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Suavidade


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Suavidade
Dolcezza


Sonhei que havia morrido.
Uma morte suave, eu estava contente.
E suavemente caminhava
junto ao portão de um colégio em que estudara
ou apenas fingira
no início dos anos 1960.

Algumas pessoas percebiam
que eu estava morto
e me dirigiam cumprimentos.
Certamente estavam também mortas
devido à sua mansa
consideração.
Era algo confortante
cálido
estar morto.

Se eu soubesse que assim seria
não teria vivido
me perdido
tanto. E agora
já desperto
prossigo respirando essa profunda
suavidade.

Sim
quando despertei
tudo permaneceu.
E porque eu sentira
a suave morte
percebi que também poderia viver
suavemente
mesmo com suavidade retomar
o passeio junto ao portão
do colégio antigo
como se estivesse morto.

Até estar novamente morto
já não em sonho
para sempre
sempre
num tempo suave
suave
suave
um tempo
sem tempo algum.
Ho sognato che ero morto.
Una morte dolce, e io ero contento.
E dolcemente camminavo
presso il portone di una scuola dove avevo studiato
o solo fatto finta
all’inizio degli anni ‘60.

Alcune persone si accorgevano
che io ero morto
e si complimentavano con me.
Di sicuro anch’esse erano morte
a giudicare dalla loro garbata
considerazione.
C’era un che di confortante
caloroso
nell’esser morto.

Se avessi saputo che sarebbe stato così
non sarei vissuto
tanto smarrito
E adesso
ormai ridesto
proseguo respirando quella profonda
dolcezza.


quando mi son destato
tutto era rimasto intatto.
E poiché io avevo provato
la dolce morte
mi accorsi anche che avrei potuto vivere
dolcemente
e con la stessa dolcezza riprendere
la passeggiata presso il portone
della vecchia scuola
come se fossi morto.

Fino a ritrovarmi morto di nuovo
ma non più in sogno
per sempre
sempre
in un tempo dolce
dolce
dolce
un tempo
senza tempo alcuno.
________________

Dorothy Tennant
Al gioco (1890)
...

Família


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Família
Famiglia


Pai, mãe, irmãos, amigos.
Família.
Avós mortos, pai morto, mãe morta,
três irmãos mortos,
mortos muitos amigos.

Três horas da madrugada
e eles estão aqui.
Comigo fitam o relógio sobre a mesinha
e ouvem a chuva cair.

Família.
Todos presentes,
inclusive o vasto tamarindeiro do quintal,
também entre os mortos
como aqueles cães e gatos e passarinhos
e as paredes da primeira casa.

Família.
Creio que não dormirei
esta noite.
O inverno está a caminho.
E até lá e além seguirei
conversando com todos.

Seguirei. Enquanto nos contemplar
esse relógio,
imóvel
para sempre
nas três horas
infinitas
da madrugada.
Padre, madre, fratelli, amici.
Famiglia.
Nonni morti, padre morto, madre morta,
tre fratelli morti,
morti molti amici.

Le tre di notte
e loro sono qui.
Fissano con me l’orologio sul comodino
e ascoltano la pioggia che cade.

Famiglia.
Tutti presenti,
compreso il grande tamarindo del cortile,
anche lui tra i morti
come quei cani e gatti e passerotti
e i muri della prima casa.

Famiglia.
Credo che non dormirò
stanotte.
L’inverno è in arrivo.
E sino ad allora e oltre continuerò
a conversare con tutti.

Continuerò. Mentre ci osserva
quest’orologio,
immobile
per sempre
sulle tre
infinite
della notte.
________________

Tarsila do Amaral
Segunda Classe (1933)
...

Conto de Primavera


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Conto de Primavera
Racconto di primavera


Ela deixara as crianças dormindo e,
em sua cadeira de balanço,
tinha um ar sonhador.

A poucos metros,
na poltrona preferida,
ele lia, com grave atenção,
um volume de muitas páginas.
Isto até que sentiu
como que uma brisa suave
e desviou o olhar para a que
se embalava na cadeira,
mais uma vez constatando que ficava
a cada dia mais bonita.

E então, como se sentisse
uma carícia muito leve,
como a mais leve brisa,
ela suspendeu o embalo,
olhando para ele.

E sorriram.
Ella lasciò i bimbi addormentati e,
sulla sua sedia a dondolo,
aveva un’aria sognante.

A pochi metri,
sulla sua poltrona preferita,
egli leggeva, con seria gravità,
un volume di molte pagine.
Questo finché avvertì
come un soave refolo
e deviò lo sguardo verso di lei
che si dondolava sulla sedia,
constatando per una volta ancora
che diventava ogni dì più bella.

E allora, come se sentisse
una carezza molto lieve,
come la più lieve brezza,
ella smise di dondolarsi,
guardando verso di lui.

E si sorrisero.
________________

Bruno Munari
Vetrino per proiezione diretta (1951)
...

Simples canção da visitante


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Simples canção da visitante
Semplice canzone della visitante


Poderá ser pleno dia,
como funda noite morta:
baterá docemente ou
com estrondo à minha porta.

Bem mais do que à porta, ao peito
chegará a visitante.
Plena nitidez que emerge
de antiga sombra insinuante.

E pedirei: pouse suave,
exile toda a amargura
e em meu coração se deite
como fonte de ternura.

Que assim seja. E me console
de todos os sonhos meus,
quando, num último abraço,
soprar-me seu nome: Adeus...
Potrà essere pieno giorno,
o fonda notte morta:
busserà dolcemente o
con fragore alla mia porta.

Ma ancor più che alla porta, al cuore
giungerà la visitante.
Pieno nitore che emerge
dall’antica ombra suadente.

E io pregherò: riposa soave,
bandisci tutta l’amarezza
e sul mio cuore adagiati
come fonte di tenerezza.

E così sia. E donami conforto
per ogni sogno mio,
quando, in un ultimo abbraccio,
il tuo nome dirai: Addio...
________________

Mimmo Paladino
I dormienti (1998)
...

O passado


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O passado
Il passato


É verdade,
escrevo muito sobre o passado,
porque nele é que está tudo em seu lugar
e ninguém se foi.

O passado.
Que é, na verdade,
o que possuímos,
pois o presente acabou de passar
e o futuro é um sonho que jamais alcançaremos
simplesmente pelo que é:
futuro.

É, enfim, o que temos,
o que somos:
o passado.
Que, como se sabe, sendo passado,
não passa.

E às vezes é doloroso,
como aquela janela alta de onde nunca desceram
sobre mim
os longos cabelos da amada.
Que não me amou, mas,
por isso mesmo, se fez musa
por toda a vida.

O passado.
Que é também o que um dia
morreremos,
quando morrermos
de verdade.

No meu caso,
subindo pelos longos cabelos lançados
da mais alta janela
sobre mim.
È vero,
scrivo molto sul passato,
perché è lì che tutto sta al suo posto
e nessuno se n’è andato.

Il passato.
Che, in realtà, è
ciò che abbiamo posseduto,
poiché il presente ha smesso di passare
e il futuro è un sogno che mai raggiungeremo
semplicemente per il fatto che è:
futuro.

È, insomma, ciò che abbiamo,
ciò che siamo:
il passato.
Che, come si sa, essendo passato,
non passa.

E spesso è doloroso,
come quell’alta finestra da cui mai scesero
sopra di me
i lunghi capelli dell’amata.
Che non mi amò, ma,
proprio per questo, fu la mia musa
per tutta la vita.

Il passato.
Che è anche ciò di cui un giorno
moriremo,
quando moriremo
per davvero.

Nel mio caso,
salendo sui lunghi capelli lanciati
dalla finestra più alta
sopra di me.
________________

Dyalma Stultus
La sirena del villaggio (1932)
...

Babilônia


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Babilônia
Babilonia


  Ontem não vi você em Babilônia
  Num fragmento de argila, em escrita cuneiforme,
  cerca de 3.000 anos a.C.

Ao saber da notícia, revivi
aquela noite funda em que escrevi
(afogava-me um pântano de insónia):

Ontem não vi você em Babilônia.

Só o que restou de tudo: um fragmento
de tabuinha que escapou do vento
do Tempo. Sob o pó, pulsando, a insônia:

Ontem não vi você em Babilônia.

Foi a última vez que lhe escrevi
e nenhuma resposta recebi.
Ainda respiro o que chorei na insônia:

Ontem não vi você em Babilônia.

Os arqueólogos me decifraram
e, milênios além, se emocionaram,
por ser só amor e dor a voz da insônia:

Ontem não vi você em Babilônia.

Era o bastante. O Tempo na tabuinha
quase tudo apagou da história minha,
porém deixou o essencial da insônia:

Ontem não vi você em Babilônia.

E assim contam-se vida e seus escombros
que um dia se partiram nos meus ombros.
E na alma, desde então, só noite e insônia:

Ontem não vi você em Babilônia.
  Ieri non ti ho vista a Babilonia
  Su un frammento d’argilla, in caratteri cuneiformi,
  circa 3000 anni a.C.

Nell’apprendere la notizia, ho rivissuto
quella notte fonda in cui scrissi
(sprofondato in una palude d’insonnia):

Ieri non ti ho vista a Babilonia.

Di tutto restò solamente: un frammento
di tavoletta che sfuggì al vento
del Tempo. Sotto la polvere, pulsante, l’insonnia:

Ieri non ti ho vista a Babilonia.

Fu l’ultima volta che ti scrissi
e non ricevetti risposta alcuna.
Respiro ancora quel che piansi nell’insonnia:

Ieri non ti ho vista a Babilonia.

Gli archeologi mi hanno decifrato
e, dopo millenni, si sono emozionati,
essendo solo d’amore e di pena la voce dell’insonnia:

Ieri non ti ho vista a Babilonia.

Era abbastanza. Il Tempo sulla tavoletta
cancellò quasi tutto della mia storia,
però lasciò il dato essenziale dell’insonnia:

Ieri non ti ho vista a Babilonia.

E così raccontano la mia vita e le sue macerie,
di come un dì rovinarono sulle mie spalle.
E, da allora, nell’anima, c’è solo notte e insonnia:

Ieri non ti ho vista a Babilonia.
________________

RG
Insomnia (2014)
...

Hálitos


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Hálitos
Afflati


Desperto ao último
hálito da noite
que observo nos coqueiros lânguidos,
nos tímidos galhos da romanzeira,
nas nuvens já quase sem memória
das sombras.

Último hálito da noite,
desta que está acabando
de passar.

Sereno hálito, como espero que seja
o meu último
quando chegar a noite que jamais
passará.
Mi ridesto con l’ultimo
afflato della notte
che osservo tra le languide palme,
tra i timidi rami del melograno,
tra le nubi già quasi senza memoria
delle ombre.

Ultimo afflato della notte,
di questa che sta finendo
di passare.

Afflato sereno, come spero sarà
il mio ultimo
quando arriverà la notte che mai più
passerà.
________________

Matthew Wong
Starry Night (2019)
...

Breve canção das partidas eternas


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Breve canção das partidas eternas
Breve canzone delle eterne partenze


Transatlânticos ou canoa
furada? Nem bem, nem mal,
que ir até a nado serve
como saída final.

Mas isso é esforço demais.
Basta só um suspiro fundo.
E há até quem nem feche os olhos
num último adeus ao mundo.

No mais, como não há queixas,
nunca, depois da partida,
todos chegam muito bem
ao outro lado da vida...
Transatlantico o canoa
bucata? In fondo è uguale,
persino andar via a nuoto serve
come uscita finale.

Ma questo esige uno sforzo eccessivo.
Basterebbe soltanto un sospiro profondo.
E c’è pure chi neanche chiude gli occhi
nel dare un ultimo addio al mondo.

D’altronde, se non ci sono mai
reclami, a partenza avvenuta,
significa che arrivan tutti bene
all’altro lato della vita...
________________

Paul Delvaux
Piccola stazione di notte (1959)
...

Breve canção da caminhada


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Breve canção da caminhada
Breve canzone del cammino


Vamos todos caminhando,
entre o amor e a morte,
por sobre o fio da navalha,
sem sul, leste, oeste ou norte.

E vamos, da luz da infância,
até a alma anoitecida,
buscando um sentido no
nenhum sentido da vida.

Que mais fazer? Ah, brindar,
entre o que tarda e o de súbito,
às vitórias sobre a morte,
até o último decúbito.
Tutti stiamo camminando,
tra l’amore e la morte,
sopra il filo della lama,
senza sud, est, ovest o nord.

E, dalla luce dell’infanzia,
andiamo verso il buio dell’anima,
cercando di dare un senso al
nonsenso della vita.

Che altro fare? Ah, brindare,
a ciò che tarda e a ciò ch’è repentino,
alle vittorie sulla morte,
fino all’estremo declino.
________________

April Gornik
Pioggia, tempesta e luce (2017)
...

Voz


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Voz
Voce


A voz não vem apenas
do telefone.
Vem de muito mais longe,
da distância de muitos anos.
Alguns deles, anos-luz;
outros, anos-treva;
outros, anos-dispersão;
outros ainda,
anos-névoa.

Apenas dizendo
superficialidades,
a voz me desperta
coisas profundas:
tanto marulho nas águas
do passado;
tantas visões de futuros
que deveriam estar aqui,
agora,
e só podem ser encontrados lá,
outrora.

E a voz prossegue, prossegue.
Digo que não estou ouvindo bem.
Que não compreendo.
Que o aparelho está falhando.
Que não adianta.

E então desligo. E,
como guerreiro que um dia foi
brutalmente - quase fatalmente -
ferido,
deixo-me repousar neste fim de tarde,
no início que ainda me resta
(talvez)
de anos-sonho de existir.
La voce non viene soltanto
dal telefono.
Viene da molto più lontano,
dalla distanza di molti anni.
Alcuni sono, anni-luce;
altri, anni-tenebra;
altri, anni-alienazione;
altri ancora,
anni-nebbia.

Pur dicendo soltanto
futilità,
la voce mi risveglia
cose profonde:
tanto viavai nelle acque
del passato;
tante visioni di futuri
che dovrebbero esser qui,
ora,
ma si possono ritrovare solo là,
allora.

E la voce prosegue, prosegue.
Dico che non sento bene.
Che non capisco.
Che l’apparecchio non riceve.
Che non funziona.

E perciò chiudo. E,
come il guerriero che sono stato
brutalmente - quasi fatalmente -
ferito,
mi metto a riposo in questo fine giornata,
all’inizio di quel che mi resta
(chissà)
di anni-sogno da vivere.
________________

Morton Livingston Schamberg
Telefono (1916)
...

De súbito, do nada, uma carta


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De súbito, do nada, uma carta
D’un tratto, dal nulla, una lettera


1.
Sá-Carneiro disse, em carta, não incomodá-lo muito
 a possibilidade
de suicídio,
mas a consciência de
ter de morrer forçosamente um dia.
Seu correspondente deve ter pensado em tais palavras
 muitas vezes
ao escrever certos versos,
como, por exemplo
(16 anos mais tarde, com a alma já por si conturbada
de Álvaro de Campos)
alguns de Tabacaria,
nos quais observou que o dono da loja morreria,
como ele próprio,
um deixando a tabuleta, o outro versos,
que a certa altura também morreriam,
como morreria depois a rua onde estivera a tabuleta
e a língua em que foram escritos os versos,
e, por fim, o planeta girante em que tudo isto se deu.
Sim, tais reflexões já tumultuavam Sá-Carneiro,
mas com menos longo sofrimento,
porque logo soube livrar-se delas com
cinco frascos de arseniato de estricnina
em 26 de abril de 1916,
aos 26 anos de idade.
às 8 da noite, no Hotel Nice,
Paris. E assim
terminou o tormento do Esfinge Gorda,
como certa vez se definiu.
E que ainda mais gorda e com mais mistérios de esfinge
 ficou,
após a morte,
avolumando-se a ponto de mal caber no caixão,
tornando definitivamente impossível que seu enterro
fosse levado sobre um burro,
como pedira num poema,
embora tivesse lembrado
(como se antevendo sua última vontade
não sendo respeitada)
que a um morto nada se recusa,
e insistindo mesmo, peremptório:
E eu quero por força ir de burro.
(Não, ninguém se moveu para encontrar um burro capaz
de tal façanha,
ainda que não — como pedido —
ajaezado à andaluza.
Sim, a um morto tudo pode ser
recusado.)


2.
Não sei como as linhas acima se escreveram,
pois não havia pensado em nada parecido.
Pelo que recordo, pensara que estava velho,
não propriamente por me sentir assim,
mas por constatar que de então a agora
passara muito tempo.
É a lógica, bastante desagradável:
se muito tempo passou desde a nossa juventude
não há o que discutir: estamos velhos.
Quanto mais tempo, mais velhos.
Sem dúvida, o que de melhor havia no Paraíso,
antes da descoberta do fruto do bem e do mal,
era a ausência de lógica. Não houve nenhuma lógica
na Criação,
as possíveis justificativas do Criador não têm lógica.
Apenas, entediado por tamanha Eternidade,
Ele resolveu brincar de Deus. E, como não havia
nenhuma lógica em tudo isso
(pois só uma absoluta falta de lógica admitiria a criação
 de algo
tão tentador que poria fatalmente em risco o equilíbrio
 do Éden),
deu no que deu.


3.
Coisas assim é que eu pensava,
quando saltou do nada a carta do poeta
para outro poeta.
Assim me tem sido a vida com frequência:
tarda (às vezes indefinidamente) no que espero
e de súbito serve
o inesperado.
Tudo bem, contando que não venha a lógica
deduzir que eu tenha forçosamente de estar velho
já que de então a agora muito tempo passou.
O tempo, que se oferece ironicamente em Ontem
(que já não é),
Hoje
(que acabou de ser)
e Amanhã
(que, se chegar, não chegará,
pois logo será o que acabou de ser,
o que já não é).
Enfim, envolvido em incômodos
similares aos meus,
e em linguagem bem melhor,
suspirou Ricardo Reis: ... e quanto pouco falta
para o fim do futuro!



4.
Ah, o quanto pouco falta...
Aliás, uma característica do tempo: subtrair-se
 avaramente,
sobretudo quando gostaríamos que permanecesse
 mais...
Difícil acreditar que faz pouco,
muito pouco,
estávamos todos aqui...
E então, de súbito,
tivemos e temos que
forçosamente
morrer...


5.
Bem, Sá-Carneiro resolveu tudo por conta própria,
interrompendo o que sentia como apenas cruel
 alongamento do tempo;
apagando os remorsos que eram como
terraços sobre o Mar,
deixando-nos as palavras com que também gostaríamos
 de abrir
docemente
a nossa noite:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais
 acabou.

1.
Sá-Carneiro disse, in una lettera, che non lo disturbava
 tanto la possibilità
del suicidio,
quanto la consapevolezza di
dover morire imprescindibilmente un giorno.
Il suo corrispondente deve aver ripensato a queste parole
 molte volte
nello scrivere certi versi,
come, ad esempio
(16 anni più tardi, con l’animo già di per sé conturbato
di Álvaro de Campos)
alcuni versi di Tabacaria,
in cui rilevava che il gestore del negozio sarebbe morto,
come lui del resto,
uno lasciando l’insegna, l’altro dei versi,
che ad un certo punto comunque sarebbero scomparsi,
come poi sarebbe sparita la via dov’era affissa l’insegna
e la lingua in cui erano stati scritti i versi,
e, infine, il pianeta rotante su cui tutto ciò era accaduto.
Sì, queste riflessioni già inquietavano Sá-Carneiro,
ma con una sofferenza di minor durata,
perché seppe liberarsene presto con
cinque flaconi di arseniato di stricnina
il 26 aprile del 1916,
a 26 anni d’età.
alle 8 di sera, all’Hotel Nice,
Parigi. E così
terminò il tormento della Sfinge Grassa,
come si definì una volta.
E che divenne ancor più grassa e rimase con più misteri
 della sfinge,
dopo la morte,
ingrossandosi al punto da entrare a fatica nella bara,
rendendo per sempre impossibile che al suo funerale
fosse condotto a dorso d’asino,
come aveva chiesto in una poesia,
benché avesse ricordato
(come se presentisse che la sua ultima volontà
non sarebbe stata rispettata)
che ad un morto nulla si rifiuta,
e insistendo ancora, perentorio:
E io voglio a tutti i costi andar sull’asino.
(Nessuno si mosse per trovare un asino capace
di tale impresa,
quand’anche non — come richiesto —
bardato all’andalusa.
Sì, a un morto tutto si può
rifiutare.)


2.
Non so come si son scritte le righe precedenti,
dato che non avevo pensato a niente del genere.
Per quel che ricordo, avevo pensato d’esser vecchio,
non proprio perché così mi sentissi,
ma per aver constatato che d’allora ad oggi
era passato molto tempo.
È la logica, parecchio sgradevole:
se è passato molto tempo dalla nostra gioventù,
è fuori discussione: siamo vecchi.
Più tempo è passato, più siamo vecchi.
Senza dubbio, quel che c’era di meglio in Paradiso,
prima della scoperta del frutto del bene e del male,
era l’assenza di logica. Non ci fu nessuna logica
nella Creazione,
le probabili giustificazioni del Creatore non hanno logica.
Soltanto, annoiato da tutta quell’Eternità,
Egli decise di giocare ad esser Dio. E, dato che non c’era
nessuna logica in tutto questo
(pois só uma absoluta falta de lógica admitiria a criação
 de algo
tão tentador que poria fatalmente em risco o equilíbrio
 do Éden),
andò a finire come finì.


3.
È a cose del genere che stavo pensando,
quando sbucò dal nulla la lettera del poeta
per l’altro poeta.
Spesso la vita con me s’è comportata così:
rimanda (alle volte indefinitamente) quel che m’aspetto
e di colpo mi rifila
l’inaspettato.
Niente di male, sperando che non intervenga la logica
per dedurre che io devo imprescindibilmente esser vecchio
giacché da allora ad oggi molto tempo è passato.
Il tempo, che si propone ironicamente come Ieri
(che più non è),
Oggi
(che è appena stato)
e Domani
(che, se arriverà, non ci sarà,
dato che subito sarà ciò che è appena stato,
ciò che più non è).
Alla fine, preso da malesseri
simili ai miei,
e in uno stile decisamente migliore,
Ricardo Reis sospirò: ... e quanto poco manca
alla fine del futuro!



4.
Ah, quanto poco manca...
Del resto è una caratteristica del tempo: sottrarsi
 avaramente,
soprattutto quando ci piacerebbe che rimanesse
 di più...
Difficile credere che poco fa,
molto poco,
stavamo tutti qui...
Ed ecco, all’improvviso,
dovemmo e dobbiamo
imprescindibilmente
morire..


5.
Bene, Sá-Carneiro sistemò tutto per conto proprio,
interrompendo quel che avvertiva solo come un crudele
 allungamento del tempo;
sopprimendo i rimorsi che erano come
terrazze sul Mare,
lasciandoci le parole con cui anche noi ameremmo
 dischiudere
dolcemente
la nostra notte:
Niente da fare, mia cara. Il bimbo dorme. Tutto quanto è
 finito.

________________

Valeriy Franchuk
Lettera non inviata (2020)
...

Apolo


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Apolo
Apollo


Não nos surgiste como aos argonautas
quando
fizeste tremer a ilha
sob teus passos
e então te ergueste estendendo nas nuvens
os cabelos de ouro.
Mas senti que estavas
por todo o dia
acompanhando-nos na visita
às formas magníficas
que há milênios foram erguidas
nas alturas
em teu louvor.

Obrigado.
Embora não tenhamos te ofertado presentes,
como Midas, rei da Frigia,
que te enviou seu trono real,
ou Giges, da Lidia,
antepassado de Creso,
que te saudou com crateras de ouro
e incontáveis ex-votos
de ouro e prata,
nunca mais seremos os mesmos,
pois que respiramos a fímbria da brisa
tocada pelo hálito de teus solenes ciprestes
de folhas verdes
pedras
e unção.
Non sei apparso a noi come agli argonauti
quando
hai fatto tremare l’isola
sotto i tuoi passi
e poi ti ergesti espandendo fino alle nubi
i tuoi capelli d’oro.
Ma io ti ho sentito presente
per l’intera giornata
accompagnandoci nella visita
alle forme magnifiche
che millenni addietro furono erette
sulle alture
in tuo onore.

A te, rendo grazie.
Pur non avendoti offerto doni,
come Mida, re di Frigia,
che ti mandò il suo trono reale,
o Gige, re di Lidia,
antenato di Creso,
che ti elargì crateri d’oro
e innumerevoli ex voto
d’oro e d’argento,
mai più saremo gli stessi,
poiché abbiamo respirato il bordo della brezza
toccata dall’afflato dei tuoi solenni cipressi
dalle foglie verdi
dalle pietre
e dalla divina unzione.
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Apollo del Belvedere
(400-323 a.C.)
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A casa dos nove pinheiros


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A casa dos nove pinheiros (2009-2012) »»
 
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A casa dos nove pinheiros
La casa dei nove pini


A casa permanece jovem,
embora meu pai a tenha construído
em meados dos anos 50,
quando também precisou
vendê-la
e viajar
para que os filhos tivessem melhores estudos
em cidade maior.

Todos os que a habitaram
desde então
trataram-na com desvelo,
inclusive
a senhora que um dia subiu
no grande reservatório de água
para se afogar.

Sempre esteve em mim, nitidamente,
a casa
como nas fotografias que meu filho tirou
recentemente.
E de forma mais ampla ainda
me habitando,
ela,
pois que nela vivi por vários meses
nos fins da infância.

Nas fotografias,
o caminho lateral da casa,
a varanda sobre esse caminho,
a casa vista da rua
e, principalmente,
os nove pinheiros em pedras
incrustadas na varanda.
Nove pinheiros enfileirados
em curva suave,
do maior ao menorzinho,
representando
o pai,
a mãe,
os sete filhos
que ali moravam.

Sim, tudo permanece
jovem.

Os pinheiros continuarão a lembrar
pai,
mãe,
sete filhos,
mesmo quando não restar sequer um deles
para sentir certo tempo,
respirar a casa,

como eu agora,
com antiga alegria e um sabor
de lágrimas.
La casa si mantiene giovane,
benché mio padre l’abbia costruita
a metà degli anni '50,
ma poi ebbe bisogno
di venderla
e partire
affinché i figli avessero scuole migliori
in una città più grande.

Tutti quelli che l’hanno abitata
da allora
l’hanno trattata con attenzione,
compresa
quella signora che un giorno salì
alla grande cisterna d’acqua
per lasciarsi affogare.

Mi è sempre rimasta dentro, nitidamente,
la casa
come sulle fotografie che mio figlio ha fatto
di recente.
E in modo ancora più generale
abitandomi,
lei,
poiché io ci ho vissuto per vari mesi
alla fine dell’infanzia.

Sulle fotografie:
il sentiero che fiancheggia la casa,
la veranda che vi si affaccia,
la casa vista dalla strada
e, soprattutto,
i nove pini
incastonati sulla veranda.
Nove pini allineati
in dolce curvatura,
dal più grande al più piccino,
rappresentando
il padre,
la madre,
i sette figli
che abitavamo lì.

Sì, tutto si mantiene
giovane.

I pini continueranno a ricordare
padre,
madre,
sette figli,
anche quando non ne resterà più nessuno
a sentire per un attimo,
la casa respirare,

come me adesso,
con la vecchia allegria e un sapore
di lacrime.
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Osório Gimenes
Paisagem com pinheiros (2017)
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Vestidos


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Altra traduzione:
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A Cidade e os Sonhos (2003) »»
 
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Vestidos
Vestiti


Dos vossos vestidos brancos
é que me nascia o dia
aos domingos, e a alma nítida
de uma inquieta alegria.
 
Dos vossos vestidos brancos
vinha uma luz que esplendia
e desfazia o que era
sombra da noite vazia.
 
(Ou pior: noite habitada
de ânsias, melancolia,
desejos da carne, assombros,
e outros charcos de agonia.)
 
Em vossos vestidos brancos
fremia uma melodia
de anjos de tranças brandas
em que meu tremor vivia.
 
Dos vossos vestidos brancos
me vem o que, neste dia,
aquece o que ainda me resta
de escombros de poesia.
È dai vostri vestiti bianchi
che mi nasceva il giorno,
di domenica, e l’anima limpida
per un’inquieta allegria.
 
Dai vostri vestiti bianchi
veniva una luce che splendeva
e disperdeva ciò che era
ombra della notte vacua.
 
(O peggio: notte abitata
da ansie, malinconia,
desideri carnali, sussulti,
e altre paludi d’agonia.)
 
Sui vostri vestiti bianchi
vibrava una melodia
d’angeli dalle morbide trecce
in cui il mio affanno pulsava.
 
Dai vostri vestiti bianchi,
mi giunge ciò che, in questo giorno,
ravviva quel che ancora mi resta
delle macerie della poesia. 
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Emiliano di Cavalcanti
Mulatta (1957)
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