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Orfeu e Eurídice


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Orfeu e Eurídice
Orfeo ed Euridice

Refreou o passo
Rallentò il passo.
Queria chegar adiantado ao encontro, mas não muito. Uma espera prolongada ser-lhe-ia insuportável.
Voleva arrivare in ritardo all’incontro, ma non molto. Un’attesa protratta gli sarebbe stata insopportabile.
O coração batia-lhe no peito a um ritmo tão descompas- sadamente adolescente que, se as suas pulsações fossem convertidas em decibéis, estariam muito para além do limiar de surdez.
Il cuore gli batteva nel petto a un ritmo così esasperatamente adolescenziale che, se le sue pulsazioni si fossero potute convertire in decibel, avrebbero di gran lunga superato la soglia del dolore.
B. tinha a certeza de que ia ao encontro da – aqui o seu pensamento parecia sempre desculpar-se por lhe sugerir esta palavra, ouvia as suas próprias reticências – felicidade.
B. aveva la certezza di stare andando incontro alla – e qui pareva sempre che il suo pensiero si scusasse di suggerirgli quella parola, manifestava la propria reticenza – felicità.
Queria, pois, saborear cada passo, ter consciência de cada um no seu próprio movimento, mas tinha também muito medo.
Voleva, infatti, assaporare ogni passo, prenderne coscienza ad uno ad uno nell’atto stesso di muoversi, aveva però anche tanta paura.
«É preciso coragem para enfrentar a – felicidade» e, se estivesse muito tempo sozinho num café, à espera, ela poderia acabar por assustá-lo, fazê-lo fugir, escorraçado e perseguido por todas as filosofias residentes que observam sempre de muito perto, com o seu sarcasmo, todos as actos humanos.
«Bisogna aver coraggio nell’affrontare la – felicità» e, se lui fosse rimasto a lungo, in sua attesa, da solo in un caffè, lei avrebbe potuto finire con lo spaventarlo, l’avrebbe fatto fuggire, umiliato e deriso da tutte le filosofie presenti che osservano sempre da molto vicino, con il loro sarcasmo, ogni azione umana.
«Vendo bem, assustar-me porquê? Por remorso?»
«A ben vedere, spaventarmi perché? Per rimorso?»
A verdade é que não queria embrenhar-se muito nestas cogitações, de onde às vezes pode não haver regresso.
La verità è che non voleva impelagarsi troppo in queste meditazioni, da cui alle volte può non esserci ritorno.
Inspirava profundamente para ser capaz de recordar o perfume do ar nesse Outono ainda tão quente, depois de um Verão tão chuvoso, embora soubesse que a memória não é o forte do olfacto e vice-versa.
Inspirava profondamente per essere in grado di evocare il profumo dell’aria in quell’autunno ancora così caldo, dopo un’estate tanto piovosa, pur sapendo che la memoria non è il forte dell’olfatto e viceversa.
*
Enquanto atravessava as ruas sem sequer se preocupar com o trânsito, pensava que a – felicidade – é puro acaso.
*
Mentre attraversava le strade senza nemmeno preoccuparsi del traffico, pensava che la – felicità – è puro caso.

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Nicolas Poussin
Paesaggio con Orfeo ed Euridice
(~1650)
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Normandia


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Normandia
Normandia


Todos os tempos entram na noite ao mesmo tempo:
Haroldus rex interfectus est,
Uma mulher saxã, com linho talvez plangente,
Começa a bordar a flecha que o derrubará.
Uma donzela será em breve
Aquela que em Rouen brulèrent les Anglois.
Na abadia de Jumièges, Agnès Sorel,
A dos seios perfeitos, a virgem de leite,
Morre, vítima do argento-vivo,
Favorita já trocada.
Nas ruínas imponentes, a única presença
É o aflar de asas, restos de histórias, de mistérios.
Nas margens do Orne, os confins do dia entram nas
 águas,
Ilhotes esbracejam em árvores jovens
O seu desespero, o seu desamparo.
Mais cedo ou mais tarde, a vida torna-se
Uma curva do rio e perde-se de vista.

Tutti i tempi entrano nella notte nel medesimo tempo:
Haroldus rex interfectus est,
Una donna sassone, su una tela forse infausta,
Comincia a ricamare la freccia che lo atterrerà.
Una donzella sarà tra breve
Quella che a Rouen brulèrent les Anglois.
Nell’abbazia di Jumièges, Agnès Sorel,
Quella dal seno perfetto, la vergine di latte,
Muore, vittima dell’argento vivo,
Favorita già rimpiazzata.
Tra le rovine imponenti, l’unica presenza
È un frullar d’ali, resti di storie, di misteri.
Sulle rive dell’Orne, i confini del giorno entrano nelle
 acque,
Isolotti fanno avvampare su giovani arbusti
Il proprio tormento, l’abbandono.
Prima o poi, la vita si trasforma
In un’ansa del fiume e si perde di vista.

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François Clouet (attribuito)
Ritratto di Agnès Sorel (1444)
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Entrevista Póstuma


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Entrevista Póstuma
Intervista postuma


(ou «o toledo de velhos é de arranca-sobreiros»)

Deu a doida ao paizinho –
A família que tinha
Deixou de lhe servir.
Calhou-lhe talvez mal
E sonhava com outra.

Tornou-se mais esquivo,
Mais azedo e secreto.
Num dia de Verão,
Levou-nos ao sapal
E matou-nos a todos.

(o «la pazzia rende i vecchi dei decorticatori di sughere»)

È uscito di testa il babbino –
La famiglia che aveva
Non gli serviva più.
Forse non ci stava più bene
E ne sognava un’altra.

S’era fatto più schivo,
Più scontroso e chiuso.
Un giorno d’estate,
Ci ha portati al pantano
E ci ha ammazzati tutti.

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Mattia Moreni
Autoritratto n.° 18 (1990)
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Sente-se a tensão que antecede a trovoada...


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Sente-se a tensão que antecede a trovoada...
S’avverte la tensione che precede il tuono...


Sente-se a tensão que antecede a trovoada
Num país onde as rosas guardam as vinhas,
Porque pressentem as pragas
E as corolas adquirem as cores do alarme.
As aves voam baixo, quase em falso,
Rasam a iminência da tempestade,
Sopesam-lhe o volume e intensidade,
Mantendo-se sempre fora do seu alcance.
São artes que nós não temos.
Resta-nos esperar a peste.

S’avverte la tensione che precede il tuono
In un paese in cui le rose vegliano sulle vigne,
Perché ne presagiscono i flagelli
E le corolle assumono i toni del pericolo.
Volano basso gli uccelli, quasi al limite,
Sfiorano l’imminenza della tempesta,
Ne soppesano volume e intensità,
Mantenendosi sempre fuori portata.
Sono arti che noi non possediamo.
Non ci resta che aspettare la peste.

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Jules Bastien-Lepage
La vendemmia (1880)
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Não me conheces, não te conheço...


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Não me conheces, não te conheço...
Non mi conosci, non ti conosco...


Não me conheces, não te conheço.
Acontece que nos cruzamos todos os dias
E partilhamos durante cinco minutos
O mesmo segmento do caminho.
Não quer dizer nada, eu sei.
Mas começo a conhecer-te a roupa
E os sinais da tua beleza amarrotada
Pela falta de sono, cujas cinzas frias
Permanecem no teu rosto;
Ou talvez seja outra coisa, outro agente
Que não a falta de sono
Nessa tua vida, de que apenas vejo
Cinco minutos por dia, cinco vezes por semana.
Claro, nada a dizer, a asa de nenhum pretexto,
A não ser, certa manhã,
Chuvosa sem razão nenhuma,
Uma opressão surda em mim
Enquanto julgo que já não vens –
Mas, de súbito, passas a correr
E de um salto entras no autocarro,
Perfeita imagem do amor.

Non mi conosci, non ti conosco.
Succede che c’incrociamo tutti i giorni
E per cinque minuti condividiamo
Lo stesso tratto di strada.
Non significa niente, lo so.
Ma comincio a riconoscere i tuoi abiti
E i segni della tua bellezza maltrattata
Dalla mancanza di sonno, le cui fredde ceneri
Permangono sul tuo viso;
O forse è qualcos’altro, un agente diverso
Dalla mancanza di sonno
In questa tua vita, di cui non vedo che
Cinque minuti al giorno, cinque volte la settimana.
Ovvio, niente da dire, non c’è bisogno di scuse,
Se non che, una certa mattina,
Piovosa senza ragione alcuna,
Una segreta angoscia in me
Al pensiero che ormai tu non verrai –
Ma, d’un tratto, tu passi correndo
E con un salto sali sull’autobus,
Perfetta immagine dell’amore.

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Lisa Turner
Bus Stop (2021)
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Quando o corpo e a terra...


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Quando o corpo e a terra...
Quando il corpo e la terra...


Quando o corpo e a terra
Por fim selaram o seu pacto,

Transposta a vala comum
Do momento eterno,

O encontro fica marcado:
Nestes olhos, deste lado.

Quando il corpo e la terra
Han stretto infine il loro patto,

Rimossa la fossa comune
Dal momento eterno,

L’incontro è rimasto fissato:
In questi occhi, da questo lato.

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Edvard Munch
Occhi negli occhi (1894)
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Madrigal


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Madrigal
Madrigale


Reparaste em mim pelo ar de parvo,
Entrando a medo pela porta errada,
Já atrasado; compliquei os pés
No tapete da entrada e tropecei na orquestra.
Fez-se silêncio no salão.
Tentei disfarçar –
Apolíneo na corcunda,
Mavórcio no andar,
Segui, todo gel e desígnio,
Até ao bar e, por estilo,
Pedi um gim tónico,
Que despejei num vaso.
Entretanto, choravas de riso:
Estando tu sentada a um canto enfadonho,
Viste tudo da minha entrada.

Ti sei accorta di me per la mia aria goffa,
Quando per l’ansia sono entrato dalla porta sbagliata,
Già in ritardo; ho incespicato coi piedi
Nel tappeto dell’entrata e sono incappato nell’orchestra.
S’è fatto silenzio in sala.
Ho tentato di camuffarmi –
Apollineo nella gobba,
Marziale nell’incedere,
Ho proseguito, tutto gel e determinazione,
Fino al bar e, per darmi un tono,
Ho ordinato un gin tonic,
Che ho rovesciato in un vaso.
E intanto, tu morivi dal ridere:
Essendoti seduta in un angolo tedioso,
Hai visto tutto della mia entrata.

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Henri de Toulouse-Lautrec
Un angolo al Moulin de la Galette (1892)
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As tuas mãos são verosímeis...


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As tuas mãos são verosímeis...
Sono verosimili le tue mani...


As tuas mãos são verosímeis?
Tão pálidas – Tenho saudades dele –
Esqueci o que é amarem-me –
Podia ter vindo a minha irmã –
Viam-se corvos – Mas é difícil –
O teu cabelo preto, curto –
O casamento é uma carta fechada –
Fica mais – Fui falar com a secretária
E já não há vagas – Sou uma excrescência –
Ninguém sabia – Para sempre –
Mais vale sofrer tudo de uma vez –
A tua juventude tão prosaica –
Não sei se ainda namora com ela –
Fica um instante, Raquel – Com aquela saia,
O meu pai não me deixava sair de casa –
Raquel, a serrania estanque –
O país é bonito – Sete anos, sete anos –
Adeus. Deixa a tua morada –
Não me esqueças – Não te esqueças –
Para sempre

Sono verosimili le tue mani?
Così pallide – Ho nostalgia di loro –
Ho scordato che cosa sia essere amato –
Potrebbe esser tornata mia sorella –
Si vedevano corvi – Ma è difficile –
I tuoi capelli neri, corti –
Il matrimonio è un salto nel buio –
Resta ancora un po' – Ho parlato con la segretaria
E non ci sono già più posti – Io sono un’escrescenza –
Nessuno lo sapeva – Per sempre –
Meglio soffrire tutto in una volta –
La tua gioventù così prosaica –
Non so se la frequenta ancora –
Resta un momento, Raquel – Con quella gonna,
Mio padre non mi lascerebbe uscire di casa –
Raquel, la montagna isolata –
Il paese è bello – Sette anni, sette anni –
Addio. Lascia il tuo indirizzo –
Non dimenticarmi – Non dimenticarti –
Per sempre

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Allan Ramsay
Studio di mani femminili (1762)
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Composição


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Composição
Composizione


Convoca um ciclo de feições,
Um rosto sobre o caos,
A chave irrepetível do que amaste.
Protege os seus olhos do acordar,
Nada perturbe esse rosto;
Protege os seus olhos,
Que já não te vêem,
Mas em que brilha o mundo,
Inteiro ao alcance.
Aparece um rosto onde falta
Um sorriso de que faças parte,
Um sorriso de que sejas a origem
Ou simplesmente a testemunha.
Então, no rosto, dispõe um sorriso,
Sobrevoado pela reacção alquímica
De cabelos num dia de sol.
O sorriso é no rosto
Uma transparência de água.
Eis o rosto e o sorriso de uma mulher.
Como uma espécie de figurante,
Demonstra que te sabes ausente, supérfluo,
Embora seja a mulher que amaste e perdeste.
Agora, nem a sua perda te pertence.
Mas nada pode perturbar a composição do rosto,
A gestação do sorriso que o completa.
E se o rosto superou, pela irradiação,
A sua própria representação, sucedendo-lhe,
Dispõe em torno os seus dias, que não verás.
Assim existem o rosto e o sorriso da mulher,
Mas não têm a tua tristeza como objecto ou rumo;
Já nada depende de ti,
Da tua vontade ou amor.
O rosto e o sorriso são o sinal
De que podes desaparecer tranquilo.

Riunisci una serie di fattezze,
Un volto al di sopra del caos,
La chiave irripetibile di ciò che hai amato.
Proteggi i suoi occhi dal risveglio,
Nulla perturbi quel volto;
Proteggi i suoi occhi,
Che ormai non ti vedono più,
Ma in cui brilla il mondo,
Interamente accessibile.
Ne risulta un volto a cui manca
Un sorriso di cui tu faccia parte,
Un sorriso di cui tu sia l’origine
O semplicemente il testimone.
Allora, sul volto, posa un sorriso,
Coronato dalla reazione alchemica
Di capelli in un giorno di sole.
Quel sorriso sul volto ha
Una trasparenza d’acqua.
Ecco il volto e il sorriso di una donna.
Come una specie di figurante,
Dimostra che sai d’essere assente, superfluo,
Benché lei sia la donna che hai amato e perduto.
Ora, neppure la sua perdita t’appartiene.
Ma nulla può turbare la composizione del volto,
La gestazione del sorriso che lo completa.
E se il volto ha oltrepassato, a causa dell’irradiazione,
La sua stessa rappresentazione, subentrandole,
Contornalo dei suoi giorni, quelli che non vedrai.
Esistono così il volto e il sorriso della donna,
Ma non hanno la tua tristezza come oggetto o fine;
Nulla ormai dipende da te,
Dalla tua volontà o dal tuo amore.
Il volto e il sorriso sono il segnale
Che tu puoi sparire tranquillo.

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Andy Warhol
Marilyn - Invitation Card (1981)
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