Soneto XXI - Cendrada luz...


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Soneto XXI - Cendrada luz...
Sonetto XXI - Cinerea luce...


Cendrada luz enegrecendo o dia,
tão pálida nos longes dos telhados!
Para escrever mal vejo, e todavia
a dor libérrima que a mão me guia
essa me vê, conforta meus cuidados.
 
Ao fim terrível que me espera extenso,
nenhum conforto poderei pedir.
Da liberdade o desdobrado lenço
meu rosto cobrirá. Nem sei se penso
ou pensarei quando de mim fugir.
 
Perdem-se as letras. Noite, meu amor,
ó minha vida, eu nunca disse nada.
Por nós, por ti, por mim, falou a dor.
E a dor é evidente – libertada.

Cinerea luce che il giorno rabbuia,
così pallida, da lontano, sopra i tetti!
Per scrivere vedo a stento, e tuttavia
è del tutto libero il dolore che la mia mano guida,
esso mi vede e conforta i miei crucci.
 
Al finale terribile che m’attende immenso,
nessun conforto io potrò implorare.
Il fazzoletto spiegato della libertà
coprirà il mio volto. Non so se penso,
o penserò, quando da me fuggirà.
 
Svaniscono le parole. Notte, mio amore,
non ho mai detto nulla, o mia vita.
Per noi, per te, per me, ha parlato il dolore.
E il dolore è evidente – liberato.

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Jean-Francois Millet
Paesaggio autunnale con tacchini (1868)
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Soneto XI - Marinha pousa a névoa iluminada...


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Soneto XI
Marinha pousa a névoa iluminada...
Sonetto XI
La marina riposa nella nebbia illuminata...


Marinha pousa a névoa iluminada,
e dentro dela os pássaros cantando
são crepitar das ondas doce e brando
na fímbria oculta e só adivinhada.
 
Verdes ao longe os montes na dourada
encosta pelos tempos deslizando,
suspensos pairam no frescor de quando
eram da sombra a forma congelada.
 
Ao pé de mim respiras. No teu seio,
como nas grutas fundas e sombrias
os animais pintados adormecem,
 
sereno sexa um amoroso veio.
Um após outro hão-de secar-se os dias
na teia ténue que das eras tecem.

La marina riposa nella nebbia illuminata,
ed al suo interno gli uccelli canterini
sono un crepitar d’onde dolce e sereno,
sulla riva occulta e solo percepita.
 
Verdi in lontananza i monti dal versante
dorato che nel corso del tempo va franando,
sospesi aleggiano nella frescura di quando
dell’ombra non erano che la forma congelata.
 
Accanto a me respiri. Sul tuo seno,
come nelle grotte fredde e buie
gli animali dipinti si placano,
 
s’inaridisce sereno un amoroso rivo.
Ad uno ad uno s’inaridiscono i giorni
sulla tenue tela che le ere ordiscono.

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Caspar David Friedrich
Il mattino (1821-1822)
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Amo-te muito, meu amor, e tanto...


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Amo-te muito, meu amor, e tanto...
T’amo tanto, amor mio, ma tanto...


Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

T’amo tanto, amor mio, ma tanto
che, nell’averti, t’amo di più, e più ancora
dopo averti avuta, amor mio. Non con l’amore
in sé stesso si consuma l’amore del tuo incanto.

Che incanto è il tuo? Se continua pur se intanto
vengo tradito da coloro che, viscidi, imbavagliano,
in nome della pace in una guerra a cui si vendono,
la pura libertà del mio canto,

un cantico della terra e del suo popolo,
in quest’invenzione dell’intera umanità
che ad ogni istante va inventata di nuovo,

quasi fosse una cosa o una sequenza che passa...
Che incanto è il tuo? Steso accanto a te,
so che si squarcia, eterno, il velo della Grazia.

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Harutyun Gulamir Khachatryan
Desiderio (2016)
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Os Paraísos artificiais


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Os Paraísos artificiais
I paradisi artificiali


Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para
 desenraizar as árvores.

O cântico das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida na minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

Nella mia terra, non c'è terra, ci sono vie;
perfino le colline son fatte d’alti edifici
con affitti ancora più alti.

Nella mia terra, non ci sono né alberi né fiori.
I fiori, così rari, dei giardini tutti i mesi cambiano,
e il Municipio ha macchine specializzate nello sradicare
 gli alberi.

Il cantico degli uccelli - non c’è alcun cantico,
ma solo canarini del 3° piano e pappagalli del 5°.
E la musica del vento porta il freddo nelle baracche.

Nella mia terra, però, non ci sono baracche,
che stanno tutte in Persia o in Cina,
o in paesi ineffabili.

La mia terra non è ineffabile.
La vita, sì, nella mia terra è ineffabile.
Ineffabile è tutto ciò che non si può dire.

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Tito Fornasiero
São Paulo, notturno (2012)
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Ode para o Futuro


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Ode para o Futuro
Ode al futuro


Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.

Parlerete di noi come di un sogno.
Crepuscolo dorato. Frasi calme.
Gesti flemmatici. Musica dolce.
Pensiero sagace. Tenui sorrisi.
Paesaggi evanescenti in lontananza.
Liberi eravamo. Parlavamo, sapevamo,
e amavamo in modi dolci e sereni.

Un’angoscia stemperata, malinconica,
questo voi sognerete.

E le tempeste, i disordini, le grida,
violenza, disprezzo, odiosa confusione,
primavere che si spengono ignorate
sui vicini declivi, le prigioni,
le morti, l’amore venduto,
le lacrime e le lotte,
lo sconforto per la vita che ci rubano
- nient’altro che un’angoscia malinconica,
sulla quale sognerete l’età dell’oro.

E, in segreto, nostalgici, incantati,
parlerete di noi - di noi! - come di un sogno.

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David Alfaro Siqueiros
Revolución (1921)
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