Poema ao Silêncio


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Poema ao Silêncio
Poesia al silenzio


Silêncio, cobre meu pensamento e o meu coração
Cobre o meu corpo do desejo dos homens
E a minha sombra da luz do sol
Cobre a te a lembrança dos meus passos
E o som da minha voz

Cobre a minha caridade e a minha fé
A vontade de morrer e também a de viver
Estende-te sobre o colorido das paisagens
Interpõe-te na minha respiração e no meu pestanejar
Cobre-me desde o início da minha concepção

Enrola-te no duplo de mim mesma
Transforma-me em fragmento de ti próprio,
Penetra no meu principio e no meu fim,
Cobre-me bem, com tanta amplitude e intensidade
Que possa eu ser esquecida
E me esquecer por toda a eternidade!
Silenzio, proteggi il mio pensiero e il mio cuore
Proteggi il mio corpo dal desiderio degli uomini
E la mia ombra dalla luce del sole
Vorrei che tu ti ricordassi dei miei passi
E del suono della mia voce

Proteggi la mia pietà e la mia fede
La voglia di morire e anche quella di vivere
Stenditi sopra i colori dei paesaggi
Elevati tra il mio respiro e il mio esitare
Proteggimi fin dall’inizio del mio concepimento

Avvolgiti sulle pieghe di me stessa
Trasformami in un frammento di te
Penetra nel mio principio e nella mia fine,
Proteggimi bene con tanta grandezza e intensità
Che io possa essere scordata
E me stessa scordare per tutta l’eternità!
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Helene Schjerfbeck
Autoritratto (1915)
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On the road com Kerouac



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On the road com Kerouac
On the road con Kerouac


Nada mais do que a batida
De um saxofone pela estrada
Interior. A América cresce
Ao ritmo da voz negra
De um branco numa sala traseira.
A estrada protege-nos o rosto,
Afinal é o ponto da perda,
O lugar onde tudo se reflecte
No espectro dos pássaros da tarde.
Droga-te com estas palavras
Que roçam o asfalto da vida.
A loucura é o nível mais alto
Do mundo a curva de um trópico
Rumo à Terra do Fogo:
Burn, burn, burn
Like fabulous yellow roman candles
Exploding like spiders across the stars.

E arder não é mais do que uma pradaria
Soprada pelo sol da noite que floresce.
A estrada segue sobre rodas
Em direcção ao inferno, uma densa 
Eternidade amortalhada penetra
Na boca em transe, suspensa
Na limpidez de um grito harmónico.
O Mississippi lava a América,
O seu corpo em carne viva. Agora
A estrada é água, cola-se à transparência
E move-se por entre um barco que voa
Na crescente ausência do espaço.
Assim se atravessa a eternidade,
Na dissolução do Grande Golfo da Noite,
Nos quilómetros desolados da paisagem,
Nos espaços azuis rasgados pelo céu,
Como se a página fosse o Vale do Mundo.
Estremece-se com a intuição do tempo
Ao receber o mundo em bruto. A nudez.
O lugar comum, but no matter,
The road is life.

Nunca se morre o suficiente
Para se poder chorar, dirias,
Guardando a vida na mão como um bocado de lixo.
Das borboletas ainda brotam nuvens,
Afinal é possível que a poeira suba até às estrelas
Que trespassam a escuridão.
Lonely as America,
A throatpierced sound in the night:

A tua solidão explode com o som entrecortado
Do saxofone borbulhando ondas
De música brutal. A estrada do som
A estrada dos santos,
A estrada dos doidos,
A estrada do arco-íris,
A estrada interminável,
Um demoníaco reflexo da noite negra
No asfalto. Os sonhos terminam,
O mundo espraia-se, trémulo,
Palpita pela estrada fora,
É a ira que chega à velha dança.
Um rochedo explode em flor, o abismo oscila
Ao mais pequeno toque,
É um precipício seráfico e frenético.
Tudo vibra, a grande serpente emerge
Na imobilidade dos gestos,
Um insecto sai da tarde americana
Picando a realidade, a estrada está prestes
A sair da América, de toda essa terra bruta
De pessoas dispersas na imensidão.
No regresso, resta apenas
Percorrer a virgindade da berma.
Nient’altro che il ritmo
D’un sassofono lungo la strada
Interna. L’America cresce 
Al ritmo della voce nera
D’un bianco in una stanza sul retro.
La strada ci protegge il volto,
Dopotutto è il punto della perdita,
Il luogo in cui tutto si riflette
Nello spettro degli uccelli della sera.
Lasciati esaltare da queste parole
Che sfiorano l'asfalto della vita.
La follia è il livello più alto
Del mondo, la curva d’un tropico
Verso la Terra del Fuoco:
Burn, burn, burn
Like fabulous yellow roman candles
Exploding like spiders across the stars.

E bruciare non è altro che una prateria
Investita dal sole della notte che fiorisce.
La strada prosegue sulle ruote
Diretta verso l’inferno, avvolta nel sudario
Una densa eternità penetra
Nella bocca in estasi, sospesa
Nel nitore d’un grido armonioso.
Il Mississippi lava l’America,
Il suo corpo è una ferita aperta. Ora
La strada è acqua, s’aggrappa alla trasparenza
E s’insinua dentro una barca volante
Nella crescente assenza di spazio.
Così si attraversa l’eternità,
Nella dissoluzione del Grande Golfo della Notte,
Nei desolati chilometri di paesaggi,
Negli spazi blu solcati lungo il cielo,
Come se la pagina fosse la Valle del Mondo.
Si sussulta nell’intuire il tempo
Nel ricevere il mondo allo stato puro. La nudità.
Il luogo comune, but no matter,
The road is life.

Non si muore mai abbastanza
Per potersi piangere, diresti tu,
Celando la vita nella mano come fosse immondizia.
Dalle farfalle ancora sbocciano nuvole,
Dopotutto è possibile che la polvere salga alle stelle
Che attraversano l’oscurità.
Lonely as America,
A throatpierced sound in the night:

La tua solitudine esplode col suono singhiozzante
Del sassofono che fa ribollire ondate
Di musica brutale. La strada del suono
La strada dei santi,
La strada dei folli,
La strada dell’arcobaleno,
La strada interminabile,
Un demoniaco riflesso della notte nera
Sull’asfalto. I sogni finiscono,
Il mondo s’espande, tremante,
Palpita per tutta la strada,
È la collera che riprende la vecchia danza.
Una roccia esplode in mille fiori, l’abisso oscilla
Al minimo tocco,
È un precipizio serafico e frenetico.
Tutto vibra, il grande serpente emerge
Nell’immobilità dei gesti,
Un insetto esce dal pomeriggio americano
Pungendo la realtà, la strada è pronta
Ad uscire dall’America, da tutta questa terra selvaggia
Di persone sparse nella vastità.
Al ritorno, non resta che
Percorrere la purezza della berma.
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Grant Haffner
Neon Sunset (2015)
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Paisagem


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Paisagem
Paesaggio


Restam nos meus olhos
Séculos de planícies áridas
E o vento ríspido que trouxe as lamentações
Das sombras agitadas
Sobre os pântanos desconhecidos.
Distantes estão os caminhos
Onde eu encontraria a suprema fraqueza
Para vergar os meus joelhos
E deitar no pó a minha boca moribunda.
Invisíveis estão as estrelas
Que me levariam a contemplar os céus abençoados.
E só espaços sem medida
Onde a música da noite
É livre sobre os pensamentos em sono.
Desconhecida para mim a praia onde eu me deitaria
De olhos cerrados e sentiria
O último movimento da onda
Balançar os meus pés
Como as algas sem direção.
Como os detritos rejeitados pela pureza do mar.
Restam dentro da minha sombra
Fragmentos de agitações de outras vidas
Plantadas no meu grito de revolta
Que eu não libertarei
Até que no deserto universal
A flor de um cardo movimente
A paisagem silenciosa.
Albergano nei miei occhi
Secoli di aride pianure
E il vento rude che trasportò i lamenti
Delle ombre inquiete
Sopra le paludi sconosciute.
Distanti sono i sentieri
Ove io potrò con estrema stanchezza
Piegare le mie ginocchia
E posare sulla polvere la mia bocca moribonda.
Invisibili sono le stelle
Che mi porterebbero a contemplare i cieli beati.
E solamente spazi smisurati
Là dove la musica della notte
Si libra sopra i pensieri addormentati.
A me ignota la spiaggia ove potrei distendermi
Ad occhi chiusi e sentirei
L’ultimo movimento dell’onda
Cullare i miei piedi
Come le alghe fluttuanti qua e là.
Come i detriti respinti dalla purezza del mare.
Rimangono dentro la mia ombra
Frammenti di conflitti d’altre vite
Piantati nel mio grido di rivolta
Che io non emetterò
Finché nel deserto universale
Ci sarà un fior di cardo ad animare
Il paesaggio silente.
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Edvard Munch
Giovane donna sulla spiaggia (1896)
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Mistérios


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Mistérios
Misteri


Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.
Ci son voci nella notte che chiedono di me,
Ci son voci nelle fonti che gridano il mio nome.
La mia anima tende le orecchie
E la mia memoria scende agli abissi oscuri
In cerca di chi chiama.
Ci son voci che corrono nel vento chiedendo di me.
Ci son voci sotto le pietre che gemono il mio nome
Ed io guardo gli alberi tranquilli
E le montagne impassibili
In cerca di chi chiama.
Ci son voci sulla bocca delle rose che cantano il mio nome
E le onde s’infrangono sulle spiagge
Lanciando esauste un grido per me
E i miei occhi si volgono verso il ricordo del paradiso
Per sapere chi chiama.
Ci son voci nei corpi senza vita,
Ci son voci lungo il mio cammino,
Ci son voci nel sonno dei miei figli
E il mio pensiero come un fulmine sfreccia
Oltre il limite della mia esistenza
Nell’ansia di sapere chi sta gridando.
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Edvard Munch
Malinconia II (1898)
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Lembrança


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Lembrança
Ricordo


Fiquei vivendo à tua sombra
Como os musgos à beira das fontes.
Com ritmo agreste verguei meu corpo
Com um movimento de arco distendido pela flecha
E o ruído do meu sangue correndo em minhas veias
Foi como o das distantes cachoeiras perdidas.
O meu pensamento como um pássaro da noite
Riscou o silencio dos nossos corpos deitados
E pousou na tua boca entreaberta
Como a brisa sobre os jardins pisados.
O perfume da terra chovida
Que a tua presença evaporava
Penetrou nos meus cabelos
Como a seiva dos frutos caídos
E aprofundou-se nos meus sentidos
Como a gota sorvida pelas quentes areias.
Fiquei no teu corpo
Como a poeira das estradas
Pegada às folhas novas
As folhas que não necessitam florescer
Porque o sangue da terra
Justifica o seu isolamento.

Fiquei vivendo à sombra do teu corpo
Como os musgos à beira das fontes.
Sono vissuta alla tua ombra
Come il muschio sul bordo delle fonti.
Con ritmo agreste inarcai il mio corpo
Col movimento dell’arco teso dalla freccia
E il fragoroso scorrere del mio sangue nelle vene
Era simile a quello delle lontane rapide perdute.
Il mio pensiero come un uccello notturno
Scalfiva il silenzio dei nostri corpi distesi
E si posava sulla tua bocca socchiusa
Come la brezza sopra i giardini sfiorati.
Il profumo di terra dopo la pioggia
Che la tua presenza emanava
Penetrava nei miei capelli
Come la linfa dei frutti caduti
E s’insinuava dentro ai miei sensi
Come goccia assorbita dalla sabbia ardente.
Sono rimasta stretta al tuo corpo
Come la polvere delle strade
S’incolla alle foglie nuove
Le foglie che non han bisogno di fiorire
Perché il sangue della terra
Giustifica il loro isolamento.

Sono vissuta all’ombra del tuo corpo
Come il muschio sul bordo delle fonti.
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Ismael Nery
A Família (1924)
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