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Esplendor na relva


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Esplendor na relva
Splendore nell’erba


Eu sei que deanie loomis não existe
mas entre as mais essa mulher caminha
e a sua evolução segue uma linha
que à imaginação pura resiste

A vida passa e em passar consiste
e embora eu não tenha a que tinha
ao começar há pouco esta minha
evocação de deanie quem desiste

na flor que dentro em breve há-de murchar?
(e aquela que no auge a não olhar
que saiba que passou e que jamais

lhe será dado ver o que ela era)
Mas em deanie prossegue a primavera
e vejo que caminha entre as mais
Lo so che deanie loomis non esiste
ma questa donna tra le altre cammina
e la sua evoluzione segue una linea
che alla pura immaginazione resiste

La vita passa e nel passar consiste
e benché io non abbia più quella che avevo
poco fa all’inizio di questa mia
evocazione di deanie chi può rinunciare

al fiore che tra breve è destinato a sfiorire?
(e lei che giunta al suo apice non si guarda
sappia ch’è ormai passato e che giammai

le sarà dato di rivedere quel ch’è stata)
Ma in deanie la primavera persiste
ed io la vedo camminare tra le altre
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Locandina del film
Splendor in The Grass (1961)
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A morte da água


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A morte da água
La morte dell’acqua


Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende
ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para
isso. Um rio é a infância da água. As margens,
 o leito,
tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar
largo. Acabou-se qualquer possível árvore geneológica,
visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer
passado. É o convívio com a distância, com o
incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há
água que se lança nessa aventura. Adeus margens
verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos.
Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem
mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto
de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à
morte de um rio que envelheceu a romper pedras e
plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível
voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.
Una delle gite che più mi piace fare è andare a Esposende
a veder sfociare il Cávado. Là esiste un bar ben situato per
questo scopo. Un fiume è l’infanzia dell’acqua. Le rive,
 il letto,
tutto la protegge. È alla foce che inizia l’avventura del mare
aperto. S’è concluso ogni possibile albero genealogico,
visibile dall’anello al dito. S’è concluso ogni
passato. È il convivio con la distanza, con
l’incommensurabile. È l’anonimato. E in ogni istante v’è
acqua che si getta in quest’avventura. Addio rive
verdeggianti, addio ponti, addio pesci conosciuti.
Ora è il mare salato, l’avventura senza ritorno, neppure
con l’alta marea. Ed è a Esposende che mi piace
assistere, per ore, in cambio di un’Imperial, alla
morte di un fiume che è invecchiato travolgendo pietre e
piante, che ha lottato, che ha aggirato ostacoli. Impossibile
tornare indietro. Adesso è la morte. O la vita.
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Carlo Carrà
Foce del fiume Cinquale (1928)
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Acontecimento


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Aquele Grande Rio Eufrates (1961) »»
 
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Acontecimento
Avvenimento


Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono
Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou
Tu stai qui dietro l’angolo delle parole di sempre
amore inventato in un fervore di labbra
che mordono il tempo sempre qua
E il cuore ci appare
come un’offerta di foglie nuziali
sulle nostre spalle d’autunno
Calino ora le palpebre a rinserrare
il sacrificio che i nostri gesti compiono
per mostrarci i soliti visti da fuori
Calino ora che l’amore è arrivato
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Emil Nolde
Coppia (rosso e giallo (1909)
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O urogalo


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O urogalo
L’urogallo


O urogalo vive solitário e livre
entoa um canto triste de que vive
e morre se não canta mas se canta
atrai o caçador que lhe dá morte
É ave vive sobre a morte e cai quando o seu canto
lhe aviva a vida que lhe causa a morte

Não sei que ave é o urogalo
e se o vi só o vi numa fotografia vista
na contracapa de uma certa revista
Só sei que vive solitário e livre
e sei que a solidão e a liberdade
são condição de vida para quem
quer erguer a cabeça sobre a morte viva ou morte morta

O urogalo canta solitário e triste
resiste à morte apenas porque canta
o canto é perigoso pode ouvi-lo o caçador
mas porque canta leva a cabeça erguida
e apenas o perigo dá sentido à vida
Virá o caçador acabará o canto
mas sente-se viver e não importa a morte
a quem ameaçado ameaça no entanto
porque o canto mortífero dá vida

O urogalo vive solitário e livre e
a solidão e a liberdade condição de vida
podem custar a vida àquele que vive
mas isso não importa importa só
precisamente isso e nada mais que isso
que seja solitário e seja livre e assim viva
a vida de quem vive não de quem vegeta
e que o seu coração seja capaz da solidão
e que levante o canto em liberdade
e que ao cantar a solidão seja cidade
L’urogallo vive solitario e libero
intona il canto triste di chi vive
e muore se non canta ma se canta
attira il cacciatore che gli dà la morte
Da uccello vive sopra la morte e cade quando il suo canto
gli ravviva la vita che gli causa la morte

Non so che uccello sia l’urogallo
e se l’ho visto, l’ho visto soltanto in una foto vista
sul retro di copertina di una certa rivista
So solamente che vive solitario e libero
e so che la solitudine e la libertà
sono condizione di vita per chi
vuole alzare la testa sulla morte viva o sulla morte morta.

L’urogallo canta solitario e triste
resiste alla morte solo perché canta
il canto è pericoloso può udirlo il cacciatore
ma poiché canta solleva alta la testa
e solamente il pericolo dà senso alla vita
Verrà il cacciatore cesserà il canto
ma si sente vivere e che importa la morte
a chi minacciato minaccia a sua volta
perché il canto mortifero dà vita

L’urogallo vive solitario e libero e
la solitudine e la libertà condizione di vita
possono costar la vita a colui che vive
ma questo non importa importa solo
esattamente questo e nient’altro che questo
che sia solitario e sia libero e così viva
la vita di chi vive non di chi vegeta
e che il suo cuore sia capace di solitudine
e che levi il suo canto in libertà
e che nel cantare la solitudine sia città
________________

Alois Carigiet
Urogallo (1978)
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Tu estás aqui


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Tu estás aqui
Tu stai qui


Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto
 do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de
 de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos
 desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social
 só sou um nome e sabem o que sei
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos
 e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui
 sentado dentro de casa sou outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e
 só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo
 o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra
 coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a
 casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo
 o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo
 castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas
 salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas
 a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à
 sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu
 nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto
 noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou
 dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer
 me deram outro nome que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir
 uma coisa das outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse
 também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos
 domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que
 os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam
 certas palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face
 na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço
 por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer
 sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
Tu stai qui con me all’ombra del sole
scrivendo odo noti rumori domestici
e la luce umilmente mi giunge dalla finestra
e mi fa male un braccio e so di mostrare il mio lato
 peggiore
Tu stai qui con me e sono sommamente quotidiano
e tutto ciò che faccio o sento è come se avessi addosso
 un pigiama
che uso per essere proprio questo questa bestiola
con abitudini manie segreti difetti quasi tutti
 dissimulati
mentre poi là fuori nella vita professionale o sociale
 non sono che un nome e loro sanno quel che sono
quel che faccio o magari sono io che credo che lo sappiano
e sono affabile seleziono attentamente i gesti
 e scelgo le parole
e so che in fondo posso essere così forse perché qui
 seduto dentro casa sono un’altra cosa
questa cosa che scrive e ha una macchia sulla camicia
 e d’esteriore non ha che
la manifestazione di questo dolore a questo braccio che
 interessa tutto ciò che faccio
ben inteso ciò che faccio con questo braccio
Tu stai qui con me e tutt’intorno ci sono pareti
e posso passare da una stanza all’altra pensando a
 qualcos’altro
e dire qui c’è il soggiorno qui la camera da letto qui
 c’è il bagno
e alla fine posso scegliere ciascuno dei vani in base
 a quel che devo fare
Tu stai qui con me e so d’essere solo questo corpo
 maltrattato
portato dalle gambe di stanza in stanza. Io non sono che
 queste stanze queste pareti
questa profonda vergogna d’esserlo e di non esser soltanto
 l’altra cosa
quella cosa che sono per strada dove non sto
 all’ombra del sole
Tu stai qui e mi sento assolutamente indifeso
davanti ai giorni. Che nessuno venga a sapere questo mio
 nome
questo mio vero nome che poi forse è celato dietro
 un altro
nome anche se nello stesso nome questo nome
di terra di dolore di pareti questo nome domestico
In fondo sono stato questo nient’altro che questo
le altre cose che ho fatto le ho fatte per non esser questo
 o per celare questo
che non chiamo merda solamente perché alla nascita m’han
 dato un nome diverso da merda
e in principio il nome d’ogni cosa serve per distinguere
 una cosa dalle altre cose
Tu stai qui con me e mi dispiace credimi d’essere solo questo
mi dispiace persino di dire che sono solo questo come
 se fossi anche qualcos’altro
una cosa oltre a questo diversa da questo
Tu stai qui con me continua a restare qui con me
è dalle tue mani che vengono alcuni di questi rumori
 domestici
ma persino nei tuoi gesti domestici tu sei di più dei tuoi
 gesti domestici
tu sei in ogni gesto tutti i tuoi gesti
e in questo momento io so io sento con certezza ciò
 che significano certe parole come la parola pace
Continua a restare qui scusa se il tempo ti si ferma
 in viso sotto forma di rughe
scusa se devi pagare un così alto prezzo per stare qui
scusa se ti rivelo che da tempo tu paghi un così alto
 prezzo per stare qui
prosegui coi tuoi gesti non fermarti cerca di rimanere
 sempre presente
lascia che dolcemente svaniscano uno ad uno i giorni
e che io sappia che tu stai qui in modo che possa dire
io sono questo di certo ma so che tu stai qui
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Seb Toussaint - e gli abitanti di Mariscal Sucre hanno scelto la parola "Paz" - Bogotà, Colombia (2016)
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Nomeei-te no meio dos meus sonhos...


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Nomeei-te no meio dos meus sonhos...
T’ho chiamata per nome...


Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor
T’ho chiamata per nome nel mezzo dei miei sogni
ti ho chiamata nella mia solitudine
ho scambiato il cielo blu per i tuoi occhi
e il mio saldo suolo per il tuo amore
________________

Osvaldo Licini
Amalasunta su fondo blu (1951)
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A sombra e o sol


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A sombra e o sol
L’ombra e il sole


A hispania era a princípio a terra deserta
chegavam da beira-mar vagas de manhãs muito vagas
mas já os rios os campos anavalhavam dilaceravam
dispostos a tudo para chegar ao convívio do mar
na sua água corrente cortante como uma faca
oposta à água represa como a água da serra da nave
espelho liso do céu e do voo de alguma ave
e antes já das muitas rotações dos astros
a terra tinha hábitos de mar e assim fazia-se ondular
muito alteroso oceano vegetal
 aqui e ali condensada na pedra por vezes perfurada ainda hoje
por uns olhais onde sujeitavam já os animais.
La spagna era in principio una terra deserta
giungevano dalla costa ondate d’ondivaghi mattini
ma già i fiumi i campi tranciavano e dilaceravano
disposti a tutto pur d’arrivare al banchetto del mare
con la loro acqua corrente tagliente come un coltello
all’inverso dell’acqua imprigionata nella serra da nave
liscio specchio del cielo e del volo di qualche uccello
e ancor prima delle tante rotazioni degli astri
la terra aveva abitudini di mare e così si lasciava ondeggiare
assai solenne oceano vegetale
 qua e là condensata nella pietra talvolta ancor oggi perforata
dagli sguardi coi quali già s’addomesticavano gli animali
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Max Ernst
Uccello rosa (1956)
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Na Colina do Instante


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Na Colina do Instante
Sulla collina dell’attimo


Há um cheiro de absinto quando os capricórnios
da casca apodrecida dos carvalhos velhos
iniciam seu voo pelo mês de junho
Colhemos avelãs ao longo do jardim
onde as tílias ao vento espalham o aroma
A frescura da fruta vence o sol rasante
Somos quem fomos caminhamos tão de leve
temos tamanha dignidade de crianças
que nem a morte aqui de nós se lembraria
nem mesmo a monstruosa flor de outros destinos
nem qualquer outra das repúblicas do ódio
encresparia o calmo mar do fim da tarde
É à celebração sagrada do acaso
à festa da essência mineral do mundo
que o sol procede no segredo deste templo
A tarde é tudo e tudo são caminhos
Somos eleitos cúmplices da hora
Aqui não chega o desatino do verão
esqueço a aversão dos meus antepassados
e levanto-me sobre a derradeira luz
Por instantes sou eu ninguém morreu aqui
ó minha vida esse processo que perdi
C’è un sentore d’assenzio quando le cerambici
sbucate dalla corteccia marcia delle antiche querce
iniziano a volare nel mese di giugno
Cogliamo nocciole attraversando il giardino
ove i tigli diffondono al vento il loro aroma
La frescura dei frutti vince sul sole calante
Noi siamo quelli che solevano camminare così lievi
ammantati d’una tale dignità infantile
che neppure la morte qui si ricorderebbe di noi
né il mostruoso fiore d’altri destini
né nessun’altra delle repubbliche dell’odio
incresperebbe il calmo mare di questa serata
È verso la sacra celebrazione del caso
verso la festa dell’essenza minerale del mondo
che il sole sta avanzando nel segreto di questo tempio
Tutto è sera e tutto è cammino
Noi siamo i prescelti testimoni dell’attimo
Qui non arriva il delirio dell’estate
dimentico il rancore dei miei antenati
e m’innalzo al di sopra dell’ultima luce
Per un istante io sono io  qui nessuno è morto
Oh vita mia questo divenire che ho perduto
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Caspar David Friedrich
Paesaggio fluviale tra i monti (1830-1835)
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Mas que sei eu


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Mas que sei eu
Ma io che ne so


Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha
Ma io che ne so delle foglie d’autunno
portate via dal vento avidamente
mentre passeggio già sul far del giorno
così come farebbe qualsiasi possidente?

Io so che vano è il vento e lento il sonno
e che le cose appena cominciate s’imbattono
nell’inaccessibile baratro delle gelate
che presagisco nel mio profondo abbandono

Nessun che sia ridotto a sudditanza lamenta
il dolore di tal passaggio che mi tormenta
e in aria mi solleva come fossi una foglia

qualunque. Ma io che ne so di queste mattine?
Le cose vanno e vengono e sono tanto vane
quanto quello sguardo che non so che mi sorveglia
________________

Gustav Klimt
Bosco di betulle (1902)
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Enterro sob o sol


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Enterro sob o sol
Sepoltura sotto il sole


Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho pela areia dêem-me um
enterro sob o sol enterro de água
C’era la calma del mare in quello sguardo
Lei era simile a un mattino
e aveva la gioventù d’un minerale
Passeggiava talvolta per le vie
e le vie ad una ad una erano realtà
Era il colmo della speranza: perpetuava
ognuna delle cose che toccava
Ma oggi tutto è come un frutto di settembre
o mio giardino esposto all’invernata
Un albore di collera compare
più nulla so dell’età dell’amore
Non mi resta che cogliere l’uva del castigo
Son reso visionario dalla sete
Cammino sulla sabbia datemi una
sepoltura sotto il sole una sepoltura d’acqua
________________

Massimo Campigli
Donne al sole (1931)
...

Do sono da desperta Grécia


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Do sono da desperta Grécia
Della Grecia segreta che dorme in noi


Nenhuma voz em esparta nem no oriente
se dirigira ainda aos homens do futuro
quando da acrópole de atenas péricles hierático
falou: «ainda que o declínio das coisas
todas humanas ameace sabei vós ó vindouros
que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade»
Eram palavras novas sob a mesma
abóbada celeste outrora aberta em estrelas
sobre a cabeça do emissário de argos
que aguardava o sinal da rendição de tróia
e sobre o dramaturgo sófocles roubando
aos dias desse tempo intemporais conflitos
chegados até nós na força do teatro
Apoiada na sua longilínea lança
a deusa atenas pensa ainda para nós
Pela primeira vez o homem se interroga
sem livro algum sagrado sobre a sua inteligência
e a tragédia a arte o pensamento
desvendam o destino a divindade o universo
Em busca da verdade o homem chega
às noções de justiça e liberdade
Após quatro milénios de uma sujeição servil
o homem olha os deuses face a face
e desafia a força do tirano
E nós ainda hoje nos interrogamos
a interrogação define a nossa livre condição
O desafio de antígona e de prometeu
é hoje ainda o nosso desafio
embora como um rio o tempo haja corrido
«Diz em lacedemónia ó estrangeiro
que morremos aqui para servir a lei»
«E se esta noite é uma noite do destino
bendita seja ela pois é condição da aurora»
Palavras seculares vivas ainda agora
Uma grécia secreta dorme em cada coração
na noite que precede a inevitável manhã
Nessuna voce a sparta né in oriente
s’era mai rivolta agli uomini del futuro
quando dall’acropoli di atene pericle ieratico
parlò: «benché il declino delle umane
cose incomba sappiate voi o posteri
che noi qui erigemmo la città più celebre e felice»
Eran parole nuove sotto la stessa
volta celeste un tempo aperta alle stelle
sopra la testa dell’emissario di argo
che attendeva il segnale della resa di troia
e sopra il drammaturgo sofocle che sottraeva
ai giorni di quel tempo eterni conflitti
giunti a noi con la forza del teatro
Appoggiata alla sua longilinea lancia
la dea atena pensa ancora a noi
Per la prima volta l’uomo s’interroga
senz’alcun testo sacro sulla sua intelligenza
e la tragedia l’arte il pensiero
rivelano il destino la divinità l’universo
Cercando la verità l’uomo perviene
ai concetti di giustizia e libertà
Dopo quattro millenni di soggezione servile
l’uomo guarda gli dei occhi negli occhi
e affronta la forza del tiranno
E noi ancor oggi ci interroghiamo
l’interrogarsi definisce la nostra libera condizione
La sfida di antigone e di prometeo
ancor oggi è la nostra sfida
Benché il tempo come un fiume sia passato
«Riferisci a lacedemonia o straniero
che qui siam morti per servire la legge»
«E se questa notte è notte del destino
che sia benedetta poiché è premessa per l’aurora»
Parole secolari vive tuttora
Una grecia segreta dorme in ogni cuore
nella notte che precede l’inevitabile mattino
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Fidia (circa 438 a.C.)
Athena Parthenos (copia romana, II sec. d.C.)
...

Contigo aprendi coisas tão simples...


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Contigo aprendi coisas tão simples...
Con te ho appreso cose tanto semplici...


Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Con te ho appreso cose tanto semplici come
imparare a convivere con i miei capelli radi
e il diverso colore che c’è negli occhi della gente
Tu sola mi fosti accanto nei momenti improvvisi
quando tutto precipitava intorno a me
e mi sentivo solo e in capo al mondo
Fui crudele con te nel quotidiano
più che compagna tu ormai sei la mia unica vedova
Non posso darti di più di quel che ti do
questo umido sguardo di uomo che muore
e si commuove nel vederti così prontamente presente
________________

 Hassan Vahedi
Memorie solide (2009)
...

A flor da solidão


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A flor da solidão
Fior di solitudine


Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos
Abbiamo vissuto convissuto resistito
ci siamo incrociati per le strade sotto gli alberi
forse abbiamo fatto un po’ di chiasso
abbiamo tracciato nell’aria gesti timidi
e tuttavia con quali parole spiegare
che il nostro era un cuore solitario
silenzioso profondamente silenzioso
e alla fine il nostro sguardo scrutava
come occhi che scrutano le foreste
Nel centro della città tumultuosa
nel cantuccio visibile da numerosi angoli
il fiore della solitudine cresceva ogni giorno più florido
Noi avevamo un nome per questo
ma il tempo impietoso degli uomini
uccise in noi quello che stava morendo
E in questo cuore ambizioso
solo come un uomo cristo muore
Che nome dare ora al vuoto
che sgorga irresistibile come un fiume?
Fiume che nasce cresce e sfocerà
e dopo tutto questo sarà un mare
Abbiamo vissuto convissuto resistito
senza accorgerci che in ogni cosa noi moriamo un po’
________________

Guim Tió Zarraluki
Spazio irreale (2010)
...

Oh as casas as casas as casas


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Oh as casas as casas as casas
Oh le case le case le case


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
ela morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
Oh le case le case le case
le case nascono vivono e muoiono
Finché son vive si distinguono l’una dall’altra
si distinguono particolarmente per il profumo
che varia addirittura da stanza a stanza
Ah le case che io costruivo da piccolo
dove potrei essere io oggi se fossi piccolo?
E dove potrei essere dopo aver scritto questi versi?
Avrò una casa dove poter serbare tutto questo
o continuerò ad essere soltanto questa instabilità?
Ah le case loro sembrano stabili
invece non sono che povere fragili case
Oh le case le case le case
mute testimoni della vita
loro muoiono non solo quando sono demolite
loro muoiono della morte della gente
Le case ci guardano attraverso le finestre
I costruttori non sanno niente delle case
né i proprietari né gli agenti immobiliari
I ricchi vivono nei loro palazzi
ma la casa dei poveri è tutto un mondo
i poveri sì che conoscono le case
i poveri conoscono ogni cosa
Io ho amato le case gli angoli delle case
Ho visitato case ho toccato case
Solo le case spiegano perché esista
una parola come intimità
Senza le case non ci sarebbero strade
le strade dove incontriamo gli altri
ma dove soprattutto incontriamo noi stessi
In una casa sono nato e morirò
in una casa ho sofferto ho condiviso ho amato
in una casa ho attraversato le stagioni
ho respirato – O vita mero problema di respirazione
Oh le case le case le case
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Carlos Botelho
Case (1936)
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O valor do vento


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Collezione:
 
Altra traduzione:
Ruy Belo »»
 
País possível (1973) »»
 
Francese »»
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O valor do vento
Il valore del vento


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
 O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto
Oggi è una giornata di vento e a me piace il vento
  Il vento è entrato nei miei versi in tutte le possibili maniere e
nei miei versi entrano solo le cose che mi piacciono
Il vento degli alberi il vento dei capelli
il vento dell’inverno il vento dell’estate
Il vento è il miglior veicolo che io conosca
Lui solo porta il profumo dei fiori lui solo porta
la musica che langue in riva al mare in agosto
Ma solo oggi ho saputo il vero valore del vento
Il vento vale attualmente ottanta scudi
S’è rotto il vetro grande della finestra della mia stanza
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Oskar Kokoschka
La sposa del vento (1913)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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