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Fósseis


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Do Silêncio da Pedra (1996) »»

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Fósseis
Fossili


Salmões exaustos na busca da fonte,
suaves melusinas gemem nas escarpas,
peixes albinos bailam nas cavernas,
cavalos-marinhos imersos em sal e anil
ouçam o que o tambor das nuvens anuncia:
uma maré de lavas engolirá as águas
e todos vocês serão souvenirs para turistas.

Salmoni esausti in cerca della fonte,
soavi melusine gemono nei dirupi,
pesci albini ballano nelle caverne,
cavallucci marini immersi in sale e anile
odono ciò che il tamburo delle nuvole annuncia:
una marea di lava inghiottirà le acque
e voi tutti diverrete souvenirs per turisti.

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Fossile di pesce su argilla
Periodo eocene
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Fachada


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Fachada
Facciata


Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.

Presto all’uomo scadrà il termine
per costruire la sua facciata.
Ma lui va avanti sulle impalcature.
Provvisorio.
Esibisce travestimenti volubili.
La sua faccia incompleta,
sostenuta da strutture in ferro,
sembra nascondere che,
in tutti questi anni di lavoro,
sono state erette inutili piattaforme
per edificare un rudere.

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Salvador Dali
Soft self portrait with fried bacon (1941)
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Outra aurora


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Mundo Mudo (2003) »»
 
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Outra aurora
Un’altra aurora


Virá
virá a aurora.
  Não mais para mim.
O sereno se condensa
em gotas de água.
O besouro inicia
a lenta travessia do canteiro.
Alguém coa o primeiro café.
  Toda crispação do corpo chega ao fim.
Virá,
virá a aurora.
  Não mais para mim.

Verrà
verrà l’aurora.
  Ma non per me.
La rugiada si condensa
in gocce d’acqua.
Lo scarabeo inizia
la lenta traversata dell’aiuola.
Qualcuno si versa il primo caffè.
  Nel corpo vien meno ogni contrattura.
Verrà
verrà l’aurora.
  Ma non per me.

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Camille Pissarro
Contadina che beve il caffè (1881)
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Resposta


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Resposta
Risposta


Na infância, o que se grava na carne permanece.
O sentimento de humilhação por se sentir
  torto
  fraco
  desastrado
  quatro-olhos.

Aprende-se a viver inacabado,
a esconder, constrangido, o corpo
nas penumbras.

Como querer que o homem velho,
com sua parca energia já gasta,
mude o registro consolidado?
Como querer que ande horas sob o sol
e faça exercícios vigorosos
como se fora um ginasta?

Nell’infanzia, ciò che s’incide nella carne rimane.
Il senso d’umiliazione per sentirsi
  storto
  fiacco
  maldestro
  quattrocchi.

S’impara a vivere incompiuto,
a nascondere, per l’imbarazzo, il corpo
nella penombra.

Come pensare che l’uomo da vecchio,
con la sua scarsa energia già logora,
cambi il registro consolidato?
Come pensare che cammini per ore sotto il sole
e faccia energici esercizi
come se fosse un ginnasta?

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Alberto Giacometti
Uomo che inciampa (1950)
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Volta pra casa


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Volta pra casa
Ritorno a casa


seis da tarde. ulisses junta seus badulaques.
suas retinas colecionam despojos. sorvem dejetos.
engole prédios. ferocidade dos pombais. cadela com
costelas salientes, que derruba lixo das padarias.
picnic de mendigo entre sacos pretos de lixo.
música de rádio. cervejas sobre balcões de fórmica.
pano verde de mesa de bilhar. cusparadas de cachaça.
chuvinha fina. ovo podre do rio.
músculos em outdoors de academias.
ardem-lhe os pés. fogueira no estômago.
reconta as humilhações do dia. olha com os olhos
e lambe com a testa as luzes dos shoppings.
arquitetura de desejos nunca realizados.
(ele falou que antes de derrubarem o barraco,
vai levar todas as telhas de brasilit).
mixing de suor e desodorante barato.
lona de dióxido de carbono cobrindo a cidade.

sei di sera. ulisse raccoglie le sue cianfrusaglie.
le sue retine collezionano bottini. assorbono rifiuti.
ingoia edifici. ferocia delle piccionaie. cagna con
costole sporgenti, che ruba i rifiuti dei panifici.
picnic del mendicante tra sacchi neri d’immondizia.
musica di radio. birre sopra banconi di formica.
panno verde del tavolo da biliardo. scatarrate di cachaça.
pioggerella fine. uovo marcio del fiume.
muscoli nelle palestre outdoor.
i piedi in fiamme. bruciore di stomaco.
ripercorre le umiliazioni del giorno. guarda con gli occhi
e lecca con la fronte le luci degli shopping.
architettura di desideri mai realizzati.
(lui aveva detto che prima che demolissero la baracca,
si sarebbe preso tutte le tegole di fibrocemento).
mix di sudore e deodorante a buon prezzo.
tendone di biossido di carbonio che copre la città.

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Giorgio de Chirico
Il ritorno di Ulisse (1973)
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Simulacros


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Simulacros
Simulacri


  Para Christina Menezes de Azevedo

Senhoras e senhores, o circo já ergueu sua lona.
Vêm o prefeito, a beldade, as mulheres da zona.

Todos se divertem com o espetáculo do ilusório.
Está aberto o reino do precário e do provisório.

Rufam todos os tambores, abrem-se as cortinas.
Nossa trupe mambembe exibe suas dores e sinas.

A orquestra toca Bolero: o ritmo vai crescendo.
O fraque do maestro tem no braço um remendo.

Eis Crystal Kimberley, a rainha do strip-tease.
Saiu do sertão do Sergipe, de nome Wandernise.

A mulher-rã, contorcionista vinda do circo russo,
Depila pernas e sovacos, mas se esquece do buço.

Com vocês, uma feroz leoa da savana africana.
Barriga vazia, não come gato há uma semana.

A pássara Tatiana, trapezista bela e impávida,
Esconde do amante domador que está grávida.

Anaïs, índia guarani, que é exímia equilibrista,
Carece de vitaminas e de ir urgente ao dentista.

Alegria da criançada, o nosso palhaço Arrebita,
No trailer sujo, teve macarrão e ovo na marmita.

De noiva, vai-se casar uma anã, loira oxigenada.
Que graça! Puxam-lhe o vestido e ela corre pelada.

Aplausos para o salto mortal de sonho e pobreza.
Onde uns vêem o belo, outros enxergam a tristeza.

  Per Christina Menezes de Azevedo

Signore e signori, il circo ha montato il suo tendone.
Viene il prefetto, il bel mondo, le signore del rione.

Tutti si divertono con lo spettacolo dell’illusorio.
Si apre il regno del precario e del provvisorio.

Rullano tutti i tamburi, s’aprono i sipari.
La nostra troupe sbruffona esibisce i suoi dolori.

L’orchestra suona il Bolero: il ritmo va crescendo.
Il frac del maestro sulla manica ha un rammendo.

Ecco Crystal Kimberley, la regina dello strip-tease.
Arriva dal sertão del Sergipe, col nome di Wandernise.

La donna-rana, contorsionista giunta dal circo russo,
Depila gambe e ascelle, ma si dimentica il baffo.

Ecco a voi, una feroce leonessa della savana africana.
Pancia vuota, non mangia gatti da una settimana.

La gigolette Tatiana, trapezista bella e impavida,
Nasconde all’amante domatore d’esser gravida.

Anaïs, india guarani, che è un’ottima equilibrista,
È carente di vitamine e necessita subito del dentista.

Per la gioia dei più piccini, il pagliaccio Arrebita,
Nel vecchio caravan, ha pasta all’uovo nella pignatta.

Sta per sposarsi una nana, bionda ossigenata.
Che risate! Le tirano il vestito e lei scappa svestita.

Applausi per il salto mortale di sogno e indigenza.
Quel che certi trovano bello, per altri è solo tristezza.

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Sigmar Polke
Zirkusfiguren (2006)
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Roedor


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Roedor
Roditore


Parado no trânsito da Marginal,
vi você roendo as unhas com fúria.
Estava encostado no poste da esquina,
ombros arqueados numa posição frouxa.
Você cuspia os tocos das unhas.
Arrancava lascas de carne dos dedos
e, depois, sugava o sangue dos cantos.
Ah, que triste figura você fazia, amigo!
Você era pouco mais que um rato.

Bloccato in un ingorgo sulla Marginal,
t’ho visto che rosicchiavi le unghie con furia.
Stavi appoggiato al palo dell’angolo,
con le spalle ricurve in una posizione fiacca.
Sputavi le schegge delle unghie.
Strappavi lembi di pelle dalle dita
e, poi, risucchiavi il sangue dai margini.
Ah, che figura infelice facevi, amico!
Parevi poco più d’un topo.

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Katharina Fritsch
Il re dei topi (1993)
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Retrato de artista


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Retrato de artista
Ritratto d’artista


Que Deus lhe dê uma raiz bem funda,
para que não o balance o vento das cidades.
Que, para onde quer que vá,
corra ao seu lado o rio de sua aldeia.
Que vagueie exilado,
de cidade em cidade,
de emprego em emprego,
experimentando o gosto do provisório.
Que sua mulher despreze sua obra,
o pai morra sem sua visita
e a filha fique esquizofrênica.
Que lhe caiam os dentes
e lhe cheguem as dores, as colites, úlceras.
Que o ceguem em doze prestações.
Que você sugue dos amigos a alma,
a cultura, as histórias, o bolso
e lhes dê em troca
desprezo e indiferença.
Que colecione despejos,
os proprietários lhe virem o rosto
e os credores batam à sua porta.
Que você se tenha em alta conta,
embora seus sapatos estejam furados
e o presenteiem com roupas usadas.
Que você seja sustentado
pela filantropia de milionárias.
Que gaste em vinho o salário do irmão
e caia na calçada, sangre e precise de ajuda.
Que o atormentem a ânsia, remorsos, trovões.
Que você tenha olhos só para si.
Que mendigue a atenção dos jornais,
busque em vão por críticas e resenhas,
espere horas em saletas de editoras
e cobre elogios de quem chega.
Que de sua pele tão fina,
nasça uma carapaça anti-humana,
ovo com casca de aço,
onde baila em clara
a tenra e frágil gema.

Che Dio ti dia una radice tenace,
perché non ti sbilanci il vento delle città.
Che, ovunque tu vada,
ti scorra accanto il fiume del tuo paese.
Che vagabondi esule,
di città in città,
di lavoro in lavoro,
sperimentando il sapore del provvisorio.
Che la tua donna disprezzi la tua opera,
muoia tuo padre senza una tua visita
e tua figlia diventi schizofrenica.
Che ti cadano i denti
e ti colpiscano dolori, coliti, ulcere.
Che t’abbaglino in dodici rate.
Che degli amici tu assorba l’anima,
la cultura, le storie, le tasche
e dia loro in cambio
disprezzo e indifferenza.
Che tu possa collezionare sfratti,
i proprietari ti voltino la faccia
e i creditori bussino alla tua porta.
Che tu abbia un’alta considerazione di te,
anche se le tue scarpe sono rotte
e ti vengono regalati vestiti usati.
Che tu sia finanziato
da benefattrici milionarie.
Che sperperi in vino il salario del fratello
e cada per la strada, ti ferisca e ti serva aiuto.
Che ti tormentino l’ansia, i rimorsi, i tuoni.
Che tu non abbia occhi che per te.
Che elemosini l’attenzione dei giornali,
e vada inutilmente in cerca di critiche e recensioni,
aspetti per ore in salette di editori
e pretenda gli elogi di quelli che arrivano.
Che sulla tua pelle tanto delicata,
si formi un carapace disumano,
uovo con guscio d’acciaio,
nel cui albume danza
la tenera e fragile gemma.

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Vincent van Gogh
Autoritratto (1887)
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Anjo exterminador


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O Antipássaro (2018) »»
 
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Anjo exterminador
Angelo sterminatore


  para Waly Salomão
 
Não me venha
com essa conversa
de anjo da anunciação.
Você vai enfrentar
um anjo exterminador.
Tateie na caverna
e encontre na sombra
esse predador ancestral
com asas de galo-índio –
pronto para golpear a presa.
Ele crava as esporas
no peito do adversário
e lhe retalha as carnes.
Com o bico,
fura os olhos.
Louco por sangue
quer o gosto da agonia.
Esqueça os versos
que os poetas sussurram
em seu ouvido.
São traidores –
anjos enganadores.
Têm-lhe ódio
quando dizem
morrer de amores.
Negam a si mesmos.
Negam os amigos.
Só têm as palavras
como seus abrigos.

  per Waly Salomão
 
Non venirmi fuori
con questa storia
dell’angelo dell’annunciazione.
Tu affronterai
un angelo sterminatore.
Tasta nella caverna
e trova nell’ombra
questo predatore ancestrale
con ali di gallo indio –
pronto a colpire la preda.
Conficca i suoi speroni
nel petto dell’avversario
e gli trafigge le carni.
Con il becco,
fora gli occhi.
Assetato di sangue
cerca il sapore dell’agonia.
Dimentica i versi
che i poeti ti sussurrano
all’orecchio.
Sono traditori –
angeli impostori.
Odiali
quando dicono
di morir d’amore.
Rinnegano se stessi.
Rinnegano gli amici.
Non hanno che parole
come rifugio.

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Mario Ceroli
L'annunciazione dell'Angelo Sterminatore (1999)
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Fora de linha


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Fora de linha
Fuori produzione


  para Antônio Nóbrega

Os homens obsoletos foram dispensados
como candidatos a recrutas, por excesso de contingente.
Os homens obsoletos vagam qual zumbis
em praças, parques e estações de metrô.
Os homens obsoletos alimentam-se de jornais
e engordam nos sofás diante da televisão.
Os homens obsoletos cumpriram as exigências:
faculdade, inglês e cursos de pós-graduação.
Os homens obsoletos mantiveram-se jovens
com dietas, ginástica e oficinas de auto-estima.
Os homens obsoletos tiveram bloqueados
seus crachás, suas senhas e cartões de crédito.
Os pais não querem os homens obsoletos.
— Ah, quanto dinheiro investido em sua educação!
Os amantes não querem amar os homens obsoletos
porque estes têm a pele com gosto de ferrugem.
O mercado não absorve os homens obsoletos,
pois não existe demanda para a exportação.
Não há como reciclá-los para que se encaixem
nos mutáveis programas de reengenharia.
Terapeutas recomendam aos homens obsoletos
que ocupem o tempo ocioso nos museus e galerias,
nas paróquias ou mesmo em clubes de filatelia.
Os homens obsoletos caíram em desuso
como os chapéus, as galochas e o jogo de bilboquê.

  per Antônio Nóbrega

Gli uomini obsoleti sono stati esonerati
dal servizio militare, per eccesso di contingente.
Gli uomini obsoleti vagano come zombi
nelle piazze, nei parchi e nelle stazioni del metrò.
Gli uomini obsoleti si alimentano di giornali
e ingrassano sui divani davanti alla televisione.
Gli uomini obsoleti hanno soddisfatto le richieste:
università, inglese e corsi di specializzazione post laurea.
Gli uomini obsoleti si sono mantenuti giovani
con diete, ginnastica e laboratori di autostima.
Gli uomini obsoleti si sono visti bloccare
i loro badge, le loro password e le carte di credito.
I genitori non vogliono gli uomini obsoleti.
— Ah, quanto denaro investito nella loro educazione!
Gli amanti non vogliono amare gli uomini obsoleti
perché hanno la pelle che sa di ruggine.
Il mercato non assorbe gli uomini obsoleti,
perché non c’è domanda per la loro esportazione.
Non c’è modo di riciclarli per far sì che s’incastrino
nei mutevoli programmi di ristrutturazione.
I terapeuti raccomandano agli uomini obsoleti
di occupare il tempo libero nei musei e nelle gallerie,
nelle parrocchie o anche nei circoli di filatelia.
Gli uomini obsoleti sono caduti in disuso
come i cappelli, le calosce e il gioco del bilboquet.

________________

Gregorio Sciltian
Il filatelico (1947)
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O asfalto, enfim


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O asfalto, enfim
L’asfalto, alla fine


Se toda morte é descida,
a morte mais dolorida
é aquela com o corpo
varado de balas
debruçado
sobre o carrinho de construção
que desce as valas da favela.
Morte de cabeça para baixo
como deveria ter sido a vida
inteira
do moleque teimoso
que à força da bala
quis levantá-la do chão.

Se ogni morte è discesa,
la morte più dolorosa
è quella del corpo
colpito dalle pallottole
ribaltato
sopra la carriola del cantiere
che scende lungo gli scarichi della favela.
Morte a testa in giù
come sarà stata la vita
intera
di quel monello ostinato
che a forza di pallottole
ha voluto sollevarla da terra.

________________

Georg Baselitz
Heiße Ecke (1987)
...

Mapa


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Mapa
Mappa


ama o inominado
     o perecível
     o particular
a coleção de cacos de louça
os arreios e os antolhos das mulas
a caixa de ferramentas do avô
o cavalo baio com o olho cego
a luz do sol sobre as encostas
a dureza das macaúbas

nomeia as coisas que pedem
o nascimento pela palavra
escrita que se transforma
em outra escrita
          geografia de migalhas
dicionário pessoal de falas
ditas na labuta concreta
sem reconstituir um mundo
cuida de um retalho:
o fragmento pelo todo
senhor de restolhos e rebotalhos
inventário de perdas
rol de inutilidades
vasos vazios e quebrados

sem esperança sem consolo,
com a paciência de um boi
segue tua trilha de erros:
rastro de palavras
marcas da passagem
serpentear de frases
mapas de dor e descontentamento.

ama l’innominato
          l’effimero
          il singolare
la collezione di cocci di stoviglie
i finimenti e i paraocchi delle mule
la cassetta degli attrezzi del nonno
il cavallo baio cieco da un’occhio
la luce del sole sui declivi
la durezza delle palme panciute.

dà un nome alle cose che chiedono
di nascere attraverso la parola
scrittura che si trasforma
in altra scrittura
          geografia di briciole
dizionario personale di espressioni
dette nella fatica concreta
senza ricomporre un mondo
cura di un dettaglio:
il frammento per il tutto
signore di residui e rimanenze
inventario di perdite
lista di inutilità
vasi vuoti e infranti

senza speranza senza consolazione
con la pazienza d’un bue
segui il tuo percorso di errori
tracce di parole
orme del passaggio
serpeggiare di frasi
mappe di dolore e di tormento.

________________

Maurice Green
The Broken Vase (1979)
...

Night windows


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Night windows
Night windows


O quarto está deserto.
Uma das janelas está aberta.
O vento suga a cortina branca para fora da casa.
Alguém está por um fio.
Alguém aposta sua última ficha.
Um corpo cairá no negrume da noite.

La stanza è deserta.
Una delle finestre è aperta.
Il vento aspira la bianca cortina fuori dalla casa.
Qualcuno sta sospeso ad un filo.
Qualcuno punta la sua ultima fiche.
Un corpo cadrà nel buio della notte.

________________

Bram van Velde
La follia del giorno (1973)
...

Depreciação


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Depreciação
Svalorizzazione


De hoje em diante
não irás ganhar o pão
com o suor do teu rosto.
Não precisarás mais de rosto.
Nem de suor.
Nem de um corpo.
De hoje em diante
a máquina imperfeita
dos teus músculos
será mais um objeto
em desuso.

D’ora in avanti
non ti guadagnerai il pane
col sudore della fronte.
Non ti servirà più la fronte.
Né il sudore.
Né un corpo.
D’ora in avanti
la macchina imperfetta
dei tuoi muscoli
sarà solo un altro oggetto
obsoleto.

________________

Cândido Portinari
Operaio (1947)
...

Os nomes


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Os nomes
I nomi


Quisera, agora,
repartir com você
todos os trabalhos
e os dias.
     Sei — e como dói
     só o saber nesta hora —
os nomes que me confundiam
quando a cabeça
estava mergulhada em livros.
     O alicate
     A torquês
     A chave de fenda
     A lima
     A máquina
     para esticar
     arame farpado
Quisera retirar do paiol
todas as ferramentas.
     O alfanje
     A enxada
     A foice
     A cavadeira
     O enxadão
     O serrote
     O cepilho
Quisera ser de novo
o filho que engraxaria
os seus sapatos
e os deixaria
na escada do alpendre
sob o sol da manhã.
Escovados,
lustrosos
para a missa de domingo.

Vorrei, adesso,
condividere con te
tutte le opere
e i giorni.
     So — e come fa male
     saperli soltanto ora —
i nomi che mi distraevano
quando la mia testa
era affondata nei libri.
     La pinza
     La tenaglia
     Il cacciavite
     La lima
     Il telaio
     per svolgere
     il filo spinato
Vorrei tirar fuori dal capanno
tutti gli attrezzi.
     La falce
     La zappa
     Il falcetto
     La trivella
     La vanga
     La sega
     La pialla
Vorrei esser di nuovo
il figlio che lustra
le sue scarpe
e le lascia
sulla scala della veranda
sotto il sole del mattino.
Spazzolate,
lucide
per la messa della domenica.

________________

Jean François Millet
L'uomo con la zappa (1860-1862)
...

O sacrifício


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O sacrifício
Il sacrificio


Ouve o barulho das chaves.
Ouve o barulho das portas.
Ouve o sapateado
dos emissários da escuridão.

Cento e sete passos
     e um baque.
Cento e sete passos
     e o silêncio.
Cento e sete passos
     e seus pés
          pensos
               sobre o vazio.

Sente il rumore delle chiavi.
Sente il rumore delle porte.
Sente il ticchettio dei passi
degli emissari dell’oscurità.

Centosette passi
     e un tonfo.
Centosette passi
     e il silenzio.
Centosette passi
     e i suoi piedi
          sospesi
               sul vuoto.

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Henri de Toulouse-Lautrec
L'impiccato (1891)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (364) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (16) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)