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Palavras aladas


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Palavras aladas
Parole alate


Os juramentos que nos juramos
entrelaçados naquela cama
seriam traídos, se lembrados
hoje. Eram palavras aladas

e faladas não para ficar
mas, encantadas, voar. Faziam
parte das carícias que por lá
sopramos: brisas afrodisíacas

ao pé do ouvido, jamais contratos.
Esqueçamo-las, pois, dentre os atos
da língua, houve outros mais convincentes

e ardentes sobre os lençóis. Que esses,
em futuras noites, em vislumbres
de lembranças, sempre nos deslumbrem.
I giuramenti che ci siamo giurati
strettamente allacciati in quell’alcova
sarebbero traditi, se li rievocassimo
oggi. Erano parole alate

e pronunciate non per rimanere
ma, trasognate, volare. Erano parte
di quelle tenerezze, che noi
sussurravamo: afflati afrodisiaci

detti all’orecchio: mai furono contratti.
Scordiamole, perché, oltre agli atti
della lingua, altri ce n’erano più convincenti

e ardenti tra le lenzuola. Possano questi,
in notti future, nel balenare
dei ricordi, sempre ridarci calore.
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Domenico Gnoli
L'inverno - coppia a letto (1967)
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O fim da vida


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O fim da vida
La fine della vita


Conhece da humana lida
a sorte:
 
o único fim da vida
é a morte
e não há, depois da morte,
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada:
 
ela é tudo e o resto, nada.
Accetta dell’umana lotta
la sorte:
 
l’unica fine della vita
è la morte
e non c’è, dopo la morte,
più niente.
Ecco ciò che rende questa vita
sacrosanta:
 
essa è tutto e quel che resta, niente.
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Gianfranco Ferroni
Cranio equino e bottiglia (1998)
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Na praia


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Na praia
Sulla spiaggia


Na praia –- parece que foi ontem --
ficávamos dentro d’água eu,
Roberto, Ibinho, Roberto Fontes
e Vinícius, a água era um céu,
e voávamos nas ondas trans-
parentes, deslizantes, do azul
mais profundo do fundo ciã
do oceano Atlântico do sul.
Mas era outro século: Roberto
morreu, morreu Vinícius, Roberto
Fontes quase nunca vejo, e Ibinho
casou e mudou. Já não procuro
o azul. Os mares em que mergulho
são os homéricos, cor de vinho.
Sulla spiaggia –- ormai mi sembra ieri --
ci buttavamo in acqua, io,
Roberto, Ibinho, Roberto Fontes
e Vinícius, l’acqua era un cielo,
e volavamo su onde trans-
parenti, oscillanti, d’un azzurro
più profondo del fondo blu
dell’oceano Atlantico del sud.
Ma era un altro secolo: Roberto
è morto, è morto Vinícius, Roberto
Fontes di rado lo vedo, e Ibinho,
da sposato, è cambiato. Più non cerco
il blu. I mari in cui m’immergo
son quelli omerici, color del vino.
________________

David Park
Bagnanti (1954)
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La Capricciosa


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La Capricciosa
La Capricciosa


É claro que estou exposto
eu como todos os outros
animais às intempéries
que cedo ou tarde nos ferem;
mas aqui a noite, seda,
suavemente me enleia:
espelhos olhares vinhos
uvas cachos rosas risos
e ali, do lado de lá
das lâminas de cristal
tão tranqüila e cintilante
quanto o céu, sonha a cidade.

Desperta-me um celular:
a morte também tem arte.
È chiaro che sono esposto
io come tutti gli altri
animali alle intemperie
che prima o poi ci danneggiano;
ma qui la notte, di seta,
dolcemente mi confonde:
specchi sguardi vini
uve grappoli rose risa
e lì, dalla parte di là
delle lastre di cristallo
tranquilla e scintillante
quanto il cielo, sogna la città.

Mi sveglia un cellulare:
anche la morte ha inventiva.
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Camille Pissarro
Boulevard Montmartre di notte (1897)
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Ícaro


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Ícaro
Icaro


Buscando as profundezas do céu
conheceu Ícaro as do mar

Adeus poeira olímpica
grãos da Líbia
barcos de Chipre

Adeus riquezas de Átalo
vinhos do Mássico
coroas de louro
flautas e liras

Adeus cabeça nas estrelas
adeus amigos
mulheres
efebos
adeus sol:
ouro algum permanece.
Agognando le profondità del cielo
conobbe Icaro quelle del mare

Addio polvere olimpica
sabbie di Libia
barche di Cipro

Addio ricchezze d’Attalo
vini del Massico
corone d’alloro
flauti e lire

Addio testa tra le stelle
addio amici
donne
efebi
addio sole:
un po’ d’oro rimane.
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Frances Vye Wilson
Icaro (2020)
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Cidade


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Cidade
Città


  Para Arthur Nestrovsky

Lembro que o futuro era uma cidade
nebulosa da qual eu esperava
tudo e que, sendo uma cidade, nada
esperava de ninguém. Ah, cidade
sonhada de avenidas macadâmicas,
turbas febris e prédios de granito:
o que era que eu perdera e que, perdido
e em cacos, buscava nas tuas áridas
calçadas e esquinas? Hoje constato
que a névoa do futuro do passado
adensa-se dia a dia. De longe
teus contornos são mais arredondados.
Tu, cidade irreal, aos poucos somes:
já anseio te rever e já te escondes.
  Per Arthur Nestrovsky

Ricordo che il futuro era una città
brumosa da cui io m’aspettavo
tutto e che, essendo una città, da nessuno
s’aspettava alcunché. Ah, città
sognata con viali verdeggianti di noci,
turbe febbrili e granitici edifici:
cos’era che avevo perduto e che, perduto
e a pezzi, io cercavo sulle tue aride
strade e negli angoli? Oggi constato
che la nebbia del futuro del passato
s’addensa giorno per giorno. Da lungi
i tuoi contorni sono più arrotondati.
Tu, città irreale, pian piano svanisci:
più bramo rivederti e più t’occulti.
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Claude Monet
Il ponte di Waterloo - effetto nebbia (1903)
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Balanço


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Balanço
Bilancio


A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia

do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha

morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita

de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.
L'infanzia non fu una mattina di sole:
indugiò vari secoli; ed era ordinaria,
di solito, la compagnia. Meglio fu,
in parte, l'adolescenza, per la delizia

del presentire la felicità
nella malizia, nella pigrizia, nella poesia,
nell'orgasmo; e per i libri e le amicizie.
Un giorno, innamorato, sfidai la mia

morte: ecco, fu lei che non sostenne lo sguardo
e svanì. Da allora è l’altrui morte
che mi scoraggia. Tardi imparai a godere
della gioventù, e ormai m’assilla il sospetto

che non sarò mai del tutto adulto:
prima d’esserlo, sarò vecchio. Che per lo meno
gli dei rendano felici e maturi
Marcelo e uno o due dei miei versi futuri.
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Max Ernst
Landscape-touching effect (1934-1935)
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Auden e Yeats


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Auden e Yeats
Auden e Yeats


Eu exaltaria Auden,
viajante atormentado,
dialético e bizarro,
e lhe faria uma ode
se a tanto minha perícia
e minha audácia bastassem.
     
Ou quem sabe, Yeats, numa tarde
feito esta, tão vadia,
possa a leitura da tua
poesia, pura Musa,
inspirar a minha arte
se eu lhe implorar: Poesia,
na prisão destes meus dias
ensina-me a elogiar-te.
Io osannerei Auden,
tormentato viandante,
dialettico e bizzarro,
e gli dedicherei un’ode
se di tanto la mia perizia
e l’audacia fossero all’altezza.
     
O chissà, Yeats, in una sera
come questa, così insulsa,
potesse la lettura della tua
poesia, pura Musa,
ispirare la mia arte
se io la implorassi: Poesia,
nella prigione di questi giorni miei
insegnami a esaltarti.
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Mallory C
Ritratto di W.H.Auden (2007)
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A Mulher dos crisântemos


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A Mulher dos crisântemos
Donna con crisantemi


    sobre um quadro de Degas

As flores transbordam do seu vaso à mesa,
um pouco à esquerda da tela cujas beiras
por pouco não ultrapassam, invadindo
a moldura. Também o seu colorido
quase abandona a paleta da pintura
(é que o jovem mestre ostenta sprezzatura),
mas apenas quase. O olhar passa por elas,
pousa aqui, pousa ali, hesitante abelha,
visita, à esquerda do vaso, um jarro d´água,
nota um lenço largado sobre a toalha
bordada da mesa e ruma ao lado oposto
da tela, para uma mulher cujos olhos
ignoram-no, atraídos talvez por algo
que se acha fora não somente do quadro
em que ela se encontra, mas também daquele
em que nos perceberia, se quisesse.
Sem saber por que, o olhar não mais a quer
largar. Diga-se a verdade: essa mulher
deixa a desejar. Ela não se compara
aos crisântemos que lhe deram a fama
a que mal faz jus, já que se encontra à margem
do quadro, e nem sequer inteira, só em parte.
Se é que ela sorri, sorri com um sorriso
em parte encoberto, duvidoso e esquivo.
Dela está bem mais presente ali a ausência
que a presença. E, dado que a ausência é proteica
e tudo nada, o olhar mal mergulha em sua
vertiginosa superfície e flutua
de volta às flores sobre o fundo castanho
do papel de parede; depois, da capo.
    sopra un quadro di Degas

I fiori traboccano dal loro vaso sul tavolo,
un po’ sulla sinistra della tela, i cui margini
per poco non oltrepassano, sconfinando
sulla cornice. Anche la loro coloritura
quasi abbandona la tavolozza dei colori
(è che il giovane maestro ostenta sprezzatura),
ma solamente quasi. Lo sguardo scorre su di loro,
si posa qui, si posa lì, ape indecisa,
visita, a sinistra del vaso, una brocca d’acqua,
nota un fazzoletto steso sopra la tovaglia
ricamata del tavolo e si dirige al lato opposto
della tela, verso una donna i cui occhi
li ignorano, attratti forse da qualcosa
che non soltanto sta fuori dal quadro
in cui lei si trova, ma anche dal punto
in cui ci scorgerebbe, se volesse.
Senza sapere il perché, lo sguardo non la vuole
più lasciare. Diciamoci la verità: questa donna
lascia a desiderare. Ella non è paragonabile
ai crisantemi che le han dato la fama
che a stento si merita, giacché si trova la limite
del quadro, e neppure intera, soltanto in parte.
Se sta sorridendo, sorride con un sorriso
in parte coperto, dubbioso e schivo.
Di lei lì è assai più presente l’assenza
che la presenza. E, dato che l’assenza è multiforme
e impalpabile, lo sguardo indugia appena sulla sua
vertiginosa superficie e fluttua
tornando indietro ai fiori sul fondo castano
della carta da parati; e poi, da capo.
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Edgar Degas
Donna con crisantemi (1865)
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A morte de Arquimedes de Siracusa


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A morte de Arquimedes de Siracusa
La morte di Archimede di Siracusa


Os equilíbrios dos planos, as quadraturas
das parábolas, os cálculos da areia,
das esferas, dos cilindros e das estrelas:
nada do que realizei se encontra à altura
do que há por fazer. A matemática é longa,
a vida breve; e logo agora Siracusa,
sitiada, quer alavancas, catapultas,
dispositivos catóptricos, cuja obra
suga meu sangue, que é meu tempo. Por milagre,
hoje deixaram-me em paz. Na garganta trago
intuições por formular: áspero e amargo
pássaro engasgado. Nas paredes não cabe
mais diagrama algum. Traço-os no chão do períbolo,
na terra. Quem vem lá? Não pises nos meus círculos!
Gli equilibri dei piani, le quadrature
delle parabole, i calcoli della sabbia,
delle sfere, dei cilindri e delle stelle:
nulla di ciò che ho realizzato è all’altezza
di ciò che resta ancora da fare. La matematica è lunga,
la vita breve; e proprio ora Siracusa,
assediata, ha bisogno di leve, catapulte,
specchi ustori, la cui attuazione
mi succhia il sangue, che è il mio tempo. Per miracolo,
oggi mi hanno lasciato in pace. Ho in fondo alla gola
intuizioni da formulare: come un acre e amaro
uccello incastrato. Sui muri non c’è più posto
per alcun diagramma. Li traccio sul suolo del peribolo,
sulla terra. Chi va là? Non calpestate i miei circoli!
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Robert Delaunay
Esplosione di colori (1939)
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Vitrine


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Vitrine
Vetrina


Que divisa o olhar desse moreno?
Namora os tênis atrás da vitrine?
Ou a vidraça que os devassa e inibe
os seus reflexos serve-lhe de espelho
e ele recai na imagem de si mesmo,
igualmente visível e intangível?
É assim tantálica que ela me atinge
obliquamente e ao mesmo tempo em cheio
e mesmeriza, e sinto meio como
se eu o despisse e ele mal percebesse.
Quando olha para trás um instante, atino
sonhar e, salvo engano, ter nos olhos
cacos de um campo de futebol verde
feito o pano das mesas dos cassinos.
Su che cosa si fissa lo sguardo di questo moretto?
Vuole avere le scarpe sportive là in vetrina?
Oppure l’invetriata che le esibisce e impedisce
i loro riflessi gli serve da specchio
ed egli ricade nell’immagine di se stesso,
altrettanto visibile e intangibile?
È una visione così tantalica che mi colpisce
di traverso e, nel contempo, in pieno
e m’ipnotizza e mi sento un po’ come
se io lo spogliassi e lui se ne avvedesse a stento.
Quando si guarda alle spalle un attimo, giungo
a sognare e, se non sbaglio, ad avere negli occhi
pezzetti di un campo di calcio verde
come il panno dei tavoli dei casinò.
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Tommaso Lisanti
Il prato (1988)
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Tâmiris


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Tâmiris
Tamiri


Jamais poeta algum houve mais alto
do que Tâmiris, o trácio, rival
de Orfeu, cujo canto é capaz de dar
saudade do que nunca nos foi dado
salvo reflexo em verso de cristal.
Se um mortal alcançasse ser feliz,
tal seria Tâmiris: quem o vir
deitado sobre a grama com o rapaz
(digno, pela beleza, de dormir
nos braços do próprio Apolo) que o ama
e cujos cabelos Zéfiro afaga
com dedos volúveis, há de convir
comigo em que é assim, a menos que haja
visto, no rio em que agora mergulham
ou na relva que ao sol dourada ondula
no antebraço do moço à beira d'água
ou na ode em que essa manhã fulgura
e foge para sempre, agora e aqui
refolharem-se o passado, o porvir,
o alhures: tantas trevas na medula
da luz. Já Tâmiris quer possuir
as Musas que o possuem. É seu fado
desafiá-las e perder: insensato,
esplêndido, cego, cheio de si.
Non vi fu mai poeta più sublime
di Tamiri, il tracio, rivale
d’Orfeo, il cui canto sa suscitar
rimpianto per ciò che mai ci fu concesso
se non come riflesso del suo puro verso.
Se a un mortale fosse toccato d’esser felice,
questi sarebbe Tamiri: chi l’ha visto
disteso sopra il prato col giovinetto
(degno, per la bellezza, di dormire
tra le braccia d’Apollo) che lo ama
e i cui capelli Zefiro accarezza
con dita volubili, dovrà concordare
con me che questo è vero, a meno che abbia
visto, nel fiume in cui ora si tuffano
o sull’erba che dorata al sole ondeggia
sull’avambraccio del fanciullo in riva all’acqua
o nell’ode in cui questo mattino rifulge
e per sempre fugge, adesso e qui
imboscarsi il passato, il futuro,
l’altrove: caddero fonde tenebre nel cuore
della luce. Ormai Tamiri vuol possedere
le Muse che lo possiedono. È il suo fato
sfidarle e perdere: insensato,
splendido, cieco, pieno di sé.
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Giorgio de Chirico
Oreste e Pilade (1963)
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Sair


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Sair
Uscire


Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul — o céu do dia —
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.
Sbarazzarsi della coperta, del letto, della
paura, del rosario, della stanza, sbarazzarsi
d’ogni simbologia e religione; sbarazzarsi dello
spirito, sbarazzarsi dell’anima, aprire la
porta principale e uscire. Questa è
l’unica vita e contiene un’inaudita dovizia
di bellezza e dolore. Ormai il sole,
i colori della terra e
l’aria azzurra — il cielo diurno —
si sono immersi fino alla prossima aurora; la
notte è raggiante e Dio non
esiste né ci manca. Tutto è
gratuito: le luci cinetiche dei viali,
il volto al vento delle palme
e all’ansia insaziabile del gelsomino;
e, sopra ogni cosa,
l’eterno silenzio degli spazi infiniti che
non dicono nulla, nulla vogliono dire e
mai nulla hanno dovuto o dovranno chiarire.
________________

Alberto Biasi
Occhio inquieto (1960)
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Perplexidade


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Perplexidade
Perplessità


Não sei bem onde foi que me perdi;
talvez nem tenha me perdido mesmo,
mas como é estranho pensar que isto aqui
fosse o meu destino desde o começo.
Non so bene dove fu che mi son perso;
magari non mi sono perso affatto,
ma com’è strano pensare che proprio questo
fosse il mio destino fin dall’inizio.
________________

Marc Quinn
Prismatic labyrinth (2020)
...

Ônibus


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Ônibus
Autobus


São oito horas da noite, véspera
da véspera de outro Natal.
Já não há lâmpadas feéricas
vindas da China a iluminar
as ruas. O racionamento
as eliminou. Um só ônibus
dá-se a tal luxo e vai aceso,
vestido de lâmpadas, pródigo
da luz que lhe enquadra as janelas
por onde à contraluz se enxergam
os seus sombrios passageiros
voltando mortos para casa:
longa meândrica jornada
através de um obscuro espelho.
Sono le otto della sera, vigilia
della vigilia d’un altro Natale.
Non ci sono già più lampade magiche
venute dalla Cina ad illuminare
le vie. Il razionamento
le ha eliminate. Un solo autobus
si permette un tal lusso e avanza acceso,
rivestito di lampade, prodigo
della luce che gli contorna i finestrini
sui quali controluce si osservano
i suoi avviliti passeggeri
che morti tornano a casa:
lungo labirintico viaggio
attraverso uno specchio oscuro.
________________

Joe McIntyre
Fermata d'autobus (1973)
...

O País das maravilhas


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O País das maravilhas
Il Paese delle meraviglie


Não se entra no país das maravilhas,
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.
Non si entra nel paese delle meraviglie,
poiché si trova nella parte esterna, non nella parte interna. Se vi sono uscite
che vi accedano, sono di certo sul bordo
iridescente del mio pensiero,
mai nell'indistinto centro del mio io.
E se mi offro ai riflessi dello specchio
o dell’acqua, avendo come sfondo il cielo,
non si pensi che mi sono innamorato di me.
No: è bello vedersi nello spazio diafano
del mondo, cosa tra le cose che abitano
nella luce dello specchio, al di fuori di sé:
pesce tra pesci, uccello tra gli uccelli,
un giorno passerò tutt’intero di là.
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Remedios Varo
Valle della Luna (1950)
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O grito


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O grito
Il grido


Estou acorrentado a este penhasco
logo eu que roubei o fogo dos céus.
Há muito tempo sei que este penhasco
não existe, como tampouco há um deus
a me punir, mas sigo acorrentado.
Aguardam-me amplos caminhos no mar
e urbes formigantes a sonhar
cruzamentos febris e inopinados.
Você diz “claro” e recomenda um amigo
que parcela pacotes de excursões.
Abutres devoram-me as decisões
e uma ponta do fígado mas digo
E daí? Dia desses com um só grito
eu estraçalho todos os grilhões.
Sono incatenato a questo macigno
proprio io che ho rubato il fuoco dai cieli.
Da molto tempo so che questo macigno
non esiste, e tantomeno v’è un dio
che mi punisce, ma resto incatenato.
M’attendono lunghe traversate di mare
e città brulicanti sognando
incroci febbrili e inopinati.
Tu dici “certo” e raccomandi un amico
che organizza pacchetti di escursioni.
Avvoltoi divorano le mie decisioni
e una punta del fegato ma io dico
E allora? un giorno o l’altro con un solo grido
farò saltare tutte le catene.
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Salvator Rosa
Il supplizio di Prometeo (1648-1650)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (364) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (16) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)