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O vento e Eu


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Velório sem Defunto (1990) »»
 
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O vento e Eu
Il vento e Io


O vento morria de tédio
porque apenas gostava de cantar
mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
cada vez mais vazia...
Tentei então compor-lhe uma canção
tão comprida como a minha vida
e com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
e fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada
neste vasto mundo...
Mas o vento, por isso,
me julga agora como ele...
E me dedica um amor solidário, profundo!

Il vento s’annoiava a morte
perché a lui piaceva soltanto cantare
ma non esisteva nessun canto per quella sua voce,
sempre più vuota…
Tentai dunque di comporgli una canzone
lunga quanto la mia vita
e con incredibili avventure che inventavo all’istante
come quella che da piccolo fui rapito dagli zingari
e presi a vagare senza patria, senza famiglia, senza nulla
per questo vasto mondo…
Ma il vento, per questo,
adesso, mi considera suo pari…
E mi riserva un amore generoso e profondo!

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Alice Rahon
La ballata di Frida Kalho (1952)
...

Quem ama inventa


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A cor do invisível (1989) »»
 
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Quem ama inventa
Chi Ama Inventa


Quem ama inventa as coisas a que ama…
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava…

E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressureições…

Um ritmo divino? Oh! simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho…

Ó! Meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado… e ter vivido o sonho!

Chi ama inventa le cose che ama…
Tu forse sei arrivata quando io ti sognavo.
Ed ecco all’improvviso s’è accesa la fiamma!
Era la brace spenta che si ridestava…

Era un nuovo volo sopra le rovine,
Nell’aria attonita un rintocco di campane,
Suonate da quegli angeli pellegrini
Che posseggono il dono di far resurrezioni…

Un ritmo divino? Oh! semplicemente
I nostri due cuori palpitanti
Che battono uniti e festanti
Oppur da soli, con un ritmo struggente…

Oh! Mio povero, mio grande amor remoto,
Tu non lo sai come faccia bene alla gente
L’aver sognato… e quel sogno aver vissuto!

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Élise Dartmour
Harmas (2017)
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Jardim interior


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A cor do invisível (1989) »»
 
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Jardim interior
Giardino interiore


Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente

Tutti i giardini dovrebbero essere cintati,
da muri alti d’un pallidissimo grigio,
dove una fonte
possa cantare
tutta sola
entro il rosso vivo dei garofani.
Quel che uccide un giardino non è
una certa assenza
o l’abbandono...
Quel che uccide un giardino è quell’insulso sguardo
di colui che l’attraversa indifferente

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Paul Klee
Ricordo d'un giardino (1914)
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Viver


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Viver
Vivere


Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar...  Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
 e voar...
 cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!

Chi mai volle morire
Non sa cosa sia vivere
Non sa che vivere è aprire una finestra
E uccelli, a frotte, ne usciranno
E ippocampi fosforescenti
Meduse trasparenti
Raggianti
Stelle marine... Ah,
Vivere è uscire d’un tratto
Dal fondo del mare
E volare...
 e volare...
 sempre più in alto
Come dopo esser morti!

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Marc Chagall
Il viaggiatore (1917)
...

Um nome na vidraça


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Um nome na vidraça
Un nome sul vetro


A guriazinha
desenha as letras do seu nome na vidraça
– encantadoramente mal feitas –
as letras escorrem...
Enquanto isto,
umas pessoas morrem,
outras nascem...
Entre umas e outras,
viro mais uma página
desta novela policial.
E exatamente à página 293, verifico,
quando o herói vai torcendo cautelosamente o trinco
 da porta,
interrompo
a leitura
e ele e todos os outros personagens ficam parados.
Eu sou o Deus catastrófico: não ligo,
olho agora a litografia da parede
– um trigal muito louro e acima dele apenas uma asa
contra o céu azul.
É como se eu abrisse uma janela na frustração
 da chuva!
Bem, neste momento as pessoas já devem ter morrido
 ou nascido
A verdade, minha filha,
é que eu não sei como parar este poema:
nos dias de chuva sobem do fundo do mar os navios
 fantasmas
sobem ruas, casas, cidades inteiras,
e procissões, manifestações, os primeiros
e os últimos encontros, o padre-cura e o boticário
discutindo política na esquina...
(A guriazinha
apaga as letras lacrimejantes da vidraça.
E recomeça...)

La ragazzina
disegna le lettere del suo nome sul vetro
– deliziosamente malfatte –
le lettere si liquefanno...
Nel medesimo tempo,
c’è gente che muore,
c’è gente che nasce...
Tra gli uni e gli altri,
giro una pagina in più
di questo romanzo giallo.
Ed esattamente a pagina 293, verifico,
quando l’eroe ruota con circospezione il chiavistello della
 porta,
interrompo
la lettura
e questo e tutti gli altri personaggi rimangono immobili.
Sono io il Dio catastrofico: non m’interessa,
adesso io guardo la litografia sulla parete
– un campo di biondo grano e sopra soltanto un’ala
sullo sfondo del cielo azzurro.
È come se aprissi una finestra nella frustrazione della
 pioggia!
Dunque, a questo punto le persone dovrebbero esser già
 nate o morte.
La verità, figlia mia,
è che io non so come interrompere questa poesia:
nei giorni di pioggia, risalgono dal fondo del mare le navi
 fantasma
risalgono strade, case, città intere,
e processioni, rivelazioni, i primi
e gli ultimi incontri, il curato e il farmacista
in discussioni politiche all’angola della via...
(La ragazzina
cancella le lacrimose lettere dal vetro.
E ricomincia...)

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Vincent van Gogh
Pioggia (1889)
...

Torre azul


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Torre azul
Torre blu


É preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.

É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto-mar perdida.

É preciso construir uma torre…
É preciso construir um túnel…
É preciso morrer de puro,
puro amor!…

Bisogna costruire una torre
una torre blu per i suicidi.
Hanno un che d’angelo questi suicidi volanti,
un che d’angelo che ha perso le ali.

Bisogna costruir loro un tunnel
un tunnel senza fine e senza uscita
nel quale un treno viaggi in eterno
come una nave in alto mar perduta.

Bisogna costruire una torre...
Bisogna costruire un tunnel...
Bisogna morire di puro,
puro amore!...

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Frida Kahlo
Il suicidio di Dorothy Hale (1938-39)
...

Tenta esquecer-me...


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Tenta esquecer-me...
Tenta di dimenticarmi...


Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar
Um fantasma...
Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...

Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!

Tenta di dimenticarmi...
Essere ricordato è come evocare
Un fantasma...
Lascia che io sia quel che sono,
Ciò che sempre sono stato, un fiume che scorre...
Invano, sulle mie rive canteranno le ore,
Mi adornerò di stelle come un manto reale,
Mi ricamerò con nuvole e ali,
A volte i bambini verranno a bagnarsi da me...

Uno specchio non custodisce le cose riflesse!
E il mio destino è fluire... è fluire verso il mare,
Perdendo le immagini lungo il cammino...
Lasciami scorrere, passare, cantare...
Tutta la tristezza dei fiumi
E' non potersi fermare!

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Moacir de Andrade
Paesaggio fluviale (1980)
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Se eu fosse um padre...


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Nariz de vidro (1984) »»
 
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Se eu fosse um padre...
Se io fossi un prete...


Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições…
Se eu fosse um padre, eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... e um belo poema – ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

Se io fossi un prete, io, nei miei sermoni,
non parlerei di Dio né del Peccato
- meno ancora dell’Angelo Caduto
e dell’incanto delle sue seduzioni,

non citerei santi né profeti:
nessuna delle loro sublimi promesse
o delle loro terribili maledizioni…
Se io fossi un prete, io citerei i poeti,

pregherei coi loro versi, i più belli,
di quelli che fin da bimbo m’han cullato
e magari ce ne fosse qualcuno mio!

Perché la poesia purifica l’anima
... e una bella poesia – quantunque da Dio s’estranei –
una bella poesia sempre conduce a Dio!

________________

Mario Giacomelli
Pretini (1963)
...

Vida


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Esconderijos do tempo (1980) »»
 
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Vida
Vita


Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.

Ah! se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum
de imagens:

aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida...

Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!

Non so
che cosa vogliano da me questi alberi
questi vecchi cantucci
tanto che io li senta così miei al solo guardarli un momento.

Ah! se mi dovessero chiedere i documenti là dall’Altro Lato,
scomparse le altre memorie,
potrei mostrar loro i fogli sparsi d’un album
illustrato:

qui una pietra liscia, lì un cavallo fermo
o
una
nuvola perduta
perduta…

Mio Dio, che modo assurdo di raccontare una vita!

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Leandro Erlich
Nuvola (2016)
...

Se o poeta falar num gato...


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Se o poeta falar num gato...
Se il poeta parla di un gatto...


Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade...
se falar numa esquina mal e mal iluminada...
numa antiga sacada... num jogo de dominó...
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que
morriam de verdade...
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol...
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá... Que importa?
Todos os poemas são de amor!

Se il poeta parla di un gatto, di un fiore
di un vento che attraversa brughiere e meandri
senza mai arrivare alla città…
se parla d’un cantuccio a malapena illuminato…
di un vecchio balcone… di un gioco di domino…
se parla di quei disciplinati soldatini di piombo che
morivano davvero...
se parla della mano mozzata a metà d’una scala
a chiocciola...
Se non parla di niente
e se semplicemente dice trallallà… Che importa?
Tutte le poesie sono d’amore!

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Henri Matisse
Gatto e pesci rossi (1914)
...

Os poemas


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Os poemas
Le poesie


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Le poesie sono uccelli che giungono
non si sa da dove e si posano
sul libro che leggi.
Quando chiudi il libro, loro s’involano
come da una gabbia.
Non hanno posa
né rifugio
si cibano per un attimo in ogni paio di mani
e volano via.
E tu guardi, allora, queste tue mani vuote,
col meraviglioso stupore di sapere
che il loro alimento era già in te...

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Christian Schloe
Ragazzo che legge agli uccelli (2004)
...

O poeta canta a si mesmo...


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O poeta canta a si mesmo
Il poeta canta a sé stesso


O poeta canta a si mesmo
porque nele é que os olhos das amadas
têm esse brilho a um tempo inocente e perverso...

O poeta canta a si mesmo
porque num seu único verso
pende - lúcida, amarga -
uma gota fugida a esse mar incessante do tempo...

Porque o seu coração é uma porta batendo
a todos os ventos do universo.

Porque além de si mesmo ele não sabe nada
ou que Deus por nascer está tentando agora
 ansiosamente respirar
neste seu pobre ritmo disperso!

O poeta canta a si mesmo
porque de si mesmo é diverso.

Il poeta canta a sé stesso
perché è in lui che gli occhi delle amate
hanno quel guizzo a un tempo innocente e perverso...

Il poeta canta a sé stesso
perché in un suo unico verso
vacilla - lucida, amara -
una goccia sfuggita al mare incessante del tempo...

Perché il suo cuore è una porta che sbatte
a tutti i venti dell’universo.

Perché al di fuori di sé stesso lui non sa niente
cioè che Dio per nascere ora sta tentando
 ansiosamente di respirare
in questo suo povero ritmo sconnesso!

Il poeta canta a sé stesso
perché da sé stesso è diverso.

________________

Pablo Picasso
Vecchio chitarrista cieco (1903)
...

Bilhete


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Bilhete
Biglietto


Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

Se tu mi ami, amami a bassa voce
Non gridarlo dalla cima dei tetti,
Lascia in pace gli uccelletti
Lascia in pace me!
Se mi vuoi,
insomma,
dev’essere pian pianino, amore mio,
che breve è la vita, e l’amore ancor più breve...

________________

Alfons Mucha
Danza (1898)
...

Presença


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Presença
Presenza


É preciso que a saudade desenhe as tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu preciso fechar meus olhos para ver-te!

È necessario che il rimpianto disegni le tue linee perfette,
il tuo profilo preciso e che, appena lievemente, il vento
delle ore metta un fremito nei tuoi capelli...

E' necessario che la tua assenza sprigioni
nell'aria, il profumo delicato di trifoglio falciato,
di aghi di rosmarino a lungo conservati
non si sa da chi in qualche mobile antico...

Ma è anche necessario che sia come aprire una finestra
e respirarti azzurra e luminosa, nell'aria.
È necessario il rimpianto perché io ti senta
come sento – in me – la presenza misteriosa della vita...

Ma quando tu appari sei così diversa e multipla e imprevista
che per nulla assomigli al tuo ritratto...
E bisogna che io chiuda i miei occhi per vederti!

________________

Gerhard Richter
Betty (1988)
...

Poema da gare de Astapovo


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Poema da gare de Astapovo
Poesia della stazione di Astapovo


O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua...
Sentou-se ...e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Gloria,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

Il vecchio Leone Tolstoi fuggì di casa a ottant’anni
E andò a morire alla stazione di Astapovo!
Di certo si sedette su una vecchia panchina,
Una di quelle vecchie panchine lucide per l’uso
Che esistono in tutte le stazioncine povere del mondo
Contro una parete nuda…
Si sedette… e sorrise amaramente
Pensando che
Di tutta la sua vita
Non restava di suo che la Gloria,
Questo ridicolo sonaglio pieno di palline e nastrini
Colorati
Nelle mani sclerotizzate di un bacucco!
E allora la Morte,
Nel vederlo così solo a quell’ora
Nella stazione deserta,
Pensò che lui stesse lì in sua attesa,
Mentre s’era seduto appena per riposare un poco!
La morte arrivò sulla sua antica locomotiva
(Lei arriva sempre puntualmente all’ora ignota…)
Ma forse non pensò a nulla di tutto ciò, il grande Vecchio,
E chissà che non sia anche morto felice: lui era fuggito…
Lui era fuggito di casa…
Lui era fuggito di casa a ottant’anni d’età…
Non è da tutti realizzare i vecchi sogni d’infanzia!

________________

Leone Tolstoj, fotografato da
Sergej Michajlovič Prokudin-Gorsky (1908)
...

Olho as minhas mãos...


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Olho as minhas mãos...
Guardo le mie mani...


Olho as minhas mãos: elas só não são estranhas
Porque são minhas. Mas é tão esquisito distendê-las
Assim, lentamente, como essas anêmonas do fundo
 do mar…
Fechá-las, de repente,
Os dedos como pétalas carnívoras!
Só apanho, porém, com elas, esse alimento impalpável
 do tempo,
Que me sustenta, e mata, e que vai secretando
 o pensamento
Como tecem as teias as aranhas.
A que mundo
Pertenço?
No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar,
Mas nada, disso tudo, diz: “existo”.
Porque apenas existem…
Enquanto isto,
O tempo engendra a morte, e a morte gera os deuses
E, cheios de esperança e medo,
Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas,
Fazemos
Poemas, pobres poemas
Que o vento
Mistura, confunde e dispersa no ar…
Nem na estrela do céu nem na estrela-do-mar
Foi este o fim da Criação!
Mas, então,
Quem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos?
Quem faz em mim — esta interrogação?

Guardo le mie mani: non le trovo strane solo
Perché sono le mie. Ma è davvero curioso dispiegarle
Così, pian piano, come fanno quegli anemoni sui fondali
 marini…
Richiuderle, d’un tratto,
Con le dita simili a petali carnivori!
Però, con esse, io afferro solo quest’alimento impalpabile
 del tempo,
Che mi sostenta, e mi uccide, e che va secernendo
 il mio pensiero
Così come il ragno tesse la sua tela.
A che mondo
Appartengo?
Al mondo ci sono pietre, baobab, pantere,
Acque canterine, il vento che spira
E lassù le nuvole che senza sosta si trasformano,
Ma nulla, di tutto questo, dice: “esisto”.
Perché semplicemente esistono…
E frattanto,
Il tempo cagiona la morte, e la morte genera gli dei
E, colmi di speranza e di timore,
Celebriamo rituali, inventiamo
Formule magiche,
Componiamo
Poesie, misere poesie
Che il vento,
Scompiglia, confonde e disperde per aria…
Non nella stella del cielo né nella stella marina
Risiede il fine della Creazione!
Ma, allora,
Chi eternamente ordisce la trama di sogni tanto antichi?
Chi fa sorgere in me — questa domanda?

________________

Albrecht Dürer
Studio di mani (1506)
...

O velho do espelho


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O velho do espelho
Il vecchio nello specchio


Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
que me olha e é tão mais velho que eu?
Porém, seu rosto… é cada vez menos estranho…
Meu Deus, meu Deus… Parece
Meu velho pai - que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar - duro - interroga:
"O que fizeste de mim?!"
“Eu pai?! Tu é que me invadiste.
Lentamente, ruga a ruga... Que importa! Eu sou ainda
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra,
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste..."

Per caso, mi sorprendo allo specchio: chi è
Che mi guarda ed è tanto più vecchio di me?
Ma il suo viso… si fa pian piano meno estraneo…
Mio Dio, mio Dio… Somiglia
Al mio vecchio babbo - che è morto ormai!
Come siamo potuti diventare così?
Il nostro sguardo - duro - domanda:
"Che ne hai fatto di me?!"
“Io babbo?! Chi mi ha invaso sei tu.
Poco a poco, ruga a ruga... Che importa! Io sono ancora
Il medesimo bimbo caparbio di sempre
E i tuoi progetti infine se ne sono andati in fumo,
Ma so d’aver visto, un giorno - la lunga, l’inutile guerra!
Ho visto sorridere, in quegli occhi stanchi, un triste orgoglio..."

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Maurits Cornelis Escher
Mano con sfera riflettente (1935)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (364) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (16) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)