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Cartucho de castanhas


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Cartucho de castanhas
Cartoccio di castagne


Vem da infância
e de uma cidade molhada esse cheiro
ímpar de um pequeno carro de cor neutra
envolto em fumo. Brasas
no estalido de cascas aquecendo
as nossas mãos friorentas. O sabor
macio e doce confortava
as árvores despidas. Esvaziado o cartucho
ficava no corpo a quentura
de um abraço materno
ou beijo enamorado.

Viene dall’infanzia
e da una città umida questo profumo
unico d’un carrettino dal colore neutro
avvolto nel fumo. Braci
nello scoppiettio dei gusci a scaldare
le nostre mani infreddolite. Il sapore
morbido e dolce confortava
gli alberi spogli. Svuotato il cartoccio
restava nel corpo il calore
d’un abbraccio materno
o d’un bacio appassionato.

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Andrew Wyeth
Caldarroste (1956)
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Reescrita


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Reescrita
Riscrittura


Fender os versos
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema cravar
o sabre rente às vísceras dos verbos,
à linfa de adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue. Romper
a velha epiderme.

Fendere i versi
con la lama implacabile del
tempo. Nell’ombelico della poesia affondare
la sciabola accosto alle viscere dei verbi,
alla linfa degli aggettivi. Sminuzzare
i muscoli dei sensi. Aprire
la rete viaria del sangue. Rompere
la vecchia epidermide.

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Anna Maria Maiolino
Senza titolo (2014)
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Quebra-luz


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Quebra-luz
Abat-jour


Desconfio dos poetas
que falam muito de luz, das
manhãs e das árvores
na sua obsessão hospedeira
de frutos e aves e
folhas. Desconfio dos que cantam
lareiras e vozes mansas, tentando
apaziguar o poema com a sua
indústria de incensos. Eles
encenam como velhos profetas
tardias formas de beleza
extinta - e fazem do verso
um ritual nado-morto
de pequenos afectos,
indiferentes à faca
incandescente que separa
o corpo das palavras
da substância do mundo.

Diffido dei poeti
che parlano molto di luce, di
mattinate e di alberi
nella loro affabile ossessione
per i frutti e gli uccelli e
le foglie. Diffido di quelli che declamano
caminetti e voci soavi, tentando
d’addolcire la poesia con la loro
industria d’incensi. Essi
inscenano come vecchi profeti
tardive forme di bellezza
estinta - e fanno del verso
un rituale nato morto
di piccoli affetti,
indifferenti al coltello
incandescente che separa
il corpo delle parole
dalla sostanza del mondo.

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Domenico Morelli
Gentiluomo recita una poesia a due dame (1872)
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Ícaro


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Ícaro
Icaro


Um cão pertence mais á Terra,
aos seus limites, até ao último
rio. Mas ao que vive na casa
em frente, foi dado este nome
volátil. Quando só, ele constrói,
como quase todos os cães,
aquele som agudo de sobrevoar
ausências, que faz do regresso
de qualquer lazarento dono,
o latido solar da alegria.

Un cane appartiene più alla Terra,
ai suoi confini, perfino all’ultimo
fiume. Ma a quello che vive nella casa
qui di fronte, è stato dato questo nome
volatile. Quand’è solo, lui emette,
come quasi tutti i cani,
quel suono acuto che sorvola
le assenze, che fa del ritorno
di qualunque esecrabile padrone,
un solare guaito di gioia.

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Keith Haring
Barking dog
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Desalinho


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Desalinho
Disordine


Nenhum destes poemas
fará parte de um livro
adoptado nas escolas. Há
muito tempo que não escrevo
azul mar e barcos ou outras
palavras para alívio de almas
homéricas.

Prefiro – ou preferem-me
aquelas como: desalinho
alinhavo ou logro ou outra
qualquer. Nunca o arremedo
de uma palavra única esgota
o muito ou nenhum sentido
de um verso.

Nessuna di queste poesie
farà parte di un libro
adottato nelle scuole. Da
molto tempo non scrivo
azzurro mare e barche o altre
parole di conforto per anime
omeriche.

Preferisco – o mi preferiscono
quelle come: disordine
canovaccio o frode o un’altra
qualsiasi. Mai l’imitazione
di una parola unica esaurisce
il molto o nullo significato
di un verso.

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Filippo Scroppo
Risonanze labirintiche (1982)
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As coisas que cessam


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As coisas que cessam
Le cose che cessano


Tanto desprezo
pelo que é transitório e finito. Não servirei
senhor que possa morrer. Mas passamos
a vida a amar todas as fragilidades
das coisas que cessam. Há
coisa mais breve do que um sorriso?
Coisa mais curta que a alegria
de um reencontro? Tudo o que amamos
é passageiro e frágil ou
as duas coisas. Mas persegue-nos
a nostalgia do infindável
como uma tara hereditária.

Tanto disprezzo
per ciò che è transitorio e finito. Non servirò
un signore che possa morire. Eppure passiamo
la vita ad amare tutte le fragilità
delle cose che cessano. Vi è
cosa più breve d’un sorriso?
Cosa più corta della gioia
di un rincontro? Tutto ciò che amiamo
è passeggero e fragile o
entrambe le cose. Ma ci perseguita
la nostalgia dell’infinito
come una tara ereditaria.

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Shepard Fairey
Birdsong Project (2022)
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Ária


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Ária
Aria


É belo o tempo de Inverno,
no silêncio, a lenha húmida
das maternas canções da chuva.
Na lentidão de Janeiro
fica mais longe a morte. As aves
habitam nos beirais
como príncipes destronados.

È bello il tempo d’inverno,
nel silenzio, la legna umida
delle materne canzoni della pioggia.
Nella lentezza di gennaio
più distante è la morte. Gli uccelli
abitano le grondaie
come principi senza trono.

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Claude Monet
La gazza (1868-1869)
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Anti-Éden


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Anti-Éden
Anti-Eden


A humidade deste
fim de Outubro é um regresso
à pátria. Enfim desaparecido
o ruído ritual dos dependentes
do estio, a vozearia
das esplanadas, as tripas
ao sul de hordas bronzeadas.
Gosto de roupa no corpo. Faz-me
falta essa carícia têxtil - antecâmara
do desejo de nudez - inventada
por feliz castigo à saída
do éden.

L’umidità di questa
fine d’ottobre è un ritorno
alla patria. Finalmente scomparso
lo strepito rituale degli estate-
dipendenti, lo schiamazzo
dei locali all’aperto, le trippe
esposte di orde abbronzate.
Amo gli abiti sul corpo. Mi manca
quella carezza tessile - anticamera
del desiderio di nudità - inventata
per felice castigo alla cacciata
dall’eden.

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Joaquin Sorolla
Dopo il bagno (1908)
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Anonymus


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Anonymus
Anonimo


Não me tragas um poema
de sentidos inócuos, nem engenharias gráficas a ocupar
a página. Afasta-te dos bons sentimentos, das
mansas paisagens com asas de permeio
ou brancas flores de salgueiro. Modela o barro
das palavras como um artesão anónimo
inventa a própria ferramenta
a ferir os dedos
na proximidade da pedra

E não incandesças no ludíbrio
do amor. Esse também pouco vale
mais que um mero espelho, se
a ti próprio procuras possuir ou vencer
em quem julgas amar

Nem me fales da luz dos deuses,
que já envelheceram
há milhares de galáxias
caídos na demência senil
e caídos nós nesta orfandade sem mistério

No dia paralelo ao
teu nascimento, decerto transporás
a porta das horas pela derradeira vez
ciente por fim da vacuidade
dos versos onde te escondeste.

Non portarmi una poesia
dai contenuti innocui, né elaborazioni grafiche per occupare
la pagina. Rigetta i buoni sentimenti, i
paesaggi soavi infarciti d’ali
o di bianchi fiori di salice. Modella la creta
delle parole come un anonimo artigiano
forgia i propri attrezzi
fino a ferirsi le dita
in prossimità della pietra

E non infiammarti nel ludibrio
dell’amore. Anch’esso vale poco
più che un mero specchio, se
tu cerchi di possedere o vincere te stesso
in colui che pensi di amare

E non parlarmi della luce degli dei,
che ormai sono invecchiati
da migliaia di galassie
precipitati nella demenza senile
e noi caduti quaggiù orfani senza mistero

Nel giorno parallelo a quello
della tua nascita, di certo varcherai
la porta delle ore per l’ultima volta
consapevole infine della vanità
dei versi nei quali ti sei nascosto.

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Gonçalo Mabunda
Sonho (2007)
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La Maja Desnuda


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Revista Eufeme - n. 13 (Outubro/Dezembro 2019) »»
 
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La Maja Desnuda
La Maja Desnuda


Ao fundo da sala olhava-me humana e natural
como teria olhado Goya com os braços nus erguidos
atrás da nuca. Todo o corpo
desvendado e sem sombras mitológicas
a esconder a penugem do púbis. Por essa ousadia
inaugural da arte do nu bramiram inquisições
e até outra tela com o nu vestido
cumulou a penitência do herético pintor para ocultar
o inicial desbragamento que permaneceu oculto
mais de um século. Hoje as duas
telas estão na mesma sala descobrindo
a incontáveis visitantes
a impotência das mordaças da Arte.

In fondo alla sala mi guardava umana e naturale
come avrà guardato Goya con le braccia nude sollevate
dietro la nuca. Tutto il corpo
esibito e senza ombre mitologiche
a nascondere la peluria del pube. Per questa impudenza
inaugurale dell’arte del nudo tuonarono le inquisizioni
e perfino l’altra tela con il nudo vestito
accrebbe la penitenza dell’eretico pittore per aver occultato
l’iniziale denudamento che rimase occulto
per più d’un secolo. Oggi le due
tele stanno nella medesima sala dimostrando
a innumerevoli visitatori
l’impotenza dei bavagli dell’Arte.

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Francisco Goya
La Maja desnuda (1797-1800)
La Maja vestida (1800-1805)
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Irmãos Karamazov


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Irmãos Karamazov
Fratelli Karamazov


Perguntava à menina da livraria
por estes irmãos, cujo nome
ela dedilhou no teclado
com óbvias letras erradas.
- É recente? — indagou
com uma prestável candura.
O eventual comprador parecia
não saber ao certo. Uma espécie
de desânimo atravessa-me os sentidos
na memória nostálgica
dos meus verãos adolescentes, falésias
de tardes febris com a pele
das páginas onde Aliocha e Ivan
ou Sónia e Raskolnikoff
iluminavam a culpa e o temor
que fatalmente já me pertenciam.

Chiedeva alla commessa della libreria
di quei fratelli, il cui nome
ella digitò sulla tastiera
ovviamente sbagliando le lettere.
- È recente? — s’informò
con servizievole candore.
L’occasionale acquirente pareva
non esserne sicuro. Una specie
di sconforto mi attraversa i sensi
al nostalgico ricordo
delle mie estati adolescenti, falesie
di sere febbrili con la pelle
delle pagine in cui Alyosha e Ivan
o Sonia e Raskolnikov
tratteggiavano la colpa e il terrore
che fatalmente già m’appartenevano.

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Leonid Pasternak
La vigilia dell'esame (1895)
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Ganhos - Perdas


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Ganhos - Perdas
Vincite - Perdite


Ganhar é quase sempre
um verbo obsceno. Porque para um vencedor
há sempre outro que perde a quem chamam
vencido. E assim a sábia Natureza
e as coisas que a habitam
estão provavelmente enganadas. Porque
uns se derrotam aos outros sendo
que alguns muito ganham e outros
muito perdem. Mas
os perdedores são sempre o sal da Terra.

Vincere è quasi sempre
un verbo osceno. Perché per ogni vincitore
c’è sempre un altro che perde che si chiama
vinto. E così la saggia Natura
e le cose che la abitano
probabilmente cadono in errore. Perché
gli uni si arrendono agli altri dato
che alcuni vincono molto e altri
perdono molto. Ma
i perdenti sono sempre il sale della Terra.

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Anselmo Bucci
Dietro i parapetti (1916)
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Disjuntiva


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Disjuntiva
Disgiuntiva


Ter um gato no colo ou
vestir uma criança mudar uma cama
de lavado ou fazer uma canção
é muito mais belo
do que carregar uma arma dar pontapés numa bola ou
pilotar um motor ruidoso. Só que há
pouca gente para dar por isso.

Tenere un gatto in grembo o
vestire un bambino cambiare la biancheria
a un letto o fare una canzone
è molto più bello
che caricare un’arma prendere a calci una palla o
pilotare un motore rumoroso. Solo che
poca gente se ne accorge.

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Kees van Dongen
Donna con gatto (1908)
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Balada dos Amores Difíceis


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Balada dos Amores Difíceis
Ballata degli amori difficili


Não me refiro aos trágicos: Romeu e Julieta
Tristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignorados
ícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine.
 Refiro-me
aos que se buscam sem saber nada
do fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas
 côncavos
e convexos se combinam cruzando genes e transitórios
tempos de vida enquanto povoam cidades, salas
de parto, comércios, indústrias, portais, geriatrias. E dos
 campos deixados
à exportação do vinho e dos litorais ainda com redes
e barcos cresce um ruído de formiga banal e curtida
de pequenos destinos. Esses são os grandes heróis
dos amores difíceis
que não ficam no poema.

Non mi riferisco a quelli tragici: Romeo e Giulietta
Tristano e Isotta, Pedro e Inês né a certe ignorate
icone come Yourcenar e Grace o Rimbaud e Verlaine.
 Mi riferisco
a quelli che si cercano senza sapere nulla
del fuoco che arde senza che si veda, dei canti orfici,
 ma concavi
e convessi si combinano incrociando geni e fugaci
tempi di vita mentre popolano città, sale
parto, commerci, industrie, portali, geriatrie. E dai campi
 lasciati
all’esportazione del vino e dai litorali, ancora tra reti
e barche, cresce un rumore di formica comune e indurita
da trascurabili destini. Sono questi i grandi eroi
degli amori difficili
che non compaiono nella poesia.

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Marc Chagall
Gli innamorati sotto il sole rosso (1960)
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A teia


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A teia
La tela


Sente ao descer as escadas
que um ténue filamento se rompe. Uma
aranha fabricara de noite alguns fios
finíssimos que não resistiram à
primeira passagem matutina. Assim
o início do movimento diurno
destrói toda uma noite de labuta
de qualquer pequeno insecto.

Avverti nel discendere le scale
che un tenue filamento si rompe. Un
ragno ha fabbricato di notte dei fili
finissimi che non han resistito al
primo passaggio mattutino. Così
l’inizio dei movimenti diurni
vanifica tutta una notte di fatica
di qualche piccola bestiola.

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Caspar David Friedrich
Sulle scale (1825)
...

Prado do Repouso


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Prado do Repouso
Prado do Repouso


Adoece os olhos este bric-à-brac marmóreo, os
esmaltes, as jarras, a caótica
cenografia dos jazigos, hoje
que todos garantem a sua última
propriedade horizontal. Habitamos
um corpo, tão fácil de ferir, túnica
de sangue, escudo de água, para
o fulgor da vida foi-nos dada
esta veste, não se sabe
para que perecível eternidade.

Fa male agli occhi questo ciarpame marmoreo, gli
smalti, le anfore, la caotica
scenografia dei sepolcri, oggi
che tutti si possono permettere l’ultima
proprietà orizzontale. Abitiamo
un corpo, tanto vulnerabile, tunica
di sangue, scudo d’acqua, per
far rifulgere la vita questa veste
ci fu data, non si sa
per quale effimera eternità.

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Rudolph Müller
Il cimitero protestante di Roma (1840 ca.)
...

Plenilúnio


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Plenilúnio
Plenilunio


O segundo olhar, uma espécie
de leitura nas vísceras
do primeiro, como os áugures
lêem no interior das aves
recém-imoladas. Fechamos os olhos
e acende-se melhor um rosto, um ângulo
incerto de janela, torres, arcos
de pontes cruzando o largo rio. Na
névoa hialina da distância
sob a pupila comungamos
o plenilúnio das imagens.

Il secondo sguardo, una specie
di lettura nelle viscere
del primo, come auguri
che leggono nelle interiora degli uccelli
appena immolati. Chiudiamo gli occhi
e meglio s’illumina un volto, una visuale
incerta dalla finestra, torri, arcate
di ponti lanciate sull’ampio fiume. Nella
bruma ialina della distanza
sotto la pupilla partecipiamo
al plenilunio delle immagini.

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Ogata Gekkō
Luna piena presso un ruscello (ca.1895)
...

Animais arrancados em redor


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Animais arrancados em redor
Animali decimati tutt’intorno


Para enterrar um corpo
quantas pequenas ervas
e escondidas larvas
são aniquiladas. O golpe
seco da pá desentranha os
mínimos seres, com
o rumor de um barco vazio
que ainda singra
contra a falésia.

Per sotterrare un corpo
quante piccole erbe
e recondite larve
vengono sterminate. Il colpo
secco della pala estirpa gli
esseri più minuscoli, con
il rumore d’una barca vuota
che sta facendo vela
contro la falesia.

________________

Frank C. Eckmair
Barche (1970)
...

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