Eis uma sede súbita de poemas…



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Eis uma sede súbita de poemas…
Ecco un’improvvisa sete di poesia…


Eis uma sede súbita de poemas –
Sede, não um pião vindo dos astros,
Não um raio, divino de vontade.
Percorro as sarças de palavras crepusculares,
Onde as espigas estão nuas e a terra
Exausta de cores.
Mas eis um pórtico
Onde as águas correm
Eis uma espiga que, de vários ângulos,
Brilha em fulvos diversos.
Eis o reflexo ilegível, eis o poema,
Refracção do dizer, momento
Em que, realmente, o poeta já não diz nada.
O poema é o incerto despertar
Do caminho na bruma,
Sem partitura ou norte,
A distância é ilegível,
Olhando para trás, a estrada
Antiga e fluente dorme,
Cansada do rumo e do tempo.
Ecco un’improvvisa sete di poesia –
Sete, non un capriccio venuto dalle stelle,
Non un baleno, di volontà divina.
Penetro nella sterpaglia di parole crepuscolari,
Dove le spighe sono spoglie e la terra
Disadorna di colori.
Ma ecco un varco
Dove le acque scorrono
Ecco una spiga che, da varie angolazioni,
Risplende in diversi toni di fulvo.
Ecco il riflesso illeggibile, ecco la poesia,
Rifrazione del dire, momento
In cui, in verità, il poeta già non dice più nulla.
La poesia è l’incerto risveglio
Del percorso nella nebbia,
Senza partitura né direzione,
La distanza è illeggibile,
Guardandosi indietro, la strada
Antica e fluida dorme,
Stanca della sua meta e del tempo.
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Dexter Dalwood
Night Mirror (2012)
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A essência imutável


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A essência imutável
L’essenza immutabile


Entre a estrela e o átomo
A matéria viva estabelece o traço original.
A fotossíntese realiza a assimilação
Da energia solar do homem,
Mecanismo-alimento da força biológica
Existente no grão de luz que ronda o corpo inanimado
Vindo da semente viajante dos ventos programados.
Cubos-pedra lançam o elétron
De uma órbita a outra dos planetas tranquilos
E voltam à origem do cansaço.
Desencadeia-se o calor que mata,
O mecanismo complica-se,
O elétron muda de órbita
E a sua volta é seguida de reações em cadeia
Para aniquilar o homem caminhante
Das estradas indecisas.
As múltiplas diferenças de forças
Convocam a origem da vida em cada rumo da poeira
 ardida
Enquanto a procissão do grande mecanismo
Mostra em todos os níveis, em todas as gamas da
 existência,
A sua ativa regulagem
Que ainda é mistério para o homem aniquilado
Pela surpresa do nada saber
Além das suas carnes esfarrapadas pela infinita agonia.
Tra la stella e l’atomo
La materia viva stabilisce la traccia originale.
La fotosintesi realizza l'assimilazione
dell'energia solare da parte dell’uomo,
Meccanismo-carburante di forza biologica
Insito nel frustolo di luce che circonda il corpo inanimato
Proveniente dal seme viaggiante di venti programmati.
Cubi di pietra lanciano l'elettrone
Da un'orbita all'altra di pianeti tranquilli
E tornano all’origine della fatica.
Si scatena il calore che uccide,
Il mecanismo s’inceppa,
L’elettrone cambia orbita
E a sua volta si succedono reazioni a catena
Per annientare l’uomo che s’incammina
Per incerti cammini.
Le molteplici differenze di forze
Evocano l’origine della vita da ogni direzione della polvere
 ardente
Mentre la processione del grande meccanismo
Mostra a tutti i livelli, in tutti gli ambiti dell’umana
 esistenza,
La sua regolazione attiva,
Che ancora è mistero per l’uomo annichilito
Dallo sconcerto di non saper nulla
Al di là delle sue carni devastate dall’infinita agonia.
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Paul Klee
I limiti della ragione (1927)
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Um dia a menina olhou o álbum de retratos


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Um dia a menina olhou o álbum de retratos
Un giorno la ragazza guardò l’album di famiglia


Pela fresta do céu
Desceu um pensamento nos olhos da menina
Que folheava o álbum dos antepassados.
Suas mãos pararam a página com o retrato do homem
 de croisé
Que não era seu pai nem seu avô.
Era o irmão de leite de seu tio
Que havia se suicidado por amor.
As pupilas da menina passearam na boca do retrato,
 desgrenharam o penteado,
Passaram na curva da orelha e por baixo do plastron
Ela sentiu o perfume guardado há tanto tempo.
Puxou com os olhos o álbum bem para dentro do
 seu corpo.
Os seios gritaram em diâmetro, se turgindo,
E ela esfregou, com um movimento de cabeça,
As pontas pesadas da cabeleira em sua nuca.

A menina casou com um homem fora do álbum
Mas seu primeiro filho era igual ao retrato
Do irmão de leite de seu tio
Que havia se suicidado por amor,
E que seus sentidos ressuscitaram e guardaram
Para imprimir formas desconhecidas nos presentes
E amar a memória dos ausentes.
Da uno spiraglio del cielo
Un turbamento discese negli occhi della ragazza
Che sfogliava l’album degli antenati.
Le sue mani si fermarono alla pagina col ritratto dell’uomo
 in doppiopetto
Che non era suo padre né suo nonno.
Era il fratello di latte di suo zio
Che s’era suicidato per amore.
Le pupille della ragazza sfiorarono la bocca del ritratto,
 scompigliarono i capelli,
Passarono lungo la curva dell’orecchio e sotto il plastron
Ella avvertì il profumo serbato per tanto tempo.
Con gli occhi trasse a sé l’album quasi ad accoglierlo
 nel corpo.
I seni sussultarono all’unisono, inturgiditi,
Ed ella strofinò, con un movimento della testa,
Le folte punte dei capelli contro la nuca.

La ragazza si sposò con un uomo estraneo all’album.
Ma il suo primo figlio era uguale al ritratto
Del fratello di latte di suo zio
Che s’era suicidato per amore,
E che era stato resuscitato e custodito dai suoi sensi
Per imprimere forme sconosciute ai presenti
E per amare la memoria degli assenti.
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Giuseppe Amisani
La lettrice (1930)
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Ternura


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Ternura
Tenerezza


Antes que eu me transforme em água
E corra com os rios
Cantando para as florestas escuras
A canção sublime
Deixa-me contemplar tua face amada
Para que a canção se eternize.

Antes que os meus olhos se transformem nos minúsculos
 vermes
Que movimentam o solo
Deixa-me receber a luz de tua boca
Para que eu me ilumine como as estrelas
No infinito da noite.

Antes que minhas mãos se mudem nas pedras das
 montanhas
Por onde caminharão os jovens pastores
Deixa-me afagar teus cabelos
Para que meu carinho se transforme na brisa
Que beija os grandes trigais.

Antes que minha forma sirva junto às raízes
Para amadurecer os frutos
Guarda-me na música de teu corpo
Para que o mistério do amor
Baixe sobre o universo
E banhe os espíritos perturbados.
Prima ch’io mi trasformi in acqua
E corra con i fiumi
Cantando per le ombrose foreste
La canzone sublime
Lascia che io contempli il tuo volto amato
Affinché la canzone s’immortali.

Prima che i miei occhi si trasformino nei minuscoli
 vermi
Che rimestano il suolo
Lascia che riceva la luce della tua bocca
Affinché io m’illumini come le stelle
Nell’infinito della notte.

Prima che le mie mani si trasformino in pietre
 di montagna
Ove cammineranno i giovani pastori
Lascia che io accarezzi i tuoi capelli
Affinché il mio affetto si trasformi nella brezza
Che bacia i campi di grano.

Prima che la mia spoglia dia forza alle radici
Per maturare i frutti
Trattienimi nella musica del tuo corpo
Affinché il mistero dell’amore
Scenda sull’universo
E irrori gli spiriti turbati.
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Ismael Nery
Adalgisa e o artista (1930)
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Solidão


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Solidão
Solitudine


O espírito da tempestade que executa a minha palavra
Partiu
E minha forma assim abandonada
Caiu.
Vieram depois a aflição e a agonia
E cresceram em mim
Como a aurora e o dia.
E se eu quisesse contar, homens irmãos,
Desde quando meu coração está isento de alegria,
Acreditem,
Não poderia.
Há muitos séculos mora em mim
Uma noite muito escura, muito fria.
Lo spirito della tempesta che al mio volere obbediva
Se n’è andato
E il mio aspetto così abbandonato
S’è sciupato.
Vennero poi l’angoscia e lo sconforto
E crebbero in me
Come l’aurora e il giorno.
E se volessi raccontarvi, fratelli miei,
Da quanto il mio cuore è privo di gioia,
Credetemi,
Non potrei.
Da molti secoli dimora in me
Una notte molto fredda e molto buia.
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Felice Casorati
Ritratto di Hena Rigotti (1924)
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