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O poeta e o social - 14


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O poeta e o social - 14
Il poeta e il sociale - 14


O poeta tem
objectivos claros,
mesmo quando
parece obscuro.
Il poeta ha
chiari i suoi obiettivi,
anche quando
risulta oscuro.
________________

Gerhard Richter
March 13 2000 (2000)
...

Perscrutação


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Perscrutação
Elucubrazione


não me canso de dizer
que cada coisa
pode ser
o contrário do que é.

quando digo
que cada coisa
pode ser
o contrário do que é,
sei perfeitamente
o que digo
e é isso
que quero dizer
e não o contrário,
embora o contrário
também esteja certo,
porque cada coisa
também pode ser
o que é.

a função das coisas
é ser aquilo
que se quer
que elas sejam.
non mi stanco di dire
che ogni cosa
può essere
il contrario di ciò che è.

quando dico
che ogni cosa
può essere
il contrario di ciò che è,
so perfettamente
ciò che dico
ed è questo
che voglio dire
e non il contrario,
benché il contrario
sia altrettanto vero,
perché ogni cosa
può anche essere
ciò che è.

la funzione delle cose
è d’essere ciò
che si vuole
che esse siano.
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Michelangelo Pistoletto
La verità di Michelangelo Pistoletto (2024)
(della serie "Quadri specchianti")
...

Foge a nuvem com o tempo


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Foge a nuvem com o tempo
Fugge la nuvola col tempo


a poesia, essa, mil vezes avaliada
para se lhe alterar a valia,
como na finança
ora para mais, ora para menos,
pois é modo dela fabricar
algo sempre incompleto e
a completar doutra vez,
foi sempre assim, foi,
e, de cada vez, ela disse
que se aproximou
mas ainda não chegou
lá onde tem de chegar, ainda falta
e sempre faltará:
doutro modo já teria acabado.
la poesia, lei, mille volte valutata
per alterarne il valore,
come nella finanza
ora in crescita, ora in calo,
poiché è sua prerogativa costruire
qualcosa di sempre incompleto e
da completare un’altra volta,
è sempre andata così, è andata,
e, ogni volta, lei ha detto
d’essersi avvicinata
ma senza ancora arrivarci
là dove deve arrivare, manca ancora un po’
e sempre mancherà:
altrimenti sarebbe già finita.
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Henri Edmond Cross
Nuvole rosa (1896)
...

Tornei a sonhar com o homem...


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Tornei a sonhar com o homem...
Ho sognato ancora quell’uomo...


tornei a sonhar com o homem
que se debruça sobre ti
mete as mãos
na tua vagina
tacteia empurra segue sobe
chega ao teu coração
arranca-o com as unhas
trá-lo para fora com um fio de pesca
embrulha-o num pano
afasta-se com ele
o sangue não pára
tu ficas a ponto de morrer
com muito estertor
mas não morres
tens razão
eu não conseguiria
satisfazer-te tão intensamente
como o homem dos teus sonhos
Ho sognato ancora quell’uomo
che si china su di te
insinua le mani
nella tua vagina
tocca spinge avanza sale
arriva fino al tuo cuore
lo strappa con le unghie
lo estrae con un filo da pesca
lo avvolge in un panno
se lo porta via
il sangue non s’arresta
tu sei in punto di morte
agonizzante
ma non muori
hai ragione
io non riuscirei
a soddisfarti così intensamente
come l’uomo dei tuoi sogni
________________

Alexey Venetsianov
Fanciulla dormiente (1840)
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Postscriptum


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Postscriptum
Post scriptum


Se eu amanhã
não entender a razão disto
que hoje escrevi,
isso prova
que meu tempo decai
como o das maçãs
que um dia
começam a apodrecer.

Nessa ocasião,
já quase Inverno,
não há Newton por baixo:
maçãs que caem de podres
não lhe interessam.

Se forem outros
que não entendem
isto que
decidi escrever,
isso prova
que é infinita
a variedade de apodrecimento
das maçãs, bem como
a do tempo dos outros.
Se io domani
non capissi il senso di quel
che ho scritto oggi,
questo proverebbe
che il mio tempo decade
come quello delle mele
che un bel giorno
cominciano a marcire.

In quel frangente,
ormai quasi Inverno,
non c’è Newton di sotto:
mele marce che cadono
non gl’interessano.

Se fossero altri
a non capire
quello che
ho deciso di scrivere,
questo proverebbe
che è infinita
la varietà di marcescenza
delle mele, proprio come
quella del tempo altrui.
________________

Juan de Zurbarán
Cesto con mele, cotogne e melagrane (1643-1645)
...

Não sei


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Não sei
Non so


Poéticos, os deuses?
Eles não têm sangue.

Debaixo do céu inerte,
a ave que foi trespassada
e cai como um trapo
no tronco de árvore de Botticelli
tinha sangue.
Ou a pantera
do Jardin des Plantes
que incansavelmente
percorre a sua jaula
de um lado para o outro,
cerrando lentamente as pálpebras
sobre o mundo, tem sangue.

Ou as três gotas de sangue na neve
que causam o assombro
abismado de Parsifal
têm origem viva, que se torna poética
quando chegam a ele.

A poesia
são gotas, inúmeras,
secas ou ainda frescas,
sangue, sempre sangue,
o preço líquido
que a vida paga
pela fuga constante
a si mesma,
a caminho
do que não existia
antes de
ela lá ter chegado.

A poesia
quer que cheguemos,
aonde ela chegou.

– E chegamos?

Claro que não.

– E os deuses?

Esses incutem
pavor e esperança:
pavor na vida que temos,
feita do pó do universo,
esperança em chegar a eles
depois dela.

– E chegamos?

Não sei. A qual deles?
Poetici, gli dei?
Loro non hanno sangue.

Sotto l’inerte cielo,
l’uccello che fu trafitto
ed è caduto come un cencio
sul tronco dell’albero di Botticelli
sangue ne aveva.
O la pantera
del Jardin des Plantes
che instancabilmente
percorre la sua gabbia
da un lato all’altro,
chiudendo lentamente le palpebre
sul mondo, sangue ne ha.

O le tre gocce di sangue sulla neve
che causano lo sbalordimento
profondo di Parsifal
hanno un’origine viva, che diventa poetica
quando giungono a lui.

La poesia
è fatta di gocce, innumerevoli,
secche o ancora fresche,
sangue, sempre sangue,
il prezzo liquido
che la vita paga
per la fuga costante
verso sé stessa,
sulla strada
di ciò che non esisteva
prima che
lei ci potesse arrivare.

La poesia
vuole che noi arriviamo,
là dov’è arrivata lei.

– E arriviamo?

Certo che no.

– E gli dei?

Loro incutono
timore e speranza:
timore per la vita che abbiamo,
fatta di polvere dell’universo,
speranza di arrivare da loro
dopo di lei.

– E arriviamo?

Non so. A quale di loro?
________________

Rembrandt Bugatti
Pantera che cammina, gamba posteriore sollevata (1904)
...

Nada falta


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Nada falta
Nulla manca


Ao cair da tarde,
passa lá fora
a melancólica,
antiquíssima flauta
do amolador.

Vai-se afastando
e deixando atrás de si,
como uma cascata,
a toada
magoada e urgente
da noite que vem
e promete ser
varrida de água
e de vento,
fatal para vagabundos
e para espíritos aflitos
ou afligidos.

Mas
entre os múltiplos golpes
executados por aí
com um cutelo de dois gumes
de fabrico euro-alemão,
esta tormenta,
no ritmo da flauta
anuncia sobretudo a queixa
de mais um trabalho
em liberdade e em gosto
prestes a morrer.

Parece
que mais ninguém a ouve,
e,
pelo silêncio que fica,
parece até
que já não há ninguém vivo na rua.
Nem os cães...
Estarão
a ver
as inundações
na América...

- Os cães também?

Claro, nem ladram.

A televisão
inunda-lhes a casa lá longe
e eles gostam.
Também lhes afia as facas
que trazem na cabeça
e todos gostam.
Não precisam de amolador.
Não precisam de mais nada.
Sul far della sera,
passa là fuori
il malinconico,
antichissimo richiamo
dell’arrotino.

Si sta allontanando
e lascia dietro di sé,
simile a una cascata,
la cantilena
accorata e urgente
della notte che viene
con la promessa d’essere
spazzata dall’acqua
e dal vento,
fatale per i vagabondi
e per gli spiriti afflitti
o affranti.

Ma
tra i molteplici colpi
assestati così
con un coltello a doppio taglio
di fabbricazione tedesca,
questa tormenta,
al ritmo del richiamo
annuncia soprattutto il lamento
di un altro mestiere
fatto in libertà e piacere
destinato a morire.

Pare
che più nessuno lo senta,
e,
per il silenzio rimasto,
pare financo
che nessuno sia più vivo nella via.
Nemmeno i cani...
Staranno
guardando
le inondazioni
in America...

- Anche i cani?

Certo, neanche abbaiano.

La televisione
inonda la loro casa laggiù
e loro sono contenti.
E affila anche quei coltelli
che loro si portano in testa
e sono tutti contenti.
Non hanno bisogno dell’arrotino.
Non hanno più bisogno di niente.
________________

Kazimir Malevich
L'arrotino (1913)
...

Entre a Morte e o Norte


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Entre a Morte e o Norte
Tra la morte e il nord


Antes dos cânticos
vem muito a propósito
a leitura do livro de Job:
“O esplendor de ouro
Vem do Norte.”

Será que entendo bem?
Não terei ouvido mal?
Ou será que ouvi bem
e então entendi mal?

Não será “da morte”?

– Isso é depois,
primeiro é sempre o ouro.
Depois é que é o euro
e então a morte.
Prima dei cantici
viene molto a proposito
la lettura del libro di Giobbe:
“Lo splendore dell’oro
Viene dal nord.”

Avrò capito bene?
Non avrò sentito male?
O avrò sentito bene
eppure ho capito male?

Non avrà inteso “dalla morte”?

– Questo è il dopo,
prima c’è sempre l’oro.
È dopo che viene l’euro
e infine la morte.
________________

Lari Pittman
Tutto ciò che luccica, è oro (2000)
...

Beau Monde


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Beau Monde
Beau Monde


Vejo as flores,
não sei o nome,
não figura nas pétalas,
vejo dentro da minha cabeça
onde passeia o aroma nocturno
de Verão,
mas já não o respiro.

O que neste momento respiro
pertence à temporada petrolífera.
Até os gatos se foram embora.

Tanto abandono
à minha volta.
Vedo i fiori,
non ne so il nome,
non figura sui petali,
guardo dentro la mia testa
ove aleggia l’aroma notturno
dell’estate,
ma non lo respiro già più.

Ciò che in questo momento respiro
appartiene alla stagione petrolifera.
Persino i gatti sono andati via.

Quanto abbandono
intorno a me.
________________

Cameron Jamie
Pinky Blues (2024)
...

Antelogium


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Antelogium
Antelogium


  para Teresa Negrão

Deixo-me ir
na maré dos teus olhos
quando ela flui
diante de mim,
e espero.

Não sei que espero.
A espera é cega,
o apagamento provisório da luz,
o escuro,
o vazio,
nada.

Como sempre,
tudo chegará
na ocasião de chegar.
Sem dúvida,
tudo chegará:
o tempo
que em ti há-de continuar
a formar-se,
que em mim
irrevogavelmente,
está a acabar.
  per Teresa Negrão

Mi lascio andare
alla marea dei tuoi occhi
quando fluisce
davanti a me,
e attendo.

Non so di attendere.
L’attesa è cieca,
la scomparsa provvisoria della luce,
il buio,
il vuoto,
nulla.

Come sempre,
tutto arriverà
quando sarà ora d’arrivare.
Senza dubbio,
tutto arriverà:
il tempo
che in te deve continuare
a formarsi,
che in me
irrevocabilmente,
sta per finire.
________________

Yasmin Al Daya
Life (2024)
...

Já?


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Prodigioso Acanto (2008) »»
 
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Já?
Già?


já tentaste praticar o bem
fazendo mal?
já tentaste praticar o mal
fazendo bem?
já tentaste praticar o bem
fazendo bem?
já tentaste praticar o mal
fazendo mal?
já tentaste praticar o bem
não fazendo nada?
já tentaste praticar o ma
fazendo tudo?
já tentaste praticar tudo
não fazendo nada?
e o contrário, já tentaste?
já?
seja qual for a tua resposta,
não sei que te diga.
Hai già provato a praticare il bene
facendo del male?
Hai già provato a praticare il male
facendo del bene?
Hai già provato a praticare il bene
facendo del bene?
Hai già provato a praticare il male
facendo del male?
Hai già provato a praticare il bene
non facendo nulla?
Hai già provato a praticare il male
facendo di tutto?
Hai già provato a praticare di tutto
non facendo nulla?
e il contrario, l’hai già provato?
già?
qualunque sia la tua risposta,
non so che dirti.
________________

Kazimir Malevic
Bianco su bianco (1918)
...

Mas que memória?


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Imitação de Ovídio (2006) »»
 
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Mas que memória?
Ma che memoria?


mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?

deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)

é preciso emparedar o demente
que propõe que podia haver
o que não há.
e outros
como ele.

acham-se todos
cada vez mais
perdidos
no meio do próprio ruído,
carregando
males
e mails
como se a diferença
entre ambos estes termos
não fosse
apenas o espaço
de uma ou outra letra,
e a ressonância
da voz do homem
que treme fora como a terra dentro.
ma che memoria
possiamo avere
di noi?
e di che tempo?

di questo tempo esteriore
in cui
dopo che son stati creati
e decifrati
gli alfabeti concordati
dallo sfruttamento
della vita
è arrivato il progetto Stardust
con materiale inalterato
fin dall’inizio
del sistema solare,
che non ci dice
se già allora c’erano atti d’amore
e perciò
non ci dice niente (?)

occorre recludere il demente
che propone che potrebbe esserci
quel che non c’è.
e altri
come lui.

ciascuno si ritrova
sempre più
perduto
in mezzo al proprio rumore,
recando
mali
e mail
come se la differenza
tra questi due termini
non fosse
che la posizione
di una o dell’altra lettera,
e la risonanza
della voce dell’uomo
che trema fuori come la terra dentro.
________________

Andrius Labasauskas
Gone-fishing (2018)
...

Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta 35


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Marthiya de Abdel Hamid
segundo Alberto Pimenta - 35
Marthiya di Abdel Hamid
secondo Alberto Pimenta - 35


Não sei
Se tornarei a ver
As caravanas
Que de madrugada
Atravessam o deserto
Em frente
Às ruínas de Palmira
Ou
As azenhas milenares
De Hama
A chiar de esforço
Quando elevam
A água do Oronte
Até ao aqueduto
Que encima a cidade
Ou
A paisagem
Aos pés do monte Kasyun
Coberta de estrelas
Que caíram
E se fizeram
Pura luz esparsa:
A cidade de Damasco
Não sei
Se tornarei
A fazer a viagem nocturna
No comboio de Bagdad:
Alepo, N´nive,
Tikrit…
E se outra vez ainda
Poderei erguer os olhos
E ver a beleza de Nahila
Nos limites da sua açoteia.
Já ouvi dentro de mim
Um trovão
Fender-me a alma.
Para a unir de novo
Não sei o que terei de enfrentar.
Non so
Se tornerò a vedere
Le carovane
Che verso l’alba
Attraversano il deserto
Di fronte
Alle rovine di Palmira
O
Le millenarie ruote dei mulini
Di Hama
Che cigolano per lo sforzo
Quando sollevano
L’acqua dell’Oronte
Su fino all’acquedotto
Che corona la città
O
Il paesaggio
Ai piedi del monte Kasyun
Ricoperto di stelle
Cadute
E divenute
Pura luce diffusa:
La città di Damasco
Non so
Se tornerò
A fare il viaggio notturno
Sul treno di Bagdad:
Aleppo, Ninive,
Tikrit…
E se per una volta ancora
Potrò alzare gli occhi
E vedere la bellezza di Nahila
Affacciata alla sua terrazza.
Ho udito dentro di me
Un tuono
Squarciarmi l’anima.
Per ricomporla di nuovo
Non so che cosa dovrò affrontare.
________________

Alberto Pasini
Rovine di un tempio nel deserto (1864)
...

Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta 33


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Marthiya de Abdel Hamid
segundo Alberto Pimenta - 33
Marthiya di Abdel Hamid
secondo Alberto Pimenta - 33


Para voltar
A ver-te
Um só instante,
A ti,
Que és mais bela que a lua,
Antes que a manhã recolha
As estrelas
Uma a uma
E as guarde
Do outro lado do céu,
Vou atravessar
O rio
Coberto de holofotes,
Que transformam o verde claro
Numa fosforescência
De água assustada.
Se não me matarem
Nem me apanharem vivo,
Mantém-te alerta,
Mantém alerta
O desejo mais antigo
e o mais novo.
Vou passar
Do lado de fora
Da parede
Perfurada
Pelas balas:
Passa-me um lenço
De seda
Com o teu perfume.
Marca-o com o segredo
Dos teus lábios.
Per tornare
A rivedere te
Un solo istante,
Sì, te,
Che sei più bella della luna,
Prima che l’alba riunisca
Le stelle
Ad una ad una
E le protegga
Dall’altro lato del cielo,
Attraverserò
Il fiume
Sovrastato dai riflettori,
Che alterano il suo verde chiaro
In una fosforescenza
D’acqua spaurita.
Se non mi uccideranno
O se non mi prenderanno vivo,
Rimani vigile,
Mantieni vigile
Il tuo più antico desiderio
ed il più nuovo.
Io passerò
Dal lato esterno
Del muro
Perforato
Dalle pallottole:
Passami un fazzoletto
Di seta
Col tuo profumo.
Marcalo col segreto
Delle tue labbra.
________________

Pablo Picasso
Donna in lacrime con fazzoletto (1937)
...

Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta 26


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Marthiya de Abdel Hamid
segundo Alberto Pimenta - 26
Marthiya di Abdel Hamid
secondo Alberto Pimenta - 26


Vivemos
Na nossa própria terra
Como
Num campo de refugiados.

Todos perguntam:
Que estou eu a ver?

Ninguém tinha imaginado
Que a vida
Pudesse ser uma chaga
De aspecto incurável.

É provisório,
Dizem-nos,
Pois tencionam
Encaminhar-nos depois
Para outro campo
Que estão a tentar
Estabelecer:
Cercado a toda a volta
Das suas liberdades.
Viviamo
Nella nostra terra
Come
In un campo di rifugiati.

Tutti si domandano:
Che cosa mi tocca vedere?

Nessuno aveva immaginato
Che la vita
Potesse essere una piaga
Dall’aspetto incurabile.

È provvisorio,
Ci dicono,
Perché hanno intenzione
Di trasferirci poi
In un altro campo
Che stanno tentando
Di organizzare:
Interamente circondato
Dalle loro libertà.
________________

Ai Weiwei
Odyssey (2017)
...

Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta 19


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Marthiya de Abdel Hamid
segundo Alberto Pimenta - 19
Marthiya di Abdel Hamid
secondo Alberto Pimenta - 19


É claro que
A memória
Não ressuscita
E o esquecimento
Não dá paz.
A alguns
Mandaram abrir uma cova
E deitar-se dentro.
Mas quando
Entre o verde
Do horto de palmeiras
Na margem do rio
Se virem apenas
Como no leque do pavão
Os olhos das tâmaras,
E não houver
Tanques de guerra
Assestados a espreitar,
Nem um só,
Os mortos
Reconciliados,
Poderão passear
Como dantes
No vento
Que passa
E refrescar-nos
Assim os olhos.
È chiaro che
La memoria
Non resuscita
E l’oblio
Non dona pace.
A qualcuno
Fu ordinato di scavare una fossa
E sdraiarcisi dentro.
Ma quando
Tra il verde
Dei filari di palme
Sulla riva del fiume
Si vedranno soltanto
Come sulla coda del pavone
Gli occhi dei datteri,
E non ci saranno
Carri armati
Appostati a spiare,
Neanche uno solo,
Allora i morti
Riconciliati,
Potranno passeggiare
Come una volta
Nel vento
Che spira
E rinfrescarci
Gli occhi, così.
________________

John Singer Sargent
Palme (1917)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

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