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Vida paralela


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Vida paralela
Vita parallela


Nenhum comboio nos leva
tão longe: uma cidade morta

vive ainda na rara canção.
Escuta as palavras que ensina

e todas as coisas que volta
a mostrar: a noite, o regresso

ao quarto emprestado,
as caves com livros

de Charing Cross Road
e o tempo lá fora

tão frio.
Nessun treno ci porta
tanto lontano: una città morta

vive ancora nella preziosa canzone.
Ascolta le parole che insegna

e tutte le cose che torna
a mostrare: la notte, il ritorno

alla stanza in prestito,
gli scantinati con libri

di Charing Cross Road
e il tempo là fuori

tanto freddo.
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Benjamin Walter Spiers
Un pezzo della vecchia Londra (1890)
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Plano de evasão


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Plano de evasão
Piano d’evasione


Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.
Che altro possiamo fare?
Quest’amore è un paese spossato

che non ci lascia cambiare.
La paura accerchia le frontiere

e la capitale è In-Nessun-Luogo,
città di scialacquatori

e stradine tortuose
dove la notte viene a morire –

qui noi due siamo soli,
perduti, alienati,

non ci sono taxi nella piazzetta
né posacenere nei caffè

e abbiamo perso gli amici
tra le curve d’un dedalo

che abbiamo smesso di seguire.
Ma non era affatto questo

che avevo in mente quando
ho cominciato a scrivere:

i versi richiamano il buio,
aprono i portoni al freddo

e io voglio stare sulle colline
dall’altro lato del fiume.
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Aurel Bernath
Mattino n°1 (1927)
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Entretanto


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Entretanto
Nel frattempo


Não há que ter ilusões:
nós também somos
 
o fim da nossa estrada.
Com estas mãos,
 
com este mesmo coração
é que chegamos
 
ao cabo do futuro,
à extrema situação
 
de que partimos.
Mas, entretanto,
 
escrevamos.
Non c’è da farsi illusioni:
siamo noi stessi
 
la fine della nostra strada.
È con queste mani,
 
con questo stesso cuore
che arriviamo
 
in capo al futuro,
all’estremo frangente
 
da cui siamo partiti.
Ma, nel frattempo,
 
scriviamo.
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Michelangelo Pistoletto
Terzo Paradiso (2018)
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A edição inglesa


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A edição inglesa
L’edizione inglese


Na primavera de 1476
o jovem Leonardo da Vinci
escreveu no verso de uma carta
desesperada: If there is no love,
what then?
Escreveu-o, bem
entendido, no seu vernáculo
nativo – eu é que só tenho
a edição inglesa.

De quantas coisas
nesta vida, meu Deus, só tenho
a edição inglesa – quer dizer,
a precária, aproximativa
tradução? E que fazer
com estas noites de Junho,
se o amor, justamente,
é uma delas?
Nella primavera del 1476
il giovane Leonardo da Vinci
scrisse sul retro di una lettera
disperata: If there is no love,
what then?
Lo scrisse, ben
inteso, nel suo vernacolo
nativo – sono io ad aver solo
l’edizione inglese.

Di quante cose
in questa vita, mio Dio, ho solo
l’edizione inglese – cioè,
la precaria, approssimativa
traduzione? E che fare
in queste notti di giugno,
se l’amore, ovviamente,
è una di queste?
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Roy Lichtenstein
Monalisa (1963)
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«You are a foreigner of some sort»


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«You are a foreigner of some sort»
«You are a foreigner of some sort»


À míngua de uma ideia
de futuro, só o medo
te compelia a mudar.
E além dos livros difíceis
que te davam as horas
mais duras, sofrias os danos
do hábito e uma assídua
preocupação com a morte
no escuro antes de dormir.
Ao corpo do mundo
só o conhecias com a parte
mais desacompanhada
de ti próprio – um coração
com defeito, peça de dúbia
oficina, que confundia
o amor e tomava por alegria
um perdido laranjal junto à linha
do comboio, com nuvens roxas
ao largo e os teus amigos todos
antes do inverno e do necessário
inferno reservado a cada um.
In mancanza di un’idea
di futuro, solo la paura
ti spingeva a cambiare.
E oltre a quei libri difficili
che rendevano le tue ore
più dure, sottostavi ai danni
dell’abitudine e a un’ossessiva
apprensione per la morte
nel buio prima di dormire.
Conoscevi il corpo del mondo
soltanto con la parte
più recondita
di te stesso – un cuore
difettoso, pezzo di dubbia
fabbricazione, che confondeva
l’amore e scambiava per gioia
un perduto agrumeto lungo la linea
ferroviaria, con nubi violette
al largo e tutti i tuoi amici
di fronte all’inverno e al necessario
inferno riservato a ciascuno.
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Egon Schiele
Natura morta con libri (1914)
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«O Verão estava a acabar.»


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«O Verão estava a acabar.»
«L’estate stava per finire»


Por dentro das ruas
quietas, o eco de uma voz
que mal se ouvia:

estamos todos tão sós
em toda a parte

e é quase dia.
Dentro le vie
quiete, l’eco d’una voce
che a stento s’udiva:

siamo tutti così soli
per ogni dove

ed è quasi giorno.
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Alexander Archipenko
Movimento (1920)
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«Nunca se sabe.»


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«Nunca se sabe.»
«Non si sa mai»


Papéis velhos com poemas: são o joio
das gavetas. Relê-los causa aversão
e uma espécie de tristeza arrependida –
são tão nossos como as más recordações
e ainda vemos a circunstância precisa,
a causa, a ferida, por detrás de cada um.
 
Mas na altura havia esperança: é isso
que representam. Não pelas coisas que
dizem - é só descrença e fastio – mas
pela simples razão de termos querido
guardá-los. Com um pouco de alento,
de inspiração e trabalho, ainda se endireita
isto. Ou seja, os versos. E até a vida.
Vecchi fogli con poesie: sono il loglio
dei cassetti. Rileggerle dà disagio
e una specie di tristezza dispiaciuta -
sono così nostre come i brutti ricordi
e ancora vediamo la circostanza precisa,
la causa, la ferita, che sta dietro ciascuna.

Ma allora c’era speranza: è questo
che rappresentano. Non per le cose che
dicono - è solo disinganno e noia - ma
per la semplice ragione che abbiamo voluto
conservarle. Con un po’ di coraggio,
d’ispirazione e impegno, s’aggiusta anche
questa. Ossia, i versi. E persino la vita.
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Friedensreich Hundertwasser
775 Park (1978)
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«Não tenhas confiança na tua juventude.»


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«Não tenhas confiança na tua juventude.»
«Non fidarti della tua giovinezza»


  para o Manuel de Freitas

Noites de tabaco com resina
de Marrocos, pequenos quartos
onde a música era enorme.
As ruas pulsavam, eram coisas
mortais, o pensamento um carrossel
de monstros vivos. E nós os únicos,
os mais sós, os mais relapsos
no caminho que descia do devaneio
à angústia. Esquecidos das horas
num qualquer degrau perdido,
o futuro era aterrador: it will end
in tears.
E tudo o que sabíamos
estava errado, menos isso.
  per Manuel de Freitas

Notti di tabacco con resina
del Marocco, stanze piccine
dove la musica era enorme.
Le strade pulsavano, erano cose
mortali, il pensiero un carosello
di mostri viventi. E noi gli unici,
i più soli, i più recidivi
lungo la rotta che passava dal delirio
all’angoscia. Dimentichi delle ore
su un qualunque scalino perduto,
il futuro era terrificante: it will end
in tears.
E tutto quel che sapevamo
era sbagliato, meno questo.
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Faith Ringgold
Somebody Stole My Broken Heart (2007)
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«And so on, and so forth.»


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«And so on, and so forth.»
«And so on, and so forth.»


Mas vejam que miséria quando o clube
perde em casa, quando chove no molhado
do recreio a tarde toda, quando o carteiro

faz greve e o outono se insinua –
vejam que miséria este défice de razões
para pôr em movimento a roda perra

do dia, esta pomba trucidada pela ambulância
que guina, enquanto o vizinho almoça e o poeta
transfigura – mas vejam que miséria

quando a arte não resgata e a orquestra
não anima e o amor torna mais árdua
a triste faina da vida.
Ma guarda che miseria quando la squadra
perde in casa, quando piove sul terreno
di gioco per tutta la sera, quando il postino

fa sciopero e l’autunno s’insinua –
guarda che miseria questo deficit di ragioni
per rimettere in moto la ruota cocciuta

del giorno, questa colomba trucidata dall’ambulanza
che sterza, mentre il vicino pranza e il poeta
trasfigura – ma guarda che miseria

quando l’arte non riscatta e l’orchestra
non stimola e l’amore rende più arduo
il triste mestiere di vivere.
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Pablo Picasso
Calcio (1961)
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[Trânsito de sentido único]


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[Trânsito de sentido único]
[Traffico a senso unico]


A experiência, o nosso obstáculo.

Nas janelas de um autocarro
os madrugadores de cara lavada
guardam o segredo de uma sorte
que nunca pudemos seguir.
Mesmo assim, enternecem-nos:
ao fim de décadas de solidão
e desastres, ainda acreditam
no mundo. E, vendo bem,
porque não?

A alternativa não é grande coisa.
L’esperienza, il nostro ostacolo.

Dietro i finestrini di un autobus
i mattinieri dalla faccia pulita
custodiscono il segreto di una fortuna
che noi mai abbiamo potuto conseguire.
Eppure, ci commuoviamo:
al termine di decadi di solitudine
e disastri, ancora hanno fiducia
nel mondo. E, a ben vedere,
perché no?

L’alternativa non è gran cosa.
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Nick Turpin
On the Night Bus (2015)
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[Passagem de Peões]


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[Passagem de Peões]
[Passaggio pedonale]


À vinda do supermercado
diz-me o pequeno monstro
que às vezes me faz companhia
“E qual é a tua razão de ser?

Na rua, a tarde rola devagar
entre prédios murchos – e ele
acrescenta: “Não me digas
que são os versos.”

E ri-se.
Arrivando al supermercato
mi dice il piccolo mostro
che talvolta m’accompagna
“E qual è la tua ragione d’essere?

Per la via, la sera rotola lenta
tra edifici cadenti – e quello
aggiunge: “Non dirmi
che sono i versi.”

E sogghigna.
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Fausto Pirandello
Padre e figlio (1934)
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Espanta-espíritos


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Espanta-espíritos
Sonaglio a vento


Amanhã tudo será pior
ainda, eu sei: o hábito, a inércia,
o sem remédio da vida - tão pouco
haverá a salvar.

Por toda a cidade os desconhecidos
subirão outro degrau para o escuro
da noite, e a memória será talvez
um remorso:

aquela manhã de sol
na varanda, o espanta-espíritos
com peixes de alumínio num rosário
de contas profanas.

Ainda o tens? Ainda canta,
de madrugada, se o vento sopra
do mar?

Não importa. Foi sempre de menos
o muito que pedimos

e a parte que tivemos.
Domani tutto andrà ancor
peggio, lo so: l’abitudine, l’inerzia,
l’irrimediabilità della vita - pochissimo
ci resterà da salvare.

In tutta la città degli sconosciuti
saliranno un altro gradino verso il buio
della notte, e la memoria sarà forse
un rimorso:

quel mattino di sole
sulla veranda, il sonaglio a vento
con pesci d’alluminio in un rosario
di perline profane.

Ce l’hai ancora? Canta ancora,
all’alba, quando il vento spira
dal mare?

Non importa. Fu sempre meno
il molto che chiedemmo

e la parte che ce ne venne.
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Daniel Buren
Il vento soffia dove vuole (2009)
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Diana of Love


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Diana of Love
Diana of Love


Estávamos em Londres naquele dia de Setembro
em que foi a enterrar a Princesa do Povo. Não havia
barulho nos passeios, não havia casa aberta
onde pudéssemos comprar qualquer coisa
para merendar na relva de St James ou Kensington
Gardens: os próprios parques tinham mergulhado
num lutuoso torpor. Sentados à sombra, nós os dois

estávamos exactamente a meio da nossa história.
Para trás, a lenta cadeia de acasos que culminou
no encontro a desoras sob os astros duma gruta;
pela frente, todos os maus passos que, somados,
haveriam de ditar o nosso fim. Mas nessa tarde
de sol e silêncio, enquanto a Inglaterra chorava
aquela que na morte teve o nome do amor,

estávamos juntos ainda – e sei que fomos felizes
na cidade mais triste do mundo. Era sábado,
uma mulher que passava vendeu-me um ramo
de rosmaninho (for remembrance, dear): largos meses
murchou numa gaveta. E quando dele me desfiz
já não era um memento por Diana, mas o último
vestígio de um amor tão morto quanto ela.
Eravamo a Londra quel giorno di settembre
in cui fu seppellita la Principessa del Popolo. Non c’era
rumore per le strade, non c’era un locale aperto
dove potessimo comprare qualcosa
per far merenda sull’erba di St James o di Kensington
Gardens: i parchi stessi erano sprofondati
in un luttuoso torpore. Seduti all’ombra, noi due

stavamo esattamente a metà della nostra storia.
Alle spalle, la lenta catena di eventi ch’era culminata
nell’incontro a tarda notte sotto gli astri d’una grotta;
di fronte, tutti quei passi falsi che, sommati,
avrebbero sancito la nostra fine. Ma in quel pomeriggio
di sole e silenzio, mentre l’Inghilterra piangeva
colei che nella morte aveva il nome dell’amore,

noi stavamo ancora insieme – e so che fummo felici
nella città più triste del mondo. Era sabato,
una donna che passava mi vendette un rametto
di rosmarino (for remembrance, dear): per lunghi mesi
restò a seccare in un cassetto. E quando me ne disfeci
non era già più un ricordo di Diana, ma l’ultimo
vestigio di un amore ormai morto quanto lei.
________________

Jack Graves III
Princesse Diana - Figure IV (2020)
...

Conserve este bilhete até ao final da viagem


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Conserve este bilhete até ao final da viagem
Conserva questo biglietto fino alla fine del viaggio


Devo dizer que sempre preferi
os versos feridos pela prosa
da vida, os versos turvos
que tornam mais transparentes
os negros palcos do tempo, a dor
de sermos filhos das estações
e de andarmos por aí, hora após
hora, entre tudo o que declina
e piora. Em suma, os versos
que gritam: Temos as noites
contadas. E também
os que replicam:
Valha-nos isso.
Devo dire che ho sempre preferito
i versi feriti dalla prosa
della vita, i versi foschi
che rendono più trasparenti
i neri palcoscenici del tempo, la pena
d’esser figli delle stagioni
e d’esser diretti laggiù, ora dopo
ora, verso tutto ciò che declina
e si logora. Insomma, quei versi
che gridano: Abbiamo le notti
contate. Ed anche
quelli che replicano:
Che ci sia di conforto.
________________

Serge Hamad
Temporal-perception, n° 118 (2019)
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This Way Out


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This Way Out
This Way Out


Mas há uma saída? Imagina
na insónia as florestas que crescem
a essas horas noutras regiões, os comboios
que as atravessam para alcançar um destino
no futuro dos outros.

Há uma saída? Imagina
a noite cheia de cidades violentas,
o retumbar das máquinas nos subterrâneos
e a chuva a cair no plástico negro
dos morangais, todo o sofrimento
e incerteza do mundo.

E de manhã, repara, está bonito
o tempo. Os amigos acordam no quarto ao lado,
descem à cozinha para fazer o café.

Mas há uma saída?
Ma c’è una via d’uscita? Immagina
nell’insonnia le foreste che crescono
in queste ore in altre regioni, i treni
che le attraversano per raggiungere una meta
nel futuro degli altri.

C’è una via d’uscita? Immagina
la notte piena di città violente,
il rombo delle macchine nei sotterranei
e la pioggia che cade sulla plastica nera
dei campi di fragole, tutta la sofferenza
e l’incertezza del mondo.

E il mattino, guarda, è bello
il tempo. Gli amici si svegliano nella stanza accanto,
scendono in cucina per fare colazione.

Ma c’è una via d’uscita?
________________

Emilio Scanavino
Presenze (1970)
...

Shirley Ann Eales


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Shirley Ann Eales
Shirley Ann Eales


Na vitrina lê-se Livros Raros
e Usados sob o azul inclinado
de um toldo – mesmo em frente
à glacial cafetaria de franchise
onde o dia destrata o desejo
e não se pode fumar. Subo
aos pequenos gabinetes
mergulhados no doce bafio
da literatura e percorro de A
a Z as espinhas estreitas

e rachadas da poesia. É o sítio
mais vazio de Novembro
e o que mais me reconforta;
o livro que escolho, por metade
de uma libra, traz no frontispício
um nome e uma morada: Shirley Ann
Eales, de Scottsville – um sumido
autógrafo de maiúsculas magras
e triangulares onde a imaginação
encontra por enquanto pretexto

e oxigénio suficientes para arder.
O livro teve outra existência,
pertenceu a outra casa, a outra mesa
de cabeceira – e o pensamento,
de tão óbvio, conjura de repente
uma vertigem, é um corredor
abrupto para a imensidão do mundo
onde trafica o acaso. Ah, sabemos
que a vida é improvável se damos
por nós a cismar, a meio de uma tarde

insípida, numa mulher desconhecida
que lia poemas em Scottsville, nos anos
70. Mas haverá aqui alguma espécie
de sentido, algum sinal guardado
para alguém mais sábio ou inocente
do que eu? Não sei quem és
nem onde estás agora, Shirley Ann,
mas como seria belo se pudesses
um dia encontrar, por obra da mesma
sorte, o teu nome nestes versos.
In vetrina si legge Libri Rari
e Usati sotto l’azzurro inclinato
di una pensilina – proprio di fronte
alla glaciale caffetteria in franchising
dove la giornata maltratta i desideri
e non si può fumare. Salgo
alle piccole sale di consultazione
immerse nel dolce odor di muffa
della letteratura e percorro dalla A
alla Z i dorsi stretti

e scalfiti della poesia. È il posto
più vuoto di novembre
e quello che più mi dà conforto;
il libro che scelgo, per mezza
sterlina, porta sul frontespizio
un nome e un luogo: Shirley Ann
Eales, di Scottsville – uno sbiadito
autografo con maiuscole magre
e triangolari ove l’immaginazione
trova adesso pretesto

e ossigeno sufficienti per prender fuoco.
Il libro ha avuto un’altra esistenza,
ad altra casa è appartenuto, ad altro
comodino – e il pensiero,
pur così ovvio, suscita all’improvviso
una vertigine, è un corridoio
scosceso verso l’immensità del mondo
ove macchina il caso. Ah, lo sappiamo
che la vita è improbabile se ci mettiamo
a fantasticare, a metà di un pomeriggio

insipido, su di una donna sconosciuta
che leggeva poesie a Scottsville, negli anni
70. Ma qui dev’esserci un qualche
senso, qualche segnale serbato
per qualcuno più esperto o innocente
di me? Non so chi sei
né dove stai adesso, Shirley Ann,
ma come sarebbe bello se tu potessi
un giorno ritrovare, per la stessa
fatalità, il tuo nome in questi versi.
________________

Alexander Deineka
Donna che legge (1934)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

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