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O Haver


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O Haver
L’avere


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
– Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar
  o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia de simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente
  desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm
  ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do próprio reino.
 
Resta esse diálogo cotidiano com a morte,
  essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
 
Resta esse constante esforço para caminhar dentro
  do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande Medo,
  e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Resta, più d’ogni cosa, quest’attitudine per la tenerezza
Questa perfetta intimità col silenzio
Resta questa voce intima che supplica perdono per tutto:
– Perdono! non è loro la colpa d'esser nati...

Resta quest'antico riguardo per la notte, questo parlar piano
Questa mano che sfiora prima di tenere, questa paura
Di ferire toccando, questa forte mano d'uomo
Piena di delicatezza per tutto ciò che esiste.

Resta quest'immobilità, questa economia di gesti
Quest'inerzia sempre più grande davanti all'infinito
Questa balbettamento puerile di chi vuol esprimere
  l'inesprimibile
Questo irriducibile rifiuto della poesia non vissuta.

Resta questa comunione coi suoni, questo sentimento
Della materia a riposo, questa angoscia per la simultaneità
Del tempo, questa lenta decomposizione poetica
In cerca d'una sola vita, d'una sola morte, d'un solo Vinícius.

Resta questo cuore che s’esaurisce come un cero
In una cattedrale in rovina, questa tristezza
Di fronte al quotidiano; o questa gioia repentina
Nell’udire dei passi nella notte che si perdono senza storia...

Resta questa voglia di piangere di fronte alla bellezza
Questa collera dinanzi all'ingiustizia e al malinteso
Questa immensa pietà per sé stesso, questa immensa
Pietà per sé stesso e per la propria forza inutile.

Resta questa sensazione d'infanzia tutta d’un tratto
  estirpata
Da piccole assurdità, questa propensione
A ridere senza ragione, questa ridicola smania d'esser utile
E questo coraggio di compromettersi senza necessità.

Resta questa sbadataggine, questa apertura, questa vaghezza
Di chi sa che tutto è già stato e che tornerà ad essere
E ad un tempo questa voglia di servire, questa
Contemporaneità con il domani di quelli che non hanno avuto
  ieri né oggi.

Resta questa incoercibile capacità di sognare
Di trasfigurare la realtà, dentro questa impossibilità
Di accettarla così come è, e questa visione
Aperta degli avvenimenti, e questa impressionante

E superflua precognizione, e questa memoria antecedente
Di mondi inesistenti, e questo eroismo
immobile, e questa minuscola luce indecifrabile
A cui i poeti talvolta danno il nome di speranza.

Resta quest’ansia di sentirsi uguale a tutti
Di riflettersi in sguardi senza curiosità e senza memoria
Resta questa povertà connaturata, questa vanità
Di non voler regnare se non sul proprio regno.

Resta questo quotidiano dialogo con la morte,
  questa curiosità
Per il momento venturo, quando, affrettata
Lei verrà a socchiudermi la porta come una vecchia amante
Ma si ritrarrà nel vedermi accanto alla mia innamorata.
 
Resta questo constante sforzo di camminare dentro
  il labirinto
Questo eterno rialzarsi dopo ogni caduta
Questa ricerca d’equilibrio sul filo della lama
Questo terribile coraggio di fronte alla grande Paura,
  e questa paura
Puerile d’aver solo piccoli coraggi.

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Elifas Andreato
O Haver (2010)
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Cemitério marinho


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Cemitério marinho
Cimitero marino


Tal como anjos em decúbito 
A conversar com o céu baixinho 
Existem cerca de cem túmulos 
Num lindo cemiteriozinho 
Que eu, a passeio, descobri 
Um dia em Sidi Bou Said. 

Mal defendidos por uns muros 
Erguidos ao sabor da morte 
Eu nunca vi mortos tão puros 
Mortos assim com tanta sorte 
As lajes de cal como túnicas 
Brancas, e árabes; não púnicas. 

Sim, porque cemiteriozinho 
Nunca se viu assim tão árabe 
Feito o beduíno que é sozinho 
Ante o deserto que lhe cabe 
E mudo em face do horizonte 
Sem uma sombra que o confronte. 

Pequenos paralelepípedos 
Fendidos uns, conforme o sexo 
Eis suas lápides: antípodas 
Das que se vêem num cemitério 
De gente do nosso pigmento: 
Os nossos mortos de cimento. 

Quem se deixar de tarde ali 
Isento de mágoa ou conflito 
A olhar o mar (sem Valéry!) 
Como um espelho de infinito 
E o céu como um anti-recôncavo: 
Como o convexo de um côncavo 

Acabará (comigo deu-se!) 
Ouvindo os mortos cochicharem 
Alegremente, eles e Deus 
Mas não o nosso: o Deus dos árabes 
Que não fez Sidi Bou Said 
Para os prazeres de André Gide 

Mas sim porque a vida segue 
E o tempo pára, e a morte é um canto 
Porque morrer é coisa alegre 
Para quem vive e sofre tanto 
Como no cemiteriozinho, ali 
Ao céu de Sidi Bou Said. 

Come fossero angeli in decubito
Che dialogano col cielo pian pianino
Ci sono circa un centinaio di tumuli
In un grazioso cimiterino
Che io, passeggiando, scoprii
Un giorno a Sidi Bou Said.
 
A mala pena protetti da dei muri
Eretti al servizio della morte,
Mai avevo visto morti così puri,
Morti con la felice sorte d’avere
Lapidi di calce come tuniche
Bianche e arabe; non puniche.
 
Sì, perché mai s’era visto
Un cimiterino così arabo
Simile a un beduino tutto solo
Davanti alla parte che gli spetta di deserto
E sta muto di fronte all’orizzonte
Senza un po’ d’ombra che gli dia conforto.
 
Piccoli parallelepipedi, secondo il sesso
Gli uni dagli altri separati,
Ecco le loro lapidi: agli antipodi
Di quelle che si vedono in un cimitero
Di gente col nostro pigmento:
I nostri morti di cemento.
 
E chi la sera si sofferma lì
Libero da ogni pena e contrasto
A rimirare il mare (senza Valéry!)
Come fosse uno specchio dell'infinito
E il cielo, come una contro-concavità:
Come fosse il convesso d'un concavo
 
Finirà (e a me è successo)
Per udire i morti bisbigliare
In allegria, loro e Dio
Ma non il nostro: il Dio degli arabi
Che non ha creato Sidi Bou Said
Per i piaceri di André Gide
 
Ma piuttosto perché la vita continua
E il tempo si ferma, e la morte è un canto
Perché morire è una cosa gioiosa
Per quelli che vivono soffrendo tanto
Come in quel cimiterino, lì
Sotto il cielo di Sidi Bou Said.

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Frederick Stibbert
Cimitero arabo (1875)
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A ponte de Van Gogh


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A ponte de Van Gogh
Il ponte di Van Gogh


O lugar não importa: pode ser o Japão, a Holanda,
a campina inglesa. 
Mas é absolutamente preciso que seja domingo. 

O azul do céu ecoa na esmeralda do rio 
E o rio reflete docemente as margens de relva verde-laranja 
Dir-se-ia que da mansão da esquerda voou o lençol
virginal de miss
Para ser no céu sem mancha a única nuvem. 
A calma é velha, de uma velhice sem pátina 
As cores são simples, ingênuas 
A estação é feliz: o guarda da ponte chegou a pintar 
De listas vermelhas o teto de sua casinhola. 
E, meu Deus, se não fossem esses diabinhos de pinheiros
a fazer caretas
E a pressa com que o homem da charrete vai: 
- A pressa de quem atravessou um vago perigo 
Tudo estivesse perfeito, e não me viesse esse medo tolo
de a pequena ponte levadiça
Desabe e se molhe o vestido preto de Cristina Georgina
Rosseti
Que vai de umbrela especialmente para ouvir a prédica
do novo pastor da vila.

Il luogo non importa: può essere il Giappone, l’Olanda,
la campagna inglese. 
Ma è assolutamente necessario che sia domenica. 

L’azzurro del cielo si riverbera nel colore smeraldo del fiume 
E il fiume riflette dolcemente le rive d’erba verde e arancio 
Si direbbe che dal casale sulla sinistra sia volato via il
lenzuolo verginale della miss
Per essere nel cielo senza macchia l’unica nube. 
La calma è antica, d’una vetustà senza patina 
I colori sono semplici, ingenui 
La stagione è felice: il custode del ponte è arrivato a decorare 
Con strisce rosse il tetto della sua casetta. 
E, mio Dio, se non ci fossero quei diavoletti di pini a fare 
sberleffi
E la fretta con cui l’uomo sul carro se ne va: 
- La fretta di chi è scampato a un vago pericolo 
Tutto sarebbe perfetto, e non mi assalirebbe questa sciocca
paura che il ponticello levatoio
Crolli e si bagni il vestito nero di Cristina Georgina
Rosseti
Che con l’ombrello va espressamente ad ascoltare la predica
del nuovo pastore del villaggio.

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Vincent van Gogh
Il ponte di Langlois ad Arles (1888)
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Ela entrou como um pássaro...


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Jardim noturno. Poemas inéditos (1993) »»
 
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Ela entrou como um pássaro...
Ella entrò come un uccello...


Ela entrou como um pássaro no museu de memórias 
E no mosaico em preto e branco pôs-se a brincar de dança. 
Não soube se era um anjo, seus braços magros 
Eram muito brancos para serem asas, mas voava. 
Tinha cabelos inesquecíveis, assim como um nicho barroco 
Onde repousasse uma face de santa de talha inacabada. 
Seus olhos pesavam-lhe, mas não era modéstia 
Era medo de ser amada; vinha de preto 
A boca como uma marca do beijo na face pálida. 
Reclinado; nem tive tempo de a achar bela, já a
amava.

Ella entrò come un uccello nel museo delle memorie 
E sul mosaico in bianco e nero prese a danzar per gioco.
Non sapevo se fosse un angelo, le sue esili braccia 
Erano molto bianche per esser delle ali, ma volava. 
Aveva capelli fantastici, pareva una nicchia barocca 
In cui riposasse un volto di santa d'una statua incompiuta. 
Aveva gli occhi colmi di tristezza, ma non era modestia 
Era paura d’essere amata; vestiva di nero 
La bocca come l’impronta d’un bacio sul suo pallido viso. 
Io reclinato; non ebbi neanche il tempo di trovarla bella,
già l’amavo.

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Pablo Picasso
Ritratto di Jacqueline (1957)
...

Ternura


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Novos poemas II (1959) »»
 
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Ternura
Tenerezza


Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos
teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não trai o exaspero das lágrimas nem a fascinação
das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem
sem fatalidade o olhar extático da aurora.

Io ti chiedo perdono per amarti tutt’a un tratto
Anche se il mio amore è una vecchia canzone per le tue
orecchie
Delle ore trascorse all’ombra dei tuoi gesti
Bevendo nella tua bocca il profumo dei sorrisi
Delle notti che ho vissuto cullato
Dall’indicibile grazia dei tuoi passi perennemente in fuga
Reco la dolcezza di quelli che malinconicamente accettano
E ti posso dire che il grande affetto che ti dedico
Non implica l’esasperazione delle lacrime né la seduzione
delle promesse
Né le misteriose parole dei veli dell’anima…
È una pace, una devozione, un traboccare di premure
E non chiede altro che tu riposi quieta, molto quieta
E lasci che le calde mani della notte incontrino senza fatalità
l'estatico sguardo dell’aurora.

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Domenico Fetti
Fanciulla dormiente (1620)
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O operário em Construção


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Novos poemas II (1959) »»
 
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O operário em Construção
L’operaio in costruzione


E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
«Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.»
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
«Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.»

(Lucas, cap. V, vs. 5-8)

*

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

E il Diavolo lo condusse in alto, gli mostrò in un istante tutti i regni della terra. E gli disse il Diavolo:
«Ti darò tutto questo potere e la loro gloria, perché a me è stata data e io la do a chi voglio; perciò, se mi adorerai, tutto sarà tuo».
E Gesù gli rispose:
«Vattene, Satana, poiché sta scritto: Il Signore, Dio tuo, adorerai e lui solo servirai».

(Luca, cap. V, vs. 5-8)

*

Era lui che costruiva le case
Dove prima il suolo era piano.
Come un passero senz’ali
Lui saliva con le case
Che gli nascevano dalla mano.
Ma nulla lui sapeva
Della sua grande missione:
Non sapeva, per esempio
Che la casa d’un uomo è un tempio
Un tempio senza religione
Così come non sapeva
Che la casa che lui faceva
Pur essendo la sua libertà
Era la sua schiavitù.

Infatti, come poteva
Un operaio in costruzione
Comprendere perché un mattone
Avesse più valore del pane?
I mattoni lui li sistemava
Con pala, cemento e squadra
Quanto al pane, lui lo mangiava...
Ma prova a mangiare un mattone!
E così l’operaio continuava
Col sudore e col cemento
A costruire una casa qui
Lì davanti un appartamento
Più in là una chiesa, di fronte
Una caserma e una prigione:
Prigione dove potrebbe marcire
Se non fosse, casomai
Un operaio in costruzione.

Ma lui ignorava
Questo fatto straordinario:
Che l’operaio fa la cosa
E la cosa fa l’operaio.
Di modo che, un bel giorno
A tavola, nel tagliare il pane
L’operaio fu assalito
Da un'improvvisa emozione
Constatando allibito
Che ogni cosa su quella tavola
- Bottiglia, piatto, coltello -
Era lui che le faceva
Lui, un umile operaio,
Un operaio in costruzione.
Si guardò in giro: zuppiera
Panca, giaciglio, calderone
Vetro, parete, finestra
Casa, città, nazione!
Tutto, tutto quello che c’era
Era lui che lo faceva
Lui, un umile operaio,
Un operaio che sapeva
Svolgere il suo mestiere.

Ah, uomini d’intelletto
Voi non saprete mai quanto
Quell'umile operaio
Comprese in quel momento!
In quella casa vuota
Che lui stesso aveva fabbricato
Un nuovo mondo nasceva
Che lui mai s’era immaginato.
L’operaio emozionato
Osservò la propria mano
La sua rude mano d’operaio
Di operaio in costruzione.
E mentre stava lì a guardarla
Per un istante ebbe l’impressione
Che non ci fosse al mondo
Una cosa che fosse più bella.

E fu dentro la comprensione
Di quell’attimo solitario
Che, come ogni sua costruzione
Cominciò a crescere anche l’operaio.
Crebbe in altezza e profondità
In vastità fin dentro il cuore
E come tutto ciò che cresce
Egli non crebbe invano
Poiché oltre a ciò che già sapeva
- Svolgere il suo mestiere -
L’operaio acquisì
Una nuova dimensione:
La dimensione della poesia.

E accadde un fatto nuovo
Che suscitò ammirazione:
Quel che l’operaio diceva
Un altro operaio ascoltava.
E fu così che l’operaio
Dell'edificio in costruzione
Che diceva sempre sì
Cominciò a dire no.
E imparò a notare cose
A cui mai aveva prestato attenzione:

Notò che la sua gavetta
Era il piatto del padrone
Che la sua birra scura
Era il whisky del padrone
Che la sua tuta blu
Era il completo del padrone
La baracca dove abitava
Era la magione del padrone
Che i suoi due piedi vagabondi
Erano le ruote del padrone
Che la durezza della sua giornata
Era la notte del padrone
Che la sua immensa fatica
Era amica del padrone.

E l’operaio disse: No!
E l’operaio si rafforzò
Nella sua risoluzione.

Com’era prevedibile
Le bocche della delazione
Cominciarono a dir cose
Alle orecchie del padrone.
Ma al padrone non garbava
D’aver alcuna preoccupazione
- "Convincetelo" del contrario -
Disse lui alludendo all’operaio
E nel dirlo sorrideva.

Il giorno dopo, l’operaio
Uscendo dalla costruzione
Si vide d’un tratto circondato
Dagli uomini della delazione
E subì, come prestabilito
La sua prima aggressione.
Sul suo viso hanno sputato
Il suo braccio hanno spezzato
Ma quando fu interrogato
L’operaio disse: No!

Invano subì l’operaio
La sua prima aggressione
Molte altre ne seguirono
Molte altre seguiranno.
Però, essendo indispensabile
All’edificio in costruzione
Il suo lavoro procedeva
E tutta la sua afflizione
Al cemento si mescolava
Della costruzione che cresceva.

Nell’apprendere che la violenza
Non piegava l’operaio
Un giorno provò il padrone
A piegarlo in altro modo.
Sicché se lo portò
In cima alla costruzione
E di punto in bianco
Gli mostrò tutta la regione
E indicandola all’operaio
Gli fece questa dichiarazione:
- A te io donerò tutto questo potere
E la sua soddisfazione
Perché a me è stato donato
E io lo do a chi mi pare.
A te do il tempo per oziare
Ti do il tempo per far l’amore.
Perciò, tutto quel che tu vedi
Sarà tuo se mi adorerai
E, ancor di più, se rinuncerai
A ciò che ti fa dire di no.

Così disse, e fissò l’operaio
Che guardava e rifletteva
Ma quel che l’operaio vedeva
Il padrone veder non poteva.
L’operaio vedeva le case
E dentro quelle strutture
Vedeva cose, oggetti
Prodotti, manufatti.
Vedeva tutto ciò che faceva
Il guadagno del suo padrone
E in ogni cosa che vedeva
Misteriosamente c’era
L’impronta della sua mano.
E l’operaio disse: No!

- Follia! - gridò il padrone
Non vedi quel che ti do io?
- Menzogna! - disse l’operaio
Tu non puoi darmi quel che è mio.

E si fece un gran silenzio
Fin dentro al suo cuore
Un silenzio d’afflizione
Un silenzio di prigione.
Un silenzio gremito
Di richieste di perdono
Un silenzio atterrito
Dalla paura di restar solo.

Un silenzio di torture
E grida di maledizione
Um silenzio di fratture
Che si trascinavano al suolo.
E l’operaio udì la voce
Di tutti i suoi fratelli
I suoi fratelli ch’eran morti
Per altri che verranno.
Una speranza sincera
Crebbe nel suo cuore
E dentro la dolcezza della sera
S’ingigantì la cognizione
D’un uomo povero e ignoto
Cognizione che aveva trasformato
In operaio costruito
L’operaio in costruzione.

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Charles C. Ebbets
New York Lunch atop a Skyscraper (1932)

...

Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto


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Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto
Bambino morto per i declivi di Ouro Preto


Hoje a pátina do tempo cobre também o céu de outono 
Para o teu enterro de anjinho, menino morto 
Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto. 
Berçam-te o sono essas velhas pedras por onde se esforça 
Teu caixãozinho trêmulo, aberto em branco e rosa. 
Nem rosas para o teu sono, menino morto 
Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto. 
Nem rosas para colorir teu rosto de cera 
Tuas mãozinhas em prece, teu cabelo louro cortado rente... 
Abre bem teus olhos opacos, menino morto 
Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto. 
Acima de ti o céu é antigo, não te compreende. 
Mas logo terás, no Cemitério das Mercês-de-Cima 
Caramujos e gongolos da terra para brincar como gostavas 
Nos baldios do velho córrego, menino morto 
Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto. 
Ah, pequenino cadáver a mirar o tempo 
Que doçura a tua; como saíste do meu peito 
Para esta negra tarde a chover cinzas... 
Que miséria a tua, menino morto 
Que pobrinhos os garotos que te acompanham 
Empunhando flores do mato pelas ladeiras de Ouro Preto... 
Que vazio restou o mundo com a tua ausência... 
Que silentes as casas... que desesperado o crepúsculo 
A desfolhar as primeiras pétalas de treva...

Oggi la patina del tempo copre anche il cielo d’autunno 
Per il tuo funerale d’angioletto, bambino morto 
Bambino morto per i declivi di Ouro Preto 
Cullino il tuo sonno queste vecchie pietre per dove s’insinua 
La tua cassettina tremula, addobbata in bianco e rosa. 
Niente rose per il tuo sonno, bambino morto 
Bambino morto per i declivi di Ouro Preto. 
Niente rose per dar colore al tuo viso di cera 
Alle tue manine in preghiera, ai tuoi corti capelli biondi... 
Apri bene i tuoi occhi opachi, bambino morto 
Bambino morto per i declivi di Ouro Preto. 
Sopra di te il cielo è antico, non ti capisce. 
Ma presto avrai, nel Cimitero di Mercês-de-Cima 
Lumache e millepiedi per giocare come piaceva a te 
Sui vecchi terreni abbandonati, bambino morto 
Bambino morto sui declivi di Ouro Preto. 
Ah, piccolo cadavere al cospetto del tempo 
Che dolcezza la tua; tu che hai lasciato il mio cuore 
Per far piovere ceneri su questa buia sera... 
Che miseria la tua, bambino morto 
Che negletti i ragazzi che t’accompagnano 
Impugnando fiori di campo per i declivi di Ouro Preto... 
Com’è rimasto vuoto il mondo con la tua assenza... 
Quanto silenzio nelle case... che disperato il crepuscolo 
Nello sfogliare i primi petali di tenebra...

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Lasar Segall
Interno di povera gente (1920)
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A hora íntima


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A hora íntima
L’ora intima


Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal...
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Chi pagherà le esequie e i fiori
Se morirò d’amore?
Chi, tra tutti, sarà l’amico del cuore,
Che vorrà stare con me dentro la bara?
Chi, nel bel mezzo del funerale
Dirà di me: - Non ha mai fatto del male...
Chi, ubriaco, piangerà ad alta voce
Per essersi presentato a mani vuote?
Chi verrà a sfogliare margherite
Sul mio tumulo di poeta?
Chi getterà timidamente
Nella terra un granello di semente?
Chi leverà uno sguardo vile
Verso la stella dell’imbrunire?
Chi mi dirà le magiche parole
Capaci di sbiancare il marmo?
Chi, occultata in veli scuri
Si crocifiggerà ai muri?
Chi, macerata nel suo rimpianto dirà
Con un sorriso: – Il re è morto, viva il re...
Quante, protese sopra il baratro
Sentiranno i dolori del parto?
Chi sarà quella che, bianca e fremente
Mi sfiorerà col suo seno ansimante?
Chi si getterà per terra, come i pazzi,
Gemendo tra i singhiozzi
Sì da destare dei pettegolezzi?
Quanti, con le mascelle contratte
Col sangue pulsante nelle ferite
Diranno: – È stato un amico dissennato...
Chi, come un bimbo, con lo sguardo a terra
Osservando i movimenti di un verme
Manterrà un’aria di equilibrio?
Chi, data la circostanza ufficiale
Proporrà di mettermi sopra un piedistallo?
Chi, tra quelli venuti giù dai monti
Si muoveranno circospetti e cauti
Sicché io riderò, bianco di calce?
Chi sarà quella che, col volto al vento
Lancerà un pugno di sale
Nella mia fossa di cemento?
Chi intonerà cantiche d’amico
Nel giorno del mio funerale?
Chi sarà quella che non sarà presente
Per ragioni di natura contingente?
Chi si trafiggerà il seno duro
Con una lama arrugginita?
Chi, nel suo dogma infallibile
Pregherà: - Dio l’abbia in gloria.
Qual è l'amico che dentro di sé
Penserà? - Andrà tutto bene...
Chi sarà la strana figura
Appoggiata ad un tronco d’albero
Con uno sguardo freddo e un’aria dubbiosa?
Chi mi vorrà abbracciare
Tanto che la si dovrà allontanare?
 
Chi pagherà le esequie e i fiori
Se morirò d’amore?

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Pablo Picasso
Evocazione o La sepoltura di Casagemas (1901)
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Soneto da rosa tardia


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Soneto da rosa tardia
Sonetto della rosa tardiva


Como uma jovem rosa, a minha amada...
Morena, linda, esgalga, penumbrosa
Parece a flor colhida, ainda orvalhada
Justo no instante de tornar-se rosa.

Ah, porque não a deixas intocada
Poeta, tu que és pai, na misteriosa
Fragrância do seu ser, feito de cada
Coisa tão frágil que perfaz a rosa...

Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste
Agora que ela é rosa comovida
De ser na tua vida o que buscaste

Tão dolorosamente pela vida?
Ela é rosa, poeta... assim se chama…
Sente bem seu perfume... Ela te ama...

Come una tenera rosa, la mia amata…
Bruna, bella, sottile, scontrosa
Pare il fiore reciso, ancor cosparso di rugiada
Proprio nell’attimo di tramutarsi in rosa.

Ah, perché non la lasci inviolata
Poeta, tu che sei padre, nella misteriosa
Fragranza della sua natura, ingentilita
Da ogni fragile cosa che perfeziona la rosa…

Ma (mi dice una Voce) perché lasciarla nel roseto
Ora che è una rosa emozionata
D’essere nella tua vita ciò che hai cercato

Così penosamente nel corso della vita?
Lei è rosa, poeta… così si chiama…
Immergiti nel suo profumo… Lei ti ama…

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Alex Katz
Rose Bud (2018)
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Soneto da hora final


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Soneto da hora final
Sonetto dell’ora finale


Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: — Não tenhas medo
E tu, tranquila, me dirás: — Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente triste e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.

Sarà così, amica: un bel giorno
Mentre assorti scruteremo il ponente
Ci sfiorerà il viso, repentinamente
Il bacio lieve d’un vento notturno.

Tu mi guarderai silenziosamente
Ed io pure ti guarderò, con nostalgia
E partiremo, storditi di poesia
Verso l’arcana porta dischiusa lì di fronte.

Nel superare le frontiere del Mistero
Io, calmo, ti dirò: — Non aver paura
E tu, tranquilla, mi dirai: — Sii forte.

E come due vecchi innamorati
Notturnamente tristi ed abbracciati
Noi entreremo nei giardini della morte.

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Calcedonio Reina
Amore e morte (1881)
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Poema enjoadinho


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Poema enjoadinho
Poesia un po’ lagnosa


Filhos . . . Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete . . .
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los . . .
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Figli... Figli?
Non averne è meglio!
Però se non ne abbiamo
Come si fa a saperlo?
Se non ne abbiamo
Chi ci fa visita
Troppo silenzio
Quanto li vogliamo!
Bagno di mare
È un toccasana, pare...
La moglie vola
Attraversa lo spazio
Manda giù l’acqua
È un po’ salata
Ma ricca di iodio
Dopo, che bella
Così abbronzata
Che è la sposa!
Risultato: un figlio.
Ed ecco che inizia
La scocciatura:
La cacca è bianca
La cacca è nera
Beve ammoniaca
Mangia un bottone
Figli? Figli
Non averne è meglio!
Notti d’insonnia
Capelli bianchi
Pianti convulsi
Mio Dio, salvalo!
I figli sono il diavolo
Non averne è meglio...
Però se non ne abbiamo
Come si fa a saperlo?
Come sapere
Come son soffici
I loro capelli
Che odore tiepido
Ha la loro carne
Che dolce sapore
Ha la loro bocca!
Ciucciano il rasoio
Bevono lo shampoo
Danno fuoco
Al quartiere
Però, che cosa
Che cosa folle
Che cosa bella
Che sono i figli!

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Bernardo Balestrieri
Bimbo che piange (1955)
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O tempo nos parques


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O tempo nos parques
Il tempo nei parchi


O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante,
imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.

O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo
nos parques.

O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.

O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.

Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.

Il tempo nei parchi è intimo, improrogabile, noncurante,
immarcescibile.
Medita tra le alte fronde, sull’ultimo ramo della palma
Sulla grande pietra intatta, il tempo nei parchi.

Il tempo nei parchi medita sullo sguardo cieco dei laghi
Dorme negli anfratti, s’isola nei chioschi
Si cela nel tronco muscolare dei ficus, il tempo nei
parchi.

Il tempo nei parchi crea il silenzio dal pigolio dei passeri
Dal passare dei passi, dal colore che si muove distante.
È sublime, antico, profetico il tempo nei parchi
È incorruttibile; il preludio d’una brezza
L’agonia d’una foglia, l’aprirsi d’un fiore
Lasciano un fremito nello spazio del tempo nei parchi.

Il tempo nei parchi racchiude in campane di vetro
Quelli che si amano; perpetua gli aneliti, pietrifica
I gesti, narcotizza i sogni, il tempo nei parchi.

Sugli uomini dormienti, sui ponti nascosti, sulla chioma
Dei salici, sulla volta celeste il tempo perdura
Nei parchi; e il piccolo aguti coglie di sorpresa
L’immobilità antecedente questo tempo nel mondo
Perché immobile, elementare, autentico, profondo
È il tempo nei parchi.

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Paul Cezanne
Il grande pino (1889)
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