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Elogios de Mahommah Gardo Baquaqua


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Elogios de Mahommah Gardo Baquaqua
Elogi di Mahommah Gardo Baquaqua


Lei Áurea
   (...) o negro agora era livre para escolher
  a ponte sob a qual preferia morrer.

  Discurso do senador negro Abdias do
  Nascimento (PDT-RJ) em 13/05/2013.

Fecharam as senzalas
&
encheram as prisões.

Fecharam as senzalas
&
lotaram as favelas.

Aposentaram a chibata
&
agora lhes descem o pau.

Pararam com as bofetadas
&
hoje lhes chutam o saco.

Desistiram da meia tigela,
&
agora os matam de fome.

Esvaziaram as plantações,
&
agora eles moram sem teto.

Despovoaram as minas
&
agora não têm trabalho.

Pararam com os estupros
&
hoje as comem na zona.

Os trataram com desprezo
&
hoje sem a menor estima.

Negaram-lhes a liberdade
&
hoje não têm nenhuma.

Ficou seis por meia dúzia
&
tudo do mesmo tamanho.
Legge Aurea
  (...) il negro adesso era libero di scegliere
  il ponte sotto il quale preferiva morire.

  Discorso del senatore negro Abdias do
  Nascimento (PDT-RJ) il 13/05/2013.

Han chiuso le baracche
&
han riempito le prigioni.

Han chiuso le baracche
&
hanno affollato le favelas.

Han pensionato la frusta
&
adesso li prendono a legnate.

Han smesso coi ceffoni
&
oggi son calci nelle palle.

Non danno più la mezza ciotola,
&
ora li fanno morir di fame.

Han svuotato le piantagioni,
&
ora vivono senza un tetto.

Han dismesso le miniere
&
ora sono senza lavoro.

Han smesso con gli stupri
&
oggi le sbattono nel bordello.

Li han trattati con disprezzo
&
oggi senza la minima stima.

Gli han negato la libertà
&
oggi non ne hanno alcuna.

Siamo punto e a capo
&
tutto è uguale a prima.
________________

Wallace Pato
Escravos (2020)
...

Elogios de Nicanor Parra - II


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Elogios de Nicanor Parra - II
Elogi di Nicanor Parra - II


Aritmética da lama
(Brumadinho - MG, janeiro de 2019)

Independentemente
das centenas de desaparecidos,
e dos corpos soterrados,
jovens, grávidas e crianças,
as gargantas entupidas de densa lama.
Independentemente
da destruição da paisagem,
dos rios, da fauna e da flora.
Quanto vocês pensam que custa,
em dinheiro vivo e sonante,
a construção de uma barragem?
Barragens custam caro.
Quanto mais seguras, mais caras.
E a manutenção de milhares de funcionários,
com suas famílias, numerosas,
funcionários insubmissos e indolentes?
Quanto vocês pensam que custa manter
uma grande empresa,
e seu nome no mercado,
sua estabilidade na bolsa?
Uma bagatela?
São enormes investimentos.
E os impostos pagos para os municípios,
os estados e o país?
Commodities viram dinheiro.
E o que se gastará com indenizações e enterros,
missas e coroas de flores?
Uma fortuna!
Além do que já fazemos,
e das propinas,
e dos laudos prontos
pagos a peso de ouro
(e não de ferro).

Em nome de Deus!
E do tempo perdido
em explicações inúteis,
para a imprensa,
os familiares insaciáveis?
O dinheiro não só fala,
como faz muita gente calar a boca.
Quase quatrocentos mortos.
Doação de cem mil para a família
de cada soterrado vivo.
Sem falar nas despesas que virão!


Independentemente
de qualquer outra coisa,
sejamos um pouco sensatos,
minimamente sensatos,
por favor:
é só fazer uma mísera regra de três.


Aritmetica del fango
(Brumadinho - MG, gennaio 2019)

Indipendentemente
dalle centinaia di dispersi,
e dai corpi sotterrati,
giovani, gravide e bambini,
con le gole intasate dal fango denso.
Indipendentemente
dalla distruzione dell’ambiente,
dei fiumi, della fauna e della flora.
Voi quanto pensate che costi,
in moneta viva e sonante,
la costruzione di una diga?
Le dighe costan caro.
E più sono sicure, più son care.
E il mantenimento di migliaia di funzionari,
con le loro famiglie, numerose,
funzionari insubordinati e indolenti?
Voi quanto pensate che costi mantenere
una grande impresa,
e il suo nome sul mercato,
la sua stabilità in borsa?
Una bazzecola?
Sono enormi investimenti.
E le imposte dovute ai municipi,
agli stati e al paese?
Le “commodities” richiedono denaro.
E quel che si dovrà scialare fra indennizzi e funerali,
messe e corone di fiori?
Una fortuna!
Oltre a ciò che abbiamo già fatto,
e oltre alle tangenti,
e alle perizie sollecite
pagate a peso d’oro
(e non di ferro).

In nome di Dio!
E del tempo perduto
in spiegazioni inutili,
per l’impresa,
per i familiari insaziabili?
Il denaro non solo parla,
ma riesce a far tacere tanta gente.
Quasi quattrocento morti.
Elargizione di centomila per la famiglia
di ogni sepolto vivo.
Senza parlare delle spese che seguiranno!


Indipendentemente
da qualunque altra cosa,
siamo un po’ sensati,
minimamente sensati,
per favore:
basta applicare una semplice regola del tre.

________________

Casa sotto il fango di Brumadinho
Foto: Jeso Carneiro (febbraio 2019)
...

Elogios de Fernando Pessoa - IV


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Elogios de Fernando Pessoa - IV
Elogi di Fernando Pessoa - IV


Cartas de amor
  Nunca amamos ninguém.
  Amamos, tão somente,
  a ideia que fazemos de alguém.
  É a um conceito nosso - em suma,
  é a nós mesmos - que amamos.

   Fernando Pessoa

Ridículas não são apenas as cartas de amor,
qualquer carta de amor.
Ainda mais ridícula
é a inveja de nunca as ter escrito.
Ridículos somos nós,
todos nós,
e as nossas vidas miseráveis.
Não há como separar as coisas:
ser ridículo de espírito
e desfilar nobreza.
Ser mesquinho de gestos
e se desejar sublime.
Lettere d’amore
  Non amiamo mai nessuno.
  Amiamo, unicamente,
  l’idea che ci facciamo di qualcuno.
  È un nostro concetto - insomma,
  è noi stessi - che amiamo.

   Fernando Pessoa

Ridicole non sono solo le lettere d’amore,
qualunque lettera d’amore.
Ancora più ridicolo
è il livore per non averne mai scritte.
Ridicoli siamo noi,
tutti noi,
e le nostre miserabili vite.
Non c’è modo di separare le cose:
essere povero di spirito
e ostentare nobiltà.
Essere meschino nei gesti
e aspirare al sublime.
________________

Thomas Benjamin Kennington
La lettura della lettera (1885)

Elogios de Fernando Pessoa - III


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Elogios de Fernando Pessoa - III
Elogi di Fernando Pessoa - III


Pôr do sol
  Um poente é um fenômeno intelectual
    Fernando Pessoa

Ainda ontem me chamaram para ver o pôr do sol.
Há pores de sol desde que o mundo é mundo.
Ficamos maravilhados
com a dramaturgia planetária,
talvez como os primeiros macacos
quando viram uma estrela cadente.

Hélio leva o carro do Sol
para banhar os cavalos no oceano,
e abre os caminhos da noite.
A barca solar mergulha na escuridão
lutando contra os monstros
que lhe impedem o renascimento.

Desde a Grécia, passaram-se
mais de 720.000 pores de sol,
cada um mais deslumbrante que o outro?
Até que meus olhos pudessem
perceber a perfeição de um deles.
Deste, que embriagado e reles,
me levaram para eu visse.
Tramonto
  Un tramonto è un fenomeno intellettuale
    Fernando Pessoa

Proprio ieri m’hanno chiamato per vedere il tramonto.
Ci sono tramonti da che mondo è mondo.
Rimaniamo strabiliati
davanti alla drammaturgia planetaria,
forse proprio come le prime scimmie
quando videro una stella cadente.

Elio conduce il carro del Sole
per far bagnare i cavalli nell’oceano,
e apre le strade della notte.
Il cocchio solare s’immerge nell’oscurità
lottando contro i mostri
che gl’impediscono di rinascere.

Dai tempi dell’antica Grecia son passati
ben più di 720.000 tramonti,
uno più incantevole dell’altro?
Solo perché i miei occhi potessero
cogliere la perfezione di uno d’essi.
Di questo, che da ubriaco e incompetente,
mi hanno mostrato perché io lo vedessi.
________________

Félix Vallotton
Tramonto, alta marea (1911)

Elogios de Charles Baudelaire - II


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Elogios de Charles Baudelaire - II
Elogi di Charles Baudelaire - II


Eu falo de rameiras cansadas
  O meretrício brilha ao longo das calçadas
    As Flores do Mal

I
Eu falo de rameiras cansadas,
(faces amassadas de sono)
as longas pestanas azuis
roídas pela madrugada.
Eu falo de travestis agachados
mijando feito mulheres.
Eu falo do tropel de rufiões,
cicatrizes
e fundas navalhadas.

II
Eu canto os bordéis,
os subúrbios,
o trottoir na Afonso Pena,
as putas como vasos expostos
em longas e escandalosas vitrinas.
Eu falo dos aglomerados,
das favelas cercadas
pela incompreensão urbana.

(E açougueiros assomam nos balções,
os aventais sujos de sangue.
E homens exaustos ressonam
nas portas das barbearias).
Io parlo di battone sfinite
  E la prostituzione si accende sulle vie
    I Fiori del Male

I
Io parlo di battone sfinite,
(facce stravolte dal sonno)
le lunghe ciglia blu
stropicciate dalla nottata.
Io parlo di travestiti accovacciati
a pisciare come le donne:
Io parlo del chiasso dei ruffiani,
cicatrici
e coltellate profonde.

II
Io canto i bordelli,
i suburbi,
il marciapiede dell’Afonso Pena
le puttane come vasi in bella mostra
in lunghe e scandalose vetrine.
Io parlo degli agglomerati,
delle favelas assediate
dall’incomprensione urbana.

(E i macellai si sporgono dai banconi,
i grembiuli sporchi di sangue.
E uomini esausti ronfano
sulle soglie delle barbierie).
________________

Otto Dix
Tre prostitute per strada (1925)

Elogios de Charles Baudelaire - I


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Elogios de Charles Baudelaire - I
Elogi di Charles Baudelaire - I


Os mortos

Nas desoladas noites dos cemitérios
os mortos fumam maconha.
E são tão grandes as suas tristezas
que não cabem nas tumbas úmidas.
Se levantam, então, dos estreitos caixões
onde esquecidos bóiam,
e descem gelados
pelos espessos caminhos da memória.
São humildes como os cães de igreja.
Vêm com o vento e batem tímidos
à minha, à tua porta.
Em vão, perguntas no escuro: – Quem é?
Não te respondem,
mas já estão ao teu lado.

Amantes traídos,
remexem em velhos baús
daguerreótipos empoeirados.
Passeiam obsessivos chinelos pela sala.
Depois,
no pouco tempo que lhes resta,
revivem detalhes,
namoram tua face,
enquanto dormes.

E mal nascem as luzes sobre o vale,
se recolhem ainda mais tristes,
ao seu estranho país das flores de pedra,
mas seus corações enormes
ainda batem nas covas,
sob sete pesados palmos de terra.
I morti

Nelle desolate notti dei cimiteri
i morti fumano erba.
E così grandi sono le loro tristezze
da non star dentro alle tombe umide.
Si alzano, allora, dalle strette bare
ove dimenticati giacciono,
ed escono gelati
lungo gli spessi sentieri della memoria.
Sono umili come i cani in chiesa.
Arrivano col vento e bussano timidi
alla mia, alla tua porta.
Invano, al buio tu chiedi: – Chi è?
Non ti rispondono,
ma già ti stanno accanto.

Amanti traditi,
rovistano nei vecchi bauli
tra dagherrotipi impolverati.
Vagano, ciabattando ossessivi, per la sala.
Poi,
nel poco tempo che rimane,
rivivono dettagli,
vezzeggiano il tuo viso,
mentre dormi.

E allo spuntare della luce sulla valle,
si radunano ancora più tristi,
nel loro strano paese dei fiori di pietra,
ma i loro cuori enormi
ancora battono nelle fosse,
sotto sette pesanti palmi di terra.
________________

Sergio Padovani
Atto di dolore (2023)

Elogios de Franz Kafka - II


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Elogios de Franz Kafka - II
Elogi di Franz Kafka - II


Odradek

Cabem a um pai de família
inúmeras tribulações,
penoso rol de atitudes
que exigem perseverança.
Ninguém desconhece,
mas tudo parecia bem
até surgir Odradek.
Com efeito, não é tão simples:
não se sabe se ele é, foi ou será.
E nem mesmo se surgiu,
se esteve sempre aqui,
ou se irà embora.

Alguns o comparam a um carretel,
no formato de dupla estrela.
Seu recheio com linhas coloridas,
provindas de fiapos emendados,
lhe dá uma desajeitada aparência.
Na verdade, conforme se apresenta,
não constitui um ser muito exato.
É mais propriamente um treco.
Fulustreco. Estrovenga.
Talvez mesmo um mondrongo
respirando com dificuldade.
Criaturinha monossilábica,
vive sem compromissos,
mas não faz mal a ninguém,
embora lembre uma criança atrevida
quando lhe perguntam qualquer coisa.

Nunca ocupa um cômodo definido,
aparecendo em qualquer lugar.
Às vezes penso que pode ser meu filho.
Um filho perdido,
filho que esqueci quase por completo,
e que hoje me causa dolorosa impressão:
– Só espero que morra antes de mim!
Odradek

Spettano a un padre di famiglia
infinite tribolazioni,
ruolo penoso di attitudini
che esigono perseveranza.
Nessuno lo ignora,
ma tutto pareva regolare
finché spuntò Odradek.
In effetti, non è così semplice:
non si sa se egli è, se fu o sarà.
E neppure se è spuntato,
se è sempre stato qui,
o se mai se ne andrà.

Alcuni lo paragonano a una spoletta,
a forma di doppia stella.
La sua parte interna a righe colorate,
originate da fili strappati,
gli dà un aspetto ingarbugliato.
In realtà, per come si presenta,
non costituisce un essere ben definito.
È più propriamente un affare.
Bazzecola. Quisquilia.
Forse anche un mostriciattolo
che respira con difficoltà.
Creaturina monosillabica,
vive senza restrizioni,
ma non fa male a nessuno,
benché ricordi un bimbo insolente
quando gli domandano qualcosa.

Non occupa mai un locale definito,
essendo presente in qualunque luogo.
Penso alle volte che possa essere mio figlio.
Un figlio perduto,
figlio quasi del tutto dimenticato,
e che oggi mi dà una sensazione penosa:
– Spero soltanto che muoia prima di me!
________________

Jeff Wall
Odradek (dettaglio di "Morning Cleaning", 1999)
Mies van der Rohe Foundation, Barcelona

Elogios de Franz Kafka - I


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Elogios de Franz Kafka - I
Elogi di Franz Kafka - I


Uma gralha descrente
  As gralhas afirmam que basta uma
  para destruir o céu.
  Não há dúvida quanto a isso,
  mas não prova nada contra o céu,
  pois os céus significam justamente
  a impossibilidade das gralhas.

  Aforismos reunidos (32), Franz Kafka

Sou um estrangeiro dentro da família.
Sou um estrangeiro diante de meu pai.
Estrangeiro na sinagoga,
estrangeiro nas cidades,
estrangeiro no emprego.
Gralha sem ninho,
também não me sinto leve e ave,
mas viro um inseto monstruoso
no lugar de Gregório Samsa,
e sou um focinho farejando numa toca.

Posso ser trapezista sem esperança,
uma gaiola à procura de um pássaro,
a boneca perdida de uma criança,
um construtor da Torre de Babel,
um operário nas Muralhas da China,
um carretel chamado Odradek,
una rata que atende por Josefina.
Posso ser o ator que, para ganhar a vida,
morreu de jejum esquecido numa jaula.
Posso ser esse Artista da Fome,
do último conto que escrevi,
já no leito de morte em Viena.

(Autor e personagem
agora são um só,
revisando o texto,
página por página,
enganando a fome
e a falta de ar:
sem poder engolir,
sem poder respirar.)
Una cornacchia miscredente
  Le cornacchie affermano che una sola
  cornacchia potrebbe distruggere il cielo.
  Questo è indubbio, ma non prova nulla
  contro il cielo, poiché i cieli
  significano appunto:
  impossibilità di cornacchie
  Aforismi (32), Franz Kafka

Sono uno straniero in famiglia.
Sono uno straniero di fronte a mio padre.
Straniero in sinagoga,
straniero in città,
straniero sul lavoro.
Cornacchia senza nido,
neppur mi sento lieve e alato,
ma mi trasformo in insetto mostruoso
al posto di Gregor Samsa,
e sono un musetto che fiuta in una tana.

Posso essere trapezista senza speranza,
una gabbia in cerca di un uccello,
la bambola perduta di una bimba,
un costruttore della Torre di Babele,
un operaio della Muraglia cinese,
una spoletta chiamata Odradek,
una topolina chiamata Josefina.
Posso esser l’attore che, per guadagnarsi da vivere,
è morto di digiuno dimenticato in una gabbia.
Posso essere quell’Artista della Fame,
dell’ultimo racconto che ho scritto,
già nel letto di morte a Vienna.

(Autore e personaggio
ora sono uno solo,
revisionando il testo,
pagina per pagina,
ingannando la fame
e la mancanza d’aria:
senza poter ingoiare,
senza poter respirare.)
________________

Maurits Cornelis Escher
Natura morta con specchio sferico (1934)

Elogios de Hilda Hilst - III


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Elogios de Hilda Hilst - III
Elogio di Hilda Hilst - III


  Uma coisa é ser herói pela graça de Deus,
  outra é sê-lo pela sua própria luta
  Carta a Greco, Nikos Kazantzákis

Se o tropel do amor for de loucas patas
Que eu suba a montanha e me equilibre
No abismo. Porque é do mais alto que
Se pode ver o mundo. E respirar puro.
O que na vida é arremedo e passagem
Não me agrada. Que contente a outros
Que de si pouco esperam. Ou nada.

Aqui a tarde morre em rutilâncias tais
Que me embriago. De vinho e de palavras.
E foi o que o destino e exílio me deram:
Poder amar, do meu jeito, e meditar,
Esta ponte entre a beleza e o palpável.
  Un conto è esser eroi per grazia di Dio,
  un altro è esserlo per la propria causa
  Carta a Greco, Nikos Kazantzákis

Se scalpitasse l’amore al gran galoppo
Ch’io possa salire sul monte e bilanciarmi
Sull’abisso. Perché è dal culmine che
Si domina il mondo. E s’inspira profondo.
Ciò che nella vita è apparenza e passaggio
Non mi garba. Che accontenti altri
Che da sé poco s’aspettano. O nulla.

Qui la sera si spegne in rutilanze tali
Da inebriarmi. Di vino e di parole.
Ed è ciò che il destino e l’esilio m’han dato:
Poter amare, a modo mio, e meditare,
Questo ponte tra la bellezza e il tangibile.
________________

Ernst Ludwig Kirchner
Davos in estate (1925)
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Elogios de Hilda Hilst - II


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Elogios de Hilda Hilst - II
Elogio di Hilda Hilst - II


Gosto do soluço do gargalo vertendo
uisque no copo. A flor do gelo.
O cheiro.
Um calor se espraia pelo mar do corpo. Ondas
de júbilo.
Baco é jubiloso.
Abre a larga ánfora do conforto e esconde as
nossas misérias. Distribui o riso.
E todos rimos.
Não um riso de adorno mas o que vem
lá de dentro. Do oco das vísceras.
O sorriso mais pleno. De ouro.
Do único animal que ri
e nenhum outro.
Amo il singulto del collo della bottiglia nel versare
whisky nel bicchiere. A fior del ghiaccio.
Il profumo.
Un calore s’espande per il mare del corpo. Onde
di gaudio.
Bacco è gaudioso.
Apre l’ampia anfora del conforto e nasconde le
nostre miserie. Distribuisce il riso.
E tutti ridiamo.
Non un riso decorativo ma quello che viene
da là dentro. Dall’incavo delle viscere.
Il sorriso più completo. D’oro.
Dell’unico animale che ride
e nessun altro.
________________

Umberto Boccioni
La risata (1911)

Elogios de Hilda Hilst - I


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Elogios de Hilda Hilst - I
Elogio di Hilda Hilst - I


Perpassa na brisa um leve sorriso
das coisas. Tudo parece contente
nesta manhã calma. Aérea.
Debaixo da figueira, na Casa do Sol,
onde permaneço forma-se uma bolha
de silêncio. Que ninguém vê.

Só eu também escuto as vozes
dos mortos chamando meu nome.

E nos olhos dos cães sempre percebo
a inquirição de Deus,
pois Ele também está nos seres mais
simples e em tudo Ele se oculta.
Minha casa e meu quintal são altares
onde ocorrem variados milagres,
e eu uma santa velha e desbocada
que se encanta bebe amaldiçoa e ri.
Aleggia nel vento il lieve sorriso
delle cose. Tutto appare contento
in questo calmo mattino. Aereo.
All’ombra del fico, nella Casa del Sole,
ove m’attardo si forma una bolla
di silenzio. Che nessuno vede.

Io sola però ascolto le voci
dei morti che chiamano il mio nome.

E negli occhi dei cani sempre avverto
lo sguardo inquisitore di Dio,
poiché Egli dimora anche negli esseri più
semplici e in tutto Egli s’occulta.
La mia casa e il mio giardino sono altari
ove avvengono diversi miracoli,
ed io una santa vecchia e sguaiata
che si esalta beve impreca e ride.
________________

Giacomo Balla
Dinamismo di un cane al guinzaglio (1912)

Improviso para Frederico


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Improviso para Frederico
Improvviso per Federico


Dentro do teu sonho - o violoncelo -
com seus graves e belos lamentos.
A música que Schopenhauer pensou
como a linguagem da vontade
na representação do mundo.
E que pulsava dentro da tua alma
sem que eu nada percebesse.
Ainda que fóssemos parecidos
na aparência e nos gestos,
pois quem te olhar caminhando
na rua, em qualquer rua,
e me conhecer um pouco,
saberá que caminho contigo,
no próprio passo do teu corpo.
Pai e filho, nesta vida,
estamos ligados por mil fios.
Eu quase nada sei,
mas fico pensando onde começamos,
em que livro improvável
tudo estaria escrito nos detalhes,
desde o início dos tempos.
Nas terras distantes dos teus avós,
com pessoas e línguas diferentes,
que nem posso imaginar completamente.
E que se estendem da Fenícia ao mar Tirreno,
dos áridos desertos às verdes planícies,
com seus ocasos de incêndio
e estranhas miragens.
E que os nosssos mortos viram,
onde por séculos viveram,
e geraram os filhos
e os folhos dos filhos dos filhos
de nossos ancestrais,
para que desses instantes sucessivos,
e desses seres longinquos,
sem que um só elo se perdesse,
eu fosse o teu pai, Frederico,
e fosses o meu único filho.
Dentro il tuo sogno - il violoncello -
coi suoi gravi e sublimi lamenti.
La musica che Schopenhauer considerò
come il linguaggio della volontà
nella rappresentazione del mondo.
E che pulsava dentro la tua anima
senza che io m’accorgessi di niente.
Benché fossimo somiglianti
nell’aspetto e nei gesti,
infatti chi ti osserva camminare
per la via, in una via qualunque,
e mi conosce un poco,
capirà che sto camminando con te,
nello stesso ritmo del tuo corpo.
Padre e figlio, in questa vita,
siamo legati da mille fili.
Io non ne so quasi nulla,
ma sto pensando a dove abbiamo cominciato,
in quale libro incredibile
tutto starebbe scritto nei dettagli,
fin dalla notte dei tempi.
Nelle terre distanti dei tuoi nonni,
con persone e lingue differenti,
che neanche posso immaginare interamente.
E che s’estendono dalla Fenicia al mar Tirreno,
dagli aridi deserti alle verdi pianure,
coi loro tramonti d’incendio
e con strani miraggi.
E che videro i nostri morti,
là dove per secoli vissero,
e generarono i figli
e i figli dei figli dei figli
dei nostri antenati,
affinché da quegli istanti successivi,
e da quelle creature lontane,
senza che alcun anello si perdesse,
io diventassi tuo padre, Federico,
e tu fossi il mio unico figlio.
________________

Oskar Kokoschka
Ritratto di Pablo Casals (1954)

Eu fecho os olhos e vejo a casa...


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Percurso da Ausência (2006) »»
 
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Eu fecho os olhos e vejo a casa...
Io chiudo gli occhi e vedo la casa...


  Provera que eu, nesta casa, não entrasse,
  Feita que é, toda ela, de prestígio e solidão.
  Dantas Mota “Elegias do País das Gerais”

Eu fecho os olhos e vejo a casa
suspensa no ar feito um navio.
Ancorada na memória ela flutua,
quase sem náusea, ruído ou marulho.
Na horta o luar ainda ilumina as couves,
os pés de funchos, desde minha avó.
Cortadas as amarras elétricas, os telefones,
esta é uma nave escura e silenciosa.
Empreenderá uma longa viagem,
ou somente se apressa para o naufrágio?

Não espanaram o pó das cadeiras,
nem estenderam toalhas na sala,
e mesmo assim os filhos se reúnem,
no exato lugar onde a velaram:
Testamento, partilha e espólio.
Então, é preciso inventariar tudo:
o quanto de lágrimas vertidas,
a agonia e as ampolas de morfina,
os bens móveis e os bens imóveis,
o guarda-roupas e as poucas jóias.

Mas no cofre nada procurem.
Embora preciosas, só cartas e lembranças.
Porque esta é a ironia das exéquias,
e a impropriedade dos inventários:
o bem mais valioso quem o herda?
Quem acumulou mais ternura ou discórdia?
Da partilha, a mim, coube a dor mais funda,
e o sentido da privação e do mistério.
Das vigias tristes deste navio,
me observa uma lua opaca.

Desço as escadas pensativo,
e visito a coleção inusitada das coisas,
que durante a vida minha mãe recolheu:
retratos dos filhos, dos pais, dos avós,
aprisionados em velhas molduras;
tachos, santos, troféus, baús,
um moedor de café, um grande tijolo
com a data gravada: 1885.
E a presença dela se fragmenta
em perdidas ressonâncias de museu.

No jardim inventario as rosas,
as dálias, violetas e orquídeas,
as dezenas de jarros floridos.
Os pés delicados de lírios,
cuidados com tanto carinho.
Mas as mãos dela sumiram,
esquecidas de pétalas e raízes.
E pouco a pouco os canteiros,
ficarão também esquecidos,
pois tudo é esquecimento e olvido.

  Meglio che io, in questa casa, non entrassi,
  Fatta com’è, tutta d’incanto e solitudine.
  Dantas Mota “Elegias do País das Gerais”

Io chiudo gli occhi e vedo la casa
sospesa in aria come una nave.
Ancorata alla memoria fluttua,
quasi senza nausea, rumore o sciabordio.
Nell’orto il chiar di luna illumina i cavoli,
le piante di finocchi, dai tempi di mia nonna.
Tagliati gli allacci elettrici, i telefoni,
questa è una nave scura e silenziosa.
S’accinge ad affrontare un lungo viaggio,
o s’affretta soltanto verso il naufragio?

Non han tolto la polvere dalle sedie,
né hanno steso tovaglie nella sala,
malgrado ciò i figli si riuniscono,
nel posto stesso in cui la vegliarono:
Testamento, spartizione e spoglio.
Dunque, bisogna inventariare tutto:
la quantità di lacrime versate,
l’agonia e le fiale di morfina,
i beni mobili e i beni immobili,
il guardaroba e i pochi gioielli.

Ma nel forziere non cercate nulla.
Benché preziose, solo lettere e ricordi.
Perché questa è l’ironia delle esequie,
e l’imprecisione degli inventari:
il bene più prezioso chi l’eredita?
Chi ha accumulato più tenerezza o discordia?
Della spartizione, a me, spetta il dolore più profondo,
e la sensazione di privazione e di mistero.
Dai tristi oblò di questa nave,
mi osserva una luna opaca.

Scendo le scale pensieroso,
e visito l’inconsueta collezione delle cose,
che mia madre ha raccolto in vita:
ritratti dei figli, dei genitori, dei nonni,
imprigionati in vecchie cornici;
vasi, santi, trofei, bauli,
un macinacaffè, un grande mattone
con la data incisa: 1885.
E la sua presenza si frammenta
in perdute risonanze da museo.

In giardino inventario le rose,
le dalie, le violette e le orchidee,
le decine di vasi fioriti.
Le delicate piantine di giglio,
curate con tante premure.
Ma le sue mani sparirono,
dimentiche di petali e radici.
E a poco a poco le aiuole,
verranno a loro volta scordate,
perché tutto è dimenticanza e oblio.

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Carl Vilhelm Holsoe
Interno con giardino (1920)
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Improviso para Beatriz


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Gilberto Nable »»
 
Percurso da Ausência (2006) »»
 
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Improviso para Beatriz
Improvviso per Beatrice


Eu ontem vi a sombra do teu rosto,
nascendo nas ondas do lago calmo,
no ventre de tua mãe.
E eras profundamente peixe.

Entre uma imagem e outra,
no claro-escuro da sala,
o ultrassonografista sorriu,
e mediu cuidadoso o teu fêmur.

Todavia em certo momento,
naquela tela líquida,
a tua mãozinha brilhou
com um gesto humano.

Loucas geografias da alma,
que ainda hoje, cegos,
palmilhamos cheios de dedos,
chips, flashs, bytes, aparelhos.

Eu quis tocar a tua mão, Beatriz,
como o lavrador abençoa a semente.
Ou quem sabe um animal lambendo a cria
em funda escuridão placentária.

Um pai sabe pouco das coisas.
Consulta o relógio, paga as contas.
No mais, sobe escadas arrastando legumes,
impostos, repolhos, feito um burro cansado.
Um pai sabe pouco das coisas.

Mas embora pouco sabendo,
é capaz de imaginar o teu sorriso de criança.
A cor futura dos teus cabelos,
o som perfeito da tua voz em meu ouvido.

E te agradece por isso.

Ieri ho visto l’ombra del tuo volto,
nascere dalle onde del lago calmo,
nel ventre di tua madre.
Ed eri profondamente pesce.

Tra un’immagine e l’altra,
nel chiaro-scuro della sala,
l’ecografista ha sorriso,
e ha misurato attento il tuo femore.

Tuttavia ad un certo punto,
su quello schermo liquido,
la tua manina è emersa
con un gesto umano.

Folli geografie dell’anima,
che ancor oggi, ciechi,
digitiamo pieni di dita,
chip, flash, byte, apparecchi.

Avrei voluto toccare la tua mano, Beatrice,
come il contadino che benedice la semente.
Oppure, chissà, un animale che lecca il piccolo
nella fitta oscurità placentare.

Un padre sa poco di queste cose.
Consulta l’orologio, paga i conti.
Al massimo, sale le scale portando la spesa,
verdure, cavoli, come un asino stanco.
Un padre sa poco di queste cose.

Ma pur sapendo poco,
è capace d’immaginare il tuo sorriso di bimba.
Il colore futuro dei tuoi capelli,
il suono perfetto della tua voce al mio orecchio.

E di questo ti è grato.

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Louise Bourgeois
Donna casa (2005)
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