Visualizzazione post con etichetta José Gomes Ferreira. Mostra tutti i post
Visualizzazione post con etichetta José Gomes Ferreira. Mostra tutti i post

Procura-se professor de choro fundo


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante III (1978) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Procura-se professor de choro fundo
Cercasi professore di piagnisteo


Os jornais não tardarão a publicar este anúncio
 na primeira página:
“Procura-se professor de choro fundo
com prática de morte de canários em gaiolas
e ginástica de bandeiras negras de cantochão.

Deseja-se também que ensine
a dar vivas à Liberdade
a bocas sem vocação”.
I giornali non tarderanno a pubblicare quest’annuncio
 in prima pagina:
“Cercasi professore di piagnisteo
con pratica di morte di canarini in gabbia
e ginnastica di bandiere nere di lamentazione.

Si chiede anche che insegni
ad inneggiare alla Libertà
a bocche senza vocazione”.
________________

Francesco Messina
Il pianto di Adamo (1929)
...

O tombo de Salazar


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante III (1978) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


O tombo de Salazar
Il capitombolo di Salazar


Naquele dia
os anjos mutilaram as mãos de prata
para não o segurarem na queda.

E a terra com alegria
de não ser abstracta
não se abriu em alçapões de seda.

Cada vez mais de pedra compacta.
Quel giorno
gli angeli si mutilarono le argentee mani
per non doverlo sostener nella caduta.

E la terra esultante
per non esser astratta
non s’aprì in botole di seta.

Si mantenne di pietra ben compatta.
________________

Giuseppe Uncini
Progetto per sedia con ombra (1968)
...

O Sonho é também acção


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante III (1978) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


O Sonho é também acção
Anche il sogno è azione


Há quem julgue que nos venceu
só porque estamos para aqui famintos e nus,
de novo sem terra nem céu
a apanhar do chão, às escondidas do luar,
os frutos podres caídos dos ramos.
 
Mas não.
Temos ainda uma arma de luz
para lutar:
SONHAMOS.
 
... enquanto os outros, os traidores,
sem lutas nem cicatrizes
entregam a terra ao rasto do gamos
e douram os olhos dos velhos senhores
com voos de perdizes...
 
Sim, sonhamos.
E o sonho quem o derrota? 
- mesmo quando vamos
perdidos na rota
de um barco sem remos
na tempestade de um vulcão.
 
Sim, camaradas, sonhamos.
 
SONHEMOS!
O Sonho é também acção.
C’è chi sostiene di averci sottomessi
solo perché stiamo qui nudi a affamati,
di nuovo senza terra né cielo
a cogliere furtivamente dal suolo, sotto la luna,
i frutti marci caduti dai rami.
 
Invece no.
Abbiamo ancora un’arma di luce
per lottare:
SOGNIAMO.
 
... mentre gli altri, i traditori,
senza lotte né cicatrici
affidano la terra agli zoccoli dei daini
e allietano gli occhi dei vecchi signori
con voli di pernici...
 
Sì, sogniamo.
E chi sconfigge il sogno? 
- anche quando vaghiamo
perduti sulla rotta
d’una barca senza remi
nel tumulto d’un vulcano
 
Sì, compagni, sogniamo.
 
SOGNIAMO!
Anche il sogno è azione.
________________

Corrado Bonomi
Fatina fatata fatale (2002)
...

O pior é que o futuro...


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante III (1978) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


O pior é que o futuro...
Il peggio è che il futuro...


O pior é que o futuro cada vez parece menos futuro
neste momento de labaredas em Paris
e os meus lábios não tardarão a apodrecer
porque já me disseram que a Poesia também é pressão,
ópio do povo,
tudo é pressão,
ópio do povo,
tudo menos os homens com o peso do amor.

A revolução agora é outra.

Os comboios já não protestam porque funcionam
 com suor,
mas porque lhes falta água de colônia nas caldeiras,
e todos os êmbolos se transformaram em sexos.
E os náufragos não procuram nas ilhas
algas roxas e vermelhas
para vestirem a fome.
Preferem ver-se nus para serem verdade.

Ah! mas não julguem que me obrigam a gritar
contra o que sonhei.

Para mim o futuro continua a ser pão comum
em trono do rei.
Il peggio è che il futuro sembra sempre meno futuro
in queste giornate di fiamme a Parigi
e le mie labbra non tarderanno a marcire
poiché mi han già detto che anche la Poesia è coercizione,
oppio del popolo,
tutto è coercizione,
oppio del popolo,
tutto meno gli uomini con le pene d’amore.

La rivoluzione ora è un’altra.

I treni non protestano più perché funzionano a forza
 di sudore,
ma perché manca loro acqua di colonia nelle caldaie,
e tutti i pistoni si son trasformati in sessi.
E i naufraghi non cercano sulle isole
alghe viola e rosse
per rivestire la fame.
Preferiscono vedersi nudi per essere realtà.

Ah! ma che non si pensi di obbligarmi a gridare
contro ciò che ho sognato.

Per me il futuro continua ad essere semplice pane
sul trono del re.
________________

Marc Chagall
Parigi dalla finestra (1913)
...

Hei-de publicar estes versos com tinta invisível...


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante III (1978) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Hei-de publicar estes versos
com tinta invisível...
Devo pubblicare questi versi
con inchiostro invisibile...


Hei-de publicar estes versos com tinta invisível
Para que ninguém suspeite
da boca que trago oculta dentro da minha.

Breve deleite
das palavras fora das coisas
na caos das sombras repelidas
a tecerem o nada...

E é tão bom este sabor a cio
do planeta de pele arrancada!
Devo pubblicare questi versi con inchiostro invisibile
Perché nessuno abbia sentore
di quella bocca che tengo celata dentro la mia.

Breve delizia
delle parole fuori dalle cose
nel caos delle ombre confinate
a tessere il nulla...

Ed è così bella questa specie d’estro
del pianeta dalla pelle squarciata!
________________

Alberto Burri
Combustione Rosso Plastica (1964)
...

Foi então que descobri as palavras


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante III (1978) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Foi então que descobri as palavras
Fu allora che scoprii le parole


Gelo de saliva,
sombras desviadas,
capuzes de névoa,
sacos de sol frio,
fogueiras que nos criam com o fumo
e os homens nas cavernas
a morderem as urtigas,
os bichos, os morcegos,
de lábios nas pedras,
nas folhas, nas sementes,
fiel de línguas roucas,
sangue de sal ácido,
o mundo forrado de bocas.

Foi então que descobri as palavras.

Máscaras transparentes
que dão às coisas
os perfumes verdadeiros
das luzes incoincidentes.
Saliva congelata,
ombre separate,
cappucci di nebbia,
sacchi di sole freddo,
fuochi che ci alimentano col fumo
- e gli uomini nelle caverne
a masticare ortiche,
le bestie, i pipistrelli,
con le labbra sui sassi,
sulle foglie, sulle sementi,
fiele di lingue roche,
sangue di sale acido,
- il mondo foderato di bocche.
 
Fu allora che scoprii le parole.
 
Maschere trasparenti
che donano alle cose
i profumi autentici
delle luci divergenti.
________________

Carlo Carrà
Manifestazione interventista (1914)
...

Vai-te, Poesia!


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante II (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Vai-te, Poesia!
Vattene, Poesia!


Deixe-me ver friamente
a realidade nua
sem ninfas de iludir
ou violinos de lua.

Vai-te, Poesia!

Não transformes o mundo
descarnado e terrível
num céu de esquecer
com mendigos de nuvens
famintos de estrelas
e feridas a cheirarem a cravos
enquanto os outros, os de carne verdadeira,
uivam em vão
a sua fome de cadelas
e de pão.

Vai-te, Poesia!

Deixe-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa
 pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar.
Quero gritar!
Lascia ch’io freddamente veda
la realtà nuda
senza ninfe da illudere
o violini lunari.

Vattene, Poesia!

Non trasformare il mondo
scheletrito e terribile
in un cielo da dimenticare
con mendicanti di nuvole
affamati di stelle
e ferite dal profumo di garofani
mentre gli altri, quelli di carne vera,
urlano invano
la propria fame di femmine
e di pane.

Vattene, Poesia!

Lascia ch’io veda la vita
reale e intollerabile
su questo pianeta fatto di carne umana che piange
dove un angelo mi trascina tutte le notti a casa per
 i capelli
con bandiere di fuoco negli occhi,
per fabbricare sogni
caricati con la dinamite delle lacrime.

Vattene, Poesia!

Non voglio cantare.
Voglio gridare!
________________

Giovanni Greco
Concettuale in rosso (2014)
...

Recordar torna o mundo mais exacto...


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante II (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Recordar torna o mundo mais exacto...
Ricordare rende il mondo più preciso...


Recordar torna o mundo mais exacto
com réguas de fumo,
ângulos perfeitos de olhos nos astros
e a inocência daquele céu pardo
das manhãs inconcretas
que todos se lembram de ser azul
e não verde para lhe chamarmos oceano
ou folha de árvore.

A realidade é mais confusão
máquina-doida-de-repetir sombras inconcluídas,
bocas dependuradas nos ramos e nas corolas,
destinos de morder o vento,
narinas nas flores,
conluio de pássaros com o sol,
as plantas enganaram-se e deram incêndios em vez
 de rosas,
construção da Cidade da Morte com pele e cal,
ervas pisadas por espectros
e este cheiro tão bom a sonho
que torna o mundo mais efémero e real.

As aves nos fios telefónicos alimentam-se de palavras.
Ricordare rende il mondo più preciso
con regole di fumo,
angoli perfetti di occhi verso gli astri
e l’innocenza di quel cielo scuro
delle mattine immateriali
che tutti si ricordano essere blu
e non verde per chiamarlo oceano
piuttosto che foglia d’albero.

La realtà crea più confusione,
macchina bizzarra per replicare ombre incomplete,
bocche appese ai rami e alle corolle,
destini di mordere il vento,
narici sui fiori,
cospirazione di uccelli con il sole,
piante che s’ingannano e producono incendi invece
 che rose,
costruzione della Città della Morte con pelle e calce,
erbe calpestate dagli spettri
e queste profumo così buono di sogno
che rende il mondo più effimero e reale.

Gli uccelli sui fili del telefono si nutrono di parole.
________________

André Derain
Barche a Collioure (1905)
...

Que bom haver realidade...


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante II (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Que bom haver realidade...
Che bello che esista la realtà...


Que bom haver realidade,
a luz, o calor, o cheiro
e estas pedras tão pequenas
a desenharem-se em chão.

Que felicidade
o mundo não ser apenas
o nevoeiro
da minha imaginação.
Che bello che esista la realtà,
la luce, il calore, il profumo
e questi piccoli sassi
che si stagliano sul suolo.

Che felicità
che il mondo non sia soltanto
la nebbia
della mia immaginazione.
________________

Despa Hondros
Rock (2022)
...

Hoje acordei na dispersão cinzenta...


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante II (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Hoje acordei na dispersão cinzenta...
Oggi mi son svegliato nel grigio sbandamento...


Hoje acordei na dispersão cinzenta
dum dia decepado... Com o corpo dividido,
as imagens sem olhos,
os gestos a fugirem-me dos dedos
- e a sombra esquecida no quarto ao lado.

Desatado de mim,
andei todo o dia assim
com os passos nas nuvens,
os pés na terra,
as mãos a estrangularem o nevoeiro,
e os olhos... Ah! os meus olhos onde estão?

(Só há momentos me encontrei por inteiro
num charco a evaporar-se do chão...)
Oggi mi son svegliato nel grigio sbandamento
d’un giorno decapitato... Col corpo diviso,
le immagini senz’occhi,
i gesti sfuggenti dalle dita
- e l’ombra scordata nella stanza accanto.

Scollegato da me,
ho vagato tutto il giorno così
coi passi tra le nuvole,
i piedi a terra,
le mani intente a strangolare la nebbia,
e gli occhi... Ah! dove sono i miei occhi?

(Solo poco fa m’ero ritrovato tutt’intero
in una pozzanghera che stava evaporando...)
________________

Georges Braque
Uomo con chitarra (1912)
...

Entrei no café...


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante II (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Entrei no café...
Sono entrato nel caffè...


Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
- onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.
Sono entrato nel caffè con un fiume in tasca
e l’ho posato a terra,
per vederlo scorrer via
dalla fantasia...

In seguito, ho tolto dal taschino del gilet
nuvole e stelle
e ho steso un tappeto
di fiori
per immaginarle.

Poi, appoggiato al tavolino,
ho tolto di bocca un uccello canoro
e con questo ho agghindato la Natura
degli alberi circostanti
per dar loro il profumo del chiar di luna
che io m’immagino.

E adesso sto qui a sentire
la melodia senza enfasi
di questa casualità d’esistere
- dove io non cerco che la Bellezza
per illudermi
che ci sia un destino.
________________

Gustav Klimt
Giardino in fiore (1907)
...

Café


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante II (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Café
Caffè


(Finjo que não vejo as mulheres que passam, mas vejo)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atavessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...
   
E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.
(Fingo di non vedere le donne che passano, ma le vedo)

Di botto, il diavoletto che mi danzava sugli occhi,
al veder la fanciulla attraversar la strada,
sobbalzò con impeto di scarabeo
e di tutto la lasciò spogliata...
   
E Colei-Che-Se-La-Tira-Tanto
si ritrovò nuda,
sonnambulamente nuda,
con un seno d’oro
e l’altro d’argento.
________________

Tiziano
Giovane donna con cappello piumato (1534-1536)
...

Aquela nuvem


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante II (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Aquela nuvem
Quella nuvola


(Na praia. O menino aprende
a linguagem das nuvens.)


Aquela nuvem
parece um cavalo…

Ah! Se eu pudesse montá-lo!

Aquela?
Mas já não é um cavalo,
É uma barca à vela.

Não faz mal.
Queria embarcar nela.

Aquela?
Mas já não é um navio,
é uma torre amarela
a vogar no frio
onde encerraram uma donzela.

Não faz mal.
Quero ter asas
para a espreitar da janela.

Vá, lancem-me no mar
donde voam as nuvens
para ir numa delas
tomar mil formas
com sabor a sal

- Labirinto de sombras e de cisnes
No céu de água-sol-vento-luz
concreto e irreal…
(Sulla spiaggia. Il bambino impara
il linguaggio delle nuvole.)


Quella nuvola
sembra un cavallo…

Ah! Se potessi montarlo!

Quella?
Ma non è già più un cavallo,
È una barca a vela.

Non importa.
Vorrei salirci a bordo.

Quella?
Ma non è già più una barca,
è una torre gialla
che fluttua nell’aria fredda
dove hanno rinchiuso una donzella.

Non importa.
Vorrei aver le ali
per guardarla dalla finestra.

Su, gettatemi nel mare
da dove partono le nuvole
per salire su una di quelle
prendere mille forme
dal sapore di sale.

- Labirinto d’ombre e di cigni
Nel cielo d’acqua-sole-vento-luce
concreto e irreale…
________________

Andrea Mantegna
Oculo con putti (1465-1474)
...

Viver sempre também cansa...


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante I (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Viver sempre também cansa...
Anche di viver sempre ci si stanca...


Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
Folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
Anche di viver sempre ci si stanca.
Il sole è sempre lo stesso e il cielo blu
ora è blu, d’un bel blu nitido,
ora è grigio, nero, quasi verde...
Ma mai che abbia un colore inatteso.

Il mondo non si modifica.
Gli alberi danno fiori,
foglie, frutti e uccelli
come macchine verdi.

Anche i paesaggi non si trasformano.
Non cade neve rossa,
non ci sono fiori volanti
la luna non ha occhi
e nessuno dipingerà occhi alla luna.

Tutto è uguale, meccanico e preciso.

Come se non bastasse, gli uomini sono uomini.
Piangono, bevono, ridono e digeriscono
senza immaginazione.

E ci sono quartieri miserabili, sempre gli stessi,
discorsi di Mussolini,
guerre, momenti critici,
automobili da corsa...

E m’impongono di vivere fino alla Morte!

Ma allora non era più umano
morire un pochettino,
di tanto in tanto,
e ricominciare dopo,
ritrovando ogni cosa rinnovata?

Ah! se potessi suicidarmi per sei mesi,
morire steso su un divano
con la testa posata su un cuscino,
fiducioso e sereno sapendo
che tu mi veglieresti, amore mio.

E se venisse qualcuno a chiedere di me,
dovresti dire con quel tuo sorriso
ove arde un cuore in melodia:
“Si è ucciso stamattina.
Ora non vorrei resuscitarlo
per una bazzecola”.

E verresti poi, dolcemente,
a vegliare su di me, lieve e premurosa,
in punta di piedi, per non svegliare
la Morte ancora bimba in braccio a me...
________________

Emil Nolde
Sky and sea (1930)
...

Todas as noites procuro...


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante I (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Todas as noites procuro...
Tutte le notti cerco...


Todas as noites procuro no céu
o meu mundo verdadeiro...
– planeta de carne de lágrimas
onde as fontes pensam,
as árvores gritam,
as pedras sangram
e o vento fala a nossa língua
que as flores da Terra não atendem
no enleio do cio dos insectos...

Um mundo com outra paisagem
tão diferente desta natureza
de ninfa de sol azul
que, todas as manhãs,
vem, com as suas blandícias de mulher,
algemar de flores as minhas mãos
que querem combater.
Tutte le notti cerco in cielo
il mio mondo vero...
– pianeta di carne di lacrime
ove le fonti pensano,
gli alberi gridano,
le pietre sanguinano
e il vento parla la nostra lingua
che i fiori della Terra non afferrano
nello scompiglio degli insetti in estro...

Un mondo con un altro paesaggio
assai differente da questa natura
di ninfa del sole blu
che, tutte le mattine,
viene, con le sue lusinghe di donna,
a porre manette di fiori alle mie mani
che chiedono di combattere.
________________

Wifredo Lam
Uragano (1945)
...

Quero voar...


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante I (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Quero voar...
Vorrei volare...


Quero voar
- mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
- mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
- tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)
Vorrei volare
- ma spuntano dal fango
artigli di terra
che mi agguantano le caviglie.

Vorrei morire
- ma scendono dalle nuvole
braccia d’angoscia
che mi tengono per i capelli.

E così sospeso
nel fragore della tempesta
come un sacco colmo di pene
- riempio gli occhi di lacrime
pur di non vedere le catene...

(Ma qualunque ondeggiamento al vento mi pare Libertà.)
________________

Lorenzo Quinn
Support (2017)
...

Posso lá compreender os teus olhos...


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
José Gomes Ferreira »»
 
Poeta Militante I (1977) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Posso lá compreender os teus olhos...
Non riesco proprio a capire i tuoi occhi...


Futuro: a Censura não deixou publicar
estes versos n'«O Diabo».


Posso lá compreender os teus olhos resignados
com qualquer mecânica de Primavera!

Eu que estou farto das canções vazias dos pássaros
e dos montes de pedras
que já ninguém sabe quem criou
neste enredo da preguiça das árvores
a repetirem sonâmbulas
a herança azul
do primeiro caos da criação.

Eu que quero outra luz,
outro sol,
outra morte,
neste planeta de cadáveres
enfurecido de flores.

Eu que só choro diante das paisagens
quando me lembro que por dentro das pedras
corre, negro e escondido,
o sangue humano de todos os fuzilados.

A Primavera queremos nós criá-la.
Nós, os homens.
Futuro: la Censura non ha permesso
di pubblicare questi versi su «Il Diavolo».


Non riesco proprio a capire i tuoi occhi arrendevoli
davanti a qualsiasi meccanicismo della Primavera!

Io che sono stufo di insulse canzoni d’uccelli
e di monti di pietra
che nessuno sa più chi li ha creati
in questa trama di pigrizia degli alberi
che ripropongono sonnambuli
l’azzurra eredità
del primo caos della creazione.

Io che voglio altra luce,
altro sole,
altra morte,
in questo pianeta di cadaveri
tempestato di fiori.

Io che piango davanti alla natura solo
quando mi rammento che dentro le pietre
scorre, nero e nascosto,
il sangue umano di tutti i fucilati.

La Primavera vogliamo crearla noi.
Noi, gli uomini.
________________

Cláudio Cesar
senza titolo (1990)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (554) Orides Fontela (15) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (361) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)