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O menino que ganhou um rio


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O menino que ganhou um rio
Il bambino che ricevette un fiume


Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia
o que me presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam
naquele lugar esquecido.
Se o mascate passasse a minha mãe compraria
rapadura
Ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe me
deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de casa.
Eu estimei o presente mais do que fosse uma
rapadura do mascate.
Meu irmão ficou magoado porque ele gostava
do rio igual aos outros.
A mãe prometeu que no aniversário do meu
irmão
Ela iria dar uma árvore para ele.
Uma que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera ao
meu irmão
E achei legal.
Os pássaros ficavam durante o dia nas margens
do meu rio
E de noite eles iriam dormir na árvore do
meu irmão.
Meu irmão me provocava assim: a minha árvore
deu flores lindas em setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava
piraputanga.
Era verdade, mas o que nos unia demais eram
os banhos nus no rio entre pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!

La mia mamma mi regalò un fiume.
Era il giorno del mio compleanno e lei non sapeva
che cosa regalarmi.
Era da tempo che gli ambulanti non passavano
da quel posto dimenticato.
Se fosse passato l’ambulante la mia mamma
m’avrebbe comprato la panela
O dei biscottini in regalo.
Ma dato che l’ambulante non passava, la mia mamma
mi regalò un fiume.
Era lo stesso fiume che passava dietro casa.
Io gradii quel regalo più che se fosse una
panela dell’ambulante.
Mio fratello se la prese a male perché anche a lui
piaceva quel fiume.
La mamma promise che per il compleanno di mio
fratello
Gli avrebbe regalato un albero.
Uno tutto coperto di uccellini.
Io sentii la promessa che la mamma aveva fatto a
mio fratello
E ne fui contento.
Gli uccelli durante il giorno stavano sulle rive
del mio fiume
E di notte sarebbero andati a dormire sull’albero di
mio fratello.
Mio fratello mi provocava così: il mio albero
ha dato dei bei fiori a settembre.
E il tuo fiume non dà fiori!
Io risposi che il suo albero non dava
piraputanga.
Era vero, ma quel che più ci univa era
fare il bagno nudi nel fiume tra gli uccelli.
In questo la nostra vita era una delizia!

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Jean-Michel Folon
La Cappella Folon a Saint-Paul de Vence (affresco) (2004)
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Soberania


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Soberania
Superiorità


Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

Quel giorno, nel mezzo della cena, io raccontai che
avevo tentato d’afferrare il sedere del vento — ma la coda
del vento era molto scivolosa e non ero riuscito
a prenderlo. Avevo sette anni. La mamma mi fece un sorriso
affettuoso e non disse nulla. I miei fratelli
scoppiarono a ridere canzonandomi. Il papà si preoccupò
e disse che avevo un delirio d’immaginazione.
Ma che questi deliri sarebbero finiti con lo studio.
E mi mandò a studiare sui libri. Io andai. E lessi subito
alcuni tomi conservati nella biblioteca della Scuola.
E mi decisi di andare avanti a studiare. Appresi la teoria
delle idee e della ragion pura. Approfondii i filosofi
e mi spinsi perfino agli eruditi. Agli uomini di grande
sapere. Ritenni che gli eruditi nelle loro sublimi
astrazioni trascuravano le cose semplici della
terra. Fu allora che incontrai Einstein (proprio lui
— Albert Einstein). Che m’insegnò questa frase:
L’immaginazione è più importante del sapere.
Rimasi infervorato! E feci un giochino. Introdussi
un po’ d’innocenza nell’erudizione. Funzionò. Il mio
occhio ricominciò a vedere le umili cose della
terra spruzzate di rugiada. E vidi le farfalle. E
meditai sulle farfalle. Vidi che loro padroneggiano
la massima levità senz’aver bisogno d’alcun motore nel
corpo. (Questa è l’ingegneria di Dio!) E vidi che erano
in grado di posarsi sui fiori e sulle pietre senza ferirsi
le ali. E vidi che l’uomo non ha neppure la capacità
d’essere un uccellino come il bentevi.

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José Francisco Borges
Bentivi (1965)
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Sobre importâncias


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Sobre importâncias
Sulle cose importanti


Um fotógrafo-artista me disse outra vez: Veja
que pingo de sol no couro de um lagarto é
para nós mais importante do que o sol inteiro
no corpo do mar. Falou mais: que a importância
de uma coisa não se mede com fita métrica nem
com balanças nem com barômetros etc. Que a
importância de uma coisa há que ser medida
pelo encantamento que a coisa produza em nós.
Assim um passarinho nas mãos de uma criança
é mais importante para ela do que a Cordilheira
dos Andes. Que um osso é mais importante para
o cachorro do que uma pedra de diamante. E
um dente de macaco da era terciária é mais
importante para os arqueólogos do que a
Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!)
Que uma boneca de trapos que abre e fecha os
olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais
importante para ela do que o Empire State
Building. Que o cu de uma formiga é mais
importante para o poeta do que uma Usina Nuclear.
Sem precisar medir o ânus da formiga. Que o
canto das águas e das rãs nas pedras é mais
importante para os músicos do que os ruídos
dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim
de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é
 um defeito do
olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do
corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por
tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto
mais de conversar sobre restos de comida com
as moscas do que com homens doutos.

Un artista fotografo mi disse una volta: Nota
che una goccia di sole sulla pelle di una lucertola
per noi è più importante dell’intero sole
sopra la massa del mare. Disse ancora: che l’importanza
di una cosa non si misura col metro a nastro né
con bilance né con barometri ecc. Che
l’importanza di una cosa dev’esser misurata
con l’incanto che la cosa produce in noi.
Così un uccellino tra le mani d’un bambino
è più importante per lui della Cordigliera
delle Ande. Che un osso è più importante per
il cane di una gemma di diamante. E
un dente di scimmia dell’era terziaria è più
importante per gli archeologi della
Torre Eiffel. (Nota, un solo dente di scimmia!)
Che una bambola di cenci che apre e chiude gli
occhietti azzurri tra le mani di una bimba è più
importante per lei dell’Empire State
Building. Che il culo d’una formica è più
importante per il poeta di una Centrale Nucleare.
Senza bisogno di misurare l’ano della formica. Che il
canto dell’acqua e delle rane sui sassi è più
importante per i musicisti del frastuono
dei motori della Formula 1. C’è un eccesso in me
nell’accettare queste misure. Ma non so se si tratti
 d’un difetto
dell’occhio o della ragione. Se sia un difetto dell’anima o del
corpo. Se mi sottoponessero a qualche esame mentale per
queste affermazioni, troverebbero che a me piace
di più conversare degli avanzi di cibo con
le mosche piuttosto che con uomini dotti.

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Xavier Bueno
Bambina con bambola (1971)
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Aprendimentos


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Aprendimentos
Cose imparate


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é
o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha
as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de
ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou
por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles –
esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se
aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra
mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

Il filosofo Kierkegaard m’insegnò che cultura è
il percorso che l’uomo compie per conoscersi.
Socrate fece il suo percorso di cultura e alla fine
affermò di sapere soltanto di non sapere niente. Non aveva
certezze scientifiche. Ma aveva appreso cose
infinitesimali dalla natura. Aveva appreso che le foglie
degli alberi servono per insegnarci a cadere senza
clamori. Disse che gli sarebbe piaciuto d'esser stato
una chiocciola cresciuta sui sassi. Che avrebbe
di certo imparato l’idioma che le rane usano con l’acqua
e avrebbe conversato con le rane. E che gli piaceva
insegnare che c’è più vitalità tra gli insetti
che nei quadri. Il suo volto ricordava un po’
un uccello. Perciò egli conosceva a memoria i canti
di tutti gli uccelli del mondo. Aveva studiato
fin troppo sui libri. Però aveva appreso di più con la vista,
con l’udito, col tatto, col gusto e con l’olfatto. Riuscì
talvolta ad esprimersi con l’accento delle origini.
Si meravigliava di come un solo grillo, un unico piccolo
grillo, potesse smantellare i silenzi di una notte!
Io vissi un tempo con Socrate, Platone, Aristotele –
una compagnia così. Loro tenevano lezioni: Chi fa
ritorno alle origini si rinnova. Pindaro mi diceva
che usava tutti i fossili linguistici che trovava
per rinnovare la sua poesia. I maestri insegnavano
che il fascino poetico proviene dalle radici della parola.
Socrate diceva che le espressioni più erotiche
sono donzelle. E che la Bellezza si può spiegare meglio
perché non contiene nulla di razionale. Quel che altro so
di Socrate, è che egli visse un’ascesi di mosca.

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Pietro Bellotti
Il filosofo Socrate (1650 ca.)
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Parrrede!


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Parrrede!
Parrete!


Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
— Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede
 e decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima
 de Vieira.
— Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
 de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
 embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meus Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
 E fiz de montão.
— Corumbá, no parrrede! Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato. Decorei
 e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases. Gostar
 quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário. Ficar
 no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
 das paredes.

Quando studiavo in collegio, come interno,
Io commettevo il peccato solitario.
Un prete mi beccò mentre lo facevo.
— Corrumbá, alla parrete!
Per castigo dovevo stare in piedi davanti a una parete
 e studiare a memoria 50 righe di un libro.
Il prete mi diede da imparare il Sermone della Domenica
 di Sessagesima di Vieira.
— Studiarre a memoria 50 righe, insistette il prete.
Quel che avevo letto sinora in quel collegio erano romanzi
 d’avventura, mal tradotti e assai noiosi.
Leggendo e studiando a memoria 50 righe della Sessagesima
 rimasi ammaliato.
E lessi l’intero Sermone.
Mio Dio, adesso avrei dovuto commettere più spesso
 il peccato solitario! E ne feci un mucchio.
— Corrumbá, alla parrete! Era il gaudio.
Io andavo estasiato alla parete.
Un’altra volta il prete mi diede il Sermone del Mandato.
 Lo studiai a memoria e lessi tutto il libro, esaltato.
Imparai ad apprezzare l’equilibrio sonoro delle frasi.
 Mi piaceva addirittura il profumo delle lettere.
M’indebolii dal tanto commettere il peccato solitario.
 Starmene alla parrete era un gaudio.
Presi un flacone di ricostituente e mi rimisi in forze.
In quel tempo imparai anche ad ascoltare il silenzio
 delle pareti.

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Francesc Domingo i Segura
Ragazzo che legge (1933)
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O apanhador de desperdícios


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O apanhador de desperdícios
Il raccoglitore di scarti


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Uso la parola per redigere i miei silenzi.
Non mi piacciono le parole
già stufe d’informare.
Porto più rispetto
a quelle che vivono pancia a terra
tipo acqua sasso rospo.
Intendo bene la pronuncia delle acque.
Porto rispetto alle cose insignificanti
e agli esseri insignificanti.
Apprezzo più gli insetti degli aerei.
Apprezzo la velocità
delle tartarughe più di quella dei missili.
C’è in me questa lentezza dalla nascita.
Sono stato predisposto
per voler bene agli uccellini.
Ho la vocazione per gioire di questo.
Il mio cortile è più vasto del mondo.
Sono un raccoglitore di scarti:
Amo gli avanzi
come le brave mosche.
Vorrei che la mia voce avesse il timbro del canto.
Perché io non sono uno da informatica:
io sono uno da inventistica.
Uso la parola solo per redigere i miei silenzi.

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Vik Muniz
Waste Land (2008)
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Brincadeiras


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Brincadeiras
Passatempi


No quintal a gente gostava de brincar com palavras
mais do que de bicicleta.
Principalmente porque ninguém possuia bicicleta.
A gente brincava de palavras descomparadas. Tipo assim:
O céu tem três letras
O sol tem três letras
O inseto é maior.
O que parecia um despropósito
Para nós não era despropósito.
Porque o inseto tem seis letras e o sol só tem três
Logo o inseto é maior. (Aqui entrava a lógica?)
Meu irmão que era estudado falou quê lógica quê nada
Isso é um sofisma. A gente boiou no sofisma.
Ele disse que sofisma é risco n’água. Entendemos tudo.
Depois Cipriano falou:
Mais alto do que eu só Deus e os passarinhos.
A dúvida era saber se Deus também avoava
Ou se Ele está em toda parte como a mãe ensinava.
Cipriano era um indiozinho guató que aparecia no
quintal, nosso amigo. Ele obedecia a desordem.
Nisso apareceu meu avô.
Ele estava diferente e até jovial.
Contou-nos que tinha trocado o Ocaso dele por
 duas andorinhas.
A gente ficou admirado daquela troca.
Mas não chegamos a ver as andorinhas.
Outro dia a gente destampamos a cabeça de
Cipriano. Lá dentro só tinha árvore árvore árvore
Nenhuma idéia sequer.
Falaram que ele tinha predominâncias vegetais do
 que platônicas.
Isso era.

Nel cortile ci piaceva giocare con le parole
più che con la bicicletta.
Soprattutto perché nessuno possedeva una bicicletta.
Noi giocavamo a parole scombinate. Una cosa così:
Il cielo ha cinque lettere
Il sole ha quattro lettere
L’insetto è più grande.
Quel che sembrava uno sproposito
Per noi non era uno sproposito.
Perché l’insetto ha sette lettere e il sole ne ha solo quattro
Dunque l’insetto è più grande. (C’entrava la logica qui?)
Mio fratello che era istruito disse né logica né niente.
Questo è un sofisma. Noi ci arenammo sul sofisma.
Egli disse che sofisma è un solco sull’acqua. Fu tutto chiaro.
Poi parlò Cipriano:
Più in alto di me c’è solo Dio e gli uccellini.
Il dubbio era sapere se anche Dio volava
O se Egli era in ogni luogo come c’insegnava la mamma.
Cipriano era un piccolo indio guató che frequentava il
cortile, era nostro amico e ubbidiva al disordine.
A quel punto ci apparve mio nonno.
Era diverso e perfino gioviale.
Ci raccontò che aveva scambiato il suo Tramonto con
 due rondini.
Quello scambio suscitò la nostra ammirazione.
Ma non riuscimmo a vedere le rondini.
L’altro giorno scoperchiammo la testa di
Cipriano. Là dentro non c’erano che alberi alberi alberi
Neppure un’idea.
Si disse che in lui c’era una predominanza vegetale piuttosto
 che platonica.
Proprio così.

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Cândico Portinari
Bambino con aquilone (1954)
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Se achante


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Se achante
Altezzoso


Era um caranguejo muito se achante.
Ele se achava idôneo para flor.
Passava por nossa casa
Sem nem olhar de lado.
Parece que estava montado num coche
de princesa.
Ia bem devagar
Conforme o protocolo
A fim de receber aplausos.
Muito achante demais.
Nem parou para comer goiaba.
(Acho que quem anda de coche não come goiaba.)
Ia como se fosse tomar posse de deputado.
Mas o coche quebrou
E o caranguejo voltou a ser idôneo para
mangue.

Era un granchio molto altezzoso.
Pensava d’essere all’altezza d’un fiore.
Passava dinanzi alla nostra casa
E neppure ci degnava d’uno sguardo.
Pareva che stesse sopra una carrozza
di principessa.
Incedeva molto adagio
Come da protocollo
Per ottenere applausi.
Davvero troppo altezzoso.
Neanche si fermò per mangiare la guaiava.
(Suppongo che chi va in carrozza non mangi la guaiava.)
Avanzava come se stesse per diventare deputato.
Ma la carrozza si spezzò
E il granchio tornò a essere all’altezza
dello stagno.

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Wanjidari (arte aborigena)
Granchio sognante (2007)
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Os dois


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Os dois
I due


Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens,
Como diria Paul Valéry.
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades e frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.

Io sono due creature.
La prima è frutto dell'amore di João e Alice.
La seconda é letterale:
È frutto d’una natura che pensa per immagini,
Come direbbe Paul Valéry.
La prima è qui, con unghie, vestiti, cappello e vanità.
La seconda è qui, con lettere, sillabe, vanità e frasi.
E accettiamo che tu usi il tuo amore con noi.

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Rogério Coelho
Ritratto di Manoel (2012)
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O pêssego


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O pêssego
La pesca


Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava em
orgasmo. Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.

Proust
Al solo udire la voce di Albertine entrava in
orgasmo. Si dice che:
Lo sguardo del voyeur abbia i requisiti del fallo
(possiede ciò che vede).
Ma é col tatto
Che la fonte d’amore s’apre.
É palpando che si schiude la gemma.
Il tatto è più che vedere
É più che sentire
É più che odorare.
É col bacio che si edifica l’amore.
É nel calore della bocca
Che l’allarme della carne urla.
E si apre dolcemente
Come una pesca di Dio.

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Paul Gauguin
Natura morta con pesche (1897)
...

O copo


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O copo
Il bicchiere


Estava o jacaré na beira do brejo
tomando um copo de sol.
Foi o menino
E tascou um pedra
No olho do jacaré.
O bicho soltou três urros
E quebrou o silêncio do lugar.
Os cacos do silêncio ficaram espalhados
na praia.
O copo de sol não rachou nem.

Stava l’alligatore in riva alla palude
bevendo un bicchier di sole.
Il ragazzo andò lì
E lanciò un sasso
Nell’occhio dell’alligatore.
L’animale emise tre ruggiti
E infranse il silenzio del luogo.
I cocci di silenzio si sparpagliarono
sulla spiaggia.
Il bicchiere di sole neppure s’incrinò.

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Wander Melo
Alligatore all'attacco (2014)
...

Garça


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Garça
Airone


A palavra garça em meu perceber é bela.
Não seja só pela elegância da ave.
Há também a beleza letral.
O corpo sônico da palavra
E o corpo níveo da ave
Se comungam.
Não sei se passo por tantã dizendo isso.
Olhando a garça-ave e a palavra garça
Sofro uma espécie de encantamento poético.

La parola airone a mio modo di sentire è bella.
Non solamente per l’eleganza dell’uccello.
C’è anche la bellezza letterale.
Il corpo sonoro della parola
E il corpo niveo dell’uccello
Si armonizzano.
Non so se dicendo questo passo per grullo.
Guardando l’airone uccello e la parola airone
Mi coglie una specie d’incantamento poetico.

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Ohara Koson
Due aironi in volo nella pioggia (1930 ca.)
...

Poema


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Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001) »»
 
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Poema
Poesia


A poesia está guardada nas palavras — é tudo que
eu sei.
Meu fado é de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

La poesia è racchiusa nelle parole — è tutto quel
che so.
È mio destino non saper quasi tutto.
Del nulla io ho conoscenze profonde.
Non ho connessioni con la realtà.
Portentoso per me non è chi scopre oro.
Per me portentoso è colui che scopre le
insignificanze (del mondo e le nostre).
Per questa piccola massima fui elogiato come imbecille.
Ne fui commosso e piansi.
Ho un debole per gli elogi.

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Fausto Melotti
Rondò delle idee galanti (1981)
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O catador


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Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001) »»
 
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O catador
Il raccoglitore


Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
 pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

Un uomo raccoglieva chiodi per terra.
Li trovava sempre sdraiati per il lungo.
o di lato,
o in ginocchio per terra.
Mai di punta.
Dunque non bucano più - pensava l'uomo.
Non esercitano più la funzione d’inchiodare.
Sono patrimoni inutili dell'umanità.
Si sono guadagnati il privilegio dell'abbandono.
L'uomo passava tutta la giornata nella sua funzione
 di raccogliere chiodi arrugginiti.
Penso che questa mansione gli conferisse un certo status.
Lo status di gente che s’agghinda di cenci.
Raccogliere cose inutili garantisce la supremazia dell'Essere.
Garantisce la supremazia dell'Essere invece che dell'Avere.

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Carlo Guarienti
Testa con chiodi (2009)
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A pedra


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manoel de Barros »»
 
Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001) »»
 
Francese »»
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A pedra
La pietra


Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão.
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a - Eu irrito o silêncio dos insetos.
b - Sou batido de luar nas solitudes.
c - Tomo banho de orvalho de manhã.
d - E o sol me cumprimenta por primeiro

Essendo pietra
Provo piacere nel giacere a terra.
Sono in confidenza solo con lucertole e farfalle.
Certe conchiglie mi si aggrappano.
Dai miei interstizi crescono muschi.
Gli uccellini mi usano per affilare i becchi.
A volte un airone mi occupa di giorno.
Mi sento onorato.
Ci sono altri privilegi nell’esser pietra:
a - Stimolo il silenzio degli insetti.
b - Il chiar di luna m’inonda nel mio isolamento.
c - Faccio il bagno nella rugiada la mattina.
d - Ed è il sole a salutarmi per primo

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Andy Goldsworthy
Sassi intorno a un buco (1987)
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