Visualizzazione post con etichetta Carlos Drummond de Andrade. Mostra tutti i post
Visualizzazione post con etichetta Carlos Drummond de Andrade. Mostra tutti i post

Procura da poesia


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
A rosa do povo (1945) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Procura da poesia
La ricerca della poesia


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais
 não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso
 à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus  sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é movimento das máquinas nem o segredo
 das casas.
Não é música ouvida de passagens; rumor do mar nas
 ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada
 significam.
A poesia (não tires poesias das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não perca tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de
 família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário,
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada 
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Non fare versi sopra gli avvenimenti.
Non v’è creazione né morte davanti alla poesia.
Davanti a lei, la vita è un sole estatico,
non riscalda né dà luce.
Le affinità, i compleanni, gli episodi personali non
 contano.
Non fare poesia col corpo,
questo eccellente, completo e confortevole corpo, tanto
 nocivo all’effusione lirica.

La tua goccia di fiele, la smorfia di piacere o di dolore al buio
sono indifferenti.
E non rivelarmi i tuoi sentimenti,
che, approfittando dell’equivoco, tentano il lungo viaggio.
Ciò che tu pensi e senti, tutto questo ancora non è poesia.

Non cantare la tua città, lasciala in pace.
Il canto non è movimento di macchinari né il segreto delle
 case.
Non è musica ascoltata di sfuggita; rumore del mare per le
 vie lungo il bordo di spuma.

Il canto non è la natura
né gli uomini in società.
Per lui, pioggia e notte, stanchezza e speranza non hanno
 significato.
La poesia (non estrarre poesie dalle cose)
annulla soggetto e oggetto.

Non drammatizzare, non supplicare,
non investigare. Non perder tempo fingendo.
Non t’infastidire.
Il tuo yacht d’avorio, la tua scarpetta di diamante,
le vostre mazurche e superstizioni, i vostri scheletri di
 famiglia
svaniscono nella curva del tempo, è roba inconcludente.

Non ricostruire
la tua triste infanzia, morta e sepolta.
Non tentennare tra lo specchio e la
memoria a profusione.
Che s’è dissolta, perché non era poesia.
Che s’è infranto, perché non era cristallo.

Penetra segretamente nel regno delle parole.
Sono là le poesie che attendono d’esser scritte.
Sono paralizzate, ma senza disperazione,
c’è quiete e frescura sulla superficie inviolata.
Eccole sole e silenti, allo stato di dizionario,
Convivi con le tue poesie, prima di scriverle.
Sii paziente, se ermetiche. Calmo, se ti provocano.

Aspetta che ognuna si concretizzi e consumi
con la sua potenzialità di parola
e la sua facoltà di silenzio.
Non costringere la poesia a discostarsi dal limbo.
Non raccattare da terra la poesia smarrita.
Non adulare la poesia. Accettala
come le accetterà il suo aspetto definitivo e inquadrato 
nello spazio.

Vai più vicino e osserva le parole.
Ognuna
ha mille facce nascoste sotto la faccia neutra
e ti domanda, indifferente alla risposta,
misera o terribile, che le darai:
Hai portato la chiave?

Ma fai attenzione:
prive di melodia e concetto,
si son rifugiate nella notte, le parole.
Ancora umide e intrise di sonno,
precipitano in un fiume difficile e si tramutano in disprezzo.

________________

František Kupka
Accompagnamento sincopato (1928-1930)
...

A um Ausente


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Farewell (1996) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


A um Ausente
A un assente


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste?

Ho ragione di sentir rimpianto,
ho ragione di accusarti.
C’è stato un patto implicito che hai rotto
e senza congedarti sei andato via.
Hai mandato all’aria il patto.
Hai mandato all’aria la vita in generale,
il comune accordo di vivere e di esplorare i sentieri del buio
senza scadenza senza consultazione senza provocazione
finché fosse giunta l’ora giusta per le foglie di cadere.

Hai anticipato quel momento.
Le tue lancette sono impazzite, sono impazziti i nostri momenti.
Che avresti potuto fare di più grave
che un atto senza prosieguo, l’atto in sé,
quell’atto che non osiamo né sappiamo osare
perché dopo non rimane altro che il nulla?

Ho ragione di sentire rimpianto per te,
per la nostra intimità fatta di fraterne conversazioni,
di semplici strette di mano, ma neanche, di voci
che articolavano sillabe logore e banali
che infondevano sempre certezza e sicurezza.

Sì, provo rimpianto.
Sì, ti accuso per aver fatto
quel che non è previsto dalle leggi dell’amicizia e della natura
e non ci hai neanche lasciato il diritto d’indagare
perché l’hai fatto, perché te ne sei andato?

________________

Leo Santana
Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava (2003)
...

A Casa do Tempo Perdido


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Farewell (1996) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


A casa do tempo perdido
La casa del tempo perduto


Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.

Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.

Ho bussato alla porta del tempo perduto, non c’era nessuno.
Ho bussato una seconda volta e un'altra e un'altra ancora.
Nessuna risposta.
La casa del tempo perduto è coperta d’edera
per metà; l'altra metà sono ceneri.

Casa dove non sta nessuno, ed io che busso e chiamo
col dolore di chiamare e non essere udito.
Semplicemente bussare. L'eco rimanda
la mia ansia di schiudere queste dimore gelate.
La notte e il giorno si mescolano nell’attesa,
nel bussare e bussare.

Il tempo perduto di certo non esiste.
È questa grande casa vuota e condannata.

________________

Marcel Duchamp
Étant donné... (particolare) (1946-1966)
...

O tempo passa? Não passa...


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Amar se Aprende Amando (1985) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


O tempo passa? Não passa...
Il tempo passa? Non passa...


(pelo Aniversario)

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.

(per il compleanno)

Il tempo passa? Non passa
nell’abisso del cuore.
Là dentro, perdura la grazia
dell’amore e fiorisce in canzone.

Il tempo ci avvicina
sempre di più, ci riduce
ad un unico verso, a una rima
di mani e di occhi, nella luce.

Non esiste tempo scaduto
né tempo da economizzare.
Il tempo è tutto vestito
d’amore e di tempo d’amare.

Il mio tempo e il tuo, o mia bella,
trascendono qualunque misura.
Al di là dell’amore, non v’è nulla,
amare è l’essenza della vita.

Sono miti da calendario
sia il passato che il presente,
e il tuo anniversario
è un nascere ad ogni momento.

E il nostro amore, che è nato
dal tempo, non possiede età,
poiché solo chi ama ha udito
l’appello dell’eternità.

________________

Edvard Munch
Il bacio (1897)
...

Além da Terra, além do Céu


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Amar se Aprende Amando (1985) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Além da Terra, além do Céu
Al di là della Terra, al di là del Cielo


Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.

Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!

vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Al di là della Terra, al di là del Cielo,
sul trampolino dell’infinito delle stelle,
sulla scia degli astri,
nella magnolia delle nebulose.
 
Al di là, molto al di là del sistema solare,
fin dove si spingono il pensiero e il cuore,
andiamo!
 
Andiamo a coniugare
il verbo fondamentale essenziale
il verbo sovrumano, al di sopra delle grammatiche
e della paura e del denaro e della politica,
il verbo sempreamare,
il verbo pluriamare,
ragione d’essere e di vivere.

________________

František Kupka
Primavera cosmica (1913-1914)
...

Verdade


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Corpo (1984) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Verdade
Verità


A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

La porta della verità era aperta,
ma non lasciava passare che
mezza persona per volta.

Così non era possibile cogliere tutta la verità,
perché la mezza persona che entrava
recava con sé solo il profilo di mezza verità.

E la sua seconda metà
mostrava ugualmente mezzo profilo.
E i mezzi profili non coincidevano.

Sfondarono la porta. Abbatterono la porta.
Giunsero in un luogo luminoso
dove la verità risplendeva nel suo fulgore.
Era spartita in due metà,
differenti l’una dall’altra.

S’arrivò a discutere su quale fosse la metà più bella.
Nessuna delle due era completamente bella.
E si doveva scegliere. Ciascuno scelse sulla base
del suo capriccio, della sua illusione, della sua miopia.

________________

Manolo Valdés
Dorothy (2016)
...

Ausência


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Corpo (1984) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Ausência
Assenza


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus
braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Pensai per molto tempo che l’assenza fosse mancanza.
E m’affliggevo, ignorante, per la mancanza.
Oggi non m’affliggo.
Non c’è mancanza nell’assenza.
L’assenza è un modo di stare in me.
E la sento, bianca, così intima, rannicchiata tra le
mie braccia,
che rido e ballo e invento esclamazioni allegre,
perché l’assenza, questa assenza assorbita,
mai più nessuno me la porterà via.

________________

Aldo Mondino
Derviscio (2000)
...

As sem-razões do Amor


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Corpo (1984) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


As sem-razões do Amor
Le non-ragioni dell’Amore


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Io ti amo perché ti amo,
Non c’è bisogno d’essere amante,
e non sempre si sa d’esserlo.
Io ti amo perché ti amo.
Amore è uno stato di grazia
che con amore non si ripaga.

L’amore si dà gratuitamente,
è disseminato nel vento,
nella cascata, nell’eclisse.
L’amore sfugge ai dizionari
e ai regolamenti vari.

Io ti amo perché non amo
abbastanza o troppo me stesso.
Perché l’amore non si scambia,
non si coniuga né si ama.
Perché l’amore è amore per niente,
felice e forte di per sé.

L’amore è cugino della morte,
e sulla morte trionfa,
malgrado lo uccidano (e lo uccidono)
in ogni istante d’amore.

________________

Tarsila do Amaral
Manacá (1927)
...

Visão de Clarice Lispector


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Discurso de Primavera e Algumas Sombras (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Visão de Clarice Lispector
Visione di Clarice Lispector


Clarice
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são joias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.

Clarice
venuta da un mistero, partita per un altro.

E noi rimaniamo all’oscuro dell’essenza del mistero.
Oppure il mistero non era essenziale,
c’era Clarice ad esplorarlo.

C’era Clarice a rovistare laggiù nel profondo,
dove pare che la parola trovi
la sua ragion d’essere, e fotografi l’uomo.

Quel che Clarice disse, quel che Clarice
visse per noi sotto forma di storia
sotto forma di sogno d’una storia
sotto forma di sogno del sogno d’una storia
(c’era di mezzo una blatta
o un angelo?)
non riusciamo a ripeterlo né a inventarlo.
Sono cose, sono gioielli personali di Clarice
che noi prendiamo in prestito, lei regala di tutto.

Clarice non fu un luogo comune,
carta d’identità, ritratto.
De Chirico la dipinse? Ma certo.

Il ritratto più puro di Clarice
lo si può trovare al di là della nube
che l’aereo attraversò, non lo si avverte più.

Di Clarice conserviamo i gesti. Gesti,
tentativi di Clarice di sfuggire a Clarice
per farsi uguale a tutti noi
in cortesia, riguardi, precauzioni.
Clarice non fuggì, pur sorridendo.
Dentro di lei
quel che c’era in forma di saloni, scalinate,
soffitti fosforescenti, vaste steppe,
cupole, ponti di Recife avvolti nella nebbia,
formava un paese, il paese in cui Clarice
viveva, sola e ardente, costruendo favole.

Non potevamo trattenere Clarice sul nostro terreno
cosparso di compromessi. Gli impegni,
le incombenze parlavano al presente,
pubblicazioni, probabili cocktail
sull’orlo dell’abisso.
Aleggiando al di sopra dell’abisso Clarice incideva
un solco rosso e grigio nell’aria e affascinava.

Ci affascinava, appena.
Aspettammo di comprenderla più tardi.
Più tardi, un giorno... sapremo amare Clarice.

________________

Giorgio de Chirico
Ritratto di Clarice Lispector (1945)
...

A palavra mágica


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Discurso de Primavera e Algumas Sombras (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


A palavra mágica
La parola magica


Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

C’è una parola che dorme all’ombra
di un libro raro.
Come toglier l’incanto?
È il fulcro della vita
il fulcro del mondo.
Andrò a cercarla.
 
La cercherò per tutta la vita
per il mondo intero
Se l’incontro tarda, se io non l’incontro,
non mi perdo d’animo,
Seguito a cercare.
 
La cerco sempre, e la mia ricerca
finirà con l’essere
la mia parola.

________________

Albrecht Dürer
Disegno di mani (1506)
...

Amor e seu tempo


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
As Impurezas do Branco (1973) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Amor e seu tempo
L’amore e il suo tempo


Amor é privilégio de maduros
Estendidos na mais estreita cama,
Que se torna a mais larga e mais relvosa,
Roçando, em cada poro, o céu do corpo.
 
É isto, amor: o ganho não previsto,
O prêmio subterrâneo e coruscante,
Leitura de relâmpago cifrado,
Que, decifrado, nada mais existe
 
Valendo a pena e o preço do terrestre,
Salvo o minuto de ouro no relógio
Minúsculo, vibrando no crepúsculo.
 
Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência
Herdada, ouvida. Amor começa tarde.

L’amore è privilegio dei maturi
Distesi sopra un letto stretto stretto,
Che diviene larghissimo ed erboso,
Sfiorando tutto il corpo, poro a poro.
 
Questo è l’amore: vincita imprevista,
È premio sotterraneo e splendente,
Lettura d’un fulmine cifrato, che
Decifrato dice, nulla più esiste
 
Che valga la pena della condizione terrena,
Salvo quell’attimo d’oro sull’orologio
Minuscolo, che vibra verso il tramonto.
 
Amore è quel che s’impara al termine,
Dopo aver archiviato tutta la scienza
Appresa, acquisita. Tardi comincia amore.

________________

Sarcofago degli Sposi
(tomba etrusca del VI secolo a.C)
...

Lagoa


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Fazendeiro do ar (1954) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Lagoa
Stagno


Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar. Eu vi a lagoa...

Io non ho visto il mare.
Non so se il mare è bello,
e non so se è crudele.
Del mare non m’importa.

Io ho visto lo stagno.
Lo stagno, sì.
Lo stagno è grande
Ed anche calmo.

Nella pioggia di colori
della sera che esplode
lo stagno brilla
lo stagno si tinge
di tutti i colori.
Io non ho visto il mare. Io ho visto lo stagno...

________________

Linda Yurgensen
Pesci nello stagno (2012)
...

Ser


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Claro enigma (1951) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Ser
Essere


O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apoia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te

como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.

Il figlio che non ho fatto
oggi sarebbe un uomo.
E corre nella brezza,
senza carne né nome.
 
Talvolta io lo incontro
in un incontro di nube.
Accosta alla mia spalla
la spalla che non c’è.
 
Domando a mio figlio,
oggetto fatto d’aria:
in che cavità o grotta
tu ti conservi astratto?
 
Là dove io giacevo,
mi risponde il respiro,
tu non m’hai percepito,
malgrado ti chiamassi

come tuttora ti chiamo
(oltre, oltre l’amore)
dove nulla, tutto
aspira a crearsi.
 
Il figlio che non ho fatto
si fa tutto da solo.

________________

Gerhard Kurt Müller
Fantasma (2002)
...

Memória


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Claro enigma (1951) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Memória
Memoria


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Amar ciò ch’è perduto
lascia smarrito
questo mio cuore.
 
Non può niente l’oblio
contro l’incoerente
appello del No.
 
Le cose tangibili
diventano insensibili
sul palmo della mano.
 
Ma le perdute cose,
ancor più fascinose,
rimarranno in noi.

________________

Man Ray
Mano e frutti (1971)
...

Amar


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Carlos Drummond de Andrade »»
 
Claro enigma (1951) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Amar
Amare


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuido pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Che altro può una creatura se non,
tra creature, amare?
amare e dimenticare, amare e amar male
amare, disamare, amare?
sempre, e anche con occhi vitrei, amare?

Che altro può, mi domando, l’essere amoroso,
da solo, in rotazione universale,
se non ruotare insieme, e amare?
amare ciò che il mare trascina alla spiaggia,
ciò che interra, e ciò che, nella brezza marina,
è sale, o esigenza d’amore, o ansia pura?

Amare solennemente le palme del deserto,
ciò che è offerta o attesa d’adorazione,
e amare l’inospitale, l’aspro,
un vaso senza fiori, un suolo di ferro,
e il petto immoto, e la via apparsa in sogno, e
un uccello rapace.

Questo il nostro destino: amore senza limiti,
distribuito tra cose perfide o irrilevanti,
donazione incondizionata a una completa ingratitudine,
e nella conchiglia vuota dell’amore la ricerca timorosa,
paziente, di amore e ancor più amore.

Amare la nostra stessa carenza d’amore,
e nella nostra aridità amare l’acqua implicita,
e il bacio tacito, e la sete infinita.

________________

Marc Chagall
Io e il mio paese (1911)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (364) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (16) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)