O Engenheiro


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O Engenheiro
L’ingegnere


O homem trabalha
entre a rosa e o trânsito.
Ondas contínuas no seu dorso
de pedra e nuvem.
Martelos.
No papel intacto há linhas,
fundamentos de aurora, estrutura
de um mundo pressentido, linhas.

As rosas se dividem
por canteiros iguais
e um pássaro
pousou no arranha-céu.

Quando o engenheiro terminar
o sentimento e a planta,
mãos frescas como folhas
virão sobre o meu corpo.
L’uomo lavora
tra la rosa e il traffico.
Ondate continue sul suo dorso
di pietra e nuvola.
Martelli.
Sul foglio intatto ci sono linee,
fondamenta d’aurora, struttura
di un mondo percepito, linee.

Le rose sono divise
in aiuole tutte uguali
e un uccello
s’è posato sul grattacielo.

Quando l’ingegnere perfezionerà
l’emozione e la pianta,
mani fresche come foglie
scenderanno sul mio corpo.
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Paul Klee
Giardino di rose (1920)
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O Aluno


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O Aluno
L'alunno


São meus todos os versos já cantados;
A flor, a rua, as músicas da infância,
O líquido momento e os azulados
Horizontes perdidos na distância.

Intacto me revejo nos mil lados
De um só poema. Nas lâminas da estância,
Circulam as memórias e a substância
De palavras, de gestos isolados.

São meus também, os líricos sapatos
De Rimbaud, e no fundo dos meus atos
Canta a doçura triste de Bandeira.

Drummond me empresta sempre o seu bigode,
Com Neruda, meu pobre verso explode
E as borboletas dançam na algibeira.
Sono miei tutti i versi già cantati;
Il fiore, la via, le musiche dell’infanzia,
Il liquido momento e gli azzurrati
Orizzonti persi nella distanza.

Intatto mi rivedo nei mille lati
Di un’unica poesia. Sul filo d’ogni stanza,
Passano le memorie e l’essenza
Di parole, di gesti isolati.

E sono mie anche le poetiche scarpe
Di Rimbaud, e nei miei atti, in sottofondo,
Canta la triste dolcezza di Bandeira.

Drummond mi presta sempre il suo baffo,
Con Neruda, esplode il mio verso goffo
E in tasca mi danza una farfalla leggera.
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Giorgio de Chirico
La nostalgia del poeta (1914)
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Muriliana


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Muriliana
Muriliana


Corto a cidade, as máquinas e o sonho
Do jornaleiro preso no crepúsculo.
Guardo as amadas no bolso do casaco.
Almoço bem pertinho do arco-íris,
Planto violetas na face do operário.
Conversando com anjos e demônios,
É o meu anúncio quem dirige as nuvens.
Attraverso la città, le macchine e il sogno
Del giornalaio prigioniero del crepuscolo.
Tengo le mie amanti nella tasca del cappotto.
Pranzo proprio vicino all’arcobaleno,
Pianto violette sul volto dell’operaio.
Conversando con angeli e demoni,
È il mio annuncio che orienta le nuvole
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Alberto da Veiga Guignard
Ritratto di Murilo Mendes (1930)
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Balada


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Balada
Ballata


Folha enrugada,
poeira nos livros.
A pena se arrasta
no esforço inútil
de libertação.
Nenhuma vontade,
nem mesmo desejo
na tarde cinzenta.

A árvore seca
esperando seiva
não tem paisagem.
Na frente é o deserto
coberto de pedras.
Nem sombra de oásis.
Pobre árvore seca
na tarde cinzenta!

Se houvesse um castelo
com torres e dama
de loiros cabelos,
talvez eu fizesse
algum madrigal.
Mas a dama morreu,
os castelos se foram
na tarde cinzenta!

O caminho se alonga
por entre montanhas,
por campos e vales.
Talvez me conduza
ao roteiro perdido
no fundo do mar.
Mas estou tão cansado
na tarde cinzenta!

Não sou lobo da estepe;
amo a todos os homens
e suporto as mulheres.
Contudo não posso
falar com os lábios,
amar com o sexo,
porque sinto a tortura
da tarde cinzenta!

Só me restam os livros.
Vou ficar com eles
esperando que chegue
do fundo da noite,
das sombras do tempo,
oh! imenso mar,
vem me libertar
da tarde cinzenta!
Pagina sciupata,
polvere sui libri.
La penna si trascina
nell’inutile sforzo
di liberazione.
Nessuna volontà,
e neanche un desiderio
nella grigia serata.

L’albero secco
aspettando la linfa
non ha paesaggio.
Di fronte è il deserto
coperto di pietre.
Neanche l’ombra di un’oasi.
Povero albero secco
nella grigia serata!

Se ci fosse un castello
con torri e una dama
dai biondi capelli,
potrei forse fare
qualche bel madrigale.
Ma è morta la dama,
scomparsi i castelli
nella grigia serata!

Il sentiero s’allunga
tra le montagne,
per campi e per valli.
Forse mi condurrà
alla rotta perduta
in fondo al mare.
Ma son tanto stanco
nella grigia serata!

Non son lupo di steppa;
amo tutti gli uomini
e sopporto le donne.
Tuttavia io non posso
parlar con le labbra,
amare col sesso,
perché sento la tortura
della grigia serata!

Non mi restan che i libri.
Rimarrò insieme a loro
aspettando che arrivi
dal fondo della notte,
dalle ombre del tempo,
oh! immenso mare,
vieni a liberarmi
dalla grigia serata!
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Tarsila do Amaral
Terra (1943)
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À noite, Deus…



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Nuno Rocha Morais »»
 
Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (ottobre 2026) »»
 
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À noite, Deus…
La notte, Dio...


À noite, Deus envia-nos os seus demónios,
A terra queimada de dúvidas,
Êxodo de crenças e amores,
A corrente traiçoeira de esperanças
E para que esta vida seja suportável,
Para que tudo não se esfume
Pelas suas fronteiras súbitas,
Deixando-me na polpa de um vazio,
Combato Deus contra a ideia de paraíso.
La notte, Dio ci manda i suoi demoni,
La terra riarsa di dubbi,
Esodo di credenze e amori,
L’infida corrente di speranze
E affinché questa vita sia tollerabile,
Affinché non vada in fumo ogni cosa
Attraverso le sue subitanee frontiere,
Lasciandomi nella polpa di un vuoto,
Combatto Dio contro l’idea di paradiso.
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Beato Angelico
Il Giudizio Universale (1431)
(particolare dell'Inferno)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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