciano,
Ci agghiacciano, ci straziano
Con la loro presenza di chi mai più tornerà.
Il tempo trascorso plasma i luoghi,
Li percorre come una piaga,
Ci rammenta che dentro di noi
Il tempo dev’essere estinto
Sempre due volte.
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Chaïm Soutine
Cagnes, paesaggio con albero (1924-1925)
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Primeiro Amor


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Florbela Espanca espanca (1999) »»
 
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Primeiro Amor
Primo amore


gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado os Pestíferos de Java
resolvi assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele fina
devia ter uma letra muito melhor que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita
lui mi piaceva molto
ma non gliel’ho mai detto
perché la mia cameriera m’aveva avvertita
se ti piace un ragazzo
non dirgli mai che ti piace
dicono
che lui ti prenderà in giro per sempre
sono cattivi i ragazzi
io non ero bella
e non sapevo chi aveva dipinto gli Appestati di Giaffa
decisi così di scrivergli lettere anonime
scrivevo la bozza sopra un quaderno a righe
oggi non ricordo che cosa scrivevo
ma so che non ho mai scritto
tu mi piaci molto
e poi chiedevo a una ragazza molto carina
che riscrivesse le lettere
io ero convinta che chi aveva capelli
così biondi e la pelle delicata
dovesse avere una scrittura molto migliore della mia
ora mentre sto raccontando tutto questo
mi accorgo di aver tralasciato molte cose
per esempio che il mio primo amore
non è stato questo qui ma è stato Paolo
il fratello della ragazza carina
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Antoine-Jean Gros
Bonaparte visita gli appestati di Giaffa (1804)
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Não gosto tanto…


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Não gosto tanto…
Non amo tanto…


Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
de livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever
Non amo tanto
i libri
quanto sembra averli
amati Mallarmé
io non sono un libro
e quando mi dicono
amo molto i suoi libri
vorrei poter dire
come il poeta Cesariny
senti
quel che davvero vorrei
è d’essere io a piacerti
i libri non sono fatti
di carne e ossa
e quando ho
voglia di piangere
aprire un libro
non mi fa l’effetto
identico a un abbraccio
ma grazie a Dio
il mondo non è un libro
e il caso non esiste
tuttavia io amo molto
i libri
e credo nella Resurrezione
dei libri
e credo che in Cielo
ci siano biblioteche
e si possa leggere e scrivere
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Georg Pauli
La lettura della sera (1884)
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