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Primeiro amor


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Primeiro amor
Primo amore


Tentei todas as formas de mágoa
Na minha própria mágoa: nenhuma servia.
Nada havia sido escrito para mim.
Os teus olhos não estavam escritos
Em lado nenhum; ninguém estivera
Antes de mim na minha solidão.
E havia gritos à procura da minha boca,
Dentro do meu amor por ti,
O amor nada sabia de si próprio
Por ninguém, livro nenhum ‑
Ia-se criando à tua imagem.
O primeiro amor, que é também o último,
Jamais está escrito.
Então, quase acreditei na força
De um grito inédito, inaudito:
Concedam-me este amor
E moverei o mundo ‑
Dirigindo-me não sei a quem;
Por descobrir estava que sentir não é poder,
Que o sol não se move, nem as outras estrelas,
Que para o amor não basta amarmos,
Eternos e morituros.

Ho sperimentato tutte le forme di dolore
Nel mio stesso dolore: nessuna ha funzionato.
Nulla era stato scritto per me.
I tuoi occhi non erano scritti
Da nessuna parte; nessuno era stato lì
Prima di me nella mia solitudine.
E vi erano grida in cerca della mia bocca,
Dentro il mio amore per te,
L’amore nulla sapeva di sé stesso
Per nessuno, per nessun libro ‑
Si stava creando a tua immagine.
Il primo amore, che è anche l’ultimo,
Non è mai scritto.
Allora, ho quasi creduto nella forza
D’un grido senza precedenti, inaudito:
Mi si conceda questo amore
E muoverò il mondo ‑
Rivolgendomi non so a chi;
Stavo per scoprire che sentire non è potere
Che il sole non si muove, né l’altre stelle,
Che per l’amore non è sufficiente che amiamo,
Noi eterni e morituri.

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Malisa Catalani
Gea (2020)
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O que fiz desta vida…


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O que fiz desta vida…
Ciò che di questa vita feci…


O que fiz desta vida
Foi fazer dela outra,
Moldei-a na ansiedade
De esperar nos dias
Outros dias.
As formas ferviam,
Os gestos eram barro.
Nunca em dois dias
A forma da minha vida
Foi a mesma,
Vidas atrás de vidas perdi
E em todas elas
A mesma morte lançou raízes.
Consegui em todas essas vidas
Encontrar a vida para que nasci?
Não sei, tu mo dirás.

Ciò che di questa vita feci
Fu di renderla un’altra,
La modellai con ansia
Sperando che nei giorni
ci fossero altri giorni.
Le forme fremevano,
I gesti erano argilla.
Mai per due giorni
La forma della mia vita
Fu la stessa,
Persi una vita dopo l’altra
E in ognuna di loro
La stessa morte mise radici.
Sono riuscito in tutte quelle vite
A trovare la vita per cui nacqui?
Non lo so, me lo dirai tu.

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Henry Moore
Seven sculptural ideas (1973)
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O Outono pressuroso…


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O Outono pressuroso…
L’autunno frettoloso…


O Outono pressuroso na cadência das folhas.
Aqui, não há razão sequer para ter um nome.
O que se sente é como os ventos –
Muitos não vêm nos dicionários,
Anónimos iludem todas as redes conhecidas.
Também desconhecida esta gratidão
Pelo rosto da manhã a cada janela.
O ar cristaliza o silêncio das ruas
E parece deixar sal nos olhos,
Que se julgam, também eles, sujeitos ao Outono,
Uma tentação fácil quando estão cientes
De que pouco podem mudar, só ser mudados.
Agora, os corações são frágeis, zumbem muito,
Vivem ofegantes como se trouxessem
Noticias do reino dos mortos
E agora entregam-se, também eles,
Como frutos da época, tocados,
Bicados pelas aves de muitas noites,
Ou sentam-se com velhos e pombos
Em jardins públicos, sob um sol flébil,
E ouvem, à capella, o Outono e a tarde.

L’autunno frettoloso col ritmo delle foglie.
Qui, non v’è alcun motivo per avere un nome.
Ciò che si sente è simile ai venti –
Molti non compaiono sui dizionari,
Anonimi illudono tutte le reti conosciute.
Anche questa gratitudine è sconosciuta
Al volto del mattino che appare a ogni finestra.
L’aria cristallizza il silenzio delle vie
E sembra che lasci sale negli occhi,
Che si credono, anch’essi, soggetti all’autunno,
Una facile tentazione, se sono consapevoli
Di poter cambiare poco, solo d'essere cambiati.
Adesso, i cuori sono fragili, molto vibranti,
Vivono ansimanti come se recassero
Notizie dal regno dei morti
Ed ora si offrono, anch’essi,
Come frutti di stagione, ammaccati,
Beccati dagli uccelli per tante notti,
O si siedono con i vecchi e i piccioni
In giardini pubblici, sotto un pallido sole,
E ascoltano, a cappella, l’autunno e la sera.

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Nancy Azara
Foglia in ombra (2023)
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Aqui chegado...


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Aqui chegado...
Giunto sin qui...


Aqui chegado, que lugar é este?
O coração das águas corre,
Turbulento, eu vim com a lama
Até encontrar detença aqui,
Na margem tranquila.
Cheguei tão longe – que lugar é este?
São os teus olhos,
Não posso voltar para trás.

Giunto sin qui, che posto è questo?
Scorre il cuore delle acque,
Turbolento, son venuto col fango
Fino a trovare sollievo qui,
Sulla riva tranquilla.
Così lontano son giunto – che posto è questo?
Sono i tuoi occhi,
Non posso tornare indietro.

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Félix Vallotton
La Dordogne a Carennac (1925)
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Não se diluíram...


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Não se diluíram...
Non si sono stemperati...


Não se diluíram em elísios ou infernos,
Permaneceram fiéis, os meus mortos,
Aqui gravitam, na densidade das suas almas
Superior ao facto de terem sido corpos
Vislumbrando-os em fissuras do tempo,
Distracções de que logo se recompõe.
Vislumbro-os a horas neutras
No trânsito entre a vida e a morte,
Átonas de valores simbólicos.
Vislumbro-os regressando
Apressados aos retratos.

Non si sono stemperati in elisi o in inferni,
Si sono mantenuti integri, i miei morti,
Gravitano qui, nella densità delle loro anime
Superiore al fatto d’esser stati corpi
Che s’intravedono in fenditure del tempo,
Distrazioni da cui ci si riprende presto.
Li intravedo a ore neutre
Nel passaggio tra la vita e la morte,
Prive di valori simbolici.
Li intravedo mentre in tutta fretta
Fanno ritorno ai loro ritratti.

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Felice Casorati
Ritratto di Anna Maria de Lisi (1918)
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Rodeiam-me coisas antigas...


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Rodeiam-me coisas antigas...
Mi circondano vecchie cose...


Rodeiam-me coisas antigas –
Candelabros, móveis, livros –
Leves no interior da sua presença.
Nenhum pó subjuga
A sua autoridade.
À sua volta, irradia a força
De outras atmosferas
E há uma súbita corrente de ares,
Passagem de outras vozes, luzes,
Que bruxuleiam um instante
E logo pesam, dissipando a ilusão.
Rodeiam-me coisas antigas
E sei-me rodeado de vidas;
Rodeiam-me coisas antigas,
Plácidas, serenas, 
Detidas na enseada de si mesmas.

Mi circondano vecchie cose –
Candelabri, mobili, libri –
Lievi nell’intimo della loro presenza.
Non v’è polvere che domini
La loro autorità.
Intorno a loro, irradia la forza
Di altre atmosfere
E v’è un’improvvisa corrente d’aria,
Passaggio di altre voci, luci,
Che affiorano un istante
E subito rattristano, fugando l’illusione.
Mi circondano vecchie cose
E mi sento circondato da vite;
Mi circondano vecchie cose,
Placide, serene, 
Trattenute in seno a se stesse.

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Carl Vilhelm Holsøe
Lettura alla finestra (1931)
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Não creio que viesse...


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Não creio que viesse...
Non credo che venisse...


Não creio que viesse tentar a história,
Mas ia mudar-se, a vizinha britânica,
E precisava de uma chave inglesa,
Mas eu só tinha um alicate –
Ainda assim, podíamos tentar.
Ofereci os meus préstimos,
Desci as escadas em passo de trovador
E ela no seu passo em cabelo.
O alicate não servia, as porcas 
Obstinaram-se e não cederam –
Vim-me embora, não sei se ambos
Sentimos um futuro a desviar-se lentamente.
Quando fechei a porta, não houve sequer era uma vez.

Non credo che venisse in cerca d’una storia,
Ma stava per trasferirsi, la vicina britannica,
E aveva bisogno d’una chiave inglese,
Ma io avevo solamente una pinza –
Comunque, potevamo tentare.
Offrii i miei servigi,
Scesi le scale a passo di trovatore
E lei col suo passo leggiadro.
La pinza non serviva, i bulloni 
S’impuntarono e non cedettero –
Me ne andai via, non so se tutti e due
Sentimmo che un futuro si discostava lentamente.
Quando chiusi la porta, neanche ci fu un c’era una volta.

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Rubens
Vulcano forgia i fulmini di Giove (1636)
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Sou um ponto de indefinido...


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Sou um ponto de indefinido...
Sono un qualcosa d’indefinito...


Sou um ponto de indefinido
Situado nas encruzilhadas da alteridade,
Sou barco sem nome
Rasgado pelos cantos de emoções,
Pelas promessas de coração.
Há uma voz que me chama
Do fundo do rumo
Mas há o trânsito da confusão
Que me impede de partir
E encontrar essa voz.
Houve desde sempre demasiadas janelas,
Demasiados sóis, demasiadas ruas.
Todos os homens precisam de ter
Uma pequenez maior que o seu tamanho
Para que haja uma grandeza nos seus sonhos.
A minha grandeza é demasiado densa
Para que eu possa achar o vento da bússola.
Será a morte o meu encontrar-me?

Sono un qualcosa d’indefinito
Situato agli incroci della diversità,
Sono una barca senza nome
Raschiato dagli spigoli delle emozioni,
Dalle promesse del cuore.
C’è una voce che mi chiama
In fondo alla mia meta
Ma c’è il traffico caotico
Che m’impedisce di partire
E andare incontro a questa voce.
Ci sono sempre state troppe finestre,
Troppi soli, troppe strade.
Ogni uomo ha bisogno d’avere
Una piccolezza maggiore delle sue dimensioni
Affinché ci sia grandezza nei suoi sogni.
La mia grandezza è troppo densa
Perché io possa trovare il vento della bussola.
Sarà la morte il mio ritrovarmi?

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Karina Puente
Dorotea City (1972)
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Como dói o ignorado humano...


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Como dói o ignorado humano...
Come fa male l’umana apatia...


Como dói o ignorado humano.
Vou, então, procurar
Algo semelhante a ternura:
O vapor de um chá,
A lembrança de um papel antigo no bolso,
O que resta de vento lá fora.
Um mar sem praias ou precedentes,
Viagem pura, amor sem margem,
Corrente que mergulha na água esgotada.

Come fa male l’umana apatia.
Andrò, dunque, in cerca
Di qualcosa che somigli alla dolcezza:
Il vapore di un tè,
Il ricordo d’un vecchio bigliettino in tasca,
Quel che resta del vento là fuori.
Un mare senza spiagge o senza precedenti,
Viaggio puro, amore senza limiti,
Corrente che sfocia dove l’acqua è esaurita.

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Oswaldo Guayasamín
Meditazione (1970)
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Amamos de muitos amores...


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Amamos de muitos amores...
Amiamo molti amori...


Amamos de muitos amores
E morremos de muitas mortes.
Somos naturalmente múltiplos,
E múltiplos de nós mesmos,
De muitos que nem sequer sabemos.

Amiamo molti amori
E moriamo di molte morti.
Siamo, per natura, multipli,
E multipli di noi stessi,
Di molti che neppur conosciamo.

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Andy Warhol
Chanel n° 5 (1997)
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Era uma vez...


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Era uma vez...
C’era una volta...


“Era uma vez”:
Aqui começa o tempo anulado,
O oásis, a cidade
Que surge perante a caravana
Vergada pelo peso do deserto
E do céu nítido.
Aqui começam as danças verdes,
Aqui começa a escorrer a origem.
Aqui “era uma vez”:
Aqui a gárgula das palavras,
Aqui começa uma lenta leveza,
Um esvoaçar de espanto,
Aqui começam os alfabetos
Das línguas como tapetes voadores,
Casas de açúcar, florestas.
Aqui começa a voz nascida
Dentro de tudo: animais, casas,
Árvores, águas, ventos.
“Era uma vez”:
Aqui se sepulta o pensamento,
Aqui se combinam os quatro elementos
De não se existir
Na redoma de uma vida caducifólia.
“Era uma vez”, “Era uma vez”:
Aqui se abrem os céus do voo,
Aqui se recomeça a alquimia da infância,
Aqui se aboliu toda a idade.

“C’era una volta”:
Comincia qui il tempo abolito,
L’oasi, la città
Che sorge davanti alla carovana
Piegata dal peso del deserto
E dal cielo limpido.
Qui cominciano le verdi danze,
Qui comincia a scorrere l’origine.
Qui “c’era una volta”:
Qui è il doccione delle parole,
Qui comincia una lenta levità,
Uno sfarfallio di sorprese,
Qui cominciano gli alfabeti
Delle lingue come tappeti volanti,
Case di zucchero, foreste.
Qui comincia la voce nata
Dentro ogni cosa: animali, case,
Alberi, acque, venti.
“C’era una volta”:
Qui si seppellisce il pensiero,
Qui si combinano i quattro elementi
Per non continuare ad esistere
Nella campana di vetro di una vita fugace.
“C’era una volta”, “C’era una volta”:
Qui si spalancano i cieli del volo,
Qui ricomincia l’alchimia dell’infanzia,
Qui sono rimosse tutte le età.

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La volpe e la cicogna
Incisione da "Fables from incunabula" (1479)
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Acontece às vezes que a neve...


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Acontece às vezes que a neve...
Succede a volte che la neve...


Acontece às vezes que a neve
Punge a terra, não é, avô?
Curto-circuito no coração
E rebentam factos e afectos, como bolhas,
E apaga-se o que foi um homem:
Os olhos muito azuis, a tropa –
Artilharia – na Serra do Pilar,
E os postais de aniversário
Ao doutor Salazar e o amor
Pela avó, pequenina, doce, ruiva.
Perdoa-nos por te chorarmos,
Não sabemos ainda o que já sabes,
E o que sabe o velho marmeleiro
Que se ri lá fora.

Succede a volte che la neve
Punga la terra, vero, nonno?
Corto circuito nel cuore
E scoppiano fatti e affetti, come bolle,
E quel ch’è stato un uomo si dilegua:
Gli occhi molto blu, la truppa –
Artiglieria – sulla Serra do Pilar,
E le cartoline di compleanno
Al dottor Salazar e l’amore
Per la nonna, piccolina, dolce, rossa.
Scusaci se ti piangiamo,
Ancora non sappiamo ciò che tu già sai,
E che sa il vecchio melo cotogno
Che se la ride là fuori.

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Nicolas Tarkhoff
Paesaggio con campi sotto il sole (1907)
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A sombra do que vivemos...


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A sombra do que vivemos...
L’ombra di ciò che abbiamo vissuto...


A sombra do que vivemos
Tem a altura da nossa infelicidade,
Avaliamos a importância do que dizemos
Pelo volume do que omitimos.
Aonde o meu gosto pessoal vai,
Ela esquiva-se, resiste,
E a sua recusa é uma água-forte
Que se grava no rosto, nos gestos,
Falo contra esse último em mim
Que me chama e chama.
Esse último que é o meu próprio juízo,
Final e inapelável,
Quando nem o desespero é oponível.
Um lago aqui parece-te um erro da paisagem,
Um erro onde nos queremos demorar,
Ficar se isso nos fosse dado.
A fortuna mestiça que tudo contesta,
Tudo o que nos percute, compele
A neve de pétalas da magnólia –
O preço da primavera.
A noite peripatética,
O tempo que reflui sobre si próprio,
Que não se evade, mas se evola
E é também estas pétalas moribundas.

L’ombra di ciò che abbiamo vissuto
Ha la grandezza della nostra infelicità,
Valutiamo l’importanza di ciò che diciamo
Dal volume di ciò che omettiamo.
Laddove si volge il mio gusto personale,
Essa si scosta, resiste,
E il suo rifiuto è un’acquaforte
Che s’imprime sul volto, nei gesti,
Io parlo contro quest’ultimo in me
Che mi chiama e richiama.
Quest’ultimo che è il mio stesso giudizio,
Finale e inappellabile,
Quando neppure la disperazione è contestabile.
Un lago qui ti sembra un errore del paesaggio,
Un errore in cui ameremmo indugiare,
Soffermarci se ci fosse concesso.
La fortuna canaglia che tutto contesta,
Tutto ciò che ci colpisce, provoca
La nevicata di petali della magnolia –
Il prezzo della primavera.
La notte peripatetica,
Il tempo che rifluisce su se stesso,
Che non fugge, ma svapora
Ed è anche questi petali moribondi.

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Georgia O’Keeffe
White Flower (1929)
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Junto ao Sena, o vento…


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Junto ao Sena, o vento…
Presso la Senna, il vento…


Junto ao Sena, o vento
Rapta a nossa efemeridade.
É o vento de Paris que lhe dá rumo.
É outono e tudo começa
A não ser verdadeiro
Para o olhar que não mudou.
Mudam-se as roupagens,
Prepara-se outro amor e outra morte.
Em Paris, a morte não significa morrer –
Talvez um tempo que já tenha sido regresse.
É em Paris que encontro Beatrice,
Já não uma aristocrata florentina,
Mas a publicitária que me vende um perfume
E traja de azul e fala a cantar.
E o seu sorriso é um fragor em mim
E os lugares-comuns são esplendorosos
Para falar de Beatrice.
É perante ela que uma vida enflora
Para se fechar no mesmo momento,
Fim e principio sobrepostos, indistintos.
No círculo do vento com a minha alma
Está Beatrice e Beatrice,
Na minha alma, diz-me
Que aqui, em Paris, com ela,
A minha efemeridade pode durar
Um pouco mais.

Presso la Senna, il vento
Si porta via la nostra caducità.
È il vento di Parigi che la orienta.
È autunno e tutto comincia
A non esser veritiero
Per lo sguardo che non è cambiato.
Si cambiano gli indumenti,
Si prepara un altro amore e un’altra morte.
A Parigi, la morte non significa morire –
Forse è il ritorno d’un tempo ch’è già stato.
È a Parigi che incontro Beatrice,
Non già un’aristocratica fiorentina,
Ma la promotrice che mi vende un profumo
E veste di blu e parla come cantasse.
E il suo sorriso crea un fragore in me
E i luoghi comuni sono magnificenti
Parlando di Beatrice.
È dinanzi a lei che una vita fiorisce
Per richiudersi nello stesso momento,
Fine e principio sovrapposti, indistinti.
Nel circuito del vento con la mia anima
C’è Beatrice e Beatrice,
Nella mia anima, mi dice
Che qui, a Parigi, con lei,
La mia caducità potrà durare
Un po’ di più.

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Gaston Balande
Quai De Seine (1951)
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O que se cala por bem...


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O que se cala por bem...
Ciò che con cura si tace...


O que se cala por bem vai perdendo
A inocência que se possa acomodar numa espécie
 de silêncio.
À sua sombra cresce –
Quase se poderia dizer que cresce
À sombra do invisível, do inaudível –
Mas cresce uma ameaça que ganha corpo e se adensa.
Tudo o que se calou apodrece,
Empesta e envenena, acidula e corrompe,
Em breve os seus vermes estarão por toda a parte.
O que calaste fala continuamente
Contigo, lateja em protesto incomodo.
Poderás morrer sobre o peso residual
De tudo o que não disseste.
Tantas palavras adormecidas por conveniência
Não dormem, têm uma gravidade pestífera
Que te abraça para o fundo.
De algum modo, passaram para o outro lado do espelho,
São uma presença que acompanha
A imagem da sua própria ausência
E os lábios movem-se em formas mudas,
Obstinada recusa do teu silêncio.

Ciò che con cura si tace finisce col perdere
L’innocenza, che si possa raccogliere in una specie
 di silenzio.
Alla sua ombra cresce –
Quasi si potrebbe dire che cresce
All’ombra dell’invisibile, dell’inudibile –
Ma cresce una minaccia che prende corpo e s’addensa.
Tutto ciò che s’è taciuto marcisce,
Appesta e avvelena, inacidisce e corrompe,
Presto i suoi vermi saranno dappertutto.
Ciò che hai taciuto parla continuamente
Con te, palpita in molesta lagnanza.
Potrai morire per il peso eccedente
Di tutto ciò che non hai detto.
Tante parole addormentate per convenienza
Non dormono, hanno una gravità deleteria
Che ti abbraccia trascinandoti a fondo.
In qualche modo, sono passate dall’altro lato dello specchio,
Sono una presenza che accompagna
L’immagine della propria assenza
E le labbra tacitamente si muovono,
Ostinata ripulsa del tuo silenzio.

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Mattia Moreni
Autoritratto n°5 (1988)
...

Tão bem me conheces...


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Tão bem me conheces...
Mi conosci così bene...


Tão bem me conheces.
Da altura dessa ciência,
Dessa lucidez diurna
Que sobre mim alimentas,
Dessa transparência em que me tornas
Dizes: o que está realmente longe,
O que é verdadeiramente distante,
O que dói porque infecundo,
O longe real é o que está perto
E não conseguimos ver.

Mi conosci così bene.
Dall’alto di questa scienza,
Di questa lucidità diurna
Che di me tu alimenti,
Di questa trasparenza in cui mi conduci
Tu dici: ciò che è realmente lontano,
Ciò che è effettivamente distante,
Ciò che affligge perché infecondo,
La distanza reale è ciò che ci sta accanto
Eppure noi non riusciamo a vederla.

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Edward Hopper
Sunlight on Brownstones (1956)
...

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