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Vimos todos os filmes


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Vimos todos os filmes
Abbiamo visto tutti i film


Vimos todos os filmes
mas ainda não sabemos o fim de nenhum,
somos como a luz que desconhece
a própria velocidade.
Os relógios são a decoração doméstica
da angústia, damos corda
aos que precisam e não precisam
sem sabermos nada
da corda e da angústia.
Anos e anos amontoam-se
como nuvens ou tumores benignos
entre as nossas pequenas ciências
e o pressentimento de que
Deus escreve direito e nós
somos as linhas tortas.
Abbiamo visto tutti i film
ma ancora non sappiamo la fine di nessuno,
siamo come la luce che ignora
la propria velocità.
Gli orologi sono la decorazione domestica
dell’angoscia, noi diamo corda
sia a quelli che ne hanno bisogno sia agli altri
senza sapere niente
della corda e dell’angoscia.
Anni e anni s’accumulano
come nuvole o tumori benigni
tra le nostre piccole scienze
e il presentimento che
Dio scriva diritto e noi
siamo le righe storte.
________________

Scena dal film "Metropolis"
di Fritz Lang (1927)
...

Três teorias


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Três teorias
Tre teorie


As nuvens desenham figuras.
O céu em volta das nuvens desenha figuras.
Os olhos desenham sempre figuras no céu.
Le nuvole disegnano figure.
Il cielo intorno alle nuvole disegna figure.
Gli occhi disegnano sempre figure in cielo.
________________

Piet Mondrian
Paesaggio con nuvola rossa (1907-1908)
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Sala de espera


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Sala de espera
Sala d'attesa


Cinquentonas adiposas
homens de bigode problemático
duas angustiadas estéreis
outras duas parideiras
velhos parados na sua velhice
funcionários tão públicos
uma adolescente esburacada
a mãe catastrófica
o jovem lamentável casal
uma miúda que só olha
um avô despedaçado,
todos na mesma fila que eu
para os comprimidos.
Cinquantenni adipose
uomini dal baffo problematico
due angosciate sterili
altre due prolifiche
vecchi bloccati nella loro vecchiaia
impiegati molto statali
un’adolescente sballata
la madre catastrofica
la giovane coppia patetica
una piccina che guarda e basta
un nonno che si sente a pezzi,
tutti nella stessa fila dove sto io
per le pastiglie.
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Norman Rockwell
La sala d'attesa (1930)
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Rotina


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Rotina
Routine


Este é o meu número:
telefonem-me.
Este é o sítio
onde passo as tardes:
encontrem-me.
Ou não me telefonem
nem me encontrem
mas pensem em mim
enquanto estiverem a viver.
Questo è il mio numero:
telefonatemi.
Questo è il posto
dove passo le serate:
venitemi a trovare.
Oppure non telefonatemi
né venitemi a trovare
ma pensatemi
mentre vivete la vita.
________________

Marinella Senatore
Think later Dance first (2021)
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Os vasos partidos


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Os vasos partidos
I vasi rotti


Este vaso partido já não tem dentro
e fora, já não contém, não limita,
não transborda. A causa deste vaso
e o seu destino confundem-se
nos estilhaços de uma história
há muito escrita. Dentro do vaso
houve génio, memória, uma geração
intemporal, mas nas suas ruínas
apenas um espírito que nos abandona.
Questo vaso rotto ormai non ha più un dentro
e un fuori, ormai non contiene più, non limita,
non trasborda. Il principio di questo vaso
e la sua fine si confondono
tra i cocci di una storia
scritta molto tempo fa. Dentro il vaso
c’è stato un genio, memoria, una generazione
atemporale, ma tra le sue rovine
soltanto uno spirito che ci abbandona.
________________

John William Godward
Il vaso rotto (1913)
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Leituras obrigatórias


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Leituras obrigatórias
Letture obbligatorie


Vê-se o castelo, vou poetando trivialidades
no caderno, à minha frente a rapariga estuda o Livro
do Desassossego,

eu estou sossegado e estudo a rapariga,
não realmente bonita mas
de íris inquisidoras e surpreendente
decerto entre quatro paredes.

Se eu fosse algum dia um poeta
seria uma obrigação curricular para os vindouros,
versos a acompanhar cigarros e namoros,
o livro com manchas de café, uma rapariga (filha desta?)
a ler o que hoje escrevi no Chiado
e alguém noutra mesa a fazer
um poema acerca disso.
Si vede il castello, verseggio banalità
sul quaderno, davanti a me la ragazza studia il Libro
dell’Inquietudine
,
io sono quieto e studio la ragazza,
non propriamente bella ma
con iridi inquisitrici e apprezzabile
di certo tra quattro pareti.

Se un giorno io diventassi un poeta
sarebbe un obbligo curricolare per i posteri,
far versi da accompagnare a sigarette e incontri galanti,
il libro con macchie di caffè, una ragazza (figlia di questa?)
che legga quel ho scritto oggi nel Chiado
e qualcuno all’altro tavolo che faccia
una poesia su tutto questo.
________________

Alessandro Milesi
Donna in nero in un bistrot (1940)
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Michael Furey


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Michael Furey
Michael Furey


Em que pensas? Acho que sei
em que pensas.

Exausta, distraída, abstracta,
acho que sei em que pensas.

Entre lágrimas dizes que não.
Que não é nada.

Apenas um rapaz de Galway
e que em Galway cantava.

Acho que sei em que pensas.
Amas esse rapaz. 

Um rapaz de grandes olhos escuros,
dizes, ainda te lembras

como se fosse agora.
Tão grandes tão escuros.

Acho que sei em que pensas.
Vais ter com esse rapaz.

Junto da vidraça dizes não vou,
o rapaz mal chegado aos dezassete

morreu. E tudo é de repente terrível
como o candeeiro público apagado.

Acho que sei em que pensas.
Faz falta esse rapaz.

Estava bem com ele, dizes,
tão gentil, tão bela voz,

passeávamos, dizes,
como se faz no campo.

Acho que sei em que pensas.
Em que pensas?

Numa noite de chuva, de tanta chuva,
ele atirava pedrinhas à minha janela.

E não se ia embora.
E não se foi embora.

Tão dócil doente encharcado.
«Acho que morreu por mim.»

Acho que sei em que pensas.
Chove muito, lá fora.
A che pensi? Penso di sapere
a che pensi.

Esausta, distratta, astratta,
penso di sapere a che pensi.

Tra le lacrime tu dici di no.
Che non è nulla.

Soltanto un ragazzo di Galway
e che a Galway cantava.

Penso di sapere a che pensi.
Tu ami questo ragazzo. 

Un ragazzo dai grandi occhi scuri,
dici, te ne ricordi ancora

come se fosse ora.
Così grandi così scuri.

Penso di sapere a che pensi.
Vai a trovare questo ragazzo.

Accanto alla vetrata dici che non vai,
quel ragazzo aveva appena fatto i diciassette

quando era morto. E d’un tratto tutto è terribile
come un lampione pubblico che si spegne.

Penso di sapere a che pensi.
Ti manca quel ragazzo.

Stavo bene con lui, dici,
così gentile, una così bella voce,

passeggiavamo, dici,
come si fa in campagna.

Penso di sapere a che pensi.
A che pensi?

In una notte di pioggia, di forte pioggia,
lui tirava sassolini alla mia finestra.

E non se ne andava via.
E non se ne andò via.

Così delicato malato fradicio.
«Credo che sia morto per me.»

Penso di sapere a che pensi.
Piove forte, là fuori.
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Vilhelm Hammershøi
L'artista e la moglie allo specchio (1911)
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Larkin


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Larkin
Larkin


Para Larkin a privação era aquilo que
os narcisos em Wordsworth,
a mesma flor semântica,
a mesma imaginação do mundo,
o mesmo motivo e alegoria,
a mesma escada sem degraus.
Um romantismo que mal alcanço.

E para mim a privação é aquilo que
para Larkin a privação.
Per Larkin la privazione era quello che
i narcisi erano per Wordsworth,
lo stesso fiore semantico,
la stessa visione del mondo,
lo stesso motivo e allegoria,
la stessa scala senza gradini.
Un romanticismo che a stento afferro.

E per me la privazione è quello che
per Larkin era la privazione.
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Shodo Kawarazaki
Narcissus (1950)
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Conto de Verão


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Conto de Verão
Racconto d’estate


A meio da tarde mas como se fosse fim 
o papagaio em ziguezague puxado por cordas.

À varanda da infância a que voltei 
acompanho os primos namorados irmãos

que correm na areia guiados pelo que 
verticalmente decerto lhes parece o céu

mas visto daqui é tão-só o alto, 
a vida natural ao vento violenta a vida

deles, dançam como âncora ou contrapeso 
ao artefacto vermelho que lhes escapa

embora o tenham bem preso, sopra onde quer, 
a maresia, constante e quase mansa

na folhagem, na bandeira, nas memórias. 
O rapaz tem firme nas mãos

o terrível brinquedo, indo ao chão 
como os pioneiros dos aeroplanos,

feliz na sua ciência, intrépido, determinado 
na expressão que porém não alcanço,

tão miúdo que cai e se levanta 
como se nada fosse, enquanto ela fica

deitada sempre que tropeça, ou quando 
ele lhe dá as rédeas por momentos.

Volteiam do relógio quase até ao farol, 
com uma mortal seriedade e alegria 

que não compreendo, têm como fogo preso 
o seu caprichoso foguete, às vezes

o papagaio tem mais força do que dois 
adolescentes, e cumpre o seu papel,

imprevisível mas complacente, indomável 
mas seguro, subindo em volutas, 

descendo a pique, vigia de uma praia 
quase inóspita a esta luz suave,

Joguete sem tempo 
unindo quem só tem futuro ainda 

e o passado que os observa e se faz 
assim remoto, armadilhado, 

entre falsas recordações, vagos arquétipos, 
histórias hipotéticas, canções tristes.

Ficou o mundo em silêncio, veraneantes, 
automóveis, tudo o que acontece é

aquela coreografia que eles fazem 
para ninguém, nem um para o outro,

o rapaz tão calmo mesmo quando perde 
por instantes um combate, a menina

que diz frases que não ouço, 
esfuziante, ignorante, seminua,

e quando fecho a janela 
ela vê o papagaio cair e abre os braços. 
A metà pomeriggio, ma pare già la fine,
l’aquilone serpeggia tirato da fili. 

Sono tornato alla veranda dell’infanzia  
e seguo i cugini come fratelli amanti
 
che corrono sulla sabbia guidati da quello che
verticalmente di certo a loro sembra il cielo

ma visto da qui è solamente altezza, 
la vita naturale nel vento violenta la loro

vita, loro danzano come ancore o contrappesi
di quel rosso artefatto che tenta di sfuggire

benché lo tengano ben saldo, e spira a suo piacere, 
l’aria di mare, costante e quasi mite

nel fogliame, sulla bandiera, nelle memorie.
Il ragazzo tiene forte con le mani

il giocattolo terribile, cadendo a terra, 
come i pionieri degli aeroplani,

felice della sua tecnica, intrepido, determinato
con un’espressione, che non so descrivere,

così minuto che cade e si rialza
come se niente fosse, mentre lei resta

distesa ogni volta che inciampa, o quando 
lui le affida le redini per qualche momento.

Volteggiano dall’orologio fin quasi al faro,
con una serietà mortale e un’allegria

che non comprendo, tengono come un fuoco  
in trappola il loro razzo balzano, a volte

l’aquilone ha più forza dei due 
adolescenti, e gioca il suo ruolo, 

imprevedibile ma compiacente, indomabile
ma sicuro, salendo in volute, 

scendendo a strapiombo, vedetta di una spiaggia
quasi inospitale  in questa luce soffusa,

giocattolo senza tempo
che unisce quelli che hanno solo il futuro

e il passato che li osserva e diventa
così remoto, intrappolato,

tra falsi ricordi, vaghi archetipi, 
ipotetiche storie, canzoni malinconiche.

Il mondo è rimasto in silenzio, villeggianti,
automobili, tutto quel che succede è  

questa coreografia che fanno loro 
per nessuno, né l’uno per l’altro,

il ragazzo così calmo anche quando perde
per pochi attimi uno scontro, la ragazza

che dice frasi che non sento,
concitata, ignorante, seminuda,

e quando chiudo la finestra
lei vede cadere l’aquilone e apre le braccia.
________________

Candido Portinari
Aquiloni (1941)
...

As pessoas felizes


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As pessoas felizes
Le persone felici


Ao contrário das pessoas felizes
as pessoas tristes cruzam-se na rua
e no silêncio clínico do metro.
Admiramos com ternura aqueles que choram,
tememos os que riem,
E no fim do trajecto espera-nos a família.
All’opposto delle persone felici
le persone tristi s’incrociano per la via
e nel clinico silenzio del metrò.
Rimiriamo con tenerezza quelli che piangono,
temiamo quelli che ridono,
E alla fine della strada ci attende la famiglia.
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Maurice Delondre
L'omnibus (1885)
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Vida de Cristo


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Vida de Cristo
Vita di Cristo


No improvisado salão paroquial
velhas cadeiras desalinhadas anunciavam
um filme sobre «a vida de Cristo».
Éramos crianças, veraneantes,
figueirenses, crianças comungantes
mas ainda sem tormenta e com os adultos
curiosos ou tomados de fastio
fomos, oito da noite, para a vida de Cristo.
Mas alguém trocou os filmes
ou espalhou carnavalesco engano,
e logo na primeira bobine entendemos
que não era a Palestina
que o facho de luz poeirento projectava
no écran tão amador
que só podíamos chamar pantalha.
E aos poucos entrámos na narrativa.
Vera Cruz, western heráldico, napoleónico,
quase operático. Morria gente
(que ressuscitava fora de campo)
e houve quem achasse que não sendo sobre
Cristo era a fábula imprópria
antes de dormirmos.
Mas o acampamento estival das crianças
tomava partido, vitoriava,
abraçava com braços pequenos
o efeito de alienação, as sombras humanas.
Julgo que brilhavam no fim
os nossos olhos infiéis,
belicosos, inimigos de Maximiliano.
Esvaída para sempre a surpresa, a pureza,
o motim de fascínios, a noite clara.
Nunca mais foi a mesma, a vida de Cristo.
Nell’improvvisato salone parrocchiale,
vecchie sedie in disordine annunciavano
un film sulla ‘Vita di Cristo’.
Eravamo bambini, in vacanza al mare
di Figueira, che facevano la comunione
ma ancora senza tormenti, e in compagnia
di adulti curiosi o inappetenti
andammo alle otto di sera alla vita di Cristo.
Ma qualcuno scambiò i film
o giocò uno scherzo di carnevale,
e già fin dall’inizio capimmo
che non era la Palestina
che il fascio polveroso di luce proiettava
su quello schermo così improvvisato
tanto che lo chiamavamo foglio di carta.
E poco per volta entrammo nella vicenda.
Vera Cruz, western araldico, napoleonico,
quasi operistico. C’era gente che moriva
(e fuori scena resuscitava)
e qualcuno pensò che, non essendo
su Cristo, fosse una favola impropria
da mostrarci prima d’andare a dormire.
Ma il campeggio estivo dei bambini
faceva il tifo, applaudiva,
abbracciava con le braccia sottili
l’effetto di straniamento, le ombre umane.
Alla fine, penso che brillassero
i nostri occhi infedeli,
bellicosi, nemici di Massimiliano.
Svanita per sempre la sorpresa, la purezza,
la rivolta dell’entusiasmo, la notte chiara.
Non fu mai più la stessa, la vita di Cristo.
________________

Manifesto del film di Sergio Leone
Per un pugno di dollari (1964)
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Vermelhos


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Vermelhos
Rossi


Agora a tecnologia acaba
com os olhos vermelhos
que assombram fotografias.
Corretor equívoco:
não era a máquina
que os fazia vermelhos.
Ora la tecnologia corregge
gli occhi rossi
che rovinano le fotografie.
Correttore ambiguo:
non era la macchina
che li faceva rossi.
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Evgeniya Miroshnichenko Chepurna
Occhi rossi (2020)
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Revisor revisitado


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Revisor revisitado
Controllore rivisitato


Que triste, obliterar.
Era isso porém que fazia: obliterava.
Na sua cadeirinha de zeloso símio,
funcionário da decência lisboeta.
Casado, tributável, de bigode, lhe fora dada
tarefa digna de palavra nova: obliterava.

E nenhum de nós, ainda nem adolescentes,
possuía verbo tão único.
De azul estatal e chapéu desusado
era o revisor. Com bonomia ou aborrecimento
vigiava todos e encolhia as pernas
para acomodar as compras de uma matrona.

Revia e obliterava,
Obliterava e revia.
Como eu esta tarde de poemas.
Che tristezza, obliterare.
Eppure era questo che faceva: obliterava.
Sul suo seggiolino di scimmia diligente,
al servizio del decoro lisbonese.
Coniugato, tassabile, baffuto, gli fu assegnato
un compito degno d’una parola nuova: obliterava.

E nessuno di noi, non ancora adolescenti,
disponeva di un verbo così unico.
Divisa blu statale e cappello antiquato
era il controllore. Con bonomia o malumore
vigilava su tutti e raccoglieva le gambe
per far spazio alle compere di una madama.

Controllava e obliterava,
Obliterava e controllava.
Come me in questa serata di poesie.
________________

Alvaro Neelix
28. Lisboa (2019)
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Noiva de Deus


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Noiva de Deus
Sposa di Dio


Como no filme, era noiva de Deus,
confessou-me, ríspida, seu
perseguidor. Os seios
ainda facilmente me oprimem
o fôlego, anos passados.
Eu tentava a pouca arte, a repetição,
mas ela e Deus promessi
sposi (foi isto em Itália).
Álibi, imaginei, sempre generoso.
Mas não: em setembro abandonava
a roupa civil, escondia os cabelos
pretos, ia entregue. Não sei
como se passou: uma década quase,
nem o seu nome. Apenas
um poema como lápide, como
ironia, o volume ainda laico
do seu peito e a última vez
que concorri com Deus.
Come nel film, era sposa di Dio,
confessò, austera, a me, suo
aguzzino. I seni
ancora facilmente mi toglievano
il fiato, negli anni passati.
Io usavo la mia poca arte, con insistenza,
ma lei e Dio erano promessi
sposi (questo accadeva in Italia).
Alibi, pensai, sempre generoso.
Ma no: a settembre abbandonò
gli abiti civili, nascose i capelli
neri, prese i voti. Non so
come sia andata: per quasi una decade,
nemmeno il suo nome. Solamente
una poesia come lapide, ironia
della sorte, il volume del suo petto
ancora laico e fu l’ultima volta
che rivaleggiai con Dio.
________________

Francesco Hayez
Giovane monaca (1879)
...

Inquebrável


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Inquebrável
Infrangibile


Dez anos? Não me peçam
memórias datadas.
Os primeiros óculos.
O mundo agora
com uma armação,
um vidro, uma distância.

Os óculos dividiam
quem os não usava
dos outros, os vidrinhos,
putos com um apêndice
tosco e visível,
putos com defeito,
com um acessório,
um gozo, a menor
traulitada os desfazia.

As minhas lentes de plástico
(assim me disseram)
eram “inquebráveis”.
Na época, ainda imaginava
matérias inquebráveis.
Como se eu, defeituoso
e afásico, fosse inquebrável.
Assim fiz a demonstração
aos basbaques e às feras,
com o dedo médio
contra o plástico
com mais força ainda,
inquebrável que era.

Aos pequenos golpes
uma lente
treme na armação
e num piparote
saltita no soalho encerado.
A troça desaba.
Como se tivesse mentindo
e fossem frágeis
lentes vulgares
que se partem como se parte
o vulgar vidro.

Só anos mais tarde soube:
o plástico inquebrável
apenas solto,
inquebrável no chão,
fora dos óculos.
Ciência tardia.
Os meus inquebráveis óculos
face à multidão
quebrados como os outros.
Nada é inquebrável
se vacilamos.
O mal acidental
fica catástrofe.
A filosofia soçobra.
Vamos, pela vida fora,
amarfanhados
num equívoco.
Dieci anni? Non pretendete
memorie datate.
I primi occhiali.
Il mondo ora ha
una montatura,
un vetro, una distanza.

Gli occhiali dividevano
chi non li usava
dagli altri, i quattr’occhi,
pivelli con un’appendice
brutta e visibile,
pivelli con un difetto,
con un accessorio,
un peso, la minima
botta li distruggeva.

Le mie lenti di plastica
(così mi dissero)
erano “infrangibili”.
All’epoca, credevo ancora
alle materie infrangibili.
Come se io, difettoso
e afasico, fossi infrangibile.
Così feci la dimostrazione
ai cretini e alle bestie,
con il dito medio
contro la plastica
con più forza ancora,
dato che ero infrangibile.

Sotto i piccoli colpi
una lente
trema nella montatura
e con una ditata
balza sul pavimento incerato.
Si scatena lo scherno.
Come se avessi mentito
e fossero fragili
lenti ordinarie
che si rompono come si rompe
il volgare vetro.

Solo anni dopo ho saputo:
la plastica è infrangibile
appena libera,
infrangibile al suolo,
fuori dagli occhiali.
Scienza tardiva.
I miei occhiali infrangibili
davanti a una moltitudine
rotti come gli altri.
Nulla è infrangibile
se vacilliamo.
Il male accidentale
diventa catastrofe.
La filosofia soccombe.
Andiamo, per la vita,
avviluppati
in un equivoco.
________________

Dora Bassi
Interno con tavolo e occhiali (2001)
...

Amável público


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Amável público
Amabile pubblico


O prestidigitador (vocábulo
cesarínico e difícil) era espectacular
demais para o espectáculo,
saíam-lhe flores da vara
 
e pedia ao “amável público”
um voluntário à força
para o fazer, mágico que era,
evaporar-se numa caixa
 
e toda a infância me parece
essas toscas bancadas de circo
nas quais eu olhava para o chão
com medo de um foco de luz.
Il prestidigitatore (vocabolo
cesarinico e difficile) era spettacolare
fin troppo per lo spettacolo,
gli spuntavano fiori dalla bacchetta

e cercava fra l’ “amabile pubblico”
un volontario a forza
per farlo, da quel mago che era,
svanire in una cassa

e tutta l’infanzia mi ricorda
quelle grezze panche da circo
sulle quali io guardavo per terra
per paura d’un lampo di luce.
________________

Antonio Donghi
Il giocoliere (1936)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (554) Orides Fontela (16) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (361) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)