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Última canção de Hiroxima


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Última canção de Hiroxima
Ultima canzone di Hiroshima


Mil novecentos e quarenta e cinco.
Manhã de seis de agosto. A esfinge atômica,
de repente uma chuva de explosivos,
incendeia as paredes de Hiroxima.

Os jardins de papoulas e de lótus,
campos de arroz e plantações de trigo.
Noivas e noivos não tiveram tempo
de erguer um brinde à essência da matéria.

Odor de enxofre cala os passarinhos.
Árvores são fantasmas de espantalhos
que já não pastoreiam madrugadas.

No espaço em chamas pairam cogumelos.
Seu bailado é uma dança de ciclopes
para um noivado de baleias mortas.
Millenovecentoquarantacinque.
Mattina del 6 agosto. La sfinge atomica,
d’un tratto una pioggia di esplosivi,
incendia i muri di Hiroshima.

I giardini di papaveri e di loto,
campi di riso e piantagioni di grano.
Spose e sposi non ebbero il tempo
di brindare all’essenza della materia.

L’odore di zolfo fa tacere gli uccellini.
Gli alberi sono fantasmi di spaventapasseri
che più non conducono le albe al pascolo.

Nello spazio in fiamme fluttuano funghi.
Il loro ballo è una danza di ciclopi
per gli sponsali di balene morte.
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Yumi Karasumaru
Hiroshima nr. 3 (2015)
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Noite das baleias azuis


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Noite das baleias azuis
Notte delle balene azzurre


A noite é uma prostituta de olhos míopes
que se deita na cama conosco.
Os seios da noite exalam aromas de flores desabrochadas
nos pântanos. A noite, meretriz egípcia,
encobre o rosto de esfinge que incendeia os mortos.

A noite rumina sua pastagem de trevas
nas ladeiras e declives do Tártaro.
Hipopótamo dos pântanos da Ásia, a noite deita-se
na cama das monjas e noviças, entre as dobras
da insônia e a sensualidade dos lençóis.

A noite arrasta a placenta cravejada de estrelas
sobre esqueletos de múmias e faraós.
Amamenta as crias de cobras e lagartos,
anjos de pedra-sabão, madonas do Aleijadinho,
profetas exilados nas cavernas do Hebron,
dragões gerados nas estranhas das baleias azuis,
éguas e cavalos árabes de linhagem barroca,
ossadas de navios soterrados pelo dilúvio.

A noite é uma feiticeira
que nos ensina os rituais do Kama-Sutra
e nos introduz no purgatório dos frios candelabros.
La notte è una prostituta dagli occhi miopi
che con noi si corica nel letto.
I seni della notte esalano aromi di fiori sbocciati
nei pantani. La notte, meretrice egizia,
nasconde il volto di sfinge che eccita i morti.

La notte rumina la sua pastura di tenebre
sulle pendici e sui declivi del Tartaro.
Ippopotamo delle paludi d’Asia, la notte si corica
nel letto di monache e novizie, tra le pieghe
dell’insonnia e la sensualità delle lenzuola.

La notte trascina la placenta trapunta di stelle
sopra scheletri di mummie e faraoni.
Allatta i piccoli di serpenti e lucertole,
angeli di pietra ollare, madonne dell’Aleijadinho,
profeti esiliati nelle caverne di Hebron,
dragoni generati nelle viscere delle balene azzurre,
giumente e cavalli arabi di lignaggio barocco,
ossature di navigli sotterrati dal diluvio.

La notte è una fattucchiera
che ci insegna i rituali del Kama-Sutra
e ci introduce nel purgatorio dei freddi candelabri.
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Nikolay Mescherin
Notte gelata (1908)
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Intimidade


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Intimidade
Intimità


Os mortos dormem conosco,
sob os mesmos lençóis de cambraia,
o mesmo teto,
a mesma sensação de frio,
o mesmo desconforto
que nos produz a poeira de um fantasma.
Escutam nossas confidências
e revelações mais íntimas. Acariciam
nossa pele e os pêlos da barba,
calçam as nossas meias,
passeiam no quarto com nossos sapatos.
Apagam a luz da cabeceira,
sussurram ao telefone e depois voltam a dormir.
I morti dormono con noi,
sotto le stesse lenzuola di batista,
lo stesso tetto,
la stessa sensazione di freddo,
la stessa inquietudine
che provoca in noi l’ombra di un fantasma.
Ascoltano le nostre confidenze
e le rivelazioni più intime. Accarezzano
la nostra pelle e i peli della barba,
infilano le nostre calze,
passeggiano per la stanza con le nostre scarpe.
Spengono la luce sul comodino,
bisbigliano al telefono, poi tornano a dormire.
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Félix Vallotton
Il valzer (1893)
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Discurso do Menino


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Discurso do Menino
Discorso del Bambino


Na festa da noite azul,
sou menino e não boneco.
Não quero vacas de plástico
pastando no meu presépio.

A esta pobre manjedoura
não tragam pinheiros falsos.
Sou filho de carpinteiro,
não de Herodes ou Pilatos.

Meninos ricos e pobres
não deixam de ser meninos.
Os adultos nada sabem
dos sonhos dos pequeninos.

Me chamam Rei dos Judeus
alguns sábios e adivinhos.
Nobres romanos já tecem
minha coroa de espinhos.

Deus traçou os meus caminhos
à maneira de episódios.
Logo virão as matilhas
uivar na tumba de Herodes.
Nella festa della notte santa,
sono bambino e non figurina.
Non voglio mucche di plastica
a pascolare nel mio presepe.

In questa povera mangiatoia
non mettete false pinete.
Sono figlio di falegname,
non di Erode o Pilato.

Bambini ricchi e poveri
sono pur sempre bambini.
Gli adulti nulla sanno
dei sogni dei piccini.

Mi chiamano Re dei Giudei
certi saggi e indovini.
Nobili romani già intrecciano
la mia corona di spini.

Dio ha tracciato il mio percorso
come fosse una storia a puntate.
Presto verranno mute di cani
a ululare sulla tomba di Erode.
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Diego Rivera
Notte dei poveri (1928)
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Lobos & Homens


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Lobos & Homens
Lupi & Uomini


Dizem que os lobos uivam
quando estão no cio
ou quando o sangue da lua desenha
no céu sua caligrafia
de presságios.

Dizem que em noites de vento
e de chuva, os lobos uivam pelos
mortos e os pastoreiam
nas encruzilhadas.

Dizem que os lobos sentem
o odor das fêmeas e são seduzidos
pelo cheiro de volúpia e mel
que elas semeiam pelos caminhos.
Só não dizem que os homens
também uivam quando amam.
Dicono che i lupi ululano
quando sono in calore
o quando il sangue della luna disegna
nel cielo la sua calligrafia
di presagi.

Dicono che nelle notti di vento
e di pioggia, i lupi ululano ai
morti e li fan pascolare
agli incroci.

Dicono che i lupi sentono
l’odore delle femmine e sono attratti
dall’effluvio di libidine e miele
che esse diffondono lungo i cammini.
Non dicono però che anche gli uomini
ululano quando fanno l’amore.
________________

Franz Marc
Due lupi (1913)
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Herói


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Herói
Eroe


Herói não é o que vai irrigar as lavouras
da morte nos campos de batalha.
Não é o que volta das trincheiras minadas
de explosivos com medalhas no peito
mutilações no corpo e na alma.

Herói não semeia tulipas de sangue
ramalhetes de napalm e rosas de átomo.
— Não é o aventureiro que fez xixi na lua.

— Herói é o que vai todas as tardes à padaria
mais próxima buscar o pão ainda morno
para testemunhar o mistério da vida.
Eroe non è colui che va ad irrigare i poderi
della morte sui campi di battaglia.
Non è colui che torna dalle trincee minate
di esplosivi con medaglie sul petto
mutilazioni nel corpo e nell’anima.

Eroe non semina tulipani di sangue
fasci di napalm e rose d’atomo.
— Non è l’avventuriero che ha fatto pipì sulla luna.

— Eroe è colui che va tutte le sere dal fornaio
più vicino a cercare del pane ancora tiepido
per testimoniare il mistero della vita.
________________

Safet Zec
Il pane della Misericordia (1943)
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A noite é uma árvore...


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A noite é uma árvore...
La notte è un albero...


A noite é uma árvore
desenhada pela fantasia de Deus.

As estrelas são frutos
da árvore da nossa utopia.

A noite é um rio de treva e limo
que corre por dentro da alma.

Rio que atravessa a memória
e despeja nos estuários do tempo.

A noite é uma aranha em sua teia
circundada de todas as seduções.

A noite é uma árvore inclinada
sobre a perplexidade de Deus.
La notte è un albero
disegnato dalla fantasia di Dio.

Le stelle sono frutti
dell’albero della nostra utopia.

La notte è un fiume di tenebra e limo
che scorre dentro l’anima.

Fiume che attraversa la memoria
e sfocia negli estuari del tempo.

La notte è un ragno nella sua tela
circondata da ogni seduzione.

La notte è un albero inclinato
sopra la perplessità di Dio.
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Juliette Dumas
Earth Dreams - Saint Jacques (2019)
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Recato


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Recato
Prudenza


Guarda o teu poema no fundo de uma gaveta.
Que as traças o devorem sem deixar
o mais débil vestígio de tua humanidade.

O que pensas do amor, da vida e da morte
não interessa a ninguém.
Todos estão demasiadamente distraídos
e preocupados com as precárias
liberdades do corpo e as metamorfoses da alma.

Digam o que disserem os graves e os cínicos
os bêbados e os bastardos
os que te cumprimentam todas as manhãs
com mentirosa cordialidade...
— Guarda o teu poema no fundo de uma gaveta.
Conserva la tua poesia in fondo ad un cassetto.
Che i tarli la divorino senza lasciare
la minima traccia della tua umanità.

Ciò che pensi dell’amore, della vita e della morte
non interessa a nessuno.
Sono tutti eccessivamente distratti
e preoccupati per le precarie
libertà del corpo e le metamorfosi dell’anima.

Dicano quel che vogliono le persone serie e i cinici
gli ubriachi e i bastardi
quelli che ti salutano tutte le mattine
con falsa cordialità...
— Conserva la tua poesia in fondo ad un cassetto.
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Afro Basaldella
Il sigillo rosso (1953)
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Nós e as formigas


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Nós e as formigas
Noi e le formiche


O universo é feito de coisas infinitamente grandes
e coisas infinitamente pequenas.

Pertencemos à hierarquia das formigas
que se alimentam de fungos nas profundezas da terra.

O que nos distingue do povo das formigas
é que elas escrevem poemas de amor ao trabalho
no pergaminho das folhas das árvores.

Nós os escrevemos com um olho no dicionário
e outro nas entranhas da metafísica.
L’universo è fatto di cose infinitamente grandi
e cose infinitamente piccole.

Apparteniamo alla gerarchia delle formiche
che si alimentano di funghi nella profondità della terra.

Quel che ci distingue dal popolo delle formiche
è che loro scrivono poesie d’amore lavorando
sulla pergamena delle foglie degli alberi.

Noi le scriviamo con un occhio al dizionario
e l’altro nelle viscere della metafisica.
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Emilio Isgrò
Agamennone (2005)
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Fingimento


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Fingimento
Falsità


Não adianta fingir
que o tempo não passou
com os seus pendões vacilantes
de cortejo fúnebre.

Fingir que o rosto não foge
ao sarcasmo dos espelhos.
Que os deuses não zombam
do sorriso trincado dos velhos.

Fingir que ainda restam
vestígios da antiga chama.
— Sob o desenho das rugas
só o silêncio nos ama.
Non serve fingere
che il tempo non sia passato
con i suoi vacillanti stendardi
da corteo funebre.

Fingere che il volto non sfugga
al sarcasmo degli specchi.
Che gli dei non si burlino
del sorriso scheggiato dei vecchi.

Fingere che ancora restino
vestigia dell’antica fiamma.
— Sotto il disegno delle rughe
solo il silenzio ci ama.
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Lucian Freud
Riflesso (autoritratto) (1981-1982)
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Três epitáfios


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Três epitáfios
Tre epitaffi


I
Sob este mármore negro
polido pelo vento e a chuva
repousam as cinzas do filho de Domício
e de Agripina.
Aquele que declamava versos
quando Roma inteira ardia,
saberá que a eternidade não termina?

II
Sob esta lápide apodrecem
reminiscências do corpo mutilado
da rainha Ana Bolena.
A lua de Londres costuma
visitá-la naquelas horas da noite
em que o Tâmisa deságua na eternidade.

III
Os faraós não precisam
de epitáfios
nem de vanglórias esculpidas
no frio e duro bronze.
Basta-lhes a eternidade das pirâmides.
I
Sotto questo marmo nero
levigato dal vento e dalla pioggia
riposano le ceneri del figlio di Domiziano
e di Agrippina.
Quello che declamava versi
quando tutta Roma era in fiamme,
saprà che l’eternità non ha fine?

II
Sotto questa lapide imputridiscono
reminiscenze del corpo mutilato
della regina Anna Bolena.
La luna di Londra è solita
visitarla in quelle ore della notte
in cui il Tamigi sfocia nell’eternità.

III
I faraoni non hanno bisogno
di epitaffi
né di vanaglorie scolpite
nel freddo e duro bronzo.
A loro basta l’eternità delle piramidi.
________________

Albert August Zimmermann
Le Piramidi di Giza (XIX sec.)
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Poema felino


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Poema felino
Poesia felina


Tigre é o poema que se esconde
na selva das palavras. Como qualquer fera
o poema dardeja quando está no cio.
Exala odores de orquídea selvagem, ruge
à beira dos rios e dos pântanos
e esfrega o traseiro nas estacas da semiótica.
Tigre é o poema que se esgueira entre
as fendas dos vocábulos. Se balança a cauda
ou mostra a ponta afiada da língua
o poema te dilacera com a sensualidade
de uma hiena faminta.
Tigre è la poesia che si nasconde
nella selva delle parole. Come qualunque fiera
la poesia rifulge quando è in calore.
Esala sentori d’orchidea selvaggia, ruggisce
in riva ai fiumi e alle paludi
e sfrega il didietro contro i paletti della semiotica.
Tigre è la poesia che sguscia tra
gli spiragli dei vocaboli. Se agita la coda
o mostra la punta affilata della lingua
la poesia ti graffia con la sensualità
d’una iena affamata.
________________

Andrea Marchisio
La tigre Nouma-Hava dal vero (1903)
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Poder da palavra


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Poder da palavra
Il potere della parola


Uma palavra
basta
para acordar os
demônios
que se hospedam
no poema.

Uma palavra
basta
para estancar
as veias desatadas
do poema.

Uma palavra
basta
para ferir de morte
o poema.
Una parola
basta
per risvegliare i
demoni
che allignano
nel poema.

Una parola
basta
per ostruire
le vene sciolte
del poema.

Una parola
basta
per ferire a morte
il poema.
________________

Marlene Dumas
Mamma Roma (2012)
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Não sou um robô


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Não sou um robô
Non sono un robot


Não sou um robô
sou um aglomerado de moléculas
e nervos e sensações.
Mas isso não me confere o direito
de zombar da cauda do primata
e de seus vícios tribais.

Sou unidade na diversidade
santuário de desejos antagônicos.
A cada minuto sinto que estou esvaziando
a taça de areia do tempo. Logo
serei um fragmento de escória expulso
das entranhas do mar.

Não sou um robô
sou uma constelação de átomos e células
em permanente atrito
sou água e fogo, pedra e mineral
dinâmica, imobilidade, evasão, recusa
do tempo, contemporâneo da morte.
Non sono un robot
sono un agglomerato di molecole
e nervi e sensazioni.
Ma questo non mi dà il diritto
d’irridere la coda dei primati
e le loro abitudini tribali.

Sono unità nella diversità
santuario di desideri antitetici.
Ad ogni istante sento che sto svuotando
la coppa di sabbia del tempo. Presto
sarò un residuo di scoria espulso
dalle viscere del mare.

Non sono un robot
sono una costellazione di atomi e cellule
in permanente attrito
sono acqua e fuoco, pietra e minerale
dinamica, immobilità, evasione, rifiuto
del tempo, contemporaneo della morte.
________________

Umberto Boccioni
Dinamismo di un corpo umano n° 1 (1913)
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Modus vivendi


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Modus vivendi
Modus vivendi


Viver é estar morrendo a cada
minuto que nos trespassa com os seus
punhais de átomo.
Escrever mil vezes o epitáfio em lápides
de água. Ver as orquídeas do amor
apodrecerem num pântano de gametas
cor-de-rosa. Ir ao banquete com
a túnica manchada de sangue e a memória
sufocada pelos punhos do remorso.
Vivere è star per morire ad ogni
attimo che ci trapassa coi suoi
pugnali d’atomo.
È scrivere mille volte l’epitaffio su lapidi
d’acqua. Vedere le orchidee dell’amore
marcire in un pantano di gameti
color di rosa. Andare al banchetto con
la tunica macchiata di sangue e con la memoria
soffocata dai pugni del rimorso.
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Emilio Scanavino
Appeso (1973)
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Domador de relâmpagos


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Domador de relâmpagos
Domatore di fulmini


Eu não gostaria de ser
aquele que anuncia em praça pública
os éditos e os funerais do rei.

Não gostaria de ser o carrasco
que decepou a cabeça de Ana Bolena
aos olhos marejados do Tâmisa.

Não gostaria de ser o marujo
que do alto do mastro da gávea
contempla a diáspora das espumas.

Não gostaria de ser o tangedor
de caravanas que adivinha o som da
água nas pupilas dos camelos.

Não gostaria de ser empalhador
de borboletas e de pássaros.
Gostaria de ser domador de relâmpagos.
Io non vorrei essere
colui che annuncia in pubblica piazza
gli editti e i funerali del re.

Non vorrei essere il boia
che tagliò la testa di Anna Bolena
agli occhi lacrimosi del Tamigi.

Non vorrei essere il marinaio
che dall’alto dell’albero maestro
contempla la diaspora delle spume.

Non vorrei essere il conduttore
della carovana che avverte la presenza
dell’acqua nelle pupille dei cammelli.

Non vorrei essere impagliatore
di farfalle e d’uccelli.
Vorrei essere domatore di fulmini.
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Eso Peluzzi
L’imbalsamatore Vittorio Sapetti (1939)
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Dialética do poema


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Dialética do poema
Dialettica della poesia


Fazer um poema
não é dizer coisas profundas.
É ver as coisas como as coisas não são.

Fazer um poema não é viajar no espelho.
É ir à procura do rosto do homem
perdido na escuridão.

É descer às raízes do sangue e do mito.
Fazer um poema é estar em conflito
com os dedos da mão.
Fare una poesia
non è dire cose profonde.
È vedere le cose come le cose non sono.

Fare una poesia non è viaggiare nello specchio.
È andare alla ricerca del volto dell’uomo
perso nell’oscurità.

È scendere alle radici del sangue e del mito.
Fare una poesia è essere in conflitto
con le dita della mano.
________________

Jorge Pardo
Senza titolo (2023)
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