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O fim da noite


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O fim da noite
La fine della notte


A nossa história é simples: somos
neste momento todo o amor na terra
e nada mais importa, senão
o que sou, verdade em ti,
o que és, verdade em mim.
Por isso este poema talvez não seja
mais que um silêncio pela noite,
nem verso, nem prosa, só
uma oração ao deus desconhecido.

Não é talvez senão o teu olhar,
e tua esquiva mágoa,
o teu riso e tuas lágrimas.
E o apelo dentro de mim
ao milagre de nos querermos,
com a mágoa e com o riso,
- e teu olhar que vê em mim.

Não sei pedir, sei só esperar.
Mas já houve o milagre. Estava
agora comigo ao longo das ruas, que antes
eram só casas de pálpebras cerradas.
Estava no silêncio, que antes
era mortal.

E tu, sem eu saber, estavas comigo.
E sem eu saber de súbito na treva
buliram asas
e sem eu saber era já dia.

La nostra storia è semplice: noi siamo
in questo momento tutto l’amore sulla terra
e nulla più importa, se non
ciò che io sono, verità in te,
ciò che tu sei, verità in me.
Perciò questa poesia forse non è
nient’altro che un silenzio nella notte,
né verso, né prosa, solo
un’orazione al dio sconosciuto.

Forse non è altro che il tuo sguardo,
e la tua schiva tristezza,
il tuo riso e le tue lacrime.
E la supplica dentro di me
per il miracolo di amarci,
con la tristezza e col riso,
e il tuo sguardo che vede in me.

Non so chiedere, so solo sperare.
Ma già ci fu il miracolo. Io ora stavo
tutto solo lungo le vie, che prima
non erano che case dalle palpebre chiuse.
Stavo in quel silenzio, che prima
era mortale.

E tu, a mia insaputa, stavi con me.
E a mia insaputa d’improvviso nel buio
ci fu un palpitar d’ali
e a mia insaputa era già giorno.

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Giorgio de Chirico
Ettore e Andromaca (1968)
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Balanço


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O Estrangeiro Definitivo (1969) »»
 
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Balanço
Bilancio


Afinal, toda a minha poesia era verdade...
A noite é infindável, e os dias
são a mesma vastidão de carne apodrecida
morrendo sem saber de que morria.
Os rios são os mesmos, ou as ruas,
que só levam lá de onde não saí.
O silêncio é sempre a única resposta.

Se não pedi, que haviam de me dar?

Alla fine, tutta la mia poesia era veritiera...
La notte è interminabile, e i giorni
hanno la stessa vastità della carne putrida
che muore senza sapere di che muore.
I fiumi, o le strade, sono gli stessi
che portano solo là da dove non son partito.
Il silenzio è sempre l’unica risposta.

Se io non ho chiesto, che mi potevo aspettare?

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Serge Hamad
Temporal perception 6 (2015)
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Meditações da Alma Parada - XI


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Meditações da Alma Parada - XI
Meditazioni dell’Anima Quieta - XI


Uns dizem que os meus versos são tristes,
outros que são abstratos.
Mas eu não tenho culpa que a carne da inteligência
seja triste, e inteligente.
Eu preferia que os meus versos fossem
alegres e estúpidos.
Mas, se fossem, não haveria os meus versos.
Os meus versos disseram sempre direito
aquilo que saiu errado quando o quis fazer
como se a vida fosse a poesia.
Mas eu continuo a crer na poesia.
A vida que tenha paciência.

Certi dicono che sono tristi i miei versi,
altri che sono astratti.
Ma non è colpa mia se la carne dell’intelligenza
è triste, e intelligente.
Io preferirei che i miei versi fossero
allegri e stupidi.
Ma, se lo fossero, non sarebbero i miei versi.
I miei versi han sempre detto nel modo esatto
quello che risultò malfatto quando lo volli fare
come se la vita fosse la poesia.
Ma io continuo a credere nella poesia.
La vita abbia pazienza.

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Joan Miró
Apparizione (1935)
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A Tua Morte em Mim


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A Tua Morte em Mim
La tua morte in me


À memória de Raquel Moacir
 
A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.
 
E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
descobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.
 
Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.
 
O único presente verdadeiro é teres partido.

In memoria di Raquel Moacir
 
La tua morte è sempre nuova in me.
Non matura. Non ha fine.
Se alzo gli occhi da un libro, d’un tratto
tu sei morta.
Mi sveglio, e tu sei morta.
Sempre, ogni giorno, ad ogni istante,
la tua morte è nuova in me,
sempre impossibile.
 
E così, fino alla notte finale
tu continuerai a morire ad ogni istante
della vita rimasta fingendosi vita.
Riscopro la tua morte come altri
scoprono l’amore,
perché in ogni luogo, in ogni momento,
tu sei viva.
 
Vivrò fino all’ora estrema la tua morte.
A sorsi, lenti sorsi. Come se fosse
ogni volta un veleno nuovo.
Non è tanto il rimpianto che duole, ma il rimorso.
Il rimorso di tutto ciò ch'è andato perso nella nostra vita,
cose di prima e di poi, cose di mai,
parole mute per sempre, un gesto
che irrimediabilmente non fu mai concluso,
lo sguardo che implora senza ottener risposta.
 
L’unico vero presente é che tu sei partita.

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Emilio Pettoruti
Pensierosa (1920)
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Aurora


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Vôo sem Pássaro dentro (1954) »»
 
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Aurora
Aurora


A poesia não é voz - é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

vôo sem pássaro dentro.

La poesia non è voce - è un’inflessione.
Dire, dice tutto la prosa. Nel verso
nulla s’aggiunge a nulla, soltanto
un tocco impalpabile dà forma
al sogno di ciascuno, aspettativa
di forme da assumere. Nel verso nasce
alla parola una verità che non trova
tra i detriti della prosa la sua strada.
E agli uomini un senso assente
nei gesti e nelle cose:

un volo senza passero dentro.

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Joanna Szmerdt
Passero (2014)
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Surpresa


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Surpresa
Sorpresa


A realidade é apenas
uma luz por dentro das coisas. Teia
em que se enreda o olhar que traz
dentro de si o amor do mundo.
Vaso que dá forma à
toalha líquida dos instantes. Suspensa
ponte sobre as margens do tempo.
Baste ao amor a adivinhação, ao sorriso
a presença de um sonho.
A luz floresce em qualquer parte.

La realtà non è che
una luce che sta dentro le cose. Tela
in cui s’intesse lo sguardo che reca
in sé l’amore del mondo.
Vaso che dà forma alla
liquida cortina degli istanti. Ponte
sospeso sopra i margini del tempo.
Basti all’amore il presagio, al sorriso
la presenza d’un sogno.
La luce sboccia ovunque.

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Luther Emerson Van Gorder
Lanterne giapponesi (1895)
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Permanência


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Permanência
Permanenza


Não peçam aos poetas um caminho.
O poeta não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua.
Falta-lhe o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.
O poeta lê apenas os sinais da terra.
Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e de presença.
Sabe apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil.
Conhece apenas do tempo o já perdido;
do amor
a câmara escura sem revelações;
do espaço
o silêncio de um vôo pairando
em toda a parte.
Cego entre as veredas obscuras é ninguém
e nada sabe— morto redivivo.

Non chiedete ai poeti un cammino.
Il poeta non sa nulla di geografia celestiale.
Va a sbattere contro la realtà
senza che il tempo coincida con lo spazio.
Orologi e frontiere non hanno
traduzione nella sua lingua.
Le manca l’amore delle convenzioni, mentre nelle altre
le parole fingono certezze.
Il poeta legge soltanto i segnali della terra.
I suoi passi coprono
soltanto distanze d’amore e di presenza.
Sa solamente inutili parole di conforto
e pena per ciò che è inutile.
Conosce del tempo solo quello già perduto;
dell’amore
la camera oscura senza rivelazioni;
dello spazio
il silenzio d’un volo che aleggia
per ogni dove.
Cieco tra oscuri sentieri è nessuno
e non sa niente — morto redivivo.

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Jan Fabre
Self-portrait with the Tongue of Love (2019)
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Identidade


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Identidade
Identità


Nada é miragem. Real
é também o mundo imaginado.
Algures são possíveis as visões
que na câmara escura abrem
pétalas de surpresa nas águas da memória.
Não só o acontecido é verdadeiro.
Ontem não foi nunca: a memória é
uma forma de supor o nunca tido.
Miragem é apenas
julgar que basta ter vivido.
O mundo não é apenas cinza do passado.
Além-fronteiras da indiferença correm
as águas da nascença. Olhai
e as portas se abrirão.

Nulla è miraggio. Reale
è anche il mondo immaginato.
Da qualche parte sono possibili le visioni
che nella camera oscura aprono
petali di sorpresa nelle acque della memoria.
Non solo l’accaduto è veritiero.
Ieri non è mai stato: la memoria è
un modo d’ipotizzare il mai esistito.
Miraggio è solamente
pensare che basti aver vissuto.
Il mondo non è solo cenere del passato.
Oltre le frontiere dell’indifferenza scorrono
le acque delle origini. Guardate
e le porte si apriranno.

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Leonora Carrington
Bambina gigante (1947)
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Claro e simples


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Claro e simples
Chiaro e semplice


Tudo é claro para quem
olha sempre no sentido
oposto àquele onde está
aquilo que não é claro.
 
Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.

Tutto è chiaro per chi
guarda sempre nel senso
opposto a quello dove sta
ciò che non è chiaro.
 
Tutto è semplice per chi
rimanda sempre il momento
di guardare in faccia la minaccia
di quanto non ha risposta.

Tutto è niente per chi
ha negato se stesso e il mondo
e ad occhi chiusi va dicendo:
Non esiste ciò che non comprendo.

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Paul Klee
Immedesimazione (1919)
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Acto de contrição


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Acto de contrição
Atto di contrizione


Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei
— por tudo, vida, perdão!

Per ciò che non feci, perdono!
Per il tempo che, immoto, io vidi
scorrere chiamandomi,
per gli inganni che, forse
per difesa, m’immiserirono,
per le speranze che non ebbi
e i sogni che solamente
sognando pensai di vivere,
per gli sguardi avvolti
nella cenere di soli che cancellai
con gli squarci di chi ormai sa,
per tutte gli eccessi
che neppure giunsi a concepire,
per le risate, per le lacrime,
per i baci e le altre cose,
che vanificai senza pietà per me.
— per tutto, vita, perdono!

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Amedeo Modigliani
Il giovane apprendista (1918)
...

A Salvação do Mundo


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A Salvação do Mundo
La salvezza del mondo


Os anjos levaram as igrejas...
Anjos envergonhados, de grandes asas tristes,
que fugiam, escondendo o rosto,
nas pregas dos mantos, que os incêndios enegreciam.
Levaram as igrejas, os santos e os milagres.
E os homens ficavam olhando o céu,
os homens que tinham deixado os anjos levar as
 igrejas.
de mãos postas, ajoelhados.
As mãos que eram para não deixar os anjos levar
 as igrejas.
Mas os homens já não sabiam,
e os anjos julgaram que eles não queriam as igrejas
 para nada.

A terra vazia e os homens de mãos postas, ajoelhados.

Então surgiram os anjos de extermínio.
E as longas espadas flamejantes
deceparam as cabeças dos homens ajoelhados,
que tinham fechado a porta das igrejas na cara
  da verdade.

Gli angeli si portarono via le chiese...
Angeli vergognosi, dalle grandi ali tristi,
che fuggivano, nascondendo il volto,
nelle pieghe dei manti, che gli incendi annerivano.
Portarono via le chiese, i santi e i miracoli.
E gli uomini restavano a guardare il cielo,
gli uomini che avevano lasciato gli angeli portarsi via
 le chiese.
a mani giunte, inginocchiati.
Le mani che non dovevano lasciare gli angeli portarsi via
 le chiese.
Ma gli uomini non lo sapevano,
e gli angeli pensarono che a loro le chiese non servissero
 per niente.

La terra vuota e gli uomini a mani giunte, inginocchiati.

Si levarono allora gli angeli dello sterminio.
E le lunghe spade fiammeggianti
tagliarono le teste degli uomini inginocchiati,
che avevano chiuso la porta delle chiese in faccia
  alla verità.

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Annibale Carracci
Madonna di Loreto (1604-1605)
...

Metafísica


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Metafísica
Metafisica


A sós contigo, em qualquer parte
nem meu nem teu só nosso o mundo,
aceso coração da vida!
Fiando um tempo indiferente
ao que fomos e seremos
fogo de desejo a tua face
trémula de querer-te a minha voz…
 
Ou febre ou calma dum presente
em que os beijos não acabam
e as carícias reverdecem
em sucessivas primaveras!
Espuma de taça sempre cheia
num extinguir-se inextinguível,
sede infinita, lava ao rubro,
em que morremos renascendo!

Io da solo con te, da qualche parte,
né mio né tuo soltanto nostro il mondo,
cuore pulsante della vita!
Inoltrandoci in un tempo indifferente
a quel che siamo stati e che saremo
fuoco di desiderio il tuo viso
tremula di voluttà la mia voce…
 
O febbre o calma d’un presente
in cui i baci non finiscono
e le carezze rinverdiscono
in successive primavere!
Spuma di boccale sempre pieno
in un estinguersi inestinguibile,
sete infinita, lava incandescente,
in cui moriamo rinascendo!

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Auguste Rodin
Il bacio (1885)
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Europa - V


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Europa - V
Europa - V


A música era linda...
vinha do rádio, meiga, mansa,
macia como um corpo quente de mulher...
era doce, cariciosa e lânguida...

Mas eu tinha ainda nos ouvidos,
como um clamor de milhões de bocas:
“No campo de concentração hoje ocupado pelas
 nossas tropas
os alemães queimaram milhares de vivos num forno
 crematório...
Nas cubatas, os mortos misturavam-se com
 os moribundos...
O sargento S.S. não pôde recordar quantos homens
 tinha morto...
Os mortos apodrecem aos montes, e os vivos
arrancam-lhes as roupas
para as fogueiras em que ao lado se aquecem...
EM MUITOS CADÁVERES ENCONTROU-SE UM CORTE
 LONGITUDINAL:
ERAM OS VIVOS QUE TINHAM TIRADO AOS MORTOS
 O FÍGADO
E OS RINS PARA COMER,
A ÚNICA CARNE QUE AINDA RESTAVA
 NOS CADÁVARES...”

E lembro-me de repente dum filme muito antigo
Em que o criminoso perguntava:
“De quoi est fait un homme, monsieur le commissaire?”
e nos seus olhos lia-se o pavor
de quem vi um abismo e não lhe sabe o fundo...
De quoi est fait un homme? De que são feitos os homens
que queimaram vivos outros homens? Que tinham
 centos de crianças
a morrer de fome e pavor, escravos como os pais?
que matavam ou deixavam morrer homens aos milhões,
que os faziam descer ao mais fundo
 da degradação,
torturados, esfomeados, feitos chaga e esqueleto?
Eram esses mesmos homens
que faziam pouco da liberdade,
que vinham salvar o mundo da desordem,
que vinham ensinar a ORDEM ao planeta!
Sim, que traziam a paz com as grades das prisões,
a ordem com as câmara de tortura...

E depois a música vem, cariciosa e lenta,
a julgar que apaga a ignomínia que lançaram sobre
 a terra!
A julgar que esqueceremos a abjecção dos
 que sonharam
apagar da terra a insubmissão do homem livre!
Não - nem cárceres, nem deportações, nem represálias,
 nem torturas
acabarão jamais com a insubmissão do homem livre,
do homem livre nas cadeias, cantando nas torturas,
porque vê diante de si os irmãos que estão lutando,
que hão-se-cair, para outros sempre se erguerem,
clamando em vozes sempre novas
QUE O HOMEM NÃO SE HÁ-DE SUBMETER À VIOLÊNCIA!
Homens sem partido e de todos os partidos,
que nasceram com a revolta porque não lhes vale de
nada viver para serem escravos,
homens sem partido e de todos os partidos —,
 menos todos quantos
só sabem dizer ORDEM! e clamar VIOLÊNCIA!
os que pedem sangue porque são sanguinários, sim,
mas também todos os que nunca souberam querer nada,
os que dizem “Não é possível que se torturem
 os presos políticos”,
os que não podem acreditar
porque não querem ser incomodados pela pestilência
dos crimes cometidos para eles
— para eles continuarem a acreditar que a ORDEM
 não é apenas a mordaça
sobre as bocas livres que hão-de gritar até ao fim do mundo
QUE SÓ O HOMEM LIVRE É DIGNO DE SER HOMEM!

La musica era bella...
veniva dalla radio, soave, calma,
morbida come un corpo caldo di donna...
era dolce, carezzevole e languida...

Ma io sentivo ancora nelle orecchie,
come un clamore di milioni di bocche:
“Nel campo di concentramento oggi occupato dalle
 nostre truppe
i tedeschi hanno bruciato migliaia di vivi in un forno
 crematorio...
Nelle baracche, i morti si confondevano con
 i moribondi...
Il sergente S.S. non è riuscito a ricordare quanti uomini
 fossero morti...
I morti si decompongono a mucchi, e i vivi
strappano loro i vestiti
per i falò intorno ai quali si scaldano...
SU MOLTI CADAVERI ERA PRESENTE UN TAGLIO
 LONGITUDINALE:
ERANO I VIVI CHE AVEVANO TOLTO AI MORTI
 IL FEGATO
E I RENI PER MANGIARLI,
L’UNICA CARNE CHE ANCORA RESTAVA
 NEI CADAVERI...”

E d’un tratto mi torna in mente un vecchio film
in cui il criminale domandava:
“De quoi est fait un homme, monsieur le commissaire?”
e nei suoi occhi si leggeva il terrore
di chi ha visto un abisso e non ne conosce il fondo...
De quoi est fait un homme? Di che son fatti gli uomini
che hanno bruciato vivi altri uomini? Che tenevano
 centinaia di bambini
a morir di fame e spavento, schiavi come i genitori?
che uccidevano o lasciavano morire uomini a milioni,
che facevano toccar loro le più estreme profondità
 della degradazione,
torturati, affamati, ridotti a piaghe e scheletro?
Erano quegli stessi uomini
cui serviva poco la libertà,
che venivano a salvare il mondo dal disordine,
che venivano a insegnare l’ORDINE al pianeta!
Sì, che portavano la pace con le grate delle prigioni,
l’ordine con le camere di tortura...

E poi arriva quella musica, carezzevole e lenta,
con la pretesa di cancellare l’ignominia che è stata seminata
 sulla terra!
Con la pretesa di farci scordare l’abiezione di quelli
 che han sognato
di cancellare dalla terra l’insubordinazione dell’uomo libero!
No — né carceri, né deportazioni, né rappresaglie,
 né torture
metteranno mai fine all’insubordinazione dell’uomo libero,
dell’uomo libero in galera, che canta sotto tortura,
perché davanti a sé vede i fratelli che stanno lottando,
che cadranno, perché altri sempre si sollevino,
gridando con voci sempre nuove
CHE L’UOMO NON DEVE SOTTOSTARE ALLA VIOLENZA!
Uomini senza partito e di tutti i partiti,
che con la rivolta sono nati perché a nulla gli serve
vivere per essere schiavi,
uomini senza partito e di tutti i partiti —,
 esclusi tutti quelli che
sanno dire soltanto ORDINE! e reclamare VIOLENZA!
quelli che chiedono sangue perché sono sanguinari, sì,
ma anche quelli che non hanno mai saputo ambire a nulla,
quelli che dicono “Non è possibile che si torturino
 i prigionieri politici”,
quelli che non possono credere
perché non vogliono essere disturbati dal fetore
dei crimini da loro commessi
— per poter continuare a credere che l’ORDINE
 non è solo la museruola
sopra le bocche libere che grideranno fino alla fine del mondo
CHE SOLO L’UOMO LIBERO È DEGNO D’ESSERE UOMO!

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Félix Nussbaum
Il Trionfo della morte (1944)
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Europa - IV


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Europa - IV
Europa - IV


Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
– mas não acreditava!
Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa e ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma
esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...

Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos
vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito
instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
– sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
– eu porque tremo e soluço?

Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus
meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite
à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...

Io parlo delle case e degli uomini,
dei vivi e dei morti:
di ciò che passa e mai più fa ritorno...
Non vengano a dirmi che era materialmente previsto,
ah, non mi vengano con teorie!
Io vedo la desolazione e la fame,
le angosce senza nome,
il terrore impresso per sempre sui volti tragici
delle vittime.
E so che vedo, so che immagino solo un minimo,
un insignificante frammento di tragedia.
Io, se vedessi, non ci crederei.
Se vedessi, passerei per folle o per profeta,
passerei per capo di briganti, per bandito di strada,
– ma non ci crederei.
Guardo gli uomini, le case e le bestie.
Guardo con uno spavento senza limiti,
e resto senza parole,
soffrendo perché sono gli uomini che han fatto tutto questo:
questa massa insanguinata cui han ridotto la terra intera,
questa poltiglia di sangue e anima,
di cose e di esseri,
e mi domando con angoscia se ci sarà ancora qualche
speranza,
se mai l’odio servirà a qualcosa...

Lasciatemi piangere - e piangete!
Le lacrime laveranno per lo meno la vergogna d’esser
rimasti vivi,
di aver sancito con il nostro silenzio il crimine come
un’istituzione
e mentre piangiamo forse sentiremo nostro il dramma,
per qualche momento sarà nostro un po’ del dolore altrui,
per un secondo saremo i morti e i torturati,
gli invalidi a vita, i folli e i prigionieri,
saremo la terra putrida per tanti cadaveri,
saremo il sangue degli alberi,
eil ventre doloroso delle case saccheggiate,
– sì, per un momento saremo il dolore per tutto questo...

Io non so perché mi scendano le lacrime,
perché tremo e che brivido corra dentro di me,
io che non ho parenti né amici in guerra,
io che sono estraneo davanti a tutto questo,
io che sto nella mia casa tranquilla,
io che non ho guerre alla porta,
– io perché tremo e singhiozzo?

Chi piange in me, ditemi - chi piange in noi?

Qui tutto procede come un fiume stanco di conoscere i suoi
meandri:
le strade sono strade con gente e automobili,
non ci sono sirene a gridare terrori irreprimibili,
e la miseria è la stessa miseria che già c’era...
E se tutto è uguale ai vecchi tempi,
nonostante l’Europa intorno a noi, esangue e martire,
io mi domando se non stiamo sognando d’esser gente,
senza fratelli né coscienza, qui sepolti vivi,
senza nient’altro che tardive lacrime, e una notte che
ci sovrasta,
una notte in cui non giunge mai il chiarore dell’alba...

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Otto Dix
Guerra (particolare del Trittico) (1929-1932)
...

Europa - III


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Altra traduzione :
Adolfo Casais Monteiro »»
 
Europa (1946) »»
 
Francese »»
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Europa - III
Europa - III


Na erma solidão glacial da treva
os que não morreram velam.
 
Em vagas sucessivas de descargas
A morte ceifou os nossos irmãos.
 
O medo ronda,
o ódio espreita.
Todos os homens estão sozinhos.
 
A madrugada ainda virá?
 
Vão caindo um a um na luta sem trincheiras,
 e a noite parece que não terá nunca madrugada,
mas cada gota de sangue é agora semente de revolta,
da revolta que varrerá da face da terra
os sacerdotes sinistros do terror.
A revolta a florir em esperança
dos braços e das bocas que ficaram...
 
A traição ronda,
A morte espreita.
 
Uma comoção de bandeiras ao vento...
Clarins de aurora, ao longe...
 
Os que não morreram velam.

Nell’erma solitudine glaciale della tenebra
quelli che non son morti vegliano.
 
In successive raffiche d’artiglieria
La morte ha falciato i nostri fratelli.
 
La paura fa la ronda,
l’odio sta all’erta.
Tutti gli uomini sono soli.
 
Tornerà a sorgere l’alba?
 
Stanno cadendo uno ad uno nella lotta senza trincee,
e pare che la notte non vedrà mai più l’alba,
ma ogni goccia di sangue ora è seme di rivolta,
della rivolta che cancellerà dalla faccia della terra
i sinistri sacerdoti del terrore.
La rivolta che farà rifiorire la speranza
nelle braccia e nelle bocche sopravvissute...
 
Il tradimento fa la ronda,
La morte sta all’erta.
 
Un’eccitazione di bandiere al vento...
Trombe d’aurora, in lontananza...
 
Quelli che non son morti vegliano.

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Otto Dix
Trincea (1918)
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