Ritual


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Ritual
Rituale


    A Fabrício

Sabias que as minhas roupas
conservavam a epiderme
de meu sonho
e estavam ali,
não viajavam comigo,
estavam ali,
guardiãs da primavera
na gaveta
de um retorno pródigo
ao pai inconsolável.
Sabias, filho,
e conversavas longamente
com as roupas,
conversavas entardeceres muitos
com minha longa ausência.

Havia rumor nelas:
peixes num aquário
de flanela e linho.
Um subterrâneo ritmo
as removia.
O mundo vegetal e animal
eram rabiscos
no embaralhar
ocioso das sombras.
O que procuravas
entre as roupas:
algum amor banido,
a lágrima, o instinto
de me sobreviver?
    A Fabrício

Tu sapevi che i miei abiti
mantenevano l'epidermide
del mio sogno
e restavano lì,
non partivano con me,
restavano lì,
guardiani della primavera
dentro il cassetto
di un ritorno prodigo
al padre inconsolabile.
Tu lo sapevi, figlio mio,
e parlavi lungamente
con gli abiti,
parlavi spesso verso sera
con la mia lunga assenza.

In essi c’era un fruscio:
pesci dentro un acquario
di flanella e di lino.
Un ritmo ipogeo
li scuoteva.
Il mondo vegetale e animale
erano ghirigori
nell’ozioso viavai
delle ombre.
Che cosa cercavi
in mezzo agli abiti:
un amore respinto,
la lacrima, l'istinto
di sopravvivermi?
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Giacomo Balla
Abiti futuristi (1914)
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Os fuzilados de Goya


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Os fuzilados de Goya
I fucilati di Goya


Morremos
mas não abrimos mão
do que sonhando,
é mais do que estar vivo,
é ter vivido
o último percalço
do equilíbrio.

Os homens não toleram
a consciência, nem
se toleram como feras.
E se à luz não se apegam,
são mais tristes, duros,
solitários. Gorjeando
contra o frio, os ledos
ossos.

Morremos. Onde é alma,
sobrevive. E toda a eternidade
é ver o instante
que as armas nos apontam
com seu fogo.

E mais que a pontaria,
o grito enorme,
como flores caladas
junto aos olhos.
São pálpebras que falam
o seu ódio.

O pelotão explode
e nós olhamos na cara
o vosso susto, a morte
que nos dais, o sonho
florescendo igual a um campo,
onde fuzis plantados
se levantam.

E esta porta
aberta
sobre a morte.
Moriamo
però non rinunciamo
a quel ch’è il nostro sogno,
che è più che essere vivi,
è aver sorpassato
l’ultimo intralcio
all’equilibrio.

Gli uomini non tollerano
la coscienza, ma neppure
tollerano sé stessi come bestie.
E se non s’aggrappano alla luce,
sono più tristi, più duri,
più solinghi. Gorgheggiano
contro il freddo, le liete
ossa.

Noi moriamo. Ma dove c’è un’anima,
essa sopravvive. E tutta l’eternità
sta nel veder l’istante
in cui le armi ci puntano contro
con il loro fuoco.

E più che le armi puntate,
il grido enorme,
come taciti fiori
vicino agli occhi.
Sono palpebre che esprimono
il proprio odio.

Il plotone esplode
e noi vi leggiamo in faccia
lo spavento, la morte
che ci date, il sogno
che fiorisce come un campo,
da cui fucili piantati
si sollevano.

E questa porta
aperta
sopra la morte.
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Goya
El tres de Mayo (1813)
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O cego da guitarra (Goya)


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O cego da guitarra (Goya)
Il cieco con la chitarra (Goya)


Cego com os olhos
e morto. Cegos
os ouvidos. Cegos os olhos
de remota lembrança.
Nariz adunco e morto.
Chapéu entornado
E morto. Sob a capa,
Mortalha. Morto
morto morto.

Mas a guitarra
salta, a guitarra
letrada e casta
jorra a alegria
de um povo
em torno.

A guitarra é o cego.
A guitarra é o cego.
A guitarra tem os olhos
acesos.
Cieco con gli occhi
e morto. Ciechi
gli orecchi. Ciechi gli occhi
di remota memoria.
Naso aquilino e morto.
Cappello schiacciato
E morto. Sotto la cappa,
Sudario. Morto
morto morto.

Ma la chitarra
salta, la chitarra
colta e casta
diffonde la gioia
della gente
intorno.

La chitarra è il cieco.
La chitarra è il cieco.
La chitarra ha gli occhi
ardenti.
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Goya
Il cieco con la chitarra (1778)
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Minha voz se chamava Carlos


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Minha voz se chamava Carlos
La mia voce si chiamava Carlos


Minha voz se chamava Carlos
mas não tinha serventia alguma.
Era Carlos de vez em quando.

E um Luiz obscuro adormecia
na poltrona de tevê,
enquanto minha voz
andava de calça listrada
e se comportava na sala
com suntuosa altivez.

Minha voz se chamava Carlos
no café
mas quando súbito
ia pela escada,
surpreendia-se
não era mais Carlos
- eram seus comparsas
e eles ficavam eternos
de repente,
com a equivalência ao sonho
na sua maior altura.

Depois Carlos se hospedava
em Carlos e o caos se agitava intruso
na criação.
La mia voce si chiamava Carlos
ma proprio a nulla serviva.
Era Carlos di tanto in tanto.

E un oscuro Luiz si appisolava
sulla poltrona davanti alla tivù,
mentre la mia voce
indossava pantaloni gessati
e si comportava in sala
con pomposo sussiego.

La mia voce si chiamava Carlos
al caffè
ma quando d’un tratto
saliva la scala
si stupiva
non era più Carlos
- erano i suoi figuranti
e loro rimanevano eterni
all'improvviso,
con l'equivalenza al sogno
al suo apice assoluto.

E dopo Carlos si rifugiava
in Carlos e il caos si agitava da intruso
nella creazione.
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Ibere Camargo
Ritratto di Carlos Nejar (1975)
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Entre as cinzas


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Entre as cinzas
Fra le ceneri


Confesso às formigas
as cruas penas e elas
na terra da noite lerda
serão futuras amigas

e confidentes. Meu corpo
poderá falar as ternas
coisas que nos ignoram.
Só falarei com meu corpo,

que a alma estará longe.
E as formigas não precisam
que alma exista. Cotovias
da escuridão, sabidas,

mínimas, deixam suas folhas
no formigueiro. Entre as cinzas,
o pó se encherá de falas.
E minha boca de formigas.
Confesso alle formiche
le mie dure pene ed esse
nella terra della notte lenta
saranno future amiche

e confidenti. Il mio corpo
saprà esprimere le dolci
cose che di noi ignorano.
Parlerò solo col mio corpo,

poiché l’anima sarà lontana.
E alle formiche non occorre
che l’anima esista. Allodole
dell’oscurità, esperte,

minime, lasciano le loro foglie
nel formicaio. Fra le ceneri,
la polvere si riempirà di voci.
E la mia bocca di formiche.
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Peter Kogler
Formiche (2002)
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