Muriliana


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Muriliana
Muriliana


Corto a cidade, as máquinas e o sonho
Do jornaleiro preso no crepúsculo.
Guardo as amadas no bolso do casaco.
Almoço bem pertinho do arco-íris,
Planto violetas na face do operário.
Conversando com anjos e demônios,
É o meu anúncio quem dirige as nuvens.
Attraverso la città, le macchine e il sogno
Del giornalaio prigioniero del crepuscolo.
Tengo le mie amanti nella tasca del cappotto.
Pranzo proprio vicino all’arcobaleno,
Pianto violette sul volto dell’operaio.
Conversando con angeli e demoni,
È il mio annuncio che orienta le nuvole
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Alberto da Veiga Guignard
Ritratto di Murilo Mendes (1930)
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Balada


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Balada
Ballata


Folha enrugada,
poeira nos livros.
A pena se arrasta
no esforço inútil
de libertação.
Nenhuma vontade,
nem mesmo desejo
na tarde cinzenta.

A árvore seca
esperando seiva
não tem paisagem.
Na frente é o deserto
coberto de pedras.
Nem sombra de oásis.
Pobre árvore seca
na tarde cinzenta!

Se houvesse um castelo
com torres e dama
de loiros cabelos,
talvez eu fizesse
algum madrigal.
Mas a dama morreu,
os castelos se foram
na tarde cinzenta!

O caminho se alonga
por entre montanhas,
por campos e vales.
Talvez me conduza
ao roteiro perdido
no fundo do mar.
Mas estou tão cansado
na tarde cinzenta!

Não sou lobo da estepe;
amo a todos os homens
e suporto as mulheres.
Contudo não posso
falar com os lábios,
amar com o sexo,
porque sinto a tortura
da tarde cinzenta!

Só me restam os livros.
Vou ficar com eles
esperando que chegue
do fundo da noite,
das sombras do tempo,
oh! imenso mar,
vem me libertar
da tarde cinzenta!
Pagina sciupata,
polvere sui libri.
La penna si trascina
nell’inutile sforzo
di liberazione.
Nessuna volontà,
e neanche un desiderio
nella grigia serata.

L’albero secco
aspettando la linfa
non ha paesaggio.
Di fronte è il deserto
coperto di pietre.
Neanche l’ombra di un’oasi.
Povero albero secco
nella grigia serata!

Se ci fosse un castello
con torri e una dama
dai biondi capelli,
potrei forse fare
qualche bel madrigale.
Ma è morta la dama,
scomparsi i castelli
nella grigia serata!

Il sentiero s’allunga
tra le montagne,
per campi e per valli.
Forse mi condurrà
alla rotta perduta
in fondo al mare.
Ma son tanto stanco
nella grigia serata!

Non son lupo di steppa;
amo tutti gli uomini
e sopporto le donne.
Tuttavia io non posso
parlar con le labbra,
amare col sesso,
perché sento la tortura
della grigia serata!

Non mi restan che i libri.
Rimarrò insieme a loro
aspettando che arrivi
dal fondo della notte,
dalle ombre del tempo,
oh! immenso mare,
vieni a liberarmi
dalla grigia serata!
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Tarsila do Amaral
Terra (1943)
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À noite, Deus…



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À noite, Deus…
La notte, Dio...


À noite, Deus envia-nos os seus demónios,
A terra queimada de dúvidas,
Êxodo de crenças e amores,
A corrente traiçoeira de esperanças
E para que esta vida seja suportável,
Para que tudo não se esfume
Pelas suas fronteiras súbitas,
Deixando-me na polpa de um vazio,
Combato Deus contra a ideia de paraíso.
La notte, Dio ci manda i suoi demoni,
La terra riarsa di dubbi,
Esodo di credenze e amori,
L’infida corrente di speranze
E affinché questa vita sia tollerabile,
Affinché non vada in fumo ogni cosa
Attraverso le sue subitanee frontiere,
Lasciandomi nella polpa di un vuoto,
Combatto Dio contro l’idea di paradiso.
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Beato Angelico
Il Giudizio Universale (1431)
(particolare dell'Inferno)
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Retrato


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Sebastião da Gama »»
 
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Retrato
Ritratto


Nasci para ser ignorante
Mas os parentes teimaram
(e dali não arrancaram)
em fazer de mim estudante.

Que remédio? Obedeci.
Há já três lustros que estudo.
Aprender, aprendi tudo,
mas tudo desaprendi.

Perdi o nome às Estrelas,
aos nossos rios e aos de fora.
Confundo fauna com flora.
Atrapalham-me as parcelas.

Mas passo dias inteiros
a ver um rio passar.
Com aves e ondas do Mar
tenho amores verdadeiros.

Rebrilha sempre uma Estrela
por sobre o meu parapeito;
pois não sou eu que me deito
sem ter falado com ela.

Conheço mais de mil flores.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como em latim
as crismaram os doutores.

No entanto sou promovido,
mal haja lugar aberto,
a mestre: julgam-me esperto,
inteligente e sabido.

O pior é se um director
espreita pela fechadura:
lá se vai licenciatura
se ouve as lições do doutor.

Lá se vai o ordenado
de tuta e meia por mês,
Lá fico eu de uma vez
um Poeta desempregado.

Se me não lograr o fado,
porém, com tais directores,
e de rios, aves e flores
somente for vigiado.

Enquanto as aulas correrem
não sentirei calafrios,
que flores, aves e rios
ignorante é que me querem.
Son nato per essere ignorante
Ma i miei genitori insistettero
(e da lì non si smossero)
per fare di me uno studente.

Che scelta avevo? Obbedii.
Son già tre lustri che studio.
Imparare, tutto ho imparato,
ma poi tutto ho disimparato.

Ho perso il nome delle Stelle,
dei fiumi, i nostri e quelli lontani.
Scambio fauna con flora.
Mi confondono le frazioni.

Ma passo giorni interi
guardando i fiumi scorrere.
Con gli uccelli e le onde del Mare
ho vere storie d'amore.

Riluce sempre una Stella
al di sopra del mio davanzale;
perché non c’è verso che mi corichi
senz’avere parlato con quella.

Conosco più di mille fiori.
E loro conoscono me.
Però non so dire in latino
che nomi gli han dato i dottori.

Tuttavia son stato promosso,
appena ci sarà un posto vacante,
a insegnante: mi reputano esperto,
colto e intelligente.

Il peggio è se un direttore
spia dal buco della serratura:
la laurea se ne va alla malora
se ascolta le lezioni del dottore.

Ecco il mio stipendio svanito,
è un tozzo di pane al mese,
e di punto in bianco divengo
un Poeta disoccupato.

Se non m’è avverso il fato,
malgrado questi direttori,
spero d’esser sorvegliato
solo da fiumi, uccelli e fiori.

Mentre le lezioni si svolgono
brividi non ne dovrò sentire,
perché uccelli, fiumi e fiori,
ignorante mi voglion tenere.
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Candido Portinari
Bambino con uccellino (1957)
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Quando tu apareceres…


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Sebastião da Gama »»
 
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Quando tu apareceres…
Quando tu apparirai…


Quando tu apareceres (e então verás
a minha única grandeza)
a Obra que te fiz hei-de a queimar;
não deves conhecer esse caminho
mal talhado, que fiz pra te chegar.
Tão pertinho do Céu te encontrarei,
tão longe de ser mulher,
que te hei-de receber, divina, nos meus braços,
sem teres corpo sequer.
Eu só, Amor, te prenderei na Forma;
é pra seres mais de mim
que as minhas mãos, que Deus abençoou,
te darão os contornos que não tens.
No modelar teus braços e teu peito,
alcançarei, contigo a Perfeição,
e é esse o meu poema, o teu poema:
o milagre daquela criação.
Quando tu apparirai (e allora vedrai
la mia unica grandezza)
l’Opera che per te ho fatto io la brucerò;
non devi venire a conoscere quel cammino
mal tracciato, che ho fatto per arrivare a te.
T’incontrerò così vicino al Cielo,
così lontana dall’essere donna,
che ti riceverò, divina, tra le mie braccia,
senza che tu abbia neppure un corpo.
Io solo, Amore, ti conferirò una Forma;
è perché tu sia più simile a me
che le mie mani, benedette da Dio,
ti daranno i contorni che non hai.
Nel modellare le tue braccia e il tuo petto,
raggiungerò, con te la Perfezione,
e questo è il mio poema, il tuo poema:
il miracolo di quella creazione.
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Henry Moore
Figura reclinata (1929)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Paulo Paes (2) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (565) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (372) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (45) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)