Memórias das infâncias


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Memórias das infâncias
Memorie d’infanzia


Gostávamos muito de doce de framboesa
e deram-nos um prato com mais doce de framboesa
do que era costume
mas
a nossa criada a nossa tia-avó no doce de framboesa
para nosso bem
porque estávamos doentes
esconderam colheres do remédio
que sabia mal
o doce de framboesa não sabia à mesma coisa
e tinha fiapos brancos
isso aconteceu-nos uma vez e chegou
nunca mais demos pulos por ir haver
doce de framboesa à sobremesa
nunca mais demos pulos nenhuns
não podemos dizer
como o remédio da nossa infância sabia mal!
como era doce o doce de framboesa da nossa infância!
ao descobrir a mistura
do doce de framboesa com o remédio
ficámos calados
depois ouvimos falar da entropia
aprendemos que não se separa de graça
o doce de framboesa do remédio misturados
é assim nos livros
é assim nas infâncias
e os livros são como as infâncias
que são como as pombinhas da Catrina
uma é minha
outra é tua
outra é doutra pessoa
Ci piaceva molto la crostata di lamponi
e ci diedero un piatto con più crostata di lamponi
del solito
ma
la nostra servetta e la nostra prozia nella crostata di lamponi
per il nostro bene
siccome eravamo malate
nascosero cucchiaiate di medicina
che aveva un cattivo sapore
la crostata di lamponi non aveva lo stesso sapore
e aveva delle striature bianche
questo ci successe una volta e fu abbastanza
mai più ci mettemmo a saltare per avere
la crostata di lamponi per dessert
mai più ci mettemmo a saltare per qualcosa
non si può descrivere
quanto fosse disgustosa la medicina della nostra infanzia!
quanto fosse dolce il dolce di lamponi della nostra infanzia!
quando venimmo a sapere del miscuglio
della crostata di lamponi con la medicina
restammo in silenzio
in seguito sentimmo parlare di entropia
imparammo che non si separa facilmente
la crostata di lamponi dalla medicina una volta mischiate
così è nei libri
così è nell’infanzia
e i libri sono come ogni infanzia
che è come le colombelle di Catrina
una è mia
l’altra è tua
l’altra è di qualcun altro
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Joana Vasconcelos
Gâteaux (2011)
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Maria Andrade


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Maria Andrade
Maria Andrade


Maria Andrade
depois de Túlio a beijar
na boca
pela primeira vez
diz a Túlio
que Túlio é a primeira
pessoa
a beijá-la na boca
de facto
ela já tinha beijado
as avós na boca
mas as bocas fechadas
e frias
das avós
eram como papel
de embrulho
ou mata-borrão
mas agora Maria Andrade
descobre
que o morango
que come
a morde
gostaste?
sim!
Túlio não volta
a beijar
Maria Andrade pede-lhe
que o faça
Túlio fá-lo
Maria Andrade
quando Túlio la bacia
sulla bocca
per la prima volta
dice a Túlio
che Túlio è la prima
persona
che la bacia sulla bocca
in realtà
lei aveva già baciato
i nonni sulla bocca
ma le bocche chiuse
e fredde
dei nonni
erano come carta
da pacchi
o carta assorbente
ma ora Maria Andrade
scopre
che la fragola
che sta mangiando
la pizzica
ti è piaciuto?
sì!
Túlio non torna
a baciarla
Maria Andrade lo prega
di farlo
Túlio lo fa
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Josef Kunstmann
L'abbraccio (1949)
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La femme de trente ans


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La femme de trente ans
La femme de trente ans


Amarás
o meu nariz
brilhante
as minhas estrias
os meus pontos pretos
os meus textos
os meus achaques
e as minhas manias
e as minhas gatas
de solteirona

ou não me amarás
Amerai
il mio naso
lucido
le mie smagliature
i miei punti neri
i miei scritti
i miei acciacchi
e le mie manie
e le mie gatte
da zitella

o non mi amerai
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Will Barnet
Donna che legge (1970)
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Joaninha a ladra…


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Joaninha a ladra...
Joaninha la ladra...


Joaninha a ladra
a filha da moleira
vem brincar
comigo
às missas

A Maria
dá-me clisteres

Abracei o Manuel
o Manuel não me abraçou

O Pedro Nuno
faz chichi
à minha frente
Joaninha la ladra
la figlia della mugnaia
viene a giocare
con me
alla messa

La Maria
mi fa il clistere

Ho abbracciato Manuel
Manuel non m’ha abbracciato

Pedro Nuno
fa pipì
davanti a me
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Erik Theodor Werenskiold
Bambini che giocano (1887)
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A Elisabeth foi-se embora


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A Elisabeth foi-se embora
Elisabeth è andata via


  (com algumas coisas de Anne Sexton)

Eu que já fui do pequeno-almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu anti-séptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida
  (con qualcosa di Anne Sexton)

Io che già sono passata dalla prima colazione alla follia
io che già mi sono ammalata studiando il codice morse
e bevendo il caffè con il latte
non posso vivere senza Elisabeth
perché l’ha licenziata, dottoressa?
che male poteva farmi Elisabeth?
io preferisco che sia Elisabeth
a lavarmi la testa
non sopporto che lei, dottoressa, mi tocchi la testa
io vengo qui, dottoressa, solo
perché Elisabeth mi lavi la testa
solo lei conosce i colori i profumi la viscosità
che mi piacciono negli shampoo
solo lei sa quanto mi piaccia l’acqua quasi fredda
che mi scorre giù dalla testa
io non posso vivere senza Elisabeth
non venga a dirmi che il tempo cura tutto
contavo su di lei per il resto della mia vita
Elisabeth era la principessa delle volpi
avevo bisogno delle sue mani sulla mia testa
ah se io avessi coltelli per tagliarle la
gola, dottoressa, io non faccio ritorno
al suo antisettico tunnel
sono già stata bella un tempo, ora sono io
non voglio essere turbolenta e solitaria
l’altra volta nel tunnel che cosa ha fatto a Elisabeth?
Elisabeth è andata via
è tutto qui quello che ha da dirmi, dottoressa,
con una frase così nella testa
io non voglio tornare alla mia vita
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Marian Dioguardi
Not So Still Life (2025)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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