Visualizzazione post con etichetta Mário Cesariny. Mostra tutti i post
Visualizzazione post con etichetta Mário Cesariny. Mostra tutti i post

Faz-me o favor...


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
O Virgem Negra (1989) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Faz-me o favor...
Fammi il favore...


Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Fammi il favore di non dire assolutamente niente!
Supporre quel che dirà
La tua bocca serrata
È sentirti già.

È sentirti meglio ancora
di come lo diresti tu.
Quello che sei non traspare
Dai giorni e dai gesti.
 
Tu sei migliore - molto migliore!
Di te. Non dire niente. Sii
L’anima del corpo nudo
Che nello specchio si vede.

________________

Egon Schiele
Autoritratto nudo (1910)
...

Tantos pintores...


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
A Cidade Queimada (1966) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Tantos pintores...
Tanti pittori...


Tantos pintores... A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio (daqui ninguém
me tira) chamado paisagem
Tantos escritores
 
A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures
Tantos mortos
no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade
dá voltas à solidão da realidade

Tanti pittori... La realtà commossa ringrazia ma rimane
al medesimo posto (e da qui non mi sposta nessuno)
chiamato paesaggio
Tanti scrittori

La realtà commossa ringrazia
e continua a spargere freddo
su interi quartieri, in città,
e altrove
Tanti morti
nel fiume
La realtà commossa ringrazia
perché sa che fu per lei il sacrificio
ma non ringrazia molto
Lei sa che i pittori
gli scrittori
e chi muore
non ama la realtà
ne vogliono solo un assaggio
ma non le si accostano molto può far soffocare
Solo il vecchio organetto all’angolo
suonato dalla manovella a soffietto
senza garbo senza fine e senza voglia
riporta alla solitudine della realtà

________________

Egisto Lancerotto
Scuola di pittura (1886)
...

O navio de espelhos


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
A Cidade Queimada (1966) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


O navio de espelhos
La nave di specchi


O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

(Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele)

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

(O seu porão traz nada
nada leva à partida)

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

(A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto)

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

La nave di specchi
non naviga, cavalca

Il suo mare è la foresta
che le serve da livello

Al crepuscolo riflette
sole e luna nei suoi fianchi

(Per questo il tempo ama
insieme a lei giacersi)

Agli armatori non piace
la sua rotta luminosa

(A chi sta in movimento
sembra che non si muova)

Quando raggiunge un porto
nessuno consente l’approdo

(Niente porta la sua stiva
niente reca alla partenza)

Voci e aria pesante
è tutto ciò che trasporta

(E sull’albero maestro
par riflettersi una porta)

I suoi diecimila capitani
han tutti la stessa faccia

(La stessa cintura scura
lo stesso grado e ruolo)

Quando se ne ammutina uno
ci son diecimila ribelli

(Come negli occhi della mosca
si riflettono gli oggetti)

E quando uno di loro solleva
il corpo sull’albero maestro
e scruta il mare nel profondo

Tutta la nave cavalca
(come nello spazio gli astri)

Dal principio del mondo
fino alla fine del mondo

________________

Mário Cesariny
A modo nostro nel Mondo (1967)
...

Todos por Um


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Nobilíssima Visão (1959) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Todos por Um
Tutti per uno


A manhã está tão triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza

Santos
Mártires
e Heróis

Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.

Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem
de recorrer à vala comum

Il mattino è così triste
che i poeti romantici di Lisbona
son morti tutti di sicuro

Santi
Martiri
ed Eroi

Che tempaccio starà facendo a Porto?
Mattinata triste, senza dubbio.

Voglia il cielo che i poeti romantici di Porto
siano comprensivi al punto da lasciar libera
una porzioncina di cimitero fiorito
affinché i poeti romantici di Lisbona non debbano
ricorrere alla fossa comune

________________

Hugo Simberg
Il giardino della morte (1896)
...

Rua do Ouro


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Nobilíssima Visão (1959) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Rua do Ouro
Rua do Ouro


Ai dele que tanto lutou e afinal
está tão só. Tão sòzinho. Chora.
Direcção da Companhia Tantos de Tal.
Cincoenta e três anos. Chove, lá fora.

Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A êle ou à carteira?)

Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage:que diabo. Afinal...
E olha para o cofre cheínho.

Sim estou só ainda bem porque não? ele diz
batendo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.

Seis e meia. Ó neurastenia!
O homem que venceu está de borco
e sente uma grande agonia
que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.

É da carne de porco ele diz
vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.

Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
diz que é feliz diz que está muito bem.

Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sòzinho.

Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?

Sim, reage: Esta noite a Leonor
amanhã de manhã o Sàlemos
e depois? Ah o novo motor
veremos veremos veremos

Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.

Os filhos? esperam que êle morra.
A mulher? espera que êle morra.
O sóciuo? Pede a Deus que êle morra!
Só a Anita não quer que êle morra!
Ai, maldita carne, murmura
vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E veste o casaco e o gabão.

Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.

O homem que venceu matou-se
na margem mais escura do rio
ao volante dum belo Packard

Misero colui che tanto lottò per ritrovarsi
infine da solo. Così solo. E piange.
Alla Direzione della Compagnia Tal dei Tali.
Cinquantatré anni. E fuori piove.

Piange, perché? Ma via, piange.
Una crisi di nervi, cosa passeggera.
Forse è per la donna che lo adora?
(Ma è lui o il suo portafoglio che adora?)

Sono le sei. Il personale è uscito.
L’uomo vincente ora è da solo.
Ma reagisce: che diavolo. Dopo tutto...
E guarda il suo forziere ben pienotto.

Sì sono solo va bene perché no? dice
battendo i pugni sul tavolo.
Ho lottato e ho vinto. Sono felice
E batte i pugni sul tavolo.

Sei e mezza. O nevrastenia!
L’uomo vincente se ne sta prono
e sente un gran disgusto
che poi è per la carne di porco
che l’altrieri ha mangiato.

É per la carne di porco, dice
vedendo la pioggia che cade nell’androne.
É per la carne di porco. Io sono felice
E s’afferra la testa con le mani.

Per tutta la vita ha sfruttato i suoi simili.
A causa sua a centinaia son finiti in malora.
Adesso ha paura. E il commediante
dice d’esser felice dice di star benone.

Sì, reagisce. Che diavolo. Io spaurirmi?
E vede l’ora sull’orologio da tavolo.
Ma, via, non è né presto né tardi.
Lui, il vincente, se ne sta tutto solo.

Ha vinto chi? Vinto che cosa? Gli altri
Ha vinto, quelli che lo volevano battere!
Li ha distrutti, poco alla volta li ha rovinati.
E dunque non vorrebbero vederlo là a gemere?

Sì, reagisce: Stanotte Leonora
domattina il Salemo
e poi? Ah il nuovo motore
vedremo vedremo vedremo

Ma poco di quel dice ha significato.
Tutto oggi gli è vago uniforme piccino.
L’uomo vincente è ora un vinto.
Il denaro gli ha sbarrato il cammino.

I figli? aspettano che lui muoia.
La moglie? aspetta che lui muoia.
O socio? Invoca Dio che muoia!
Soltanto Anita non vuole che muoia!
Ah, maledetta carne, mormora
vedendo l’acqua che allaga l’androne.
Era ingrassato oltre misura!
E si mette la giacca ed il pastrano.

S’asciuga gli occhi umidi. È finita.
Sta per uscire. Va forse a cenare?
È inverno. Fa freddo, là fuori.

L’uomo vincente s’è tolto la vita
sulla riva più buia del fiume
a bordo d’una bella Packard

________________

Marinus van Reymerswaele
Gli usurai (1540)
...

Pastelaria


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Nobilíssima Visão (1959) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Pastelaria
Pasticceria


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de
muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Infine ciò che importa non è la letteratura
né la critica d’arte né la camera oscura

Infine ciò che importa non è far buoni affari
né metter soldi da parte per aver tempo di oziare

Infine ciò che importa non è essere giovane e signorile
- ci sono tanti modi per riempire uno scaffale!

Infine ciò che importa è non aver paura: chiudere gli occhi
di fronte al precipizio
e cadere giù verticalmente nel vizio

Non è vero, ragazzo? E domani si gioca a palla
prima del cinema, di madame blanche e di qualche ciarla

Che infine ciò che importa non è che ci sia gente affamata
perché gente che mangia finora non n’è mancata

Infine ciò che importa è non avere fifa
di chiamare il gestore e dire a voce altissima davanti a
tanta gente:
Gerente! Questo latte è rancido!

Che infine ciò che importa è alzare il colletto di pelo
uscendo dalla pasticceria, e fuori - ah, là fuori! - ridere di tutto

Col riso ammirabile che han quelli che son coscienti
di mettere in bella mostra, bianchi e puliti, i denti

________________

Otto Dix
Invalidi di guerra giocano a carte (1920)
...

Herói


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Nobilíssima Visão (1959) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Herói
Eroe


Herói é o meu nome,

Meu olhar frio, arguto,
Não vê coisa que o dome.
Meu esforço rudo e sano
Não desmaia um minuto.

Sou herói todo o ano.

Quando passar por vós, naturalmente,
Com este meu ar simples e no entanto diferente
E no entanto diferente do ar do resto da gente,
Não digais: é fulano.

Dizei: é o Herói.
O herói, simplesmente.

Eroe è il mio nome,

Il mio sguardo freddo, arguto,
Nulla vede che lo domi.
Il mio sforzo rude e sano
Non desiste un sol minuto.

Sono eroe tutto l’anno.

Quando passo tra di voi, naturalmente,
Con quest’aria semplice eppure differente
Sì differente dall’aria del resto della gente,
Non dite: è quel tale.

Dite: è l’Eroe.
L’Eroe, semplicemente.

________________

Anna Maria Maiolino
L'eroe (2014)
...

Brasileira


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Nobilíssima Visão (1959) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Brasileira
Brasiliana


Ao Manuel
 
O vento não varria as folhas,
O vento não varria os frutos,
O vento não varria as flores...
E a minha vida não ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
O vento não varria as luzes,
O vento não varria as músicas,
O vento não varria os aromas...
E a minha vida não ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento não varria os sonhos
E não varria as amizades...
O vento não varria as mulheres...
E a minha vida não ficava
Cada vez mais cheia
De afectos e de mulheres.
O vento não varria os meses
E não varria os teus sorrisos...
O vento não varria tudo!
E a minha vida não ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.

A Manuel
 
Il vento non spazzava via le foglie,
Il vento non spazzava via i frutti,
Il vento non spazzava via i fiori...
E la mia vita non si ritrovava
Ogni volta più ricca
Di frutti, di fiori, di foglie.
Il vento non spazzava via le luci
Il vento non spazzava via le musiche,
Il vento non spazzava via gli aromi...
E la mia vita non si ritrovava
Ogni volta più ricca
D’aromi, di stelle, di canti.
Il vento non spazzava via i sogni
E non spazzava via le amicizie...
Il vento non spazzava via le donne....
E la mia vita non si ritrovava
Ogni volta più ricca
Di affetti e di donne.
Il vento non spazzava via i mesi
E non spazzava via i tuoi sorrisi...
Il vento non spazzava via tutto
E la mia vita non si ritrovava
Ogni volta più ricca
Di tutto.

________________

Studio Tonkin Liu
Singing Ringing Tree II (2017)
...

You are welcome to Elsinore


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Pena Capital (1957) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


You are welcome to Elsinore
You are welcome to Elsinore


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte   violar-nos   tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas   portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
 
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
 
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
 
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Tra noi e le parole c’è del metallo che fonde
tra noi e le parole ci sono eliche che avanzano
e possono arrecarci la morte violarci carpire
dal più profondo di noi il più prezioso segreto
tra noi e le parole ci sono profili ardenti
spazi pieni di gente che ci danno le spalle
alti fiori velenosi porte da aprire
e scale e lancette e bimbi seduti
in attesa del loro momento e del loro precipizio

Lungo la muraglia che abitiamo
ci sono parole di vita parole di morte
ci sono parole smisurate che ci attendono
ed altre, fragili, che han cessato d’attendere
ci sono parole ardenti come navigli
e ci sono parole uomini, parole che custodiscono
il proprio segreto e la propria posizione

Tra noi e le parole, sordamente,
le mani e i muri di Elsinore

E ci sono parole notturne parole lamenti
parole che salgono illeggibili alla nostra bocca
parole diamante parole mai scritte
parole impossibili da scrivere
dato che non teniamo con noi corde di violino
né tutto il sangue del mondo né tutto l’amplesso dell’aria
e le braccia degli amanti scrivono molto in alto
molto al di là del blu dove rugginosi muoiono
parole materne solo ombra solo singhiozzo
solo spasmo solo amore solo solitudine sfiorita

Tra noi e le parole, i segregati
e tra noi e le parole, il nostro dover parlare

________________

Ana Teresa Ascenção
You Are Welcome to Elsinore (2010)
...

Voz numa pedra


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Pena Capital (1957) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Voz numa pedra
Voce da una pietra


Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Ísis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco e flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do mênstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe a cidade futura
onde “a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela”
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhes como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
“a machadada e o propósito de não sacrificar-se
não constituirão ao sol coisa nenhuma”
nada está escrito afinal

Non adoro il passato
non sono tre volte maestro
non sono venuto a patti con l’oltretomba
non è per questo che mi trovo qui
di certo ho visto Osiride però a quel tempo si chiamava Luiz
di certo sono stato con Iside ma le dissi di chiamarmi João
nessuna proprio nessuna parola è completa
neppure in tedesco che ne ha di lunghissime
così neanch’io ti dirò mai quello che so
a meno che si tratti dell’arco con freccia nerazzurra del vento

Non dico come quell’altro: so di non sapere
so bene d’aver sempre saputo un po’ di cose
che questo ha il suo peso
che provoco le tormente e osservo l’arcobaleno
credendo che lui sia l’agente supremo
del cuore del mondo
vascello di libertà depurata dal mestruo
rosa viva davanti ai nostri occhi
Ancora lontana lontana la città futura
in cui “la poesia non darà più ritmo
all’azione perché le camminerà davanti”
Si estingueranno i predicatori di morte?
Si estingueranno gli sterminatori d’amore?
Si estinguerà la tortura degli occhi?
Passami dunque quel coltello a serramanico
perché c’è un sacco di cose da cominciare a potare
passamelo e non guardarmi come si guarda un mago
depositario del miracolo della verità
“il colpo d’ascia e l’intenzione di non sacrificarsi non
rappresenteranno alcunché sotto il sole”
in fondo non c’è nulla di scritto

________________

Damien Hirst
Piccolo arcobaleno di farfalle (2020)
...

Uma certa quantidade...


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Pena Capital (1957) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Uma certa quantidade...
Una certa quantità...


Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da
vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Una certa quantità di persone alla ricerca
di persone alla ricerca d'una certa quantità
 
Somma:
un territorio estremamente ricercato
il problema della luce (strettamente legato al problema della
vergogna)
e il problema della camera-atelier-aereo
 
Nel frattempo
e proprio quando
non ce n’era più bisogno
compaiono i poeti alla ricerca
e vogliono moltiplicare tutto per dieci
che brutta razza di gente sono
o molto intelligenti o molto stupidi
infatti sono l’una e l’altra cosa
Gesù Aristotele Platone
aprono la mappa:
fa male qui
fa male là
 
E risulta che anch’essi andavano alla ricerca
d'una certa quantità di persone
che erano uscite alla ricerca ma per altre lande
lande che a loro volta già stavano intensamente cercando
un modo sicuro di andare alla loro ricerca
visto che tutti cercavano chi andasse
incautamente da quelle parti a cercare
 
Che sorpresa se d’un tratto qualcuno veramente trovasse
che colpo se questo qualcuno fosse un adolescente
così come si è una nuvola un atelier un astro

________________

Marcel Broodthaers
La Tour Visuelle (1966)
...

Poema


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Pena Capital (1957) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Poema
Poesia


Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

La luce si ottiene dal processo
di eliminazione delle ombre.
Ma le ombre esistono
le ombre posseggono un’estenuante vita propria
non dall’uno e dall’altro lato della luce ma nel suo stesso seno
amanti intensamente follemente amate
e stendono sul suolo braccia di luce grigia
che s’introducono dalla bocca negli occhi dell’uomo

D’altro canto l’ombra s’impone alla luce
non illumina realmente gli oggetti
gli oggetti vivono al buio
in una perpetua aurora surrealista
con la quale non possiamo metterci in contatto
se non come amanti
ad occhi chiusi
e con lampade sulle dita e sulla bocca

________________

Heidrun Reymann
Chiaro-scuro (2015)
...

Passagem do anti-mundo Dante Alighieri


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Pena Capital (1957) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Passagem do anti-mundo Dante Alighieri
Passaggio dell’anti-mondo Dante Alighieri


I
O amor que é só o amor é já o inferno
diz Dante
mas isso era antes de ser traduzido pelos palhaços
era quando os Titãs asseveravam
que só no interior de grutas inabordáveis
sob gigantescas moles de granito
haviam conseguido viver livres
 
Era quando o inferno queria ser inferno
e para aborrecimento dos tenentes do empíreo
não havia a menor possibilidade de drama
depois houve e logo um fez a todos palhaços
os que estavam em baixo alaram os pés, para cima
os que estavam em cima puxaram a pista, para baixo
 
Fez-se um grande intervalo
este intervalo onde ainda hoje a Terra rola à força de
vácuo
com homens que crescem e minguam pela força
de inércia do vácuo
abandonados pelos grandes faz-tudos
que riem lá muito em cima e ainda mais lá em baixo
 
E que quer dizer isso de amor só amor?
partes alíquotas de dois na cama
que Dante nunca viu aos pés de Beatriz
 
Petrarca também não ao pescoço de Laura
Abelardo esse então no ventre de Heloísa
 
Tudo isso são histórias de encarregados
que andam a ver se não pagamos a conta
se damos sem vencimento a letra antiga
marcada a hebraico na carcela da história
são contos miseráveis de miseráveis
com vinte e cinco séculos de ódio ao corpo
o único transporte navegável
a única matéria que se aguenta
e aguenta
com dentro dele a linfa que varre tudo
 
O amor que é só o amor é já o inferno?
Bandido
 
Inferno é o nome do primeiro amor?
Vadio
 
Vós que entrais perdei toda a esperança?
Gatuno
 
II 
Primeiro segundo terceiro quarto quinto
ao homem dos elevadores o cuidado de prosseguir
mas que amplexo de homem poderá dividir
somar
subtrair
o amor seu amor todos os braços da esfinge?
essa que quatro ao raiar da manhã
essa que dois ao longo do sol a pino
essa que três quando caída a noite
os passos voam no areal do tempo
 
O amor só amor é já o inferno
diz Dante
mas é o amor que é um fogo devorante
 
Não me refiro à prestação do calor
o pra baixo e pra cima também os êmbolos fazem
e todos os dias vêm navios ao mundo
Refiro por exemplo a estrela sextavada
que há no corpo do rio que é o amante
é aí que o amor é um fogo devorante
 
III
Aqui o limbo além o paraíso além o inferno
que cheiro a despegado meu general
 
Eu todos os meus anjos vão juntos para a guerra
Se falta algum é como faltar o chão

I
L'amore che solo è amore è già l’inferno
dice Dante
ma questo era prima che venisse tradotto dai buffoni
era quando i Titani assicuravano
che solo all’interno di grotte inaccessibili
sotto giganteschi massi di granito
erano riusciti a vivere in libertà
 
Era quando l’inferno voleva essere inferno
e per lo scontento dei luogotenenti dell'empireo
non c’era la minima possibilità di dramma
ma poi c’è stata ed ecco che uno ha reso tutti dei buffoni
quelli che stavano sotto con le ali ai piedi si son levati insù
quelli che stavano sopra hanno orientato il percorso all’ingiù
 
Ci fu poi un grande intervallo
quell’intervallo ove ancor oggi la Terra ruota per la forza
del vuoto
con uomini che crescono e si riducono per la forza d'inerzia
del vuoto
abbandonati dai grandi factotum
che ridono molto lassù e ancor di più laggiù
 
E che vuol dire questa cosa dell'amore solo amore?
forse parti porzioni di due nel letto
dove mai fu Dante accanto a Beatrice
 
né vi fu Petrarca tra le braccia di Laura
Abelardo lui sì nel grembo d'Eloisa
 
Tutte queste sono storie da ispettori
che vengono a controllare se non paghiamo il conto
se spacciamo senza ricevuta l’antico scritto
redatto in ebraico sulla cimosa della storia
queste non sono che miserabili storie di miserabili
con venticinque secoli di odio per il corpo
l’unico mezzo di trasporto navigabile
l’unica materia che si sopporta
e che sopporta
di tenersi dentro la linfa che tutto risana
 
L'amore che è solo amore è già l'inferno?
Bandito
 
Inferno è il nome del primo amore?
Lavativo
 
Perdete ogni speranza voi che entrate?
Farabutto
 
II
Primo secondo terzo quarto quinto
all’uomo degli ascensori il compito di continuare
ma quale umano amplesso potrà dividere
sommare
sottrarre
all'amore il suo amore e tutte le zampe della sfinge?
lei che ne ha quattro allo spuntar del giorno
lei che ne ha due quando il sole è a picco
lei che ne ha tre quando cala la notte
i passi prendono il volo sulla sabbia del tempo
 
L'amore solo amore è già l’inferno
dice Dante
ma è l'amore che è un fuoco divorante
 
Non mi riferisco all’erogazione di calore
a far su e giù son capaci anche gli stantuffi
e tutti i giorni ci son navi che vengono al mondo
Mi riferisco per esempio alla stella a sei punte
che sta nel corpo del fiume che è l'amante
ed è lì che l'amore è un fuoco divorante
 
III
Qui il limbo al di là del paradiso al di là dell'inferno
che odore d'insubordinazione, mio generale
 
Io e tutti i miei angeli andiamo insieme alla guerra
Se qualcuno manca è come se mancasse la terra

________________

Giotto di Bondone
Ritratto di Dante (1300-1305)
...

Parada


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Mário Cesariny »»
 
Pena Capital (1957) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Parada
Parata


Com um grande termómetro no chapéu
e um certo ar marcial equidistante
todos saíram hoje das suas casas na duna
para a rua a soprar o vento que vem de longe
a certeza que há-de vir de longe

Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros
nas montras nos passeios por baixo dos bancos
passam os pontos escuros para o outro lado
sem esquecer o espelho
sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino
para fazer a surpresa
sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte
da cor do sol
o pescoço da nossa felicidade

Con un grande termometro sul cappello
e una cert’aria marziale equidistante
oggi tutti han lasciato le loro case sulla duna
e vanno per la via ove soffia il vento che viene da lontano
con la certezza che debba venire da lontano

I prigionieri poliziotti dei poliziotti prigionieri
nelle vetrine sui marciapiedi sotto le panchine
spostano i punti bui dall’altro lato
senza dimenticare lo specchio
senza dimenticare il ragnetto minuziosamente piccolo
per fare una sorpresa
senza dimenticare la farfalla ebbra che sale all’orizzonte
del color del sole
il collo della nostra felicità

________________

Nadir Afonso
Espacillimite (1958)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (364) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (16) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)