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Soneto de Amor


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Cântico Negro (2005, póstumo) »»
 
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Soneto de Amor
Sonetto d’amore


Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., — unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... — abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
Non chiedermi parole, né ballate,
né ragioni, né anima... Il tuo seno aprimi,
lascia che si calino le palpebre estenuate,
e senza timore fra i tuoi seni stringimi.

Con la tua bocca sulla mia, nel mezzo,
le nostre lingue si cerchino, esaltate...
e vibrino i miei fianchi nudi nel sollazzo
fra le tue agili gambe affusolate.

E in due bocche una lingua..., — uniti,
noi ci scambieremo baci e gemiti,
sentendo il nostro sangue in ebollizione.

Dopo... — apri i tuoi occhi, dolce amore!
Inchiodali nei miei; senza parlare...
lascia che la Vita s’esprima senza finzione.
________________

Pablo Picasso
Il bacio (1925)
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Palavras


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Palavras
Parole


Palavras, atirei-as
Como quem joga pedras, lança flores.
Abriram fendas nas areias,
Suscitaram carícias e furores.
 
Sobre mim recaíram
Pesada de multíplices sentidos.
Tenho os lábios que um dia as proferiram
E os dedos que as gravaram — já feridos.
Tintas de sangue as restituo aos ventos,
Prestidigitador que sou de sons, palavras.
Dá-lhes novos alentos,
Fogo sonoro que em mim lavras!
 
Errantes lá pra solidões imensas
Com asas no seu peso, à recaída,
Me tragam, ágeis, densas,
A resposta final que me é devida.
Parole, ne ho scagliate
Come chi tira pietre, lancia fiori.
Hanno aperto fessure nella sabbia,
Suscitato carezze e furori.
 
Sopra di me son ricadute
Gravate da molteplici accezioni.
Ho le labbra, che un dì le han pronunciate,
E le dita che le hanno scolpite, ancor ferite.
Tinte di sangue io le affido al vento,
Le parole, io che di suoni son prestigiatore.
Dà loro un nuovo ardimento,
O fuoco sonoro, che dentro mi divori!
 
Erranti laggiù in solitudini immense,
Con ali, per il peso, in ricaduta,
Mi rechino, agili e dense,
La risposta finale che m’è dovuta.
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Mel Bochner
Blah, blah, blah (2018)
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Foste simples, banal…


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Foste simples, banal…
Eri semplice, banale…


Foste simples, banal,
Bom, com defeitos, jovial,
E tão pegado à vida,
Que ainda, velho, velho, a não podias crer vivida.

Viveste para as coisas deste mundo,
Que seria melhor
Se o pudesses fazer conforme o teu humor.

Não é por ser teu filho que sou triste,
Demoníaco, angélico, diferente,
Descontente, nevrótico, perverso.

Mas se algo, em mim, resiste
De humildemente humano,
Amigo de viver conforme vai
Vivendo a gente consoante o ano...

A ti o devo, pai!
A ti o devo, se nasci.
E a ti o devo, se inda não morri.
Eri semplice, banale,
Buono, con qualche difetto, gioviale,
E così attaccato alla vita,
Che, pur da vecchio, stentavi a crederla vissuta.

Vivevi per le cose di questo mondo,
Ma meglio sarebbe stato
Se avessi potuto farlo in base al tuo temperamento.

Non è per essere tuo figlio che sono triste,
Demoniaco, angelico, differente,
Malcontento, nevrotico, perverso.

Ma se qualcosa, in me, persiste
D’umilmente umano,
Incline a vivere con docilità
Vivendo come si conviene ad ogni età...

A te lo devo, papà!
A te lo devo, se son nato.
E a te lo devo, se ancora non son morto.
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Angu Walters
Padre e figlio (2021)
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Declaração


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Declaração
Dichiarazione


Teorias são brinquedos
Que, por mim, não tomo a sério.
Tomo a sério os meus enredos.
Crer… só sei crer no Mistério.

De doutrinas não me importo!
Sinto-me bem no mar alto.
Só me recolho ao meu porto.
Convidam-me, e sempre eu falto.

De escolas, não sou aluno.
Se comunico, é em verso.
Sou muito diverso,
E uno.
Le teorie sono passatempi
Che io però non prendo per davvero.
Prendo sul serio i miei maneggi.
Credere… credo solo nel Mistero.

Delle dottrine non m’importa molto!
Mi sento a mio agio in alto mare.
Rientro solamente nel mio porto.
Se m’invitano, finisco col mancare.

Di scuole, non sono alunno.
Se comunico, è col verso.
Sono molto diverso,
E uno.
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Guy Fouré
Invito alla preghiera (2017)
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Sucata


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Cântico Suspenso (1968) »»
 
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Sucata
Ferraglia


I
Fecha esses olhos, fecha-os,
Que a sua luz ofende.
Mas não! arranca-os, deixa-os
Na praça em que se vende
Toda a sucata inútil.
Quiçá os compre um velho poeta fútil.

II
A sua luz ofende, humilha.
Não compartilha
Das pequeninas luzes
Que alumiam os vários alcatruzes
De cada nova nora.
Fecha esses olhos, fecha-os, ou arranca-os, deita-os
 fora!
Não vês que vão perdendo todo o emprego?
Desfaz-te de eles, ─ fica cego.

III
Na praça em que se vende
Toda a sucata inútil,
Quiçá os compre um velho poeta fútil.
Já nada, a este, ofende.
Servir-lhe-ão
Talvez de claridade,
Talvez de companhia ou diversão.
Coitado! Vive ao pé da Eternidade.
I
Chiudi i tuoi occhi, chiudili,
Che la loro luce offende.
Ma no! strappali, lasciali
Nella piazza dove si vende
Tutta la ferraglia inutile.
Magari li comprerà qualche poeta futile.

II
La loro luce offende, umilia.
Non assomiglia
Ai lumicini gialli
Che illuminano i vari secchielli
Di ogni nuova noria.
Chiudi quegli occhi, chiudili, o strappali, buttali
 via!
Non vedi che van perdendo il loro scopo?
Disfati di loro, ─ rimani cieco.

III
Nella piazza in cui si vende
Tutta la ferraglia inutile,
Magari li comprerà qualche poeta futile.
A costui, ormai, più nulla l’offende.
Gli serviranno
Forse per la luminosità,
Forse come compagnia o passatempo.
Misero! Vive sul limitare dell’Eternità.
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Ferdinando Brambilla
La bottega dell'antiquario (1898)
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Estação término


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Estação término
Stazione finale


Como um navio no mar
A meio da noite a casa,
E o vento e a chuva em redor.
Lá dentro, a um canto do lar
Onde um bom tronco se abrasa,
O homem sentado espera.
Se alguém chegar,
Terá luz, terá calor.
Batem à porta. Quem dera
Que fosse realidade!
Já teve tais decepções
O homem que há tanto espera!
Mas agora, alguém batera
Que chega da tempestade,
Que percorreu solidões...
«Entre quem é!» Pode ser
Alguém que venha roubar,
Assassinar, ofender...
«Entre quem é!» Não importa
Se alguém vem que bate à porta.
O homem só quer abrir.
Chegou, por fim, a saber
Que, venha lá quem vier,
Seja quem for,
Só um dos dois pode ser
Desde que não a fingir:

A Morte, o Amor.
Come sul mare un bastimento
Nel cuor della notte la casa,
E tutt’intorno pioggia e vento.
Là dentro, vicino al focolare
Dove un bel ciocco sta ardendo,
L’uomo seduto è in attesa.
Se giungerà qualcuno,
Troverà luce e calore.
Battono alla porta. Chissà
Che non sia realtà!
Ha sofferto già tante delusioni
L’uomo che da tanto è in attesa!
Ma ora, ha bussato qualcuno
Che viene dalla tempesta,
Dopo aver percorso solitudini...
«Avanti chi è!» Può essere
Qualcuno che venga per rubare,
Uccidere, offendere...
«Avanti chi è!» Non importa
Se qualcuno viene a battere alla porta.
L’uomo non desidera che aprire.
È riuscito, infine, a capire
Che, chiunque stia per venire,
Non importa chi sia,
Solamente uno dei due può essere
Salvo che non sia un impostore:

La Morte, l’Amore.
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Edvard Munch
Autoritratto (1923-24)
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Poema


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Poema
Poesia


Crispou-se a minha mão sobre o teu sexo,
Fecharam-se-me os olhos sem querer…
De que abismos voava até ao fundo?
E a minha mão sondava
E triturava
Aquele mundo
Tão pequenino e tão complexo:
O teu mistério de mulher.
Mi si rattrappì la mano sopra il tuo sesso,
Mi si chiusero gli occhi, senza ch’io volessi...
Di quale abisso stavo volando al fondo?
E la mia mano esplorava
E stritolava
Quel mondo
Così piccino eppur complesso:
Il tuo mistero di donna.
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Henri de Toulouse-Lautrec
A letto (1893)
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Ode a Eros


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Ode a Eros
Ode a Eros


Eros, Cupido, Amor, pequeno Deus travesso
Com quem todos brincamos!
Brincando nos ferimos,
Ferindo-nos gozamos,
Se rimos já choramos,
Mal que choramos rimos...
Já, voltados do avesso,
Por igual o voltamos,
O torturamos nós como ele nos tortura,
Descemos aos recessos da criatura...

Pequenino gigante!
Sonhava, ou não sonhava,
Quem te representou risonho e pequenino
Que de Hércules a clava
Não pesa como pesa a tua mão de infante,
Nem seu furor destrói
Como nos dói
Teu riso de menino?

Nas tuas leves setas
Nas flâmulas gentis
Que cantam os poetas
E os namorados juvenis,
Que longos ópios e letais licores,
Que pântanos de lodo e que furores,
Que grinaldas de louros e de espinhos,
Que abissais labirintos de caminhos!

Mascarilha de seda e de veludo
Sob a qual o olhar brilha, a boca ri,
Que olhar ambíguo ou mudo,
Que boca atormentada
Não terás além ti
Na mascarada?

Pai da Crueldade e da Piedade,
Filho do Crime e da Beleza,
Que infante serás tu, que, desde que há Idade,
Aos Ícaros opões a mesma astral parede,
E os Lázaros susténs dos restos dessa mesa
Em que se bebe sempre a mesma sede,
Se come
A mesma fome?

Divindade nocturna
Que te cinges de rosas,
Suprema fúria mascarada
Que a porta abres do céu... escancarada
Sobre o negro vazio duma furna,
Que a urna de cristal nas mãos formosas
Vens ofertar às bocas sequiosas
E escorres sangue do cristal da urna,
Que tens tu afinal, ao fundo da caverna
Sempre aos mortais vedada:
A eterna morte... o nada,
Ou a vida eterna?
Eros, Cupido, Amore, piccolo Dio ribaldo
Con cui tutti giochiamo!
Giocando ci feriamo,
Ferendoci godiamo,
Se ridiamo poi piangiamo,
Dopo aver pianto subito ridiamo. . .
Già, voltati a rovescio,
Del pari lo rivoltiamo,
ci tortura,
Scendendo ai recessi della creatura...

Minuscolo gigante!
Sognava, o non sognava,
Chi ti rappresentò ridente e piccino
Che d’Ercole la clava
Non pesa quanto pesa la tua mano d’infante,
Né il suo furor distrugge
Quanto ci affligge
Il tuo sorriso di bambino?

Nei tuoi lievi strali
Nelle fiammelle gentili
Che cantano i poeti
E i giovani innamorati,
Che spossanti morfine e letali liquori,
Che pantani di limo e che furori,
Che ghirlande d’alloro e di spini,
Che abissali labirinti lungo i cammini!
 
Mascherina di seta e di velluto
Sotto cui lo sguardo brilla, la bocca ride,
Che sguardo ambiguo o muto,
Che bocca tormentata
Non vedrai a te innanzi
Nella mascherata?

Padre di Crudeltà e di Pietà,
Figlio del Crimine e della Bellezza,
Che pargolo sarai tu, che, da tempo immemorabile,
Agli Icari frapponi la stessa parete astrale,
E i Lazzari sostenti coi resti della tavola
Ove si beve sempre la stessa sete,
Si mangia
La stessa fame?

Divinità notturna
Tu che t’adorni di rose,
Suprema furia mascherata
Tu che apri la porta del cielo... spalancata
Sopra il nero vuoto d’una grotta,
Tu che l’urna di cristallo nelle mani aggraziate
Vieni ad offrire alle bocche assetate
E versi sangue dal cristallo dell’urna,
Che cosa tieni tu infine, in fondo alla caverna
Sempre agli uomini preclusa:
L’eterna morte... il nulla,
O la vita eterna?
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William-Adolphe Bouguereau
Sussurri d'amore (1825-1905)
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Novo epitáfio para um poeta


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Novo epitáfio para um poeta
Nuovo epitaffio per un poeta


Na terra nua, as asas desdobraram,
Espigaram,
Deram flor.
Se ali passar alguém
Que tenha o olfacto fino e o dom do humor,
Dirá que aquele morto é um amor:
Dá flor e cheira bem.
Sulla nuda terra, le ali si spiegarono,
Misero spighe,
Diedero fiori.
Se di lì passerà qualcuno
Che abbia fine olfatto e buon umore,
Dirà che quel morto è un amore:
Dà fiori ed emana un buon profumo.
________________

Robert Combas
Senza titolo (1994)
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Novo epitáfio para uma velha donzela


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Novo epitáfio para uma velha donzela
Nuovo epitaffio per una vecchia donzella


Não conheceu do amor as vãs complicações
Nem o prazer e as suas decepções.
Por isso é que os fiéis das sensações
Tiveram sua vida por frustrada.
Viveu de leve, humilde e afável, encerrada
No mistério sem mito em que morreu.
Da sua vida mais intensa, nada
Chegou ao mundo, que não era seu.

Sobre esta laje fria,
Por memória
Dessa ignorada história
Inscreveu esta coisa fugidia
Aquele de quem foi secretamente amada.
Dell’amor non conobbe le vane complicazioni
Né il piacere e le sue delusioni.
Ed è perciò che i seguaci delle sensazioni
Ritennero la sua vita frustrata.
Visse sobriamente, umile e gentile, racchiusa
Nel mistero senza mito in cui morì.
Della sua vita più intensa, nulla
Giunse al mondo, che non era suo.

Su questa fredda lapide,
In memoria
Di questa storia ignorata
Incise questo ricordo labile
Colui che l’ha segretamente amata.
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Edvard Munch
Karen sulla sedia a dondolo (1883)
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Natureza


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Natureza
Natura


Meus versos que afinal sois naturais
Como as rosas, os montes, as nascentes,
De que abismos chegais?
Desceis de que vertentes?

E as cândidas de neve ou rubras como lume
Naturais rosas dos poetas,
Mergulham em que estrume
As raízes secretas?

De monte em monte o eco se responde
Dos montes naturais por i além.
Vai extinguir-se, aonde?
Vem, donde vem?

As águas naturais que entre granitos
À luz afloram,
Por que arrastam cadáveres, detritos,
E sobre lodo cantam, choram?

Sou eu que vos componho, ou vós que me criais,
Meus versos hoje nus e secos,
Meus versos que afinal sois naturais,
− Rosas e estrume, águas e lodo, montes, ecos...?
Versi miei, che in fondo siete naturali
Come le rose, le sorgenti, i monti,
Da quali baratri giungete?
Venite giù da quali versanti?

E candide come neve o come vampe accese
Le rose naturali dei poeti,
In che concime affondano
Le loro radici segrete?

Di monte in monte va l’eco risuonando
Dai monti naturali e avanti senza fine.
Ma dove si va esaurendo?
E da dove proviene?

Le acque naturali che dai graniti
Alla luce emergono,
Perché trascinano salme, detriti,
E sulla melma cantano, piangono?

Sono io che vi scrivo, o voi che mi create,
Versi miei, oggi spogli e secchi,
Versi miei, che in fondo siete naturali,
− Rose e concime, acque e melma, monti, echi...?
________________

Misato Suzuki
Forest dune (2023)
...

Monólogo a dois


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Monólogo a dois
Monologo a due


Sábia talvez inconsciente,
Doseando com volúpia, uma ancestral sofreguidão,
Ali onde o desejo mais me dói, mais exigente,
Me acaricia a tua mão.

De olhos fechados me abandono, ouvindo
Meu coração pulsar, meu sangue discorrer,
E sob a tua mão, na asa do sonho, eis-me subindo
Àquele auge em que todo, em alma e corpo, vou
 morrer…
Sapiente, forse incosciente,
Dosando con sensualità un’ancestrale brama,
Là dove la smania più mi tormenta, più esigente,
Mi accarezza la tua mano.

Ad occhi chiusi m’abbandono, sentendo
Il mio cuore pulsare, il mio sangue defluire,
E sotto la tua mano, sull’ali del sogno, ecco raggiungo
Quell’auge ove io intero, anima e corpo, sto per
 morire…
________________

Lucian Freud
Bella and Esther (1988)
...

Momento


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Momento
Momento


Quem, nos meus olhos ardentes,
Na minha testa cansada,
Perpassa os dedos clementes,
Poisa a mão fresca orvalhada…?

Talvez a brisa da tarde,
Que passa, e não faz alarde…
Talvez a brisa da tarde!
Sim, só a brisa; e mais nada.
Chi, sui miei occhi ardenti,
Sulla mia fronte esaurita,
Passa le dita clementi
Posa la mano fresca di rugiada…?

Forse il vento della sera,
Che passa e non se ne fa vanto…
Forse il vento della sera!
Sì, solo il vento; e null’altro.
________________

Samuel de Wilde
Testa di uomo con capelli al vento (1810-1820)
...

Lágrima


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Lágrima
Lacrima


Sem que eu a esperasse,
Rolou aquela lágrima
No frio e na aridez da minha face.
Rolou devagarinho...,
Até à minha boca abriu caminho.
Sede! o que eu tenho é sede!
Recolhi-a nos lábios e bebi-a.
Como numa parede
Rejuvenesce a flor que a manhã orvalhou,
Na boca me cantou,
Breve como essa lágrima,
Esta breve elegia.
Senza che me l’aspettassi,
Scese quella lacrima
Sulla freddezza e sull’apatia del mio viso.
Scese pian pianino...,
Sino alla mia bocca s’aprì il cammino.
Sete! quello che provo è sete!
La raccolsi tra le labbra e la bevvi.
Come lungo una parete
Si ravviva un fiore rorido nel mattino,
Cantò nella bocca mia,
Breve come quella lacrima,
Questa breve elegia.
________________

Francesco Vezzoli
Il guanto d'amore (2010)
(after de Chirico and Jean Genet)
...

Epitáfio para um santo obscuro


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Epitáfio para um santo obscuro
Epitaffio per un santo oscuro


Nunca sonhou ser santo,
Nem suspirou que o distinguira o Céu.
Viveu, morreu a um canto
Da casota e da aldeia em que nasceu.
Nem ele mesmo conheceu
Os Dons que dispensou tão vil, gratuitamente,
Que só os santos reconhece
De oficial aprovação.
Silêncio, pedra tumular!
Esse que aí jaz, merece
Que só Lá onde altares nada são
Se eleve o seu altar.
Non si sognò mai d’essere santo,
Né ambì essere dal Cielo favorito.
Visse, morì in un canto
Della casetta e del borgo dov’era nato.
Egli stesso neppure riconobbe
I Doni che dispensò tanto candidamente,
Che solo ai santi si ascrivono
Con pubblico benestare.
Silenzio, pietra tombale!
Colui che qui giace, merita
Che gli venga eretto un altare
Soltanto là dove gli altari son niente
________________

Matthew Wong
Day 1 (2018)
...

Epitáfio para um poeta


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Epitáfio para um poeta
Epitaffio per un poeta


As asas não lhe cabem no caixão!
A farpela de luto não condiz
Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e o calçado também não.

Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe os sapatos de verniz!
Nao vêem que ele, nu, faz mais figura,
Como uma pedra, ou uma estrela?

Pois atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á conforto:
Deixem-no respirar ao menos morto!
Le ali non gli entrano nella bara!
L’abito da lutto non s’addice
Alla sua aria austera, eppur felice;
Neanche la cravatta né la calzatura.

Tiratelo fuori e toglietegli il vestito!
Sfilategli le scarpe di vernice!
Non vedete che ora, nudo, fa miglior figura,
Come fosse una pietra oppure un astro?

Posatelo infine sulla terra dura,
Gli sarà di conforto:
Lasciate che respiri almeno da morto!
________________

Pacino di Bonaguida
Giardino (1335)
...

Epitáfio para uma velha donzela


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Epitáfio para uma velha donzela
Epitaffio per una vecchia donzella


De palmito e capela,
Qual manda a tradição,
Erecta, lá vai ela
Ser atirada ao chão.
De rosário na mão,
Lutou heroicamente
Contra a vil tentação
Do que nos pede a carne e a alma come.
Secreta, ansiosa, augusta, descontente
Dentro da sua túnica inconsútil,
Engelhou toda à fome,
Por fim morreu à sede,
No seu heroísmo fútil.
Bichos! penetrai vós no pobre corpo inútil!
Ramo di palma e funebre cappella,
Come la tradizione detta,
Dritta, laggiù ella
Verrà gettata alla terra.
Col rosario in mano,
Lottò eroicamente
Contro la vile tentazione
Che ci chiede la carne e l’anima ci divora.
Segreta, ansiosa, augusta, sconfortata
Dentro la sua tunica inconsutile,
Tutta s’è rinsecchita per la fame,
Per poi finire a morir di sete,
Nel suo eroismo futile.
Vermi! penetrate voi quell’umile corpo inutile!
________________

Marianne Hendriks
Musa acuminata (2023)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (364) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (16) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)