Os Papelotes


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Os Papelotes
I bigodini


Nunca choraremos bastante
termos querido ser belas
à viva força
eu quis ser bela
e julguei que para ser bela
bastava usar canudos
pedi para me fazerem canudos
com um ferro de frisar e papelotes
puxaram-me muito pelos cabelos
eu gritei
disseram-me para ser bela
é preciso sofrer
depois o cabelo queimou-se
não voltou a crescer
tive de passar a andar com uma peruca
para ser bela é preciso sofrer
mas sofrer não nos faz forçosamente belas
um sofrimento não implica como consequência
uma recompensa
uma dor de dentes pode comover a nossa mãe
que para nos consolar sem saber de quê
nos dá um rebuçado
mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes
a consequência de um sofrimento
pode ser outro sofrimento
a causa é posterior ao efeito
o motivo do sofrimento é uma das consequências
do sofrimento
os papelotes são uma consequência da peruca
Non piangeremo mai abbastanza
per aver voluto essere belle
a tutti i costi
io volevo esser bella
e pensavo che per esser bella
bastasse farsi i riccioli
chiesi che mi facessero i riccioli
con un ferro arricciacapelli e i bigodini
mi tirarono forte per i capelli
io gridavo
mi dissero che per esser bella
bisogna soffrire
poi i capelli si bruciarono
e non ricrebbero più
dovetti cominciare a mettermi una parrucca
per esser bella bisogna soffrire
ma soffrire non ci rende per forza belle
una sofferenza non implica come conseguenza
una ricompensa
un mal di denti può impietosire nostra madre
che per consolarci, ma senza sapere di che,
ci dà delle caramelle
ma le caramelle ci fanno ancor più male ai denti
la conseguenza di una sofferenza
può essere un’altra sofferenza
la causa segue l'effetto
il motivo della sofferenza è una delle conseguenze
della sofferenza.
I bigodini sono una conseguenza della parrucca
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Domenico Gnoli
Mise en plis nr.1 (1964)
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Os Gostos e os Desgostos…


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Os Gostos e os Desgostos…
I piaceri e i dispiaceri…


Os gostos e os desgostos
levam ao poema
como podem levar
ao precipício
o poema fala do precipício
lá haverá choro
e ranger de dentes
e não haverá Kleenex
nem o Dr. Abílio Loff
o meu querido dentista
o poema fala do precipício
evitado a tempo
o mau poema não mata
(mais vale burro vivo
que sábio morto)
I piaceri e i dispiaceri
portano alla poesia
così come possono portare
al precipizio
la poesia parla del precipizio
là dove ci saranno pianti
e stridor di denti
e non ci saranno Kleenex
né il Dr. Abílio Loff
il mio caro dentista
la poesia parla di quel precipizio
giusto in tempo evitato
la brutta poesia non uccide
(vale più un asino vivo
che un saggio morto)
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Gerrit Dou
Il cavadenti (1630-1635)
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O vestido cor de salmão


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O vestido cor de salmão
Il vestito color salmone


Ai de mim estreei o vestido cor de salmão
no primeiro baile a que fui
durante o baile fiquei sentada numa cadeira
ninguém me convidou para dançar
a uma rapariga importuna
que me perguntou porque é que eu
não dançava
respondi eu não sei dançar
ela insistiu comigo para que eu
bebesse uma taça de champagne
eu acedi
mas não foi dessa vez que bebi champagne
pela primeira vez
porque a rapariga entornou a taça
no meu colo
julgo que propositadamente
com a nódoa o vestido deixou de ser para bom
passou a ser para bater
durante uma viagem curta de comboio
uma faúlha do comboio (que era a lenha)
queimou-o no punho
foi fácil substituir o punho
porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado
o corte de tecido cor de salmão
ainda havia esse tecido cor de salmão
mas durante um passeio à praia
sentei-me numa rocha
e ao levantar-me precipitadamente
por ver que ia rebentar uma trovoada
o vestido ficou preso à rocha
e rasgou-se irremediavelmente
ao despi-lo vi que o vestido tinha já
a forma do meu corpo
rasguei-o em pedaços
e guardei os pedaços
na cesta dos trapos
de um dos pedaços fez-se um vestido
para a boneca da minha irmã mais nova
e deste mais tarde fez-se um vestido
para a filha da boneca da minha irmã mais nova
que era uma boneca mais pequena
que caiu a um poço
Ahimè indossai il vestito color salmone
al primo ballo a cui andai
durante il ballo rimasi seduta su una sedia
nessuno mi invitò a ballare
a una ragazza importuna
che mi domandò perché io
non ballassi
risposi che io non so ballare
quella insistette per farmi
bere un bicchiere di champagne
io accettai
ma questa non era la prima volta
che bevevo champagne
perché la ragazza mi rovesciò il bicchiere
in grembo
penso di proposito
con la macchia il vestito smise d’essere bello
divenne un vestito ordinario
durante un breve viaggio in treno
una scintilla del treno (che andava a legna)
lo bruciò sul polsino
fu facile sostituire il polsino
perché a Penim dove mia madre aveva comprato
quel taglio di tessuto color salmone
c’era ancora quel tessuto color salmone
ma durante una passeggiata sulla spiaggia
mi sedetti su uno scoglio
e nel rialzarmi precipitosamente
avendo visto che stava per scoppiare un temporale
il vestito rimase impigliato allo scoglio
e si strappò irrimediabilmente
togliendolo vidi che il vestito aveva già
la forma del mio corpo
lo feci a pezzi
e riposi i pezzi
nella cesta degli stracci
da uno dei suoi pezzi si fece un vestito
per la bambola della mia sorellina minore
e da questo più tardi si fece un vestito
per la figlia della bambola della mia sorellina minore
che era una bambola più piccola
che finì col cadere in un pozzo
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Mark Rothko
Senza titolo (1958)
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Mergulho no rio do povo…



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Mergulho no rio do povo…
M’immergo nel fiume della folla…


Mergulho no rio do povo,
No seu rio de suor e loção da barba
E fritos e vozes roufenhas
E silêncios saturados.
O dia a prumo sobre o povo,
Sobre a torrente da sua pressa,
Da sua ânsia, da sua fome,
O dia que me atinge e me torna,
Como torna cada uma destas faces,
Uma gota do povo.
O povo sem deuses e sem sonhos
Que, no entanto, crê em sonhos e em deuses,
O povo que passa no olhar destes versos,
Versos que não são neo-reais
Ou realistas, mas apenas reais.
M’immergo nel fiume della folla,
In quel fiume di sudore e lozione da barba
E cibi fritti e voci roche
E silenzi saturi.
Il giorno a picco sopra la folla,
Sopra il torrente della loro fretta,
Della loro ansia, della loro fame,
Il giorno che mi coglie e mi trasforma,
Come trasforma ciascuno di questi volti,
Una goccia di folla.
La folla senza dei e senza sogni
Che crede, però, nei sogni e negli dei,
La folla che sfila sotto lo sguardo di questi versi,
Versi che non sono neorealisti
O realistici, ma semplicemente reali.
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L.S. Lowry
Going to the Match (1928)
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Memórias das infâncias


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Memórias das infâncias
Memorie d’infanzia


Gostávamos muito de doce de framboesa
e deram-nos um prato com mais doce de framboesa
do que era costume
mas
a nossa criada a nossa tia-avó no doce de framboesa
para nosso bem
porque estávamos doentes
esconderam colheres do remédio
que sabia mal
o doce de framboesa não sabia à mesma coisa
e tinha fiapos brancos
isso aconteceu-nos uma vez e chegou
nunca mais demos pulos por ir haver
doce de framboesa à sobremesa
nunca mais demos pulos nenhuns
não podemos dizer
como o remédio da nossa infância sabia mal!
como era doce o doce de framboesa da nossa infância!
ao descobrir a mistura
do doce de framboesa com o remédio
ficámos calados
depois ouvimos falar da entropia
aprendemos que não se separa de graça
o doce de framboesa do remédio misturados
é assim nos livros
é assim nas infâncias
e os livros são como as infâncias
que são como as pombinhas da Catrina
uma é minha
outra é tua
outra é doutra pessoa
Ci piaceva molto la crostata di lamponi
e ci diedero un piatto con più crostata di lamponi
del solito
ma
la nostra servetta e la nostra prozia nella crostata di lamponi
per il nostro bene
siccome eravamo malate
nascosero cucchiaiate di medicina
che aveva un cattivo sapore
la crostata di lamponi non aveva lo stesso sapore
e aveva delle striature bianche
questo ci successe una volta e fu abbastanza
mai più ci mettemmo a saltare per avere
la crostata di lamponi per dessert
mai più ci mettemmo a saltare per qualcosa
non si può descrivere
quanto fosse disgustosa la medicina della nostra infanzia!
quanto fosse dolce il dolce di lamponi della nostra infanzia!
quando venimmo a sapere del miscuglio
della crostata di lamponi con la medicina
restammo in silenzio
in seguito sentimmo parlare di entropia
imparammo che non si separa facilmente
la crostata di lamponi dalla medicina una volta mischiate
così è nei libri
così è nell’infanzia
e i libri sono come ogni infanzia
che è come le colombelle di Catrina
una è mia
l’altra è tua
l’altra è di qualcun altro
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Joana Vasconcelos
Gâteaux (2011)
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