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A infância vem da eternidade...


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A infância vem da eternidade...
L’infanzia viene dall’eternità...


A infância vem da eternidade.
Depois só a morte magnífica
- Destruição da mordaça:
E talvez já a tivesses entrevisto
Quando brincavas com o pião
Ou quando desmontaste o besouro.

Entre duas eternidades
Balançam-se espantosas
Fome de amor e a música:
Rude doçura,
Última passagem livre.

Só vemos o céu pelo avesso.
L’infanzia viene dall’eternità.
Dopo solo la morte magnifica
- Distruzione dei bavagli:
E forse tu già l’avevi intravista
Quando giocavi con la trottola
O quando hai sezionato lo scarabeo.

Tra due eternità
Oscillano splendide
La brama d’amore e la musica:
Grezza dolcezza,
Ultimo passaggio libero.

Solo all’inverso noi vediamo il cielo.
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Juan Gris
Chitarra e clarinetto (1920)

Estudo para um caos


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As Metamorfoses (1944) »»
 
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Estudo para um caos
Studio per un caos


O último anjo derramou seu cálice no ar.

Os sonhos caem na cabeça do homem,
As crianças são expelidas do ventre materno,
As estrelas se despregam do firmamento.
Uma tocha enorme pega fogo no fogo,
A água dos rios e dos mares jorra cadáveres.
Os vulcões vomitam cometas em furor
E as mil pernas da Grande dançarina
Fazem cair sobre a terra uma chuva de lodo.
Rachou-se o teto do céu em quatro partes:
Instintivamente eu me agarro ao abismo.
Procurei meu rosto, não o achei.
Depois a treva foi ajuntada à própria treva.
L’ultimo angelo ha rovesciato nell’aria il suo calice.

I sogni cadono sulla testa dell’uomo,
I bimbi vengono espulsi dal ventre materno,
Le stelle si distaccano dal firmamento.
Una torcia enorme prende fuoco nel fuoco,
L’acqua dei fiumi e dei mari riversa cadaveri.
I vulcani vomitano comete in delirio
E le mille gambe della Grande danzatrice
Fanno ricadere sulla terra una pioggia di fango.
S’è squarciato in quattro il tetto del cielo:
Istintivamente io m’aggrappo all’abisso.
Ho cercato il mio volto, non l’ho trovato.
Poi la tenebra s’è ricongiunta alla tenebra.
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Friedrich Dürrenmatt
Meteorite nefasta (1980)
...

Picasso


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Tempo Espanhol (1959) »»
 
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Picasso
Picasso


Quem pega a vida à unha como tu?
Só mesmo Espanha, tua mãe e mestra.
Paris formou o espaço da tua técnica,
Mas Espanha te deu o estilo de contrastes,
O gosto de regressar ao centro do problema,
De investigar a matéria da vida
E atingir o osso:
Construindo e destruindo ao mesmo tempo.

Situas o objeto inimigo,
Súbito assimilado.
As cores são de inventor, não de colorista.
A natureza morta
Retoma a lição espanhola:
Os elementos do quadro são "dramatis personae"
Que se cruzam no silêncio fértil.
Roma, Grécia ou África
Te servem de pretexto plástico:
O corpo extrai da vida
Sua força pessoal e polêmica.

Feito à imagem da Espanha, tu, Picasso,
Soubeste fundir a força e a contenção.

Chi prende la vita per le corna come te?
Soltanto la Spagna, tua madre e maestra.
Parigi ha plasmato lo spazio della tua tecnica,
Ma la Spagna t’ha dato lo stile dei contrasti,
Il gusto di ritornare al centro del problema,
Di investigare la materia della vita
Ed arrivare all’osso:
Costruendo e distruggendo al tempo stesso.

Collochi l’oggetto da nemico,
E subito è assimilato.
Sono da inventore i colori, non da colorista.
La natura morta
Riprende la lezione spagnola:
Gli elementi del quadro sono "dramatis personae"
Che s’incrociano in un fertile silenzio.
Roma, Grecia o Africa
Ti servono da pretesto plastico:
Il corpo estrae dalla vita
La sua forza personale e polemica.

A immagine e somiglianza della Spagna, tu, Picasso,
Hai saputo fondere la forza e il contrasto.

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Pablo Picasso
Uomo con la pipa (1969)

Joan Miró


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Joan Miró
Joan Miró


Soltas a sigla, o pássaro, o losango.
Também sabes deixar em liberdade
O roxo, qualquer azul e o vermelho.
Todas as cores podem aproximar-se
Quando um menino as conduz no sol
E cria a fosforescência:
A ordem que se desintegra
Forma outra ordem ajuntada
Ao real — este obscuro mito.

Liberi il segno, l’uccello, la losanga.
Riesci anche a mettere in libertà
Il viola, qualche blu e il rosso.
Tutti i colori possono fondersi
Quando un bambino li colloca al sole
E crea la fosforescenza:
Quest’ordine che si disintegra
Genera un altro ordine che s’affianca
Al reale — questo oscuro mito.

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Joan Miró
Il giardino (1925)

Canto a García Lorca


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Canto a García Lorca
Canto a Garcia Lorca


Não basta o sopro do vento
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.

Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.

O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor,

Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto

De vermelho: cor do mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.

Consolo-me da tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde el duende é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.

Non basta l’alito del vento
Tra gli uliveti deserti,
Il lamento d’acque occulte
Nei cortili d’Andalusia.

A te reco il canto poroso,
Il lucido lamento
Tra l’una e l’altra parola
Che tu forgiasti con rigore.

Il lamento essenziale
Senza punti esclamativi:
Diversamente dal rito antico,
Unisce l’asciuttezza al fervore,

Nel rammentare che sapesti
Affrontare la morte secca
Venuta dal taglio preciso
Della spada silente
Facendo propagare nel getto

Il rosso: color del mito
Creato con la forza umana
In cui sogno e realtà
Accordano il loro contrappunto.

Mi rassegno alla tua morte.
Poiché essa ci illustrò
Il tuo linguaggio corporale
Ove l’estro è alimentato
Dal sale dell’intelligenza,
Ove la Spagna è valutata
In numero, peso e misura.

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Joaquin Sorolla y Bastida
Calle di Granada (1910)

Poema lírico


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Poema lírico
Poema lirico



  Amiga, amiga! De braço dado atravessamos o arco-íris.
  Quem nos dá esta força que nos impele acima do mar e das montanhas?
Deixamos lá embaixo os bens materiais, a violência da vida.
Amiga, amiga! Teu rosto é semelhante à lua moça,
Há nas tuas roupas um cheiro bom de mato virgem.
Tua fala saiu da caixinha de música dos meus sete anos,
 E te empinas no azul com a graça dos papagaios que eu soltava.
Ó amiga! Deixamos o reino dos homens bárbaros
Que fuzilam crianças com bonecas ao colo,
E ei-nos livres, soprados pelos ventos,
Até onde não alcançam os aparelhos mecânicos.
Unidos num minuto ou num século, que importa.

Agarrados à cauda de um cometa percorremos a criação.
Teu rosto desvendou os olhos comunicantes.
Não há mistério: só nós dois sabemos nosso nome,
As fronteiras entre amor e morte.
Eu sou o amante e tu és a amada.

Para que organizar o tempo e o espaço?


 Amica, amica! Sottobraccio abbiamo attraversato l’arcobaleno.
 Chi ci dà questa forza che ci spinge al di sopra dei mari e delle montagne?
Abbiamo lasciato laggiù i beni materiali, la violenza della vita.
Amica, amica! Il tuo volto assomiglia alla luna fanciulla,
C’è nei tuoi vestiti il buon profumo della foresta vergine.
La tua voce è uscita dal carillon dei miei sette anni,
 E t’innalzi nel blu con la grazia dei pappagallini che io liberavo.
O amica! Abbiamo lasciato il regno degli uomini barbari
Che sparano ai bimbi con le bambole in braccio,
Ed eccoci liberi, portati da venti,
Fin dove gli apparecchi meccanici non arrivano.
Uniti per un minuto o un secolo, che importa.

Aggrappati alla coda di una cometa percorriamo il creato.
Il tuo volto ha rivelato occhi comunicativi.
Non c’è mistero: solo noi due sappiamo il nostro nome,
Le frontiere tra amore e morte.
Io sono l’amante e tu sei l’amata.

Perché organizzare il tempo e lo spazio?

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Marc Chagall
Sulla città (1918)

Certo mar


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Certo mar
Mare fiero


O mar não me quer,

O mar não sei por que me abomina,
O mar autárquico:
Ele me atira barbatanas e algas podres,
Destroços de manequins e papéis velhos,
Arrastando para longe barco e sereia.
O mar tem idéias singulares sobre mim,
Manda-me recados insolentes
Em garrafas há muito esquecidas e sujas.
Suprime de repente o veleiro de 1752
Que vinha beirando o cais.

Suprime o veleiro e um bando de fantasmas
- Eu bem sei -
Únicos, polidos, um quase nada solenes.
Não tolero mais este safado,
Nem mesmo o admito no outro mundo:
Felizmente a eternidade é límpida,
Sem praia e sem lamentos.
Hei de espiá-lo da Grande rosácea,
Hei de vê-lo um dia lá embaixo,
Inútil: espremida esponja, carcaça de canoa,
Avesso de fotografia.

Il mare non m’ama,

Non so perché, ma il mare mi detesta,
Il mare autarchico:
Mi tira pinne e alghe putrescenti,
Resti di manichini e vecchie carte,
Trascinando al largo barca e sirena.
Il mare ha strane opinioni su di me,
Mi manda messaggi insolenti
In bottiglie da tempo dimenticate e sporche.
Distrugge all’improvviso il veliero del 1752
Che stava per attraccare.

Distrugge il veliero e una banda di fantasmi
- Io lo so bene -
Civili, educati, quasi per niente pomposi.
Non sopporto più questo impertinente,
E neppure lo ammetto all’altro mondo:
Per fortuna l’eternità è limpida,
Senza spiagge e senza lamenti.
Potrò spiarlo dal Grande rosone,
Potrò vederlo un giorno laggiù,
Inutile: spugna strizzata, carcassa di canoa,
Fotografia capovolta.

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Arturo Nathan
Rupi vulcaniche (1934)

Poema dialético


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Janela do caos (1949) »»
 
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Poema dialético
Poema dialettico


I
Todas as coisas ainda se encontram em esboço
Tudo vive em transformação
Mas o universo marcha
Para a arquitetura perfeita.

Retiremos das árvores profanas
A vasta lira antiga.
Sua secreta música
Pertence ao ouvido e ao coração de todos.
Cada novo poeta que nasce
Acrescenta-lhe uma corda.

II
Uma vida iniciada há mil anos atrás
Pode ter seu complemento e plenitude
Numa outra vida que floresce agora.

Nada poderá se interromper
Sem quebrar a unidade.

Um germe foi criado no princípio
Para que se desdobre em plenos múltiplos.
Nossos suspiros, nossos anseios, nossas dores
São gravados no campo do infinito
Pelo espírito sereníssimo que preside às gerações.

III
A muitos só lhes resta o inferno.
Que lhes coube na monstruosa partilha da vida
Senão um desespero sem nobreza, e a peste da alma?
Nunca ouviram a música nascer do farfalhar das árvores,
Nem assistiram à contínua anunciação
E ao contínuo parto das belas formas.

 Nunca puderam ver a noite chegar sem elementos de terror.
Caminham conduzindo o castigo e a sombra de seus atos.
Comeram o pó e beberam o próprio suor.
Não se banharam no regato livre...

Entretanto, a transfiguração precede a morte.
Cada um deve realiza-la na sua carne e no seu espírito
Para que a alegria seja completa e definitiva.

IV
É necessário conhecer seu próprio abismo
E polir incessantemente o candelabro que o esclarece.

Tudo no universo marcha, e marcha para esperar:
Nossa existência é uma vasta expectação
Onde se tocam o princípio e o fim.
A terra terá que ser retalhada entre todos
E restituída um dia à sua antiga harmonia.
Tudo marcha para a arquitetura perfeita.
A aurora é coletiva.

I
Tutte le cose si trovano ancora allo stadio di abbozzo
Tutto vive in trasformazione
Ma l’universo avanza
Verso un’architettura perfetta.

Ricaviamo dagli alberi profani
L’ampia lira antica.
La sua musica segreta
Appartiene all’orecchio e al cuore di tutti.
Ogni nuovo poeta che nasce
Le aggiunge una corda.

II
Una vita iniziata mille anni fa
Può avere completamento e pienezza
In un’altra vita che fiorisce oggi.

Nulla potrà interrompersi
Senza spezzare l’unità.

Un germe fu creato in principio
Perché si dispiegasse in multipli perfetti.
I nostri sospiri, le nostre ansie, i nostri dolori
Sono impressi nel territorio infinito
Dallo spirito serenissimo che guida le generazioni.

III
A molti non resta che l’inferno.
Che tocca loro nella mostruosa spartizione della vita
Se non uno sconforto senza decoro, e la peste dell’anima?
Mai sentirono la musica nascere dallo stormire degli alberi,
Né assistettero alla continua annunciazione
E al parto continuo delle belle forme.

 Mai poterono vedere la discesa della notte senza provarne terrore.
Avanzano portandosi il castigo e l’ombra delle proprie azioni.
Mangiarono la polvere e bevvero il proprio sudore.
Non si bagnarono nell’acqua libera del ruscello...

E intanto, la trasfigurazione precede la morte.
Ciascuno deve realizzarla nella sua carne e nel suo spirito.
Affinché la gioia sia completa e definitiva.

IV
È necessario conoscere il proprio abisso
E lucidare incessantemente il candelabro che lo rischiara.

Tutto nell’universo avanza, e avanza verso la speranza:
La nostra esistenza è un’immensa aspettativa
Ove si toccano il principio e la fine.
La terra dovrà essere ripartita tra tutti
E restituita un giorno alla sua antica armonia.
Tutto avanza verso un’architettura perfetta.
L’aurora è collettiva.

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Apollo con la lira
Pompei, Villa di Moregine (I sec. d.C.)

Tentação


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Tentação
Tentazione


Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo:
“Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz.”
Davanti al crocifisso
Mi fermo pallido tremando:
“Giacché sei il vero figlio di Dio
Schioda l’umanità da questa croce.”
________________

Piero della Francesca
Crocifissione (1445-1462)

Nihil


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Nihil
Nihil


Profundo penoso
Das nuvens do inferno
Surgiu meu destino.

Grandeza não tive,
Nem jeito pra vida.

Nesta noite maquinal,
Ouvinte apenas da guerra,
Sem passado nem futuro,
Odiando o presente,
Me encontro face a face
Com a estátua do pó,
À toa, esperando
A mão do Criador
Finalmente me abater
Profondo ingrato
Dai fumi infernali
È nato il mio destino.

Non ebbi grandezza,
Né vocazione alla vita.

In questa notte surreale,
Ascoltando solo voci di guerra,
Senza passato né avvenire,
Esecrando il presente,
Mi ritrovo a quattr’occhi
Con la statua di gesso,
Nell’istintiva speranza
Che la mano del Creatore
Infine s’abbatta su di me.
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Johann Heinrich Füssli
Solitudine all'alba (1794-1796)

Emaús


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Emaús
Emmaus


Sempre és o hóspede – nunca és o rei.
Muito mais derrotado que vitorioso.
Quando chegas e bates ao meu coração
Eu não te reconheço – há luz demais –
Debruço-me sobre as gravuras do caminho.
Quando te afastas – acompanhado pelo peixe azul –
Quando as formas se movem como num aquário,
Então eu levanto enternecido a lanterna
E logo começo a desejar que voltes,
Fascinado pela tua obscuridade.
Sei sempre l’ospite – non sei mai il re.
Più spesso sconfitto che vittorioso.
Quando tu giungi ed al mio cuore bussi
Io non ti riconosco – troppa è la luce –
Mi chino sopra le impronte sul sentiero.
Quando t’allontani – seguito dal pesce blu –
Quando le forme si spostano come in un acquario,
Allora commosso io sollevo la lanterna
E mi metto subito a desiderare il tuo ritorno,
Ammaliato dalla tua impenetrabilità.
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Caravaggio
Cena di Gesù a Emmaus (1601)

A mulher visível


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A mulher visível
La donna visibile


Algo de enigmático e indeciso
Durante anos existiu entre nós,
Uma antemanhã de amor, uma vida sem marco.

Amavas Vermeer de Delft, os gatos e as mazurcas.
Sempre estiveste à espera da doçura,
Mas veio a violência em rajadas,
Vieram o pânico e a febre.

Não te pude ver doente nem morta:
Recebi a obscura notícia
Depois que as roseiras começavam a crescer
Sobre tua estreita sepultura.

Hoje existes para mim
De uma vida mais forte, em plenitude,
Daquela vida que ninguém pode arrebatar
– Nem o tempo, nem a espessura, nem os anjos maus
Que torturaram tua infância árida.

Hoje vives em mim
Com a doçura que sempre desejaste:
Alcanças enfim tua visibilidade.
Qualcosa di enigmatico ed incerto
Per anni c’è stato fra noi,
Un’aurora d’amore, una vita senza limiti.

Tu amavi Vermeer di Delft, i gatti e le mazurche.
Sei sempre stata in attesa di tenerezza,
Ma è arrivata la violenza a bordate,
Sono arrivati il panico e la febbre.
 
Né malata né morta t’ho potuta vedere:
M’han dato la tetra notizia
Quando un roseto cominciava ormai a crescere
Sul tuo angusto sepolcro.

Oggi tu esisti per me
D’una vita più intensa, più completa,
Di quella vita che nessuno può toglierti
– Né il tempo, né la materia, né gli angeli maligni
Che hanno afflitto la tua squallida infanzia.

Oggi tu vivi in me
Con la tenerezza cui hai sempre aspirato:
Finalmente conquisti la tua visibilità.
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Jan Vermeer
Giovane donna assopita (1657)

Poema barroco


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Poema barroco
Poesia barocca


Os cavalos da aurora derrubando pianos
Avançam furiosamente pelas portas da noite.
Dormem na penumbra antigos santos com os pés feridos,
 Dormem relógios e cristais de outro tempo, esqueletos de atrizes.

O poeta calça nuvens ornadas de cabeças gregas
E ajoelha-se ante a imagem de Nossa Senhora das Vitórias
Enquanto os primeiros ruídos de carrocinhas de leiteiros
Atravessam o céu de açucenas e bronze.

Preciso conhecer meu sistema de artérias
E saber até que ponto me sinto limitado
Pelos sonhos a galope, pelas últimas notícias de massacres,
  Pelo caminhar das constelações, pela coreografia dos pássaros,
Pelo labirinto da esperança, pela respiração das plantas,
E pelo vagido da criança recém-parida na Maternidade.

Preciso conhecer os porões de minha miséria,
Tocar fogo nas ervas que crescem pelo corpo acima,
Ameaçando tapar meus olhos, meus ouvidos,
E amordaçar a indefesa e nua castidade.

É então que viro a bela imagem azul-vermelha:
Apresentando-me o outro lado coberto de punhais,
Nossa Senhora das Derrotas, coroada de goivos,
Aponta seu coração e também pede auxílio.
I cavalli dell’aurora travolgendo pianoforti
S’addentrano furiosamente nelle porte della notte.
Nella penombra dormono antichi santi coi piedi feriti,
 Dormono orologi e cristalli d’altra epoca, scheletri di attrici.

Il poeta indossa nuvole ornate di profili greci
E si prostra davanti all’icona di Nostra Signora delle Vittorie
Mentre i primi cigolii dei barrocci dei lattai
Percorrono il cielo di fiordaliso e bronzo.

Bisogna che io conosca il mio sistema d’arterie
E sappia fino a che punto mi sento limitato
Dai sogni a briglia sciolta, dalle recenti notizie d’eccidi,
 Dal movimento delle costellazioni, dalla coreografia degli uccelli,
Dal labirinto della speranza, dal respiro delle piante,
E dal vagito del neonato appena partorito nella Maternità.

Bisogna che io conosca i sotterranei della mia miseria,
Che dia fuoco alle erbacce che mi crescono sul corpo,
Col rischio che si tappino i miei occhi, le mie orecchie,
E si raffreni la nuda e indifesa castità.

Ecco che ora giro la bella immagine rossa e blu:
Nel mostrarmi il lato opposto coperto di pugnali,
Nostra Signora delle Disfatte, coronata di viole,
Addita il suo cuore e chiede a sua volta aiuto.
________________

Gian Lorenzo Bernini
Estasi di Santa Teresa (1647-1652)

Os amantes submarinos


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Os amantes submarinos
Gli amanti sottomarini


Esta noite eu te encontro nas solidões de coral
Onde a força da vida nos trouxe pela mão.
No cume dos redondos lustres em concha
Uma dançarina se desfolha.
Os sonhos da tua infância
Desenrolam-se da boca das sereias.
A grande borboleta verde do fundo do mar
Que só nasce de mil em mil anos
Adeja em torno a ti para te servir,
Apresentando-te o espelho em que a água se mira,
E os finos peixes amarelos e azuis
Circulando nos teus cabelos
Trazem pronto o líquido para adormecer o escafandrista.
Mergulhamos sem pavor
Nestas fundas regiões onde dorme o veleiro,
À espera que o irreal não se levante em aurora
Sobre nossos corpos que retornam à água do paraíso.
Questa notte t’incontro nelle solitudini di corallo
Ove la forza della vita ci ha condotti per mano.
In cima ai tondi lampadari di conchiglie
Si spoglia una ballerina.
I sogni della tua infanzia
Scaturiscono dalla bocca delle sirene.
La grande farfalla verde del fondale marino
Che solo ogni mille anni rinasce
Volteggia intorno a te per servirti,
Porgendoti lo specchio in cui l’acqua si rimira,
E gli esili pesci gialli e blu
Circolando tra i tuoi capelli
Estraggono il liquido per addormentare il palombaro.
C’immergiamo senza timore
In queste profonde plaghe ove dorme il veliero,
Sperando che l’irreale non si sollevi all’alba
Sopra i nostri corpi che tornano all’acqua del paradiso.
________________

Damien Hirst
Tesori dal relitto dell'Incredibile
(Venezia - 2017)

Mulher vista do alto de uma pirâmide


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Mulher vista do alto de uma pirâmide
Donna vista dall’alto di una piramide


Eu vejo em ti as épocas que já viveste
E as épocas que ainda tens para viver.
Minha ternura é feita de todas as ternuras
Que descem sobre nós desde o começo de Adão.
Estás encarcerada nas formas
Que se engrenam em outras na corrente dos séculos.
E outras formas estão ansiosas por despontarem em ti.
Quando eu te contemplo
Vejo tatuada no teu corpo
A história de todas as gerações.
Encerras tua filha, tua neta e a neta de tua neta.
Ó mulher, tu és a convergência de dois mundos.
Quando te olho a extensão do tempo se desdobra
  ante mim.
Io vedo in te le epoche che hai già vissuto
E le epoche che ancora ti restano da vivere.
La mia tenerezza è fatta di tutte le tenerezze
Che scendono su di noi a partire da Adamo.
Sei prigioniera nelle forme
Che si incastrano in altre lungo il corso dei secoli.
E altre forme sono ansiose di innestarsi in te.
Quando io ti contemplo
Vedo tatuata sul tuo corpo
La storia di tutte le generazioni.
Racchiudi tua figlia, tua nipote e la nipote di tua nipote.
Donna, tu sei la convergenza di due mondi.
Quando ti guardo l’estensione del tempo mi si spiega
  davanti.
________________

Salvador Dalí
Apparizione dell'Afrodite di Cnido (1981)

Começo de biografia


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Começo de biografia
Abbozzo di biografia


Eu sou o pássaro diurno e noturno,
O pássaro misto de carne e lenda,
Encarregado de levar o alimento da poesia, da música
Aos habitantes da estrada, do arranha-céu, da nuvem.
Eu sou o pássaro feito homem, que vive no meio de vós.
Eu vos forneço o alimento da catástrofe, o ritmo puro.
Trago comigo a semente de Deus... e a visão do dilúvio.
Io sono l’uccello diurno e notturno,
L’uccello misto di carne e leggenda,
Incaricato di recare l’alimento della poesia, della musica
Agli abitanti delle strade, dei grattacieli, delle nuvole.
Io sono l’uccello fatto uomo, che vive in mezzo a voi.
Io vi procuro l’alimento della catastrofe, il ritmo puro.
Porto in me la semente di Dio... e la visione del diluvio.
________________

Marc Chagall
Il giocoliere (1943)

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (364) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (16) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)