Lumiar, Lisboa: Um melro na rampa da Televisão


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Lumiar, Lisboa:
Um melro na rampa da Televisão
Lumiar, Lisboa:
Un merlo sulla rampa della Televisione


Um melro na rampa da Televisão
um melro cantava e eu que chegava
parei-me a ouvi-lo com aqueles garganteios à Elisabeth
 Schwarzkopf
invejoso daqueles agudos sustentados entre folhas
e com o sol do Verão a dar na tromba
como uma pedra

eu ou seja este bípede vestindo camisa Lacoste
 de crocodilo ao peito
envolto em águas tristes herdadas dos quatro primeiros
 impérios
que prefiro as salas de trás nas casas de trás das cidades
que estão para lá dos rios e das matas de medronheiros
onde ainda tento acender um ou outro amigo
com os fusíveis trazidos queimados de África
incapaz por todas as razões expostas
de colar suficientemente à melopeia do verso heróico

um melro cantava e eu que parava
pego na esferográfica rasgo metade de um sobrescrito
cedo à «inspiração» para anotar o dístico há mais de
 um ano
tentando a sua vez de ser um fecho aceitável

o mal de muita gente é que anda aos gritos
o mal de alguns de nós é já a esgana
Un merlo sulla rampa della Televisione
un merlo cantava e io che arrivavo
mi fermai ad ascoltarlo con quei gorgheggi all’Elisabeth
 Schwarzkopf
invidioso di quegli acuti sostenuti tra le foglie
e col sole d’estate che mi picchiava in faccia
come una pietra

io ossia questo bipede con indosso una polo Lacoste
 col coccodrillo sul petto
circondato dalle tristi acque ereditate dai primi quattro
 imperi
io che preferisco i ripostigli delle case più riposte della città
che sono al di là dei fiumi e dei cespugli di corbezzoli
dove ancora tento di dar fuoco a qualche amico
coi fusibili bruciati portati dall’Africa
incapace per tutti i motivi esposti
di aderire sufficientemente alla melopea del verso eroico

un merlo cantava e io che mi bloccavo
prendo la biro strappo una busta a metà
cedo all’«ispirazione» per annotarmi il distico che da più
 d’un anno
tenta a sua volta d’essere un finale accettabile

il male di molta gente è che s’impone urlando
il male di alcuni di noi è già la rabbia
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Beate Endrikat
La visita del merlo (2017)
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Litania para os dias velozes


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Litania para os dias velozes
Litania per i giorni veloci


Perdizes em À-do-Pinto ao pé de Serpa — para outros
braçadas de crawl como se despe a camisa do tédio —
 para outros
e passa tanto tempo num minuto

o jackpot erótico não dura sempre
crescem as filhas meio palmo em cada Verão
serei avô com dignidade? ou o chato do costume?
e passa tanto tempo num minuto

o meu voto é útil — dizem os oradores procurando-me
 na sala
estou enlatado entre uma dama e um guarda-costas
desejaria falar sobre as minorias de um
e passa tanto tempo

restam-me duas assoalhadas no fundo do poço?
faço versos para retardar o acidente coronário
podia fazer ginástica de manutenção que era o mesmo
disse de vez: ao diabo nome nos índices remissivos!
escrevam teses sobre a prenhez do referente
deixem-me olhar a chuva deixem-me
palitar os dentes - ut supra
não acerto com o Zeitgeist é escusado (e é inútil)
e passa tanto tempo num minuto
Pernici da À-do-Pinto vicino a Serpa — per altri
bracciate di crawl tanto per togliersi la camicia della noia —
 per altri
e il tempo vola via in un minuto

il jackpot erotico non dura per sempre
le figlie crescono di due dita ogni estate
diventerò un nonno dignitoso? o il solito barboso?
e il tempo vola via in un minuto

il mio voto è utile — dicono gli oratori cercandomi
 con gli occhi nella sala
sono schiacciato tra una signora e un guardaspalle
volevo parlare delle minoranze di un
e il tempo vola via

mi restano ancora un paio di stanzette in fondo alla fossa?
scrivo versi per ritardare il colpo apoplettico
potevo fare ginnastica di mantenimento che era lo stesso
infine ho detto: al diavolo il nome negli indici analitici!
scrivano tesi sulla gravidanza del relatore
lasciatemi guardare la pioggia lasciatemi
stuzzicare i denti - ut supra
non coincido con lo Zeitgeist è superfluo (ed è inutile)
e il tempo vola via in un minuto
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Victoria Dubovyk
Il tempo (particolare) (2018)
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Ode ao librium dez


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Ode ao librium dez
Ode al librium dieci


Embora química a tua
é realmente uma paz
para duas longas horas,
paz sentada, na varanda,
folheando jornais,
lendo só os títulos
(o novo papa recebe),

uma paz assim fresca,
sem grandes gestos
escusados, diria
uma paz no duche,
ou depois à mesa
comendo a sopa leve,
o bife grelhado
com pouco sal,

paz da papaia doce,
gotas de limão,
paz de um copo de água,
uma brisa ténue
arrepiando quase nada
os pêlos das pernas,
encrespando-os quase nada

e isto é o repouso,
a mansidão tranquila,
o descanso, a quietude,
a serenidade, o feltro,
a pele bem curtida
tocada do avesso,
a aldeia pequena,
a caruma, o cheiro
dos medronhos maduros,

rolas que então
vinham beber aos poços,
assobios de melros
pela manhã, escondidos
nos juncais, furtivas
carreiras de coelhos,
milho na eira ao sol,
pão cozendo no forno,
fumo vago e alegre,

paz do fumo, paz
terna, por duas horas,
por um homem
que se entrega duas horas,
que se entrega,
que se entrega na varanda
ao librium, que se entrega.
Benché chimica la tua
è veramente una pace
per due lunghe ore,
pace seduta, sulla veranda,
sfogliando giornali,
leggendo solo i titoli
(il nuovo papa riceve),

una pace così fresca,
senza grandi gesti
superflui, direi
una pace sotto la doccia,
o, dopo, a tavola
mangiando la zuppa leggera,
la bistecca alla griglia
con poco sale,

pace di papaia dolce,
gocce di limone,
pace d’un bicchiere d’acqua,
una brezza leggera
che fa drizzare appena
i peli delle gambe,
increspandoli appena

e questo è il riposo,
la mitezza tranquilla,
il ristoro, la quiete,
la serenità, il feltro,
la pelle abbronzata
toccata dall’interno,
il piccolo villaggio,
gli aghi di pino, il profumo
dei corbezzoli maturi,

colombe che allora
venivano a bere ai pozzi,
fischi di merli
nel mattino, nascosti
in mezzo ai giunchi, furtive
corse di conigli,
miglio sull’aia al sole,
pane che cuoce nel forno,
fumo libero e allegro,

pace del fumo, pace
tenera, per due ore,
per un uomo
che si offre due ore,
che si offre,
che si offre sulla veranda
al librium, che si offre.
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Damien Hirst
Schizophrenogenosis book (2017)
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Guerra para acabar com as guerras?



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Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (marzo 2026) »»
 
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Guerra para acabar com as guerras?
Guerra per farla finita con le guerre?


Não há Deus no “no man’s land”,
Religião alguma aí se vende.

Alcandorado em preces pelos séculos,
Deus morreu no terror de homens-tubercúlos.

Onde homens não subsistem, morre Deus
Flutuando em vazios, vazios céus.
Non c’è Dio nella “no man’s land”,
Lì non si vende religione alcuna.

Glorificato nelle preghiere lungo i secoli,
Dio è morto nel terrore di uomini tubercolotici.

Senza la presenza degli uomini, Dio muore
Fluttuando in cieli vuoti, vuoti.
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Edith Birkin
Un campo di gemelli (1980)
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Monólogo e explicação


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Monólogo e explicação
Monologo e spiegazione


Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.
Ma io non ho tirato indietro la culatta,
non ho ripulito l’olio dalla canna,
si dice che la guerra uccida: la mia
m’ha fatto a pezzi subito all’arrivo.

Infatti non c’erano assedi né proiettili
che potessero smuovere questo forzato.
Lo videro seduto al tavolo con grandi libri,
con grandi bicchieri, grandi mani inquiete.

Lo videro che orinava di notte sulle assi
o sulla rada erba per metà falciata.
Guardava le colline, come se ne capisse
il torpore di terra placida.

Sfogliando delle pagine rimaste
ora rammenta quanto facesse freddo.
Dicono che la guerra passa: questa mia
mi è entrata nelle ossa e non va via.
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Goya
I disastri della Guerra (tav. 3) (1813)
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