Visualizzazione post con etichetta Manuel António Pina. Mostra tutti i post
Visualizzazione post con etichetta Manuel António Pina. Mostra tutti i post

A poesia vai acabar


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Ainda não é o fim nem o princípio do mundo... (1974) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


A poesia vai acabar
La poesia finirà


A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»  E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

La poesia finirà, i poeti
verranno destinati a mansioni più utili.
Per esempio, osservatori d’uccelli
(finché non finiranno
gli uccelli). Questa certezza l’ho avuta oggi
nell’entrare in un ufficio pubblico.
Un signore miope attendeva con calma
allo sportello; io domandai: «Che cosa potrebbe fare
un poeta per questo signore?»  E la domanda
m’ha afflitto tanto sia dentro sia
fuori dalla testa che son dovuto tornare a leggere
tutta la poesia fin dal principio del mondo.
Una domanda in una testa.
— Come una corona di spine:
stanno tutti a vedere dove vuol arrivare l’autore? —

________________

Richard Moult
Nel cuore del bosco (2022)
...

Ouro e prata


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Todas as palavras: Poesia reunida (2012, postumo) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Ouro e prata
Oro e argento


A flor amarela
era a da urze?
E a de prata
a da giesta?

Pouca coisa são as palavras
e é o que me resta,
o seu ouro derramado
sobre as lembranças:

a palavra urze, a palavra giesta,
os nomes das primeiras esperanças,
o meu nome tantas vezes sussurrado
de tantas maneiras indiferentes!

Il fiore giallo
era quello dell’erica?
E quello d’argento
quello di ginestra?

Son poca cosa le parole
ma é quel che mi resta,
il loro oro versato
sopra le memorie:

la parola erica, la parola ginestra,
i nomi delle prime speranze,
il mio nome tante volte sussurrato
in tante maniere indifferenti!

________________

Lucio Fontana
Terra e oro (1962)
...

Na biblioteca


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Poesia, Saudade da Prosa – uma antologia pessoal (2011) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Na biblioteca
In biblioteca


O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre
demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

Quel che non può esser detto
custodisce un silenzio
fatto di parole primarie
rispetto alla poesia, che arriva sempre
troppo tardi,

quando già l’incertezza
e la paura si consumano
in metri alessandrini.
Nella biblioteca, in ogni libro,

in ogni pagina su di sé
raccolta, nelle ore morte in cui
anche la casa s’è raccolta
rivolta al proprio interno,

le parole forse dormono,
sillaba a sillaba,
il sonno cieco che dormirono le cose
prima dell’avvento degli dei.

Là, dove non arrivano né il poeta
né la lettura,
la poesia è sola.
E, incapace di sopportare da sola la vita, canta.

________________

Gérard Titus-Carmel
La biblioteca d'Urcée (2006-2009)
...

Interiores


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Poesia, Saudade da Prosa – uma antologia pessoal (2011) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Interiores
Interni


Onde estamos agora que não nos vemos,
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?

Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor como uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?

Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?

Dove siamo ora che non ci vediamo,
tu seduta davanti alla TV
e io scrivendo questo, che non so cos’è,
come altri due che noi non conosciamo?

Chissà se è rimasto qualcosa
del nostro amore come un’inesorabilità,
una nostalgia affidata ora alle mani di Dio
che esisterà per sempre nella sua breve eternità?

Forse percorriamo una rotta circolare
lungo la curvatura dello spazio e del tempo
dove ci dovremo un giorno rincontrare;
chissà se allora in qualche modo ci riconosceremo?

________________

Edward Hopper
Hotel by a Railroad (1952)
...

Ruínas


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Como se desenha uma casa (2011) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Ruínas
Rovine


Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interrompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite
 se mostravam,
e talvez devesse ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha Igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.

Da qualunque parte sia cominciato,
dal corpo o dal significato,
tutto è rimasto incompiuto, il fatto e il non fatto,
come per l’interruzione d’un sonno agitato.

Il tuo nome aveva culmini inarrivabili
e luoghi mal illuminati dove
si nascondevano timidi animali che solo di notte
 si mostravano,
e forse da lì dev’esser cominciato.

Ora è tardi, di ciò che avrebbe potuto
essere restano le rovine;
su di loro edificherò la mia Chiesa
come chi, sul far della sera, torna a una casa.

________________

Fabio Viale
Acqua alta - High tide, 2020
...

Relatório


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Como se desenha uma casa (2011) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Relatório
Resoconto


É um  mundo pequeno,
habitado por animais pequenos
- a dúvida, a possibilidade da morte -
e iluminado pela luz hesitante de

de pequenos astros - o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato perseguindo pela sala
o último raio de sol da tarde.

Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra casa; não fulge.

Em certas noites, porém,
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.

Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.

È un mondo piccolo,
abitato da piccoli animali
- il dubbio, la possibilità della morte -
e illuminato dalla tremula luce di

piccoli astri - il rumore dei libri,
i tuoi passi che salgono le scale,
il gatto che insegue per la sala
l’ultimo raggio di sole della sera.

Lo si direbbe piuttosto una casa,
un po’ più alta di un impero
e un po’ più indecifrabile
della parola casa; non brilla.

Certe notti, però,
esce da sé e da me
e resta sospesa là fuori
tra la memoria e il rimorso d’un altra vita.

Allora, a luci spente,
odo voci che chiamano,
parole morte mai pronunciate
e l’interminabile agonia delle cose finite.

________________

Franco Gentilini
Natura morta con gatto (1955)
...

Os livros


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Como se desenha uma casa (2011) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Os livros
I libri


É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?

È dunque questo un libro,
questo, come dire?, mormorio,
questo viso rivolto all’interno di
qualcosa d’oscuro che ancora non esiste
che, se una mano all’improvviso
innocentemente la tocca,
si apre indifesa
come una bocca
che parla con la nostra voce?
È questo un libro,
questa specie di cuore (il nostro cuore)
che dice ‘io’ tra noi e noi?

________________

Giorgio Milani
Omaggio a Salinger (2005)
...

O regresso


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Como se desenha uma casa (2011) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


O regresso
Il ritorno


Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Come chi, venendo da paesi lontani al di fuori di
sé, arriva finalmente dove sempre era stato
e trova tutto al suo posto,
il passato nel passato, il presente nel presente,
così giunge il viaggiatore all’età avanzata
in cui lui e il cammino si confondono.

Entra allora per la prima volta nella sua casa
e si stende per la prima volta nel suo letto.
Dietro di lui son rimasti porti, isole, ricordi,
città, stagioni dell’anno.
E mangia ora alfine un pane genuino
che non lascia in bocca il sapore di parole straniere.

________________

Salvador Dalì
Cestino di pane (1926)
...

O livro


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Os Livros (2003) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


O livro
Il libro


 Como uma paisagem entrando
 pela janela de um quarto vazio
 Tchouang Tseu

E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.

Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um
 quarto vazio.

 Come un paesaggio che entra
 dalla finestra d’una stanza vuota
 Zhuangzi

E quando giungerai alla dura
pietra di marmo non dire: «Acqua, acqua!»,
perché se hai trovato quel che cercavi
l’hai perduto e non è ancora iniziata la tua ricerca;
e se avessi sete, folle, bevi le tue parole
poiché è tutto quel che hai: letteratura,
giammai mistero, neppure senso,
null’altro che una cosa ipocrita e oscura, il libro.

Contro di lui, non ti s’indurisca il cuore,
quello che puoi sapere sta in un altro posto.
Quel che il libro dice è il non detto,
come un paesaggio che entra dalla finestra d’una
 stanza vuota.

________________

René Magritte
La chiave dei campi (1936)
...

Luz


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Os Livros (2003) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Luz
Luce


Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu).
E talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz, pelo lado de fora.

Forse in un altro mondo, in un altro libro,
tu non sei morto
e forse in questo libro non scritto
né tu né io siamo esistiti

e sono stati altri due quelli
che la morte ha separato e uno di loro
adesso sta scrivendo questo come se
si risvegliasse da un sogno che

un altro ha sognato (forse io).
E allora chissà che tu, io, quest’impressione
di stranezza, come se tutto avesse perso
di colpo esistenza e dimensione,

e peso, e sia sfumato,
non sia che un sogno sospeso che fu sognato
da qualcuno che s’è svegliato ed ora fluttua
come una luce, là fuori.

________________

Childe Hassam
Quinta Strada, Notturno (1895)
...

A avó


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Os Livros (2003) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


A avó
La nonna


Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pelo dele preto e brando

Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela

Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro

Aveva in grembo il vecchio gatto
e pigramente gli passava
la mano bianca lungo il
mantello nero e vellutato.

Seduta davanti alla finestra
guardava la via o la sognava
e tutto il passato le passava
accanto a passi lenti.

Ambedue dormivano e intanto
la sera già stava finendo
il gatto dormiva di fuori
la nonna dormiva dentro

________________

Franz Marc
Donna con gatto (1912)
...

O quarto


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Como se desenha uma casa (2011) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


O quarto
La stanza


Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste

para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.

A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.

Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.

Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.

Chi ti posò la mano sulla spalla,
il coltello che ti trapassò il cuore,
sono ferite distanti, forse qualcosa che hai letto;
tuttavia sei partito

per luoghi meno illuminati
e cuori meno vulnerabili,
ci si può chiedere che ci fai ancora qui
se più qui non stai.

Doveva giungere il momento in cui
ci saremmo persi di vista l’un l’altro.
E saremmo finiti necessariamente così,
morti che riepilogano morti.

Morire, però, non è facile,
rimangono ombre neanche le nostre,
e la nostra voce ci parla
in una lingua straniera.

Spegni la luce e girati dall’altra parte
e svegliati domani come nuovo,
barba impeccabilmente fatta,
il giorno un sogno solido in cui la notte si depura e si corica.

________________

Fabio Viale
Souvenir David, 2020
...

Sexta Feira Santa


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Atropelamento e fuga (2001) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Sexta Feira Santa
Venerdì Santo


A conversa era sobre Deus,
embora o teólogo estivesse inclinado
a pensar que fosse sobre outra coisa,
pois era hora de jantar.
Pegou num cigarro e perguntou às senhoras
  se podia fumar.
Tinha devorado o pargo com honesto apetite
e elogiava as virtudes do cozinheiro.
Só Deus, Algures, chorava sobre
os despojos da sua pequena criatura na travessa
a caminho da copa, antes da sobremesa.

La conversazione era su Dio,
benché il teologo fosse incline
a pensare che fosse su qualcos’altro,
perché era ora di cena.
Prese una sigaretta e chiese alle signore
  se poteva fumare.
Aveva divorato l'orata con sano appetito
ed elogiava le virtù del cuoco.
Solo Dio, da qualche parte, piangeva sulle
spoglie della sua povera creatura sul vassoio
accanto al calice, prima del dessert.

________________

Marie Anne Møller
Bob (2019)
...

Sétimo Dia


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Atropelamento e fuga (2001) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Sétimo Dia
Settimo giorno


 Ao Manuel Hermínio

Voltámos, um a um, da tua morte

para a nossa vida como quem regressa a casa
de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações,
 países,
e agora é como se te tivéssemos sonhado.

A voz que, diante da escuridão, suspendemos
quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti
erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos
e para as horas comuns.

Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror
e já somos reais outra vez.
A própria dor adormeceu no nosso colo
como um animal de companhia

 A Manuel Hermínio

Tornammo, uno ad uno, dalla tua morte

alla nostra vita come chi ritorna a casa
da un lungo viaggio. Indietro rimasero ricordi,
 paesi,
ed ora è come se ti avessimo sognato.

La voce che, prima del buio, sospendemmo
quando si disintegrò il mondo in fondo a te
la rianimiamo di nuovo per le faccende usitate
e per le ore ordinarie.

Appena ieri eravamo soli davanti all’Orrore
e già siamo tornati reali.
Il nostro dolore ci si è addormentato in grembo
come un animale da compagnia.

________________

Emile Bernard
I funerali di Van Gogh (1893)
...

Não o Sonho


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Atropelamento e fuga (2001) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Não o Sonho
Non il sogno


Talvez sejas
a breve recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Che tu sia forse
il breve ricordo di un sogno
da cui qualcuno (forse tu) s’è risvegliato
(non dal sogno, ma dal suo ricordo),
un sogno fermo di cui restano
appena immagini sfatte, presentimenti.
Anch’io non mi ricordo,
anch’io sono rinchiuso nei miei sensi
senza poterne uscire. Se tu potessi sentire,
qui dentro, che rumore fanno i miei sensi,
animali maltrattati e perduti
brancolanti! I miei sensi mi hanno espulso da me,
mi hanno svincolato da me ed ora
mi ricordo solo della parte esteriore.

________________

Giorgio de Chirico
Le due maschere (1926)
...

Extrema-unção


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Atropelamento e fuga (2001) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Extrema-unção
Estrema unzione


Uma breve, amável mágoa à
flor dos olhos, um distante desapontamento,
morrias como se pedisses desculpa
por nos fazeres perder tempo.

Tinhas pressa mas não o mostravas,
receavas que não estivéssemos preparados,
e, suspenso sobre nós, esperavas
que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado.

Morrer não é motivo de orgulho,
mas estavas cansado de mais para te justificares.
Ainda por cima no mês de Julho,
com as férias marcadas, ausentes os familiares.

Tínhamos levado as crianças de casa,
feito os telefonemas, escolhido os dizeres.
O quarto fora arrumado, a cama mudada
com roupa lavada. Só faltava morreres.

Una breve, garbata mestizia a
fior degli occhi, un vago disappunto,
morivi come se chiedessi scusa
di farci perder tempo.

Avevi fretta ma non lo dimostravi,
temevi che noi non fossimo preparati,
e, librandoti sopra di noi, aspettavi
che dicessimo tutto, che facessimo il giusto.

Morire non è motivo d’orgoglio,
ma tu eri troppo stanco per giustificarti.
Per di più si era in luglio,
con le ferie già prenotate, assenti i parenti.

Avevamo portato fuori i bambini,
fatto le telefonate, scelto le parole.
La stanza adesso era in ordine, il letto cambiato
con biancheria pulita. Non ti restava che morire.

________________

José de Ribera
Santa Maria Egiziaca (1641)
...

Atropelamento e Fuga


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Manuel António Pina »»
 
Atropelamento e fuga (2001) »»
 
Francese »»
«« precedente/  Sommario / successivo »»
________________


Atropelamento e fuga
Investimento e fuga


Era preciso mais do que silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar mas primeiro tinhas que arranjar
o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram 3 da tarde,
já não me lembro de que dia, talvez de um dia
em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura do lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta (morta como se
estivesses morta!), olhando-me em silêncio estendida
no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto!

C’era bisogno di qualcosa di più che di silenzio,
c’era bisogno almeno d’un gran vociare,
di una crisi di nervi, di un’incendio,
di porte sbattute, di passi di corsa.
Ma sei rimasta zitta,
ti veniva da piangere, ma prima dovevi sistemarti
i capelli,
mi hai chiesto l’ora, erano le 3 del pomeriggio,
non ricordo più di che giorno, forse di un giorno
in cui ero io quello che doveva morire,
un giorno che era cominciato male, avevo lasciato
le chiavi nella serratura dalla parte interna della porta,
e adesso c’eri tu lì, morta (morta come se
davvero fossi morta!), guardandomi in silenzio stesa
sull’asfalto,
e nessuno chiedeva niente e nessuno alzava la voce!

________________

Francis Bacon - Trittico ispirato
all'Orestea di Eschilo (particolare) (1981)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (553) Orides Fontela (14) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (360) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)