A poesia se esfrega nos seres e nas cousas


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A poesia se esfrega nos seres e nas cousas
La poesia si strofina negli esseri e nelle cose


Nunca sentiste uma força melodiosa
Cercando tudo o que teus olhos vêem,
Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa
Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres
 bem?

Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas
Deparando com um campo devoluto
Semelhante a uma viagem esquecida?

Num circo, nunca se apoderou de ti um amargor sutil
Vendo animais amestrados
E logo depois te mostrarem
Seres humanos imitando um réptil?

Nunca reparaste na beleza de uma estrada
Cortando as carnes do solo
Para unir carinhosamente
Todos os homens, de um a outro pólo?

Nunca te empolgaste diante de um avião,
Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,
Ou de qualquer outra invenção?

Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho
 do dia
Ao mistério da noite,
Na extensão da tua dor
E na delícia da tua alegria?

Pois então, faz de teus olhos o cume da mais alta
 montanha
Para que vejas com toda a amplitude
A grandeza infindável da poesia que não percebes
E que é tamanha
Hai mai sentito un’energia melodiosa
Avvolgere tutto ciò che vedono i tuoi occhi,
Un misto di tristezza in un natura grandiosa
O un grido di gioia nella morte d’un essere a cui vuoi
 bene?

Hai mai provato nostalgia per l’essenza di cose perdute
Imbattendoti in un campo desolato
Simile a uno già visto in un viaggio dimenticato?

In un circo, non t’ha mai colto un’amarezza sottile
Nel vedere animali ammaestrati
E subito dopo l’esibizione
D’esseri umani intenti ad imitare un rettile?

Hai mai notato la bellezza di una strada
Che incide la carne del terreno
Per unire amorevolmente
Tutti gli uomini da uno all’altro polo?

Ti sei mai esaltato davanti a un aeroplano,
Nel vedere una locomotiva, la chiglia d’una nave,
O qualunque altra invenzione?

Hai mai sentito questa forza circondarti dal sorgere
 del giorno
Al mistero della notte,
Nell’intensità del tuo dolore
E nella delizia della tua allegria?

E dunque, fai dei tuoi occhi la vetta della montagna
 più alta
Affinché tu veda in tutta la sua vastità
L’infinita grandezza della poesia che tu non avverti
E che è smisurata
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Marc Chagall
Circus (1967)
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A mulher dentro da noite


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A mulher dentro da noite
La donna nel cuore della notte


Foge do seio da noite
Um perfume mais penetrante, mais forte,
Mais ácido e insinuante
Do que o das flores nascidas da morte.

Cai de dentro das estrelas tranqüilas
Uma luz tão cintilante
Vazando as minhas pupilas
Que chego a pensar contente que o fim não está mui
 distante.

Passam roçando meu rosto,
fatigados, os últimos ventos
E deles meus ouvidos tiram
Cânticos e lamentos.

É o momento em que as pastagens do deserto são
 regadas pela lua
E as colinas se adornam de alegria,
É o instante em que meu espírito deixa que sobre meu
 corpo influa
A sensação do nada e o tudo da poesia.
Sfugge dal cuore della notte
Un profumo più penetrante, più forte,
Più acido e insinuante
Di quello dei fiori sbocciati dalla morte.

Cade dal cuore delle stelle tranquille
Una luce così scintillante
Da svuotarmi le pupille
Ed io giungo a pensare contenta che la fine non sia molto
 distante.

Passano sfiorandomi il volto,
esausti, gli ultimi venti
E in essi i miei orecchi colgono
Cantici e lamenti.

È il momento in cui i pascoli del deserto sono irrorati
 dalla luna
E le colline s’adornano d’allegria,
È l’istante in cui il mio spirito fa sì che il mio corpo
 sia pervaso
Dal sentimento del nulla e del tutto della poesia.
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Paul Klee
Luna piena (1919)
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Poema ao Silêncio


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As Fronteiras da Quarta Dimensão (1952) »»
 
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Poema ao Silêncio
Poesia al silenzio


Silêncio, cobre meu pensamento e o meu coração
Cobre o meu corpo do desejo dos homens
E a minha sombra da luz do sol
Cobre a te a lembrança dos meus passos
E o som da minha voz

Cobre a minha caridade e a minha fé
A vontade de morrer e também a de viver
Estende-te sobre o colorido das paisagens
Interpõe-te na minha respiração e no meu pestanejar
Cobre-me desde o início da minha concepção

Enrola-te no duplo de mim mesma
Transforma-me em fragmento de ti próprio,
Penetra no meu principio e no meu fim,
Cobre-me bem, com tanta amplitude e intensidade
Que possa eu ser esquecida
E me esquecer por toda a eternidade!
Silenzio, proteggi il mio pensiero e il mio cuore
Proteggi il mio corpo dal desiderio degli uomini
E la mia ombra dalla luce del sole
Vorrei che tu ti ricordassi dei miei passi
E del suono della mia voce

Proteggi la mia pietà e la mia fede
La voglia di morire e anche quella di vivere
Stenditi sopra i colori dei paesaggi
Elevati tra il mio respiro e il mio esitare
Proteggimi fin dall’inizio del mio concepimento

Avvolgiti sulle pieghe di me stessa
Trasformami in un frammento di te
Penetra nel mio principio e nella mia fine,
Proteggimi bene con tanta grandezza e intensità
Che io possa essere scordata
E me stessa scordare per tutta l’eternità!
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Helene Schjerfbeck
Autoritratto (1915)
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On the road com Kerouac



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nunorochamorais.blogspot.com (aprile 2026) »»
 
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On the road com Kerouac
On the road con Kerouac


Nada mais do que a batida
De um saxofone pela estrada
Interior. A América cresce
Ao ritmo da voz negra
De um branco numa sala traseira.
A estrada protege-nos o rosto,
Afinal é o ponto da perda,
O lugar onde tudo se reflecte
No espectro dos pássaros da tarde.
Droga-te com estas palavras
Que roçam o asfalto da vida.
A loucura é o nível mais alto
Do mundo a curva de um trópico
Rumo à Terra do Fogo:
Burn, burn, burn
Like fabulous yellow roman candles
Exploding like spiders across the stars.

E arder não é mais do que uma pradaria
Soprada pelo sol da noite que floresce.
A estrada segue sobre rodas
Em direcção ao inferno, uma densa 
Eternidade amortalhada penetra
Na boca em transe, suspensa
Na limpidez de um grito harmónico.
O Mississippi lava a América,
O seu corpo em carne viva. Agora
A estrada é água, cola-se à transparência
E move-se por entre um barco que voa
Na crescente ausência do espaço.
Assim se atravessa a eternidade,
Na dissolução do Grande Golfo da Noite,
Nos quilómetros desolados da paisagem,
Nos espaços azuis rasgados pelo céu,
Como se a página fosse o Vale do Mundo.
Estremece-se com a intuição do tempo
Ao receber o mundo em bruto. A nudez.
O lugar comum, but no matter,
The road is life.

Nunca se morre o suficiente
Para se poder chorar, dirias,
Guardando a vida na mão como um bocado de lixo.
Das borboletas ainda brotam nuvens,
Afinal é possível que a poeira suba até às estrelas
Que trespassam a escuridão.
Lonely as America,
A throatpierced sound in the night:

A tua solidão explode com o som entrecortado
Do saxofone borbulhando ondas
De música brutal. A estrada do som
A estrada dos santos,
A estrada dos doidos,
A estrada do arco-íris,
A estrada interminável,
Um demoníaco reflexo da noite negra
No asfalto. Os sonhos terminam,
O mundo espraia-se, trémulo,
Palpita pela estrada fora,
É a ira que chega à velha dança.
Um rochedo explode em flor, o abismo oscila
Ao mais pequeno toque,
É um precipício seráfico e frenético.
Tudo vibra, a grande serpente emerge
Na imobilidade dos gestos,
Um insecto sai da tarde americana
Picando a realidade, a estrada está prestes
A sair da América, de toda essa terra bruta
De pessoas dispersas na imensidão.
No regresso, resta apenas
Percorrer a virgindade da berma.
Nient’altro che il ritmo
D’un sassofono lungo la strada
Interna. L’America cresce 
Al ritmo della voce nera
D’un bianco in una stanza sul retro.
La strada ci protegge il volto,
Dopotutto è il punto della perdita,
Il luogo in cui tutto si riflette
Nello spettro degli uccelli della sera.
Lasciati esaltare da queste parole
Che sfiorano l'asfalto della vita.
La follia è il livello più alto
Del mondo, la curva d’un tropico
Verso la Terra del Fuoco:
Burn, burn, burn
Like fabulous yellow roman candles
Exploding like spiders across the stars.

E bruciare non è altro che una prateria
Investita dal sole della notte che fiorisce.
La strada prosegue sulle ruote
Diretta verso l’inferno, avvolta nel sudario
Una densa eternità penetra
Nella bocca in estasi, sospesa
Nel nitore d’un grido armonioso.
Il Mississippi lava l’America,
Il suo corpo è una ferita aperta. Ora
La strada è acqua, s’aggrappa alla trasparenza
E s’insinua dentro una barca volante
Nella crescente assenza di spazio.
Così si attraversa l’eternità,
Nella dissoluzione del Grande Golfo della Notte,
Nei desolati chilometri di paesaggi,
Negli spazi blu solcati lungo il cielo,
Come se la pagina fosse la Valle del Mondo.
Si sussulta nell’intuire il tempo
Nel ricevere il mondo allo stato puro. La nudità.
Il luogo comune, but no matter,
The road is life.

Non si muore mai abbastanza
Per potersi piangere, diresti tu,
Celando la vita nella mano come fosse immondizia.
Dalle farfalle ancora sbocciano nuvole,
Dopotutto è possibile che la polvere salga alle stelle
Che attraversano l’oscurità.
Lonely as America,
A throatpierced sound in the night:

La tua solitudine esplode col suono singhiozzante
Del sassofono che fa ribollire ondate
Di musica brutale. La strada del suono
La strada dei santi,
La strada dei folli,
La strada dell’arcobaleno,
La strada interminabile,
Un demoniaco riflesso della notte nera
Sull’asfalto. I sogni finiscono,
Il mondo s’espande, tremante,
Palpita per tutta la strada,
È la collera che riprende la vecchia danza.
Una roccia esplode in mille fiori, l’abisso oscilla
Al minimo tocco,
È un precipizio serafico e frenetico.
Tutto vibra, il grande serpente emerge
Nell’immobilità dei gesti,
Un insetto esce dal pomeriggio americano
Pungendo la realtà, la strada è pronta
Ad uscire dall’America, da tutta questa terra selvaggia
Di persone sparse nella vastità.
Al ritorno, non resta che
Percorrere la purezza della berma.
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Grant Haffner
Neon Sunset (2015)
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Paisagem


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Cantos da Angústia (1948) »»
 
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Paisagem
Paesaggio


Restam nos meus olhos
Séculos de planícies áridas
E o vento ríspido que trouxe as lamentações
Das sombras agitadas
Sobre os pântanos desconhecidos.
Distantes estão os caminhos
Onde eu encontraria a suprema fraqueza
Para vergar os meus joelhos
E deitar no pó a minha boca moribunda.
Invisíveis estão as estrelas
Que me levariam a contemplar os céus abençoados.
E só espaços sem medida
Onde a música da noite
É livre sobre os pensamentos em sono.
Desconhecida para mim a praia onde eu me deitaria
De olhos cerrados e sentiria
O último movimento da onda
Balançar os meus pés
Como as algas sem direção.
Como os detritos rejeitados pela pureza do mar.
Restam dentro da minha sombra
Fragmentos de agitações de outras vidas
Plantadas no meu grito de revolta
Que eu não libertarei
Até que no deserto universal
A flor de um cardo movimente
A paisagem silenciosa.
Albergano nei miei occhi
Secoli di aride pianure
E il vento rude che trasportò i lamenti
Delle ombre inquiete
Sopra le paludi sconosciute.
Distanti sono i sentieri
Ove io potrò con estrema stanchezza
Piegare le mie ginocchia
E posare sulla polvere la mia bocca moribonda.
Invisibili sono le stelle
Che mi porterebbero a contemplare i cieli beati.
E solamente spazi smisurati
Là dove la musica della notte
Si libra sopra i pensieri addormentati.
A me ignota la spiaggia ove potrei distendermi
Ad occhi chiusi e sentirei
L’ultimo movimento dell’onda
Cullare i miei piedi
Come le alghe fluttuanti qua e là.
Come i detriti respinti dalla purezza del mare.
Rimangono dentro la mia ombra
Frammenti di conflitti d’altre vite
Piantati nel mio grido di rivolta
Che io non emetterò
Finché nel deserto universale
Ci sarà un fior di cardo ad animare
Il paesaggio silente.
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Edvard Munch
Giovane donna sulla spiaggia (1896)
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