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Maré


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Obra breve - A Matéria Simples (2006) »»
 
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Maré
Marea


Quando a maré baixa sob o céu róseo,
são a terra e a areia que absorvem
o infindo fumo e a neblina.

Além, um pescador; além, uma gaivota;
são os mesmos corpos movendo-se,
são a mesma inércia da morte.
O pescador revolve a areia
acocorado sobre algas douradas
em busca de mínimos seres vivos.
Um imenso bando de gaivotas intenta
separar de súbito o céu da terra
como se estas águas da ria,
tão lisas, fossem a antimatéria.

Quando s’abbassa la marea sotto il roseo cielo,
sono la terra e la sabbia ad assorbire
l’infinito vapore e la foschia.

Più in là, un pescatore; più in là, un gabbiano;
sono gli stessi corpi che si muovono,
sono la stessa inerzia della morte.
Il pescatore rimescola la sabbia
accovacciato sopra le alghe dorate
in cerca di minime forme di vita.
Un immenso stormo di gabbiani tenta
di separare d’assalto il cielo dalla terra
come se queste acque costiere,
così lisce, fossero l’antimateria

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Gustave Courbet
Spiaggia a Trouville in bassa marea (1865)
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Perguntai ao muro


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Perguntai ao muro
Chiedete al muro


Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?

Muro, su che mediti,
lungo la strada, per queste quinte,
case, rovine, tra le passioni
d’anima degli spettri
presenti e futuri? E i vivi,
perché si nascondono
dietro la tua fronte alta,
quieta, asciutta, che anela gli astri,
senza sapere che il tuo corpo
di scisto corre, avanza,
ma dalla Terra non si può staccare
e pervenire al Sublime?

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Telemaco Signorini
Strada alla Capponcina (1880-1882)
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Lisboa sob névoa


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Lisboa sob névoa
Lisbona nella nebbia


Na névoa, a cidade, ébria
oscila, tomba.
Informes, as casas
perdem o lugar e o dia.
Cravadas no nada,
as paredes são menires,
pedras antigas vagas
sem princípio, sem fim.

Nella nebbia, la città, ebbra
oscilla, cade.
Informi, le case
perdono il giorno e la via.
Inchiodati al nulla,
i muri sono menhir,
antiche pietre vaghe
senza principio né fine.

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Luísa Jacinto
Véu-Pedra (2015)
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De uma rua citadina


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De uma rua citadina
Una via cittadina


Folhas secas de plátanos
cobrem esta rua. Só assim
me é possível aceitar o caminho
entre as paredes e as casas.

Pisando o pavimento de folhas,
estou salva dos calafrios do medo,
entre janelas que soluçam e se calam
e portas que aprisionam os corpos.

Foglie secche di platani
coprono questa via. Solo così
mi è possibile tollerare il cammino
tra i muri e le case.

Calpestando il pavimento di foglie,
sto al riparo dai brividi di paura,
tra finestre che mute singhiozzano
e porte che imprigionano i corpi.

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John Atkinson Grimshaw
Nel dorato bagliore autunnale (1880)
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Da voz das coisas (II)


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Da voz das coisas (II)
La voce delle cose (II)


Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.

Solo la raffica di vento
dà suono lirico
alle pale del mulino.

Soltanto le cose toccate
dall’amore delle altre
hanno voce.

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Claude Monet
Campo di tulipani in Olanda (1886)
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Da voz das coisas (I)


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Da voz das coisas (I)
La voce delle cose (I)


Quando ainda não sabia as palavras possíveis
para passar entre voz e silêncio dos outros,
tal como entre troncos das florestas mudas,
eu falava com as nuvens que vinham
sobre nós a cantar, de trémulas asas,
e aspergiam os aromas do êxtase.

Quando non conoscevo ancora le parole possibili
per passare tra la voce e il silenzio degli altri,
proprio come fra i tronchi delle foreste mute,
io parlavo con le nuvole che venivano
sopra di noi a cantare, con ali tremule,
e soffondevano gli aromi dell’estasi.

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Caspar David Friedrich
Nuvole in movimento (1820)
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Resposta


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Resposta
Risposta


«Eu vinha para a vida, e deram-me dias»
vivos com os seus lugares e espaço.

Ontem nasci sem fim, e alimentei-me
nesta mesa que em duas se reparte.
Uma aba no mar, vagante à toa,
trouxe os sabores de ondas, de orlas.
Outra aba na terra mostrou-me as pedras
polidas, úberes, gastas. Pedras
densas que me encheram o ventre
e me criaram similar à terra.
No mar tive cristais quebrados, jóias;
na terra, tão nítida poeira branca
que fundi as formas das flores visíveis.

E hoje é este olhar profundo,
deriva das imagens pelo mundo.

«Io venivo per la vita, e m’han dato giorni»
vivi coi loro luoghi e con lo spazio.

Ieri nacqui senza fine e mi nutrii
a questa tavola che si divide in due.
Una metà sul mare, vagabondando a caso,
portò i sapori delle onde, dei lidi.
L’altra metà sulla terra mi mostrò le pietre
levigate, feconde, consumate. Pietre
dense che mi riempirono il ventre
e m’allevarono simile alla terra.
Sul mare s’infransero cristalli, gioielli;
sulla terra, la polvere bianca era così nitida
che condensai le forme dei fiori visibili.

E oggi c’è questo sguardo profondo,
deriva delle immagini per il mondo.

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Serge Hamad
Spiaggia 6 (2011)
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Os grous?


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Os grous?
Le gru?


As viagens separam-nos do passado.
Se apenas viajássemos como grous,
sem reconhecer as nações debaixo da quilha
 do nosso esterno,
se não trocássemos os idiomas e as unhas
com os habitantes das novas geografias,
seríamos nós. Porque o idioma
é fechado e insondável em cada criatura,
porque cada nação é o berço de uma língua
e os meus poemas noutra língua não são meus.
Quando viajamos no mundo não sabemos
 quem fomos.

I viaggi ci separano dal passato.
Se soltanto viaggiassimo come gru,
senza riconoscere le nazioni sotto la chiglia
 del nostro profilo,
se non scambiassimo gli idiomi e gli artigli
con gli abitanti delle nuove geografie,
saremmo noi. Perché l’idioma
è chiuso e insondabile in ogni creatura,
perché ogni nazione è la culla di una lingua
e le mie poesie in un’altra lingua non sono mie.
Quando viaggiamo per il mondo non sappiamo
 chi siamo stati.

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Laura Cultrera
Volo di gru (2010)
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O bucolismo deixará de ser um canto


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O bucolismo deixará de ser um canto
La poesia bucolica cesserà d’essere un canto


Sempre vivi à beira da paisagem,
pensando-a como ser, vendo-a,
chamando-a para mim, na minha íris.
Reflectida, a paisagem estava
sempre em mim, nos olhos, na boca
com uma história no tempo, hora a hora.
Benigna ou mortal, era ela própria,
era mundo, antigo e breve, terrestre,
leito de homens, para viver pascendo
ou para morrer, como ela mesma era
morta e transformada eternamente.
E acreditei que só, para sempre,
o latejar natural dos astros, do ar,
das águas, da terra, a manteriam
entregada a mim, à minha beira,
tal como estava desde o nascimento.
Mas hoje sei que os homens insanos,
em vez de amarem o corpo da matéria
no olhar e na fragrância das paisagens,
o depredaram, como se apenas
nos quisessem deixar de herança o mundo vivo
dos monstros vindos da nossa antiga pátria, a Grécia.
O grande Minotauro hoje chama-se Chernobyl,
demiurgo que expele um hálito
que gera crias das bestas e dos homens
oposto ao antigo sopro do Génesis; que gera
criaturas como se meramente simulasse
a vida. E a paisagem torna-se aparência,
somente simulacro e armadilha,
e o bucolismo deixará de ser um canto,
pois a flauta cala o seu trilo de esperança.

Sempre ho vissuto al cospetto della natura,
pensandola come creatura, vedendola,
richiamandola in me, nella mia iride.
Riflessa, la natura stava
sempre in me, negli occhi, nella bocca
con una storia nel tempo, ora per ora.
Benigna o mortale, ella era veritiera,
era mondo, antico e breve, terrestre,
letto d’uomini, per vivere appagati
o per morire, come ella stessa era
morta e s’era eternamente trasformata.
E credevo che solamente, e per sempre,
il pulsare naturale degli astri, dell’aria,
delle acque, della terra, l’avrebbero serbata
come un dono per me, al mio servizio,
proprio com’era fin dall’origine.
Ma oggi so che gli uomini insani,
invece d’amare il corpo della materia
nello sguardo e nella fragranza della natura,
l‘hanno devastato, come se appena
volessero lasciarci in eredità il mondo vivo
dei mostri venuti dalla nostra antica patria, la Grecia.
Il grande Minotauro oggi si chiama Chernobyl,
demiurgo che emette un alito
che genera prole di bestie e d’uomini
in contrasto con l’antico soffio della Genesi; che genera
creature come se semplicemente simulasse
la vita. E la natura si riduce ad apparenza,
solamente simulacro e trappola,
e la poesia bucolica cesserà d’essere un canto,
poiché il flauto tace il suo trillo di speranza.

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Enrico Baj
Personaggio urlante (1964)
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Depois de traduzir Hélène Dorion


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Depois de traduzir Hélène Dorion
Dopo aver tradotto Hélène Dorion


Amar o universo não me traz mágoa.
Sobretudo, amar a areia
arrebata-me de júbilo e paixão.
Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o Sol aqui, depois de uns dias
com o jardim obscurecido a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos,
ébrios em redor do pólen.

Amare l’universo non mi reca pena.
Soprattutto, amare la sabbia
m’infervora di giubilo e passione.
Amare il mare completa la mia vita
con il tatto d’un amore immenso.
Ma venne il vento e, a tratti,
condannò il mio corpo ad ondeggiare.
Ed ora qui c’è il Sole, dopo giornate
col giardino oscurato a bersi l’ombra.
E so che gli atomi ronzano
e danzano come gli insetti,
ebbri intorno al polline.

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Gina Pafiadache
Giardino al tramonto (2015)
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A porta branca


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A porta branca
La porta bianca


Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem
 e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.

Dietro questa porta,
una tra le tante porte che per me si aprono
 e si chiudono,
ci sono io o l’universo che io penso.
Da questo mio lato, due occhi che vigilano
i fenomeni naturali, comprese la meccanica celeste
e le società umane, sedentarie e transumanti.

Ma gli occhi possono fare la loro classificazione,
e l’universo pensato può infinitamente espandersi,
che per me ciò che oggi importa
è quella vaga porta scrutata.

Che essa sia solo come io la vedo, la porta bianca,
con due pannelli intagliati,
leggermente socchiusa verso la nicchia del giardino,
dove il gatto, attraverso un varco aperto
dalla sua zampa, cerca di vedermi,
così estraneo a versi e a universi.

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Vilhelm Hammershøi
Porta bianca (1913)
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Epístola para um cisne


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Epístola para um cisne
Epistola per un cigno


Cisne, que não conheces na água o teu reflexo verde
quando sob o teu corpo é dia e o sol afaga quedo
ou quando do teu porte há a sombra negra igual
a tudo o que está negro, e é noite, e abandono e medo.
Nem concebes o amor, nem leda, nem sequer eu mesma
que te amo no poema e temo o canto imaginado
que não cantaste agora ou não ouvi, de madrugada
quando a minha mãe morta era somente insone.
Nunca viste a beleza, nem a vida e os lábios
que sopram as primeiras e últimas palavras, ou
o hálito que sai em voz da dor mais desolada.
Nem a doença, a morte e os olhos sem imagens
do ar e das cores várias viste em que tu vogas branco.
É falso que celebres sozinho a tua morte e o fim,
se não sabes que só o teu outro cisne se perde.
Mas quando vi insone e logo morta a minha mãe
estou certa de que a cega, a muda, falsa ave cantou.

Cigno, tu che nell’acqua non riconosci il tuo riflesso verde
quando sotto il tuo corpo è giorno e il sole ti culla sereno
o quando il tuo profilo dà un’ombra nera uguale
a tutto ciò che è nero, ed è notte, e abbandono, e paura.
Non concepisci l’amore, né Leda, neppure me stessa
che in poesia ti amo e temo il canto immaginato
che ora non hai cantato, o io non l’ho udito, verso l’alba
quando mia madre morta era solamente insonne.
Non hai mai visto la bellezza, né la vita e le labbra
che sussurrano le prime e le ultime parole, o
l’alito che accompagna la voce della più desolata pena.
Né hai visto il morbo, la morte e gli occhi senza immagini
dell’aria e dei vari colori in cui tu bianco ondeggi.
È falso che tu celebri da solo la tua morte e la fine,
se non sai che solo l’altro tuo cigno si perde.
Ma quando io vidi insonne e presto morta mia madre
sono certa che il cieco e muto e falso uccello abbia cantato.

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Jan Asselijn
Cigno minacciato (1650)
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Epístola para os amados


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Epístola para os amados
Epistola per le persone amate


Ainda vos amos, porque aqui não há só tempo
e o amor, no tempo, é tão intenso e absoluto,
que transborda do tempo para o não-presente.
Havendo tempo e não-tempo, eu vos confesso agora
que em parques ao poente ainda vos estou a amar.
E não que vos ofereça hoje alucinados versos,
mas porque do meu tempo sois donos, como os poemas
que eu escrevo do tempo para o não-tempo, sempre.

Ancora vi amo, perché qui non c’è soltanto tempo
e l’amore, nel tempo, è così intenso e assoluto,
che trasborda dal tempo verso il non-presente.
Coesistendo tempo e non-tempo, io vi confesso ora
che in parchi a ponente continuo ad amarvi ancora.
E non è che vi offra solo oggi versi allucinati,
ma è perché del mio tempo voi siete padroni, sempre,
come le poesie che io scrivo dal tempo per il non-tempo.

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Sebastiano del Piombo
Ritratto di Vittoria Colonna (1520-1525)
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Epístola para Dédalo


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Epístola para Dédalo
Epistola per Dedalo


Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.

Perché hai dato a tuo figlio ali di piume e cera
se il sole onnipotente lassù le avrebbe distrutte?
Non mi udì, per la distanza, però pensai che dicesse:
tutti i figli sono Icaro che moriranno in mare.
Dopo ritornano, prodighi, all’amorevole richiamo di sangue
di quelli che furono e di quelli che sono ora, figli dei figli.

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Charles Paul Landon
Dedalo incita il figlio al volo (1799)
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Canto dos lugares


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Canto dos lugares
Canto dei luoghi


Tantas vezes os lugares habitam no Homem
e os homens tantas vezes habitam
nos lugares que os habitam, que podia
dizer-se que o cárcere de Sócrates,
estando nele Sócrates, não o era,
como diz Séneca em epístola a Hélvia.

Por isso cada lugar nos mostra
uma vida clara e desmedida,
enquanto o Tempo oscila e nos oculta
que é curto e ambíguo
porque nos dá a morte e a vida.

E os lugares somente acabam
porque é mortal cada homem
que houve em si algum lugar.

Molto spesso i luoghi abitano nell’Uomo
e gli uomini molto spesso abitano
nei luoghi che li abitano, sicché si potrebbe
dire che il carcere di Socrate, fintanto che
Socrate vi fu rinchiuso, tale non era,
come sostiene Seneca in una lettera a Elvia.

Perciò ogni luogo ci mostra
una vita limpida e sconfinata,
mentre il Tempo oscilla e ci nasconde
d’essere breve e ambiguo,
lui che ci dispensa morte e vita.

E i luoghi finiscono soltanto
perché è mortale ogni uomo
che in sé abbia ospitato un luogo.

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Markus Antokolski
Socrate morente (1878)
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Canto do Génesis


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Canto do Génesis
Canto della Genesi


Ao princípio era a luz, depois o céu
azul porque a luz se embebe
nas camadas de ar que olhamos.
Ao princípio era a Paixão e engendrou
do seu sangue os animais, da sua
Cruz as plantas. Era, ao princípio,
o animal-vegetal minúsculo, oculto
no Paraíso, mas omnipresente
desde o ante-princípio. E da argila
ou da terra adâmica formou-se a Natureza
e o Homem, banhados pela luz
que recortou linhas e volumes vagos.
Ao princípio era o martírio
e a bênção daquele que trabalha
o seu corpo e o seu pão de sol a sol.
E os frutos fulguraram nessa luz
quando as águas se apartaram
e o mar, até hoje, quebra e requebra a onda
para eu ouvir o som do início.

In principio era la luce, poi il cielo
azzurro perché la luce s’impregna
negli strati d’aria che vediamo.
In principio era la Passione e generò
dal suo sangue gli animali, dalla sua
Croce le piante. V’era, in principio,
il minuscolo animale vegetale, nascosto
in Paradiso, ma onnipresente
fin da prima del principio. E dall’argilla
o dalla terra primeva prese forma la Natura
e l’Uomo, intrisi della luce
che intagliò linee e vaghi volumi.
In principio c’era l’affanno
e la benedizione di colui che lavora
al suo corpo e al suo pane da un’alba all’altra.
E i frutti rifulsero in quella luce
quando le acque si divisero e il mare,
fino ad oggi, frange e rifrange l’onda
perché io possa udire il suono dell’inizio.

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Marc Chagall
La creazione dell’uomo (1956-1958)
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Canto de Orfeu


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Canto de Orfeu
Canto di Orfeo


Pendurou no salgueiro a cítara,
caminhou diante dos seus passos,
sendo depois punido pelos Anjos.
Caminhou sempre para o futuro
mesmo olhando para trás na memória
e por esse futuro foi punido
pois levaria consigo a imagem viva.
Não era Eurídice aquela que o seguia
mas a sua face figurada
pelos olhos de Orfeu ainda capazes
de criar o modelo e a imagem.
Depois da morte ela ainda vivia
pronta para o prender em espelhos dúplices
e ele que amava nela o corpo, a alma,
o suor, o aroma, a linha dos dedos,
levou-a, para sempre ascendida
ao Tempo do Espaço depois do futuro.
Foi punido por Anjos ciosos
da sua ciência da Origem,
enquanto outros Anjos doces coroavam
aquele Filho que também levara
na memória dos olhos a figura
da Mãe, que todos os filhos levam em si.
Um terrível canto de lamento humano
depois soou: “Che faró senza Uridice?“,
com o som das vogais mais dolorosas.
Mas o sábio Orfeu deixou a lira
somente ser tocada pelo vento
quando o canto perseguia a imagem.

Appese al salice la cetra,
camminò davanti ai propri passi,
e perciò fu poi punito dagli Angeli.
Camminò sempre verso il futuro
pur guardando indietro nella memoria
e per questo futuro fu punito
ché avrebbe con sé recato l’immagine vivente.
Non era Euridice quella che lo seguiva
ma il suo sembiante raffigurato
dagli occhi di Orfeo capaci ancora
di creare il modello e l’immagine.
Dopo la morte ella ancora viveva
disposta a trattenerlo in falsi specchi
ed egli che amava in lei il corpo, l’anima,
il sudore, l’aroma, la forma delle dita,
la prese, per sempre ascesa
al Tempo dello Spazio oltre il futuro.
Fu punito da Angeli invidiosi
della sua conoscenza dell’Origine,
mentre altri Angeli benevoli osannavano
quel Figlio che pure aveva portato
nella memoria degli occhi la figura
della Madre, che tutti i figli portano in sé.
Un terribile canto d’umano lamento
poi risuonò: “Che farò senza Euridice?“,
col suono delle vocali più dolorose.
Ma il saggio Orfeo lasciò che la lira
fosse suonata soltanto dal vento
quando il canto inseguiva l’immagine.

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Mo Bantman
Orfeo e Euridice (2016)
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