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Os avós


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Os avós
I nonni


O sol entra secretamente pela janela
E deixa impressões semióticas na parede
Luz coada por cortinas de histórias.
O avô pega em mim e senta-me
Nos joelhos da marmelada quente
Que a avó criava com mãos alquímicas.
Gatos de cheiro andam por cima dos móveis,
Cheiros como passos rangentes
No chão de mistério de corredores solenes
Guiando à antiguidade da escuridão.
O Joli ladra – chegou o Inverno
Que invade a casa, arrefecendo-lhe o silêncio.
O Black abre a porta – que gato!
O avô cuidava das laranjas,
Eu, atrás dele, enterrando secretamente a minha infância.
Depois, à noite, a avó contava-me a mim e às lâmpadas,
Porque é que não estudou alem da 4ªclasse,
E eu dormia, de rosto encostado à ternura dos avós.
(O avô fumava Definitivos e a noite não era definitiva
Iam-me murmurando os olhos de cor,
O avô, na tropa, disparando um canhão)
Il sole entra segretamente dalla finestra
E lascia tracce semiotiche sulla parete
Luce filtrata attraverso cortine di storie.
Il nonno mi prende in braccio e mi fa sedere
Sulle ginocchia davanti alla marmellata calda
Che la nonna creava con mani d’alchimista.
Gatti passeggiano sopra i mobili annusando,
Odori come passi scricchiolanti
Sul pavimento misterioso di corridoi solenni
Che attraversano l’antichità della tenebra.
Il Joli latra – è arrivato l’Inverno
Che invade la casa, raffreddando il silenzio.
Il Black apre la porta – che gatto!
Il nonno si prendeva cura delle arance,
Io, dietro di lui, in segreto sotterravo la mia infanzia.
Dopo, la notte, la nonna raccontava a me e alle lanterne,
Perché lei non aveva studiato oltre la 4ª classe,
E io dormivo, col viso appoggiato alla dolcezza dei nonni.
(Il nonno fumava Definitivos, ma la notte non era definitiva
Mi sussurravano a memoria i suoi occhi,
Il nonno, soldato, che sparava col cannone)
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Domenico Ghirlandaio
Ritratto di vecchio con nipote (1490)
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Gorbatchov


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Gorbatchov
Gorbaciov


A fonte do sol desvelou-se
A foice dos olhos finalmente colheu
Todo o mistério e cegou todo o medo.
Sim, o teu nome é o nome da transparência,
O teu nome é o nome da terra reunificada,
O teu nome é o nome da queda,
Da separação gerada pelo silêncio.
O teu nome é uma página
Onde as pombas finalmente nidificam,
O teu nome é o fruto da oliveira.
O teu nome não cabe no espaço imenso do Leste.
E, por isso, te golpearam
E te fragmentaram.
O teu nome morre rapidamente.
Eu, impotente e pávido, vejo a tua morte.
Choro-te e as minhas lágrimas
Destroem estas palavras inúteis.
La fonte del sole s’è rivelata
Un battito d’occhi finalmente ha colto
Tutto il mistero e offuscato ogni timore.
Sì, il tuo nome è il nome della trasparenza,
Il tuo nome è il nome della terra riunificata,
Il tuo nome è il nome della caduta,
Della separazione generata dal silenzio.
Il tuo nome è una pagina
Ove le colombe finalmente nidificano,
Il tuo nome è il frutto dell’ulivo.
Il tuo nome non appartiene all’immenso spazio dell’Est.
E, perciò, t’hanno colpito
E t’hanno sbriciolato.
Il tuo nome muore rapidamente.
Io, impotente e pavido, vedo la tua morte.
Ti piango e le mie lacrime
Cancellano queste parole inutili.
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Georges Braque
Due uccelli su fondo blu (1959)
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Apelo à justiça


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Apelo à justiça
Appello alla giustizia


Invoca-se a balança
Dos actos e das palavras –
Apelo que se ergue
E, quase sempre,
Grito que se perde.
S’invoca la bilancia
Degli atti e delle parole –
Appello che s’innalza
E, quasi sempre,
Grido che si perde.
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Rogier van der Weyden, La Giustizia
Particolare del polittico, Il Giudizio Universale
(Hôtel-Dieu di Beaune, 1450)
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É o fim do mundo


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É o fim do mundo
È la fine del mondo


Mas não o apocalipse.
Não a justiça vingativa.
O fim do mundo é outro:
Os filhos que cresceram
E já não têm infância;
O crepúsculo que chega
Cada vez mais cedo,
O leste que desabrocha
Cada vez mais tarde;
O silêncio cada vez mais seco,
Cada vez mais sem amor,
Cada vez mais sem solidão;
O corpo saqueado,
A idade que já nada devolve,
A memória a um canto da sombra,
Chorosa, chorosa.

O fim do mundo
No mundo que continua
Quando nós, porém, não.
Ma non l’apocalisse.
Non la giustizia vendicativa.
La fine del mondo è altro:
I figli che son cresciuti
E non hanno già più infanzia;
Il crepuscolo che arriva
Sempre più presto,
L’oriente che si schiude
Sempre più tardi;
Il silenzio sempre più secco,
Sempre più senz’amore,
Sempre più senza solitudine;
Il corpo devastato,
L’età che già nulla dispensa,
La memoria in un cantuccio all’ombra,
Lacrimosa, lacrimosa.

La fine del mondo
Nel mondo che continua
Quando noi, però, no.
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Bruno Bruni
L'ultimo espresso (1998)
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A luz mineira dos candeeiros públicos...


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A luz mineira dos candeeiros públicos...
La luce cavernosa dei pubblici lampioni...


A luz mineira dos candeeiros públicos
Torna pastosa a noite.
As sereias da sombra acenam
Com os seus cantos de cores berrantes,
Com os corpos.
As sereias são mulheres semeadas na noite,
Terrenas, deixando as serenatas mortas
Nas cordas agora intangíveis.
São as mulheres da máscara,
Que envergonham as musas neoclássicas de Ingres
São as mulheres irmãs das Meninas de Avinhão,
Mulheres fragmentadas, mulheres parciais,
Mulheres para quem a terra
É apenas o chão. E não o será?
La luce cavernosa dei pubblici lampioni
Rende pastosa la notte.
Le sirene dell’ombra allettano
Coi loro canti dai colori squillanti,
Coi corpi.
Le sirene sono donne disseminate nella notte,
Terrene, e han lasciato le serenate morte
Sulle corde ora intangibili.
Sono le donne in maschera,
Che imbarazzano le muse neoclassiche di Ingres
Sono donne sorelle delle Damigelle d’Avignone,
Donne frammentate, donne parziali,
Donne per le quali la terra
È solamente il suolo. E non lo sarà?
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Pablo Picasso
Les Demoiselles d'Avignon (1907)
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Círculo


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Círculo
Circolo


E as armas calaram-se,
Dando lugar aos sinos
Que largam flores nas aldeias.
Mas, só enquanto as armas
Aclaram as roucas vozes
Para calarem os sinos.
E le armi han taciuto,
Cedendo il posto alle campane
Che nei villaggi spargono fiori.
Ma, solo fintanto che le armi
Si schiariscono le voci arrochite
Per fare poi tacere le campane.
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Chaïm Soutine
Cagnes (1923-1924)
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Politicamente correctos


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Politicamente correctos
Politicamente corretti


Entre dois fogos, estes salvam-se sempre:
São os devotos de uma viscosa equidistância
E nas entranhas têm apenas uma falsa temperança.
Aí estão, constituídos árbitros de tudo,
Pairando acima de erros e paixões
À força de sangue frio e fogo lento,
Em nada diferindo dos abutres,
Salvo na máscara que usam.
Estes são os que esperam, assépticos,
Estando ao mesmo tempo com a maioria e nas minorias.
Compreendem tudo sem jamais incorrerem em nada.
E como praticam a arte da meia-verdade
Isenta da meia-mentira inerente.
São estes que tentam mediar o fogo com o fogo
Para não contrariarem o fogo:
Como incham de tão razoáveis.
Se pudessem, certamente aboliriam o ponto de ebulição
Por entenderem desnecessária a exasperação da água.
Tra due fuochi, questi se la cavano sempre:
Sono osservanti d’una vischiosa equidistanza
E dentro di sé non hanno che una falsa temperanza.
Eccoli, professandosi arbitri di tutto,
Si mantengono al di sopra di errori e di passioni
A forza di sangue freddo e fuoco lento,
In nulla differenti dagli avvoltoi,
Salvo che per la maschera che portano.
Costoro sono quelli che aspettano, asettici,
Stando ad un tempo con la maggioranza e le minoranze.
Assimilano tutto senza mai compromettersi in niente.
E pur praticando l'arte della mezza verità
Sono esenti dalla mezza menzogna concernente.
Sono quelli che tentano di conciliare il fuoco col fuoco
Per non contrariare il fuoco:
E quanto si gasano d'esser così assennati.
Se potessero, di certo abolirebbero il punto d’ebollizione
Avendo compreso quanto sia inutile esasperare l’acqua.
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Giovan Battista Crema
Coppia di avvoltoi monaci (1898)
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Ao chamarem-lhe Dona Poesia...


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Ao chamarem-lhe Dona Poesia...
Quando l’hanno chiamata Donna Poesia...


Ao chamarem-lhe Dona Poesia
Imaginei-a com quatro filhos,
Com o marido brigão que tem por hábito beber,
Camionista ensebado que a espanca;
Imaginei-a de avental gorduroso
E lenço de cores berrantes na cabeça
Onde moram lêndeas que não possuem
Contrato de arrendamento.
Imaginei-a como mulher-a-dias,
De quem o patrão abusou
Quando ela esfregava as escadas.
Vejo esta Dona Poesia todos os dias,
Subindo e descendo as ruas,
Vazando de cansaço,
Rumo ao crepúsculo.
Mas não servia para um quadro de Ingres
Ou para um verso cegamente clássico.
Quando l’hanno chiamata Donna Poesia
Io l’ho immaginata con quattro figli,
E un marito rissoso con il vizio del bere,
Sudicio camionista che la picchia;
L’ho immaginata con un grembiule bisunto
E un foulard dai colori chiassosi in testa
Ove vivono abusivamente pidocchi senza
Contratto d’affitto.
L’ho immaginata come domestica a ore,
Di cui il padrone ha abusato
Mentre strofinava le scale.
Questa Donna Poesia io la vedo ogni giorno
Mentre va su e giù per le vie,
Stremata di fatica,
In direzione del crepuscolo.
Ma non sarebbe adatta per un quadro di Ingres
Né per un verso ciecamente classico.
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Jean-Auguste Dominique Ingres
Luigi Cherubini e la musa della poesia lirica (1842)
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Canto das Áfricas


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Canto das Áfricas
Canto d’Afriche


Ecoam os tambores dos planetas
No firmamento que emergiu
Da profunda vontade e sacrifício.
Em exóticas árvores, os frutos
Pairam puros, mais claros e mais límpidos.
Afogam-se de tribo em tribo as lanças
Não na pele – no peso de outros tempos,
Cujas águas translúcidas revelam
Corpos negros que dançam como irmãos.
O ódio guerreiro jaz sepulto no ar
Onde, alados e soltos, sobem cânticos.
O fragor da batalha é agora abraço.
Da lonjura dos tempos e dos homens
As antigas deidades são chamadas,
Oprimidas em peitos oprimidos,
Pés delirantes chamam a nova África.
Mãos que outrora empunharam armas e ódios
Clamam a Phenix Africana e a Foice.
Rimbombano i tamburi dei pianeti
Nel firmamento emerso
Da una volontà profonda e dal sacrificio.
Su alberi esotici, i frutti
Pendono puri, più chiari e più limpidi.
Di tribù in tribù s’affondano le lance
Non nella pelle – ma nel peso d’altri tempi,
Le cui acque traslucide rivelano
Corpi neri che danzano come fratelli.
L’odio guerriero giace sepolto in aria
Ove, liberi e alati, s’innalzano cantici.
Il fragore della battaglia ora è abbraccio.
Dall’immane distanza dei tempi e degli uomini
Le antiche divinità vengono richiamate,
Oppresse in cuori oppressi,
Piedi deliranti acclamano la nuova Africa.
Mani che un tempo impugnarono armi e odio
Reclamano la Fenice Africana e la Falce.
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Malala Andrialavidrazana
Figure 1850 (2015)
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Outra fala


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Outra fala
Un’altra dichiarazione


“O amor? Não me fale de luxos,
Por favor. Não tenho tempo
Para pássaros e estrelas.
Não tenho quem me ajude sequer
A abrir um saco plástico,
Quanto mais para me encher o coração.
Se escorregar na banheira,
É possível que ela se torne a minha sepultura
E que só um arqueólogo me encontre,
Ou algum vizinho mais extremoso
Incomodado com o fedor.
E quem me suportaria?
Ou como admitiria eu em mim
Alguém mais presente do que eu?
Não, já dobrei essas ilusões.
Não me quero partilhar com mais ninguém –
Até porque não há nada a partilhar.
Acredite em mim, eu sei.
Tenho a idade da noite.”
“L’amore? Non mi parlare di lussi,
Per favore. Non ho tempo
Per stelle e passerotti.
Non ho neppure chi mi aiuti
Ad aprire un sacchetto di plastica,
Figurati per riempirmi il cuore.
Se scivolassi nella vasca da bagno,
Probabilmente quella diventerebbe la mia tomba
E solo un archeologo mi ritroverebbe,
O qualche vicino più premuroso
Disturbato dal fetore.
E chi mi sopporterebbe?
O come potrei io accogliere in me
Qualcuno più presente di me?
No, sono già andato oltre queste illusioni.
Non mi voglio più dividere con nessuno –
Anche perché non c’è nulla da dividere.
Credimi: io lo so.
Ho l’età della notte.”
________________

Edward Hopper
Domenica (1926)
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Actualizam a pena de talião...


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Actualizam a pena de talião...
Aggiornano la legge del taglione...


Actualizam a pena de talião –
Mil olhos por um olho,
Mil dentes por um dente,
A vingança em escala industrial.
E sonham com a justiça em que nada será esquecido,
Nada será perdoado,
Quimicamente pura,
Sem PH humano.
Aggiornano la legge del taglione –
Mille occhi per un occhio,
Mille denti per un dente,
La vendetta su scala industriale.
E sognano una giustizia in cui nulla sarà scordato,
Nulla sarà perdonato,
Chimicamente pura,
Senza PH umano.
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Emilio Vedova
Manifesto per il Vietnam (1969)
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Não me sinto cristão ou ocidental...


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Não me sinto cristão ou ocidental...
Non mi sento né cristiano né occidentale...


Não me sinto cristão ou ocidental,
Não creio na teleologia
Do tempo e do espaço
Não venero o Ludo, o Ganges,
O Jordão, o Tigre ou o Eufrates.
Comprei a Bíblia
Como um excelente livro de ficção,
Poesia lírica e dramática
Que nos poupa o autor.
Não me sinto momentaneamente histórico,
Mas talvez haja aqui qualquer trompe-l’oeil.
Aliás, acredito mais na pintura
Do que em qualquer forma da palavra,
Porque nela há uma imagem da verdade
Qualquer que ela seja e não importa o grau.
Pouco importa até que a verdade seja
A menos demonstrável das categorias humanas,
(Não sou tão branco nem menos preto,
Não me confio à monogamia
Das cores e ritos e culturas)
Mas também não me sinto especialmente humano.
Non mi sento né cristiano né occidentale,
Non credo nella teleologia
Del tempo e dello spazio
Non venero il Ludo, il Gange,
Il Giordano, il Tigri o l’Eufrate.
Ho comprato la Bibbia
Come eccellente libro di narrativa,
Poesia lirica e drammatica
Che ci risparmia l’autore.
Per il momento non mi sento storicamente inquadrato,
Ma può darsi che qui si tratti d’un trompe-l’oeil.
Del resto, credo più nella pittura
Che in una qualunque espressione della parola,
Perché in quella v’è un’immagine della verità
Qualunque essa sia e non importa il grado.
Poco importa persino che la verità sia
Per lo meno dimostrabile con le categorie umane,
(Non sono del tutto bianco né solo nero,
Non m’affido alla monogamia
Di colori, di riti e di culture)
Ma non mi sento neppure particolarmente umano.
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Jan Vermeer
L'arte di dipingere (1666-1668)
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Se temos que morrer...


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Se temos que morrer...
Se dobbiamo morire...


 Relembrando o Harlem Renaissance,
 em particular Claude McKay

Se temos que morrer, que nunca seja ocultos,
Vendo a sombra da morte na sombra dos vultos,
Jazendo entre as paredes doentias do medo,
De nós, escorraçados por nós mesmos,
Vencidos, conformados – jogados, perdidos –
Humilhados no orgulho de quem nos humilha.
Se temos de morrer, vençamos a matilha:
Se temos de morrer, seja escolhida
A morte que mais honre a nossa vida.
Desta tenhamos feito a nobre luta
De ser, não menos curta, mas mais justa.
Se temos de morrer, assim morramos:
Sem suspirar sequer, como alguém que não pede.
 Ricordando l’Harlem Renaissance,
 in particolare Claude McKay

Se dobbiamo morire, che non sia mai di nascosto,
Vedendo l’ombra della morte nell’ombra degli sguardi,
Giacendo tra le pareti contaminate dalla paura,
Da noi, respinti da noi stessi,
Vinti, rassegnati – espulsi, perduti –
Umiliati nell’orgoglio di chi ci umilia.
Se dobbiamo morire, vinciamo la marmaglia:
Se dobbiamo morire, si scelga
La morte che più onori la nostra vita.
Che in questa sia stata condotta la nobile lotta
Perché fosse, non meno corta, ma più giusta.
Se dobbiamo morire, moriamo così:
Senz’alcun sospiro, come chi non implora.
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Aaron Douglas
Il giorno del giudizio (1939)
...

Cumpri. Não que tenha cumprido...


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Cumpri. Não que tenha cumprido...
Ho completato. Non è che abbia completato...


Cumpri. Não que tenha cumprido
Quanta luz havia para acender;
Não que tudo tenha sido destinado,
Mas cumpri quanto a minha visão
Me deixou cumprir.
Por isso, tudo cumpri.
Ho completato. Non è che abbia completato
D’accendere tutta la luce che andava accesa;
Non che tutto sia stato portato a termine,
Ma ho completato quanto la mia visuale
M’ha permesso di completare.
Perciò, tutto ho completato.
________________

Marc Chagall
Consummatum est (1937)
...

Agora o pesadelo é real...


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Agora o pesadelo é real...
Ora l’incubo è realtà...


Agora o pesadelo é real,
Uma agonia sem alarme.
Sentam-se em bancos de jardim,
Sofrem com os joanetes e os enfartes,
Usam de uma cortesia que parece coçada
Como os seus chapéus
E falam de guerras há muito esquecidas.
Estão em todas as fotografias
Que não foram tiradas.
Quando essas guerras acabaram
Expirado o alivio,
Tudo se tornou mais banal,
Como se o brilho da vida, à beira do abismo,
Tivesse perdido intensidade
Entre explosões, ruínas, pó,
O odor excitante de gasolina e cordite,
Esse tempo acabou e a eternidade
Está prestes a começar,
Num tédio sem bússola.
Estão a sós com a alma
Em plena sublevação.
É perigoso sentir a alma agitar-se muito,
A confundir-se com as entranhas
Procurar a superfície,
Farejar a respiração, à espreita,
À espera do sinal desde sempre combinado.
A escuridão de nenhuma voz humana.
Ora l’incubo è realtà,
Agonia senza trepidazione.
Si siedono sulle panchine dei giardini,
Afflitti per gli alluci dolenti e per gli infarti,
Fanno uso d’una cortesia che pare logora
Come i loro cappelli
E parlano di guerre dimenticate da tempo.
Figurano in tutte le fotografie
Che non son state scattate.
Quando quelle guerre finirono,
Esaurito il sollievo,
Tutto divenne più banale,
Come se il bagliore della vita, sull’orlo dell’abisso,
Avesse perso la sua intensità
Fra esplosioni, rovine, polvere,
L’odore eccitante di benzina e cordite,
Quel tempo è finito e l’eternità
È sul punto di cominciare,
In un tedio scombussolante.
Stanno da soli con l’anima
In piena rivolta.
È pericoloso sentire l’anima in grande agitazione,
Quando, confondendosi con le viscere,
Cerca di risalire alla superficie,
Controllando il respiro, all’erta,
In attesa del segnale da sempre stabilito.
L’oscurità svuotata di voce umana.
________________

Adolph Menzel
Il piede dell'artista (1876)
...

Temo que, um dia...


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Temo que, um dia...
Temo che, un giorno...


Temo que, um dia, realmente,
Uma criança se abeire de mim
E me pergunte o que é a erva,
Um urso, um lobo, um lince.
Temo que, um dia, estas criaturas
Apenas vivam no redil das fábulas
E não passem de palavras
Que já não captam o mover de um corpo.
Temo que, um dia, uma criança me pergunte
O que são índios ou florestas tropicais,
O que são baleias ou golfinhos,
Castores ou florestas oceânicas.
Temo que, um dia, talvez já amanhã,
Ou talvez ainda hoje,
Acordemos sozinhos aqui,
Num mundo povoado apenas por nós,
Pelos nossos anjos ou demónios,
Num mundo apodrecido
Pela odiosa peste maiusculada
Do nosso bem e do nosso mal.
Temo che, un giorno, davvero,
Mi si avvicini un bambino
E mi chieda che cos’è l’erba,
Un orso, un lupo, una lince.
Temo che, un giorno, queste creature
Appartengano solo al mondo delle fiabe
E non siano altro che parole
Ormai incapaci di cogliere le movenze d’un corpo.
Temo che, un giorno, un bambino mi chieda
Che cosa sono gli indios o le foreste tropicali,
Che cosa sono le balene o i delfini,
I castori o le foreste oceaniche.
Temo che, un giorno, forse già domani,
O forse oggi stesso,
Ci ridesteremo qui da soli,
In un mondo popolato solo da noi,
Dai nostri angeli o demoni,
In un mondo reso putrido
Dall’odiosa peste maiuscolizzata
Dal nostro bene e dal nostro male.
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Pietro Longhi
Il Rinoceronte (1751)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (364) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (16) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)