O fado deixa-nos…



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O fado deixa-nos…
Il fado ci lascia…


O fado deixa-nos
Abandonados na praia,
As notas quebrando-nos os olhos,
Lágrimas pelos olhos adentro.
No céu, apaga-se a geografia dos astros,
Saudade súbita
De algo ainda próximo,
Mas é a saudade futura presente.
O fado desatando o coração,
O fado abrindo uma gaveta
Antiquíssima e poeirenta
Onde reencontramos um pouco de nós.
Il fado ci lascia
Abbandonati sulla spiaggia,
E le note ci spezzano gli occhi,
Riversando le lacrime all’interno.
In cielo, si cancella la geografia degli astri,
Rimpianto improvviso
Di qualcosa ancora vicino,
Ma è il rimpianto del futuro che è presente.
Fado che scioglie il cuore,
Fado che apre un cassetto
Vecchissimo e polveroso
In cui ritroviamo un po’ di noi.
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Giorgio de Chirico
I danzatori (1970)
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Mulher


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Mulher
Donna


Na face, a geografia da angústia,
Dos pânicos e das medrosas alegrias.
Cada ruga é um presságio.
E auréola da aflição constante
O esplendor dos cabelos brancos.

Uma só raiz para frutos diversos,
Uma só vida para destinos tão complexos,
Um só pranto para dores tão diversas.

O útero que gera o herói, o sábio, o poeta,
O santo, o miserável e o assassino.
Uma só raiz para frutos tão diversos!

O dom da paz em cada gesto
Cai como noites quietas
Sobre a alma em rancor,
Amor acima do amor.
Sul viso, la geografia dell’angoscia,
Del panico e delle timide gioie.
Ogni ruga è un presagio.
E aureola di costante afflizione
Lo splendore dei capelli bianchi.

Una sola radice per frutti diversi,
Una sola vita per destini tanto complessi,
Un solo pianto per dolori tanto diversi.

L’utero che genera l’eroe, il saggio, il poeta,
Il santo, il miserabile e l’assassino.
Una sola radice per frutti tanto diversi!

Il dono della pace in ogni gesto
Ricade come notti quiete
Sull’anima rancorosa,
Amore sopra l’amore.
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Pablo Picasso
Madre con bambino malato (1903)
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Metamorfose


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Metamorfose
Metamorfosi


No combate entre o gelo e o fogo
A vida universal desdobra-se em ciclos
No espaço de mil séculos.
Tomamos consciência do cósmico,
Tentamos ligações com o espírito há muito abatido
E a alma afunda em dimensões pulverizadas.
Dá-se a recuperação das espécies rejeitadas,
O achado do perdido não procurado.
Do implacável e do flamejante
O universo não está terminado.
Há mutações silenciosas em cada instante que soçobra
E que só percebemos da metamorfose de mil em mil
 séculos.

Somos casulos pendurados nas folhas de árvores sem
 nome,
Casulos à espera da metamorfose cíclica do tempo.
Nella lotta tra il ghiaccio e il fuoco
La vita universale si dispiega nello spazio
In cicli di mille secoli.
Prendiamo coscienza del cosmico,
Tentiamo un contatto con lo spirito da tempo sconfitto
E l’anima precipita in dimensioni disintegrate.
Avviene il recupero delle specie rifiutate,
Il ritrovamento di ciò che andò perso e non ricercato.
Con energia implacabile e ardente
L’universo ancora non è giunto alla fine.
Ci sono silenziose mutazioni ad ogni istante che passa
E noi avvertiamo le metamorfosi soltanto ogni mille
 secoli.

Siamo crisalidi appese alle foglie di alberi senza
 nome,
Crisalidi in attesa della metamorfosi ciclica del tempo.
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Bridget Tichenor
Wait (1961)
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Eu me maldigo


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Eu me maldigo
Io mi maledico


Que estalem nos céus os trovões, os relâmpagos,
Que as nuvens se estilhacem
E as montanhas se rachem.
Que as estrelas se embaciem
E o sol se apague para que meu corpo não tenha
 sombra.
Que as correntes marítimas
Carreguem meus braços para as praias fétidas
E o vento impeça meus joelhos de se dobrarem.
Que o raio fulmine a única palavra boa que eu tinha.
Que meus olhos se apodreçam
E se transformem em água
Para que não se levantem além das raízes.
Que a gosma dos vulcões
Soterre meu sexo,
Que os vermes fujam da minha carne
E o pó se levante fugindo antes de eu passar.
Que o cheiro de minha boca
Resseque o grão embaixo da terra
E meus cabelos sirvam de corda para os enforcados.
Que minha língua se enrole enegrecida dentro de
 minha garganta
E me diga as maiores injúrias.
Que a terra seja fendida como um ventre de mulher,
Que a destruição absoluta
Desça sobre meu corpo, meus sentidos,
Meu espírito, meu passado,
Meu presente, meu futuro
E liberte minha origem
Da lembrança dos homens.
Che esplodano in cielo i tuoni, i fulmini,
Che le nuvole si frantumino
E le montagne si disgreghino.
Che le stelle s’offuschino
E s’estingua il sole perché non vi sia ombra per
 il mio corpo.
Che le correnti marine
Trascinino le mie braccia verso fetide spiagge
E il vento impedisca alle ginocchia di piegarsi.
Che il lampo folgori l’unica parola buona che avevo.
Che i miei occhi marciscano
E si convertano in acqua
Affinché non superino le proprie radici.
Che la colata dei vulcani
Seppellisca il mio sesso,
Che i vermi rifuggano la mia carne
E la polvere s’alzi e fugga prima che io passi.
Che l’alito della mia bocca
Rinsecchisca la semente sotto la terra
E i miei capelli servano da corda per gli impiccati.
Che la mia lingua s’arrotoli annerita dentro la
 mia gola
E mi rivolga le peggiori ingiurie.
Che la terra venga lacerata come un ventre di donna,
Che la devastazione assoluta
Scenda sul mio corpo, sui miei sensi,
Sul mio spirito e sul mio passato
Sul mio presente e sul mio futuro
E svincoli la mia origine
Dal ricordo degli uomini.
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Frida Kahlo
Ciò che l'acqua mi ha dato (1939)
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Escuro


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Escuro
Buio


Que estranho terreno inexplorado
Na área escura do meu cérebro
Impede o conhecimento de mim mesma?
Muralha intransponível
Que frustra o meu acordar
Para retroceder ao princípio do princípio
Das coisas irrepetidas.
Estranha área do escuro
Onde estaria o berço da luz única
Fechada em mão intocável,
Luz que explicaria a vida na escuridão, e
Não vedaria o despertar de mim mesma.
Que estranha área de trevas no meu cérebro
Impede o meu espírito de receber a luz divina?
Che strano terreno inesplorato
In una zona oscura del mio cervello
Impedisce che io conosca me stessa?
Muraglia invalicabile
Che frustra il mio risveglio
Per retrocedere al principio del principio
Delle singole cose.
Strana zona di buio
Dove starebbe la culla della luce unica
Chiusa in mano intoccabile,
Luce che spiegherebbe la vita nell’oscurità, e
Non impedirebbe il risveglio di me stessa.
Che strana area di tenebra nel mio cervello
Impedisce che il mio spirito riceva la luce divina?
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Stella Levi (Getty Images)
Ansia (2022)
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