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Ítaca


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Ítaca
Itaca


É verdade que nunca saí de Ítaca:
sou um funcionário cansado, à beira da reforma,
que andou de país em país, sem nunca ter podido fugir
dos corredores e das intrigas dos pretendentes.

Napoleão (excusez du peu…)
em todas as suas campanhas, do Egipto a Waterloo,
fazia cada dia a mesma pergunta: Que dirá Paris?

Intitular-me Ulisses foi apenas uma liberdade,
diria mesmo uma licença,
que a distraída pátria me permitiu.
È vero che non sono mai partito da Itaca:
sono un impiegato stanco, prossimo alla pensione,
che è andato di paese in paese, senza mai riuscire a sfuggire
ai corridoi e agli intrighi dei pretendenti.

Napoleone (excusez du peu…)
in tutte le sue campagne, dall’Egitto a Waterloo,
faceva ogni giorno la stessa domanda: Que dirá Paris?

Ribattezzarmi Ulisse è stata solo una libertà,
direi proprio una licenza,
che la distratta patria m’ha concesso.
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Giorgio de Chirico
Il ritorno di Ulisse (1973)
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A Net é o Real Absoluto


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A Net é o Real Absoluto
Il Net è il reale assoluto


  A Poesia é o Real Absoluto
    Novalis

Caro Mallarmé, a página branca é hoje
 este ecrã vazio
que fere de luz os olhos cansados dos poetas.
Continuam os poetas a medir-se com a página em branco,
mas a luz azul dos tablets e computadores
desgasta-lhes os olhos e não podem assim
olhar para o real com os olhos limpos e claros
de Alberto Caeiro. Resta-nos o espaço virtual,
a rede que vai tecendo o Grande Livro
onde o real será apenas o virtual e o virtual
 o real absoluto.
  La Poesia è il reale assoluto
    Novalis

Caro Mallarmé, la pagina bianca oggi è
 questo schermo vuoto
che ferisce di luce gli occhi stanchi dei poeti.
I poeti continuano a misurarsi con la pagina in bianco,
ma la luce azzurra dei tablet e dei computer
danneggia loro gli occhi e così non possono
guardare il reale con gli occhi puri e chiari
di Alberto Caeiro. A noi rimane lo spazio virtuale,
la rete che va tessendo il Grande Libro
dove il reale sarà solo il virtuale e il virtuale
 il reale assoluto.
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Jasper Johns
Numeri bianchi (1958)
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Poeta aos setenta anos


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Poeta aos setenta anos
Poeta a settant’anni


Um gesto a que assomasse algum amor
ou um olhar solidário de velho camarada:
nem eles poderiam já infectar de vida insolente
o deserto dos dias que se movem por detrás das altas
 janelas
ou por dentro dos subterrâneos.

Ninguém mais vem para a varanda cantar teimosamente
o que dói nas nossas vozes e dorme nas nossas veias.
Os sinos continuam a tocar nos dias escuros e claros
sobre ruas desertas ou só atravessadas a medo, porta
 a porta,
vida a esconder-se de viver.

Pela noite alguém escreve, mas sabe que não escreve
 para si
nem para os leitores que perdeu noutras idades.
Que um rosto assome à janela, que um verso se perca
 na rua,
que o nosso orgulho de viver possa durar para além das
 nossas vidas.
Un gesto che mostrasse un po’ d’amore
o uno sguardo fiducioso di un vecchio compagno:
neanche questi potrebbero ormai infettare di vita insolente
il deserto dei giorni che si insinuano dietro le alte
 finestre
o attraverso corridoi sotterranei.

Nessuno più viene alla veranda per cantare spavaldamente
ciò che nelle nostre voci duole e nelle nostre vene dorme.
Le campane seguitano a rintoccare nei giorni scuri e chiari
sopra le strade deserte o attraversate solo con timore, di
 porta in porta,
vita che si nasconde dal vivere.

Qualcuno nella notte scrive, ma sa che non scrive
 per sé
né per i lettori che ha perduto in altri tempi.
Possa un volto affacciarsi alla finestra o un verso perdersi
 nella via,
che il nostro orgoglio di vivere possa durare al di là delle
 nostre vite.
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Scuola italiana (XVII sec.)
Ritratto di poeta nello studio
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A noite de 24 de Abril de 2020


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A noite de 24 de Abril de 2020
La notte del 24 aprile 2020


Ouço a rádio esta madrugada
à espera de uma senha.
Bem sei que tudo o que me devia acontecer
já aconteceu. Bem sei que cada dia
traz consigo uma maré com a espuma da esperança
e que só contamos a nós próprios o naufrágio
muito tarde nas nossas vidas.
Sempre haverá um sinal na noite, uma canção, uma
 luz
de pirilampos sobre o deserto das cigarras.
E seja agora o mais novo quem entende a senha
e a transporta na fúria do seu coração.
Ascolto la radio questa mattina
in attesa di un segnale.
So bene che tutto ciò che mi doveva accadere
già è accaduto. So bene che ogni giorno
reca con sé una marea con la spuma della speranza
e che noi raccontiamo a noi stessi del nostro naufragio
solo molto tardi nella vita.
Ci sarà sempre un segnale nella notte, una canzone, un
 luccichio
di lucciole sopra il deserto delle cicale.
Ed ora che sia il più giovane a riconoscere il segnale
e a trasportarlo nella furia del suo cuore.
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Lari Pittman
Senza titolo (1989)
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Vigília


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Vigília
Veglia


Não te deixes adormecer:
é o que dizem a quem luta por estar vivo,
é o que nos dizemos quando
o frio já entrou muito fundo dentro de nós
e toda a vida se deixou cobrir de nevoeiro.

Não, eu não me deixarei dormir.
Descansa, tu que cada madrugada 
encontras as minhas mãos 
a afastar o frio e o nevoeiro.
Eu não me deixarei dormir.
Nós não nos deixaremos dormir.
O nosso amor é uma vigília sem quebras
e nunca nenhum povo se deixou hibernar.
Non abbandonarti al sonno:
è quel che dicono a chi lotta per restare vivo,
è quello che ci diciamo quando
il freddo è già penetrato molto a fondo in noi
e tutta la vita s’è lasciata avvolgere nella tenebra.

No, io non mi abbandonerò al sonno.
Riposa, tu che al termine d’ogni notte
ritrovi le mie mani
a scacciare il freddo e la tenebra.
Io non mi abbandonerò al sonno.
Noi non ci abbandoneremo al sonno.
Il nostro amore è una veglia ininterrotta
e mai nessun popolo è caduto in letargo.
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Marc Chagall
Gli amanti in verde (1917)
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Resposta


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Resposta
Risposta


Sim, andei por fora,
por vezes não reconheço as ruas da minha cidade
e há rostos que me envelhecem o coração.
Mas não tenha dúvidas, não precisa de fazer perguntas,
de ficar atento aos meus mínimos movimentos,
de esboçar por dentro de si o desenho
daquilo a que chama a minha alma.
Os comboios param em estações abandonadas, noite
 dentro,
e nós saímos como passageiros estremunhados e
 engelhados pelo frio
para cidades desconhecidas, belas e desertas
como todo o tempo que passou.
Sim, eu sei, que estou a fugir ao assunto.
Importa-se de repetir a sua pergunta?
Sì, sono stato all’estero,
certe volte non riconosco le vie della mia città
e ci sono dei volti che invecchiano nel mio cuore.
Ma non dubiti, non occorre fare domande,
fare attenzione ai miei minimi movimenti,
abbozzare dentro di sé il disegno
di ciò che definisce la mia anima.
I treni si fermano in stazioni abbandonate, quand’è
 notte,
e noi scendiamo come passeggeri sonnolenti e
 intorpiditi dal freddo
in città sconosciute, belle e deserte
come tutto il tempo ch’è passato.
Sì, lo so, che sto andando fuori tema.
Le spiace ripetere la sua domanda?
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Concetto Pozzati
Imagologia (2001)
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Regresso


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Regresso
Ritorno


Voltar à poesia, esse caminho estreito
entre a solidão e a vida,
esse jardim onde as flores
crescem para dentro de si próprias,
esse destino sem lugar no mapa.

Voltar à poesia, porque mais nada
cresceu entretanto,
nem palavras nem coisas.

Adivinhávamos promessas no terror dos tempos
e continuámos a andar como se houvesse caminho.
Voltar à poesia, a esta distância sem rumo nem
 projecto,
voltar à poesia para estar mais longe
do que sou.
Tornare alla poesia, questo stretto cammino
tra la solitudine e la vita,
questo giardino dove i fiori
crescono all’interno di sé stessi,
questa destinazione non situata sulla carta.

Tornare alla poesia, perché più niente
è cresciuto nel frattempo,
né parole né cose.

Ipotizzavamo promesse nel terrore dei tempi
e andavamo avanti come se ci fosse un cammino.
Tornare alla poesia, a questa distanza senza meta né
 progetto,
tornare alla poesia per stare il più possibile lontano
da ciò che sono.
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Vincent Van Gogh
Il giardino del poeta (1888)
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Regras de protocolo


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Regras de protocolo
Regole di protocollo


Os que não têm lugar à mesa
devem rodar delicadamente para trás
e afastar-se sem barulho e sem notícia.
Os lugares foram reduzidos por forma a
um número crescente de convidados deixar
de ter lugar no banquete, sem qualquer aviso prévio
ou desculpa improvisada. Prontamente.

Conhecer as regras é necessário,
ignorá-las
é soberano.
Coloro che non hanno un posto al tavolo
devono tornare discretamente indietro
e allontanarsi senza chiasso né scalpore.
I posti sono stati ridotti cosicché
un numero crescente di invitati cesserà
d’avere un posto al banchetto, senza alcun preavviso
o giustificazione improvvisata. Prontamente.

Conoscere le regole è necessario,
ignorarle
è sovrano.
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Robert Delaunay
Rithme 3 (1938)
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Os livros mortos


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Os livros mortos
I libri morti


Alguns dizem não deixaremos a poesia,
ela atravessará connosco a miséria do mundo
e aonde quer que cheguemos ela falará por nós.
Outros pensam só num resto de decência,
para a proteger com as mãos, como uma frágil chama
se protege do vento.

Eu não sei. Todos os poemas queimados em praça
 pública
por louros estudantes arianos e belos,
todos os poetas exilados
em campos de trabalho e redenção pelo povo,
todos os que tiveram de passear
sob apupos e com orelhas de burro na cabeça,
porque burgueses afinal burgueses,
todos esses tiveram o seu prémio afinal.

Para os novos senhores é indiferente:
um simples jogo de linguagem sem pertinência
e sem valor acrescentado nas palavras
não lhes merece qualquer menção. Deixam-nos para
 trás,
porque somos todos nós afinal tão supérfluos e
 irrelevantes
como as palavras que caem
dos nossos livros mortos
Alcuni dicono che non lasceremo la poesia,
essa attraverserà con noi la miseria del mondo
e ovunque arriveremo, essa parlerà per noi.
Altri pensano solo ad un rimasuglio di decenza,
da proteggere con le mani, come una fiamma fioca
si protegge dal vento.

Io non so. Tutte le poesie bruciate sulla pubblica
 piazza
da biondi studenti belli ed ariani,
tutti i poeti esiliati
in campi di lavoro e di redenzione del popolo,
tutti quelli che hanno dovuto camminare
dileggiati e con le orecchie d’asino in testa,
perché borghesi, dopotutto borghesi,
tutti questi infine hanno avuto la propria ricompensa.

Per i nuovi signori è indifferente:
un semplice gioco linguistico senza rilevanza
e senza valore, potenziato dalle parole,
non dà loro diritto ad alcuna menzione. Ci lasciano
 perdere,
perché tutti noi in fondo siamo tanto superflui e
 irrilevanti
quanto le parole che cadono
dai nostri libri morti.
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Anselm Kiefer
"Des Herbstes Runengespinst" (2005)
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Nossa Senhora de Rocamadour (4)


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Nossa Senhora de Rocamadour (4)
Nostra Signora di Rocamadour (4)


Nós peregrinos caminhamos para ti desde todas as
 derrotas,
filhos espúrios da História, enjeitados de todos os triunfos,
chegamos a ti com o olhar turvo e a pisada amarga
e não somos bonitos de ver: caminhamos sobre toda a
 miséria
que o mundo amassou.

Somos muitos séculos e muitas dores,
chegamos a ti com as feridas abertas
e o coração endurecido. Mas viemos.
Que tu nos recebas é o que nos espanta,
que tu nos esperes é o que nos maravilha,
aqui estamos.

Senhora do lado escuro do tempo,
Virgem Negra da grande Dor,
um anjo não estará ao teu lado quando nos vires
 chegar,
nenhuma gota de água nos virá benzer
e a música continuará calada à beira do teu rosto
que não sorri.

Nós peregrinos para ti caminhamos
e assim será sobre todas as coisas

e todos os tempos.
Noi pellegrini ci rechiamo da te reduci da ogni
 disfatta,
figli bastardi della Storia, rifiutati da ogni trionfo,
a te giungiamo con lo sguardo torvo e il passo pesante
e non siamo belli da vedere: camminiamo sopra tutta la
 miseria
che il mondo ha ammucchiato.

Siamo molti secoli e molti dolori,
a te giungiamo con le ferite aperte
e il cuore indurito. Ma siamo venuti.
Che tu ci riceva, ci stupisce,
che tu ci attenda, ci meraviglia,
noi siamo qui.

Signora del lato oscuro del tempo,
Vergine Nera del grande Dolore,
non ci sarà un angelo a te accanto quando ci vedrai
 arrivare,
non ci sarà goccia d’acqua per benedirci
e la musica continuerà a tacere accanto al tuo viso
che non sorride.

Noi pellegrini ci rechiamo da te
e così sarà sopra tutte le cose

e tutti i tempi.
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Statua di Nostra Signora di Rocamadour
Vergine nera del XII secolo
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Imitado de Alberto Caeiro


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Imitado de Alberto Caeiro
Al modo di Alberto Caeiro


Ontem um homem das cidades
veio explicar-me os valores da vida.
Disse-me que a minha sobrevivência era um privilégio
e o aconchego dos banqueiros uma justiça.
Falou-me de uma nova sociedade, feita da esperteza
 e água fresca.
Deixei-o falar.
Ele não sabe que ficou também do lado dos que
 perdem
e até o descobrir virão mais rosas
e a areia cobrirá todos os jardins.
Ieri, un uomo delle città
è venuto a spiegarmi i valori della vita.
Mi ha detto che la mia sopravvivenza è un privilegio
e il benessere dei banchieri una giustizia.
Mi ha parlato di una nuova società, fatta di sagacia
 e d’acqua fresca.
L’ho lasciato parlare.
Egli non sa d’essere finito anche lui dalla parte dei
 perdenti
e, prima che lo scopra, fioriranno altre rose
e la sabbia coprirà tutti i giardini.
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Marinus van Reymerswale
Gli esattori (XVI secolo)
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Ed è subito sera


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Ed è subito sera
Ed è subito sera


Fez-se noite de repente.
Os meus livros escurecem nas estantes,
as coisas todas ganharam um triste e elegante tom
 de sépia
e os meus filhos, esses, constroem por si próprios as
 suas vidas.
Eu nunca plantei uma árvore.

Vem perto de mim:
de todas as cidades que atravessámos
nenhuma nos deu o mágico elixir,
mas todas nos ensinaram alguma coisa
daquilo que cresce ainda dentro de nós.
E d’un tratto s’è fatta notte.
I miei libri s’offuscano sui ripiani,
tutte le cose hanno assunto una triste ed elegante
 sfumatura di seppia
e i miei figli, loro, si fabbricano da sé stessi le
 proprie vite.
Io non ho mai piantato un albero.

Vienimi accanto:
di tutte le città che abbiamo attraversato
nessuna ci ha dato l’elisir magico,
ma tutte ci hanno insegnato qualcosa
di ciò che cresce ancora dentro di noi.
________________

Ad Minoliti
Nightlife (2017)
...

Anunciação


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Anunciação
Annunciazione


Não fujo ao poema.
Espero-o com a alegria de quem caminha
sobre brasas e destroços
e dele espero a música, toda a música
que não sei dar nem receber.

Antes de fechar as contas, digo eu,
espero o poema
como um riso atrás da cortina
da vida.
Non sfuggo alla poesia.
L’aspetto con la gioia di chi cammina
su braci e macerie
e da lei m’aspetto la musica, tutta la musica
che non so dare né ricevere.

Prima di chiudere i conti, io dico,
aspetto la poesia
come un sorriso oltre la cortina
della vita
________________

Matthew Wong
Sulla malinconia della vita (2017)
...

A Misericórdia dos Mercados


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A Misericórdia dos Mercados
La misericordia dei mercati


Nós vivemos da misericórdia dos mercados.
Não fazemos falta.
O capital regula-se a si próprio e as leis
são meras consequências lógicas dessa regulação,
tão sublime que alguns veem nela o dedo de Deus.
Enganam-se.
Os mercados são simultaneamente o criador e a própria
 criação.
Nós é que não fazemos falta.
Noi viviamo della misericordia dei mercati.
Non c’è bisogno di noi.
Il capitale si regola da solo e le leggi
non sono che logiche conseguenze di questa regolazione,
così sublime che alcuni in essa vedono il dito di Dio.
Si sbagliano.
I mercati sono ad un tempo il creatore e la propria
 creazione.
E di noi non c’è alcun bisogno.
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Georg Scholz
Il lavoro disonora (1921)
...

Um sopro do coração


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Um sopro do coração
Un soffio dal cuore


Esquece o que eu escrevi, deita-te aqui perto
e ouve só as minhas palavras sem sentido,
o balbuciar que eu solto antes da voz,
tudo o que há tanto tempo trago preso na garganta.
 
Nem o ritmo da cantilena aprendida na infância,
nem a música da poesia:
 
ouve apenas o balbuciar, o sopro antes da voz,
quase um estertor, mas a dizer agora
que estamos vivos.
Dimentica quel che ho scritto, stenditi qui vicino
e ascolta soltanto le mie parole senza senso,
il balbettio che esalo prima della voce,
tutto ciò che da tanto tempo mi stringe la gola.
 
Non il ritmo della cantilena appresa da piccino,
né la musica della poesia:
 
ascolta solo il balbettio, il soffio prima della voce,
quasi un rantolo, ma per dire ora
che siamo vivi.
________________

Dominique Meunier
Memoria del futuro (2023)
...

Uma infância em Deli (2)


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Uma infância em Deli (2)
Un’infanzia a Delhi (2)


E os portugueses, sabes,
Eram aquela imagem de um homem de barbas compridas
Com um chapéu bicudo,
Que abria no nosso manual de História o capítulo
 chamado
«A era de Gama».
(Já não está na moda!)
E i portoghesi, sai,
Erano quel ritratto di uomo dalla lunga barba
Con un cappello a punta,
Che apriva sul nostro libro di Storia il capitolo
 intitolato
«L’era di de Gama».
(Ormai non è più di moda!)
________________

Gaspar Correia
Vasco da Gama (1520)
...

Rua em Nova Deli


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Rua em Nova Deli
Strada a Nuova Delhi


Pequenos templos,
com deuses toscos que sorriem,
incenso e bosta de vaca

ou apenas a imagem doutros deuses
no oco da árvore da esquina.

Os seres simples
não têm necessariamente o coração puro:
mas a arrogância do mundo
parece não morar nesta rua.
Piccoli templi,
con rozze divinità che sorridono,
incenso e sterco di vacca

o solo l’immagine di altri dei
in una cavità dell’albero all’angolo.

Le creature semplici
non hanno necessariamente il cuore puro:
ma l’arroganza del mondo
sembra che non abiti in questa via.
________________

Vishal Gurjar
Radhe Gopal (2019)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

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