À noite, Deus…



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À noite, Deus…
La notte, Dio...


À noite, Deus envia-nos os seus demónios,
A terra queimada de dúvidas,
Êxodo de crenças e amores,
A corrente traiçoeira de esperanças
E para que esta vida seja suportável,
Para que tudo não se esfume
Pelas suas fronteiras súbitas,
Deixando-me na polpa de um vazio,
Combato Deus contra a ideia de paraíso.
La notte, Dio ci manda i suoi demoni,
La terra riarsa di dubbi,
Esodo di credenze e amori,
L’infida corrente di speranze
E affinché questa vita sia tollerabile,
Affinché non vada in fumo ogni cosa
Attraverso le sue subitanee frontiere,
Lasciandomi nella polpa di un vuoto,
Combatto Dio contro l’idea di paradiso.
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Beato Angelico
Il Giudizio Universale (1431)
(particolare dell'Inferno)
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Retrato


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Retrato
Ritratto


Nasci para ser ignorante
Mas os parentes teimaram
(e dali não arrancaram)
em fazer de mim estudante.

Que remédio? Obedeci.
Há já três lustros que estudo.
Aprender, aprendi tudo,
mas tudo desaprendi.

Perdi o nome às Estrelas,
aos nossos rios e aos de fora.
Confundo fauna com flora.
Atrapalham-me as parcelas.

Mas passo dias inteiros
a ver um rio passar.
Com aves e ondas do Mar
tenho amores verdadeiros.

Rebrilha sempre uma Estrela
por sobre o meu parapeito;
pois não sou eu que me deito
sem ter falado com ela.

Conheço mais de mil flores.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como em latim
as crismaram os doutores.

No entanto sou promovido,
mal haja lugar aberto,
a mestre: julgam-me esperto,
inteligente e sabido.

O pior é se um director
espreita pela fechadura:
lá se vai licenciatura
se ouve as lições do doutor.

Lá se vai o ordenado
de tuta e meia por mês,
Lá fico eu de uma vez
um Poeta desempregado.

Se me não lograr o fado,
porém, com tais directores,
e de rios, aves e flores
somente for vigiado.

Enquanto as aulas correrem
não sentirei calafrios,
que flores, aves e rios
ignorante é que me querem.
Son nato per essere ignorante
Ma i miei genitori insistettero
(e da lì non si smossero)
per fare di me uno studente.

Che scelta avevo? Obbedii.
Son già tre lustri che studio.
Imparare, tutto ho imparato,
ma poi tutto ho disimparato.

Ho perso il nome delle Stelle,
dei fiumi, i nostri e quelli lontani.
Scambio fauna con flora.
Mi confondono le frazioni.

Ma passo giorni interi
guardando i fiumi scorrere.
Con gli uccelli e le onde del Mare
ho vere storie d'amore.

Riluce sempre una Stella
al di sopra del mio davanzale;
perché non c’è verso che mi corichi
senz’avere parlato con quella.

Conosco più di mille fiori.
E loro conoscono me.
Però non so dire in latino
che nomi gli han dato i dottori.

Tuttavia son stato promosso,
appena ci sarà un posto vacante,
a insegnante: mi reputano esperto,
colto e intelligente.

Il peggio è se un direttore
spia dal buco della serratura:
la laurea se ne va alla malora
se ascolta le lezioni del dottore.

Ecco il mio stipendio svanito,
è un tozzo di pane al mese,
e di punto in bianco divengo
un Poeta disoccupato.

Se non m’è avverso il fato,
malgrado questi direttori,
spero d’esser sorvegliato
solo da fiumi, uccelli e fiori.

Mentre le lezioni si svolgono
brividi non ne dovrò sentire,
perché uccelli, fiumi e fiori,
ignorante mi voglion tenere.
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Candido Portinari
Bambino con uccellino (1957)
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Quando tu apareceres…


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Quando tu apareceres…
Quando tu apparirai…


Quando tu apareceres (e então verás
a minha única grandeza)
a Obra que te fiz hei-de a queimar;
não deves conhecer esse caminho
mal talhado, que fiz pra te chegar.
Tão pertinho do Céu te encontrarei,
tão longe de ser mulher,
que te hei-de receber, divina, nos meus braços,
sem teres corpo sequer.
Eu só, Amor, te prenderei na Forma;
é pra seres mais de mim
que as minhas mãos, que Deus abençoou,
te darão os contornos que não tens.
No modelar teus braços e teu peito,
alcançarei, contigo a Perfeição,
e é esse o meu poema, o teu poema:
o milagre daquela criação.
Quando tu apparirai (e allora vedrai
la mia unica grandezza)
l’Opera che per te ho fatto io la brucerò;
non devi venire a conoscere quel cammino
mal tracciato, che ho fatto per arrivare a te.
T’incontrerò così vicino al Cielo,
così lontana dall’essere donna,
che ti riceverò, divina, tra le mie braccia,
senza che tu abbia neppure un corpo.
Io solo, Amore, ti conferirò una Forma;
è perché tu sia più simile a me
che le mie mani, benedette da Dio,
ti daranno i contorni che non hai.
Nel modellare le tue braccia e il tuo petto,
raggiungerò, con te la Perfezione,
e questo è il mio poema, il tuo poema:
il miracolo di quella creazione.
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Henry Moore
Figura reclinata (1929)
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O Menino Grande


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O Menino Grande
Il Bambino Grande


Também eu, também eu,
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos...

Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.
Mas nem tudo se foi:
ficou-me,
dos tempos de menino
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.

Vida!,
não me venhas roubar o meu tesoiro:
não te importes que eu ria,
que eu salte como dantes.
E se eu riscar os muros
ou quebrar algum vidro
ralha, ralha comigo, mas de manso...

(Eu tinha um bibe azul...
Tinha berlindes,
tinha bolas, cavalos, papagaios...
A minha Mãe ralhava assim como quem beija...
E quantas vezes eu, só pra ouvi-la
ralhar, parti os vidros da janela
e desenhei bonecos na parede...)

Vida!, ralha também,
ralha, se eu te fizer maldades, mas de manso,
como se fosse ainda a minha Mãe…
Anch’io, anch’io,
giocai a nascondino, feci altalene,
ebbi palloni, biglie, aquiloni,
automobili a molla, cavallini...

Poi son cresciuto,
fino alle dimensioni che ho adesso;
ho perso i miei giocattoli, i bavaglini
non mi servono più.
Ma non tutto è svanito:
m’è rimasto,
del mio tempo d’infanzia
questa ingenua allegria
davanti alle cose nuove
e questa voglia di giocare.

Vita!,
non venirmi a rubare il mio tesoro:
non prendertela se rido,
se salto come prima.
E se io graffio le pareti
o se rompo qualche vetro
sgridami pure, ma con affetto...

(Io avevo un bavaglino blu...
Avevo biglie,
avevo palloni, cavalli, aquiloni…
La mamma mi sgridava come chi bacia...
E quante volte io, solo per sentirla
gridare, ruppi i vetri della finestra
e disegnai figure sopra i muri...)

Vita!, sgridami anche tu,
grida, se io farò bravate, ma con affetto,
come se fosse ancora la mia mamma…
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Juan Gris
Arlecchino seduto (1923)
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Mordaça


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Mordaça
Bavaglio


Puseram-lhe na boca uma mordaça…
Mas o Poeta era Poeta
e tinha que falar.
Fez um esforço enorme,
puxou a voz como quem golfa sangue,
e a mordaça soltou-se-lhe da boca.
Porém, não era já mordaça:
– Agora,
era um poema a queimar
os ouvidos das turbas inimigas
que, na praça,
o tinham querido calar.
Gli misero un bavaglio sulla bocca…
Ma il Poeta era Poeta
e doveva parlare.
Fece uno sforzo enorme,
forzò la voce come chi sputa sangue,
e il bavaglio gli si staccò dalla bocca.
Ecco, non c’era più bavaglio:
– Adesso,
c’era una poesia che ustionava
le orecchie della folla ostile
che, nella piazza,
avrebbe voluto metterlo a tacere.
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Giovanni Bernardino Azzolino
Anima (1640)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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