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Lugones


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Meditação sobre Ruínas (1994) »»
 
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Lugones
Lugones


Só a poesia inspira a poesia,
como in vino veritas;
se a metáfora varia
as imagens são pretéritas.

O poeta ilude a hora,
o dicionário fica inconcluso.
Mas tudo o que se ignora
deixa o homem confuso.

Celebrava os pombais
que lhe nasciam no peito,
tão fortes como os ais
que o tornavam suspeito.

«Farol glacial do inverno.»
neste poema em que o meto
quis fugir do inferno
com um copo de cianeto.

Solo la poesia ispira la poesia,
proprio come in vino veritas;
se la metafora si cambia
l’immagine al passato apparterrà.

Il poeta inganna l’ora,
il dizionario resta incompleto.
Ma tutto quel che s'ignora
lascia l’uomo smarrito.

Le colombaie celebrava
che gli nascevano nel petto
e così forte s’affliggeva
tanto da rendersi sospetto.

In questa poesia in cui io metto lui
«Dell’inverno algido faro»
è dall’inferno che voleva fuggire
bevendo quel bicchiere di cianuro.

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Leopoldo Lugones nel 1922
Foto di Eduardo Vargas Machuca
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Uma poética no sotão


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A Matéria do Poema (2008) »»
 
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Uma poética no sotão
Poetica in solaio


No meio de coisas velhas procuro o que
é novo. Em cada fim vejo um princípio;
e todos os cacos se voltam a colar,
mesmo quando faltam pedaços, ou não
se sabe a que parte pertence a outra.

É assim com o poema: faço-o com as
palavras velhas, as que estão cheias de
bolor, as que foram atiradas para um canto
do dicionário. Algumas, não sei o que
querem dizer; outras, disseram tantas vezes
o mesmo que já perdi o sentido do que
dizem. Mas quando as colo, no verso,
o que ouço tem sempre um outro sentido.

Este poema, por exemplo, não tem
nada de novo. As palavras são fáceis,
os sentidos são óbvios. E é por isso
que ando, no meio dele, à procura de
coisas novas; e ao chegar ao fim,
vejo um princípio, e sei que tudo se volta
a colar, como se nada aqui faltasse.

In mezzo ad antiche cose vado cercando ciò che
è nuovo. In ogni fine io vedo un principio;
e tutti i frantumi tornano ad incollarsi,
pur se mancano dei pezzi, o non
si sa quale parte si conformi all’altra.

È così anche con la poesia: la compongo con le
parole antiche, quelle che ora sono coperte
di muffa, quelle che son state lasciate
in un angolo del dizionario. Certe non so
che cosa vogliano dire; altre han detto così spesso
la stessa cosa che già ho scordato il senso di quel
che dicono. Ma quando le rimonto, nel verso,
quel che io sento ha sempre un altro senso.

Questa poesia, ad esempio, non contiene
niente di nuovo. Le parole sono facili,
i significati evidenti. Ed è perciò
che vago, al suo interno, cercando
cose nuove; e giunto alla fine,
vedo un principio, e so che tutto andrà
ad aggiustarsi, come se non mancasse niente.


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Jacques Bizet
Vecchi libri (1650 ca.)
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Solidão


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Pedro, lembrando Inês (2001) »»
 
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Solidão
Solitudine


Um mar rodeia o mundo de quem está só. É
o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água
é negra; o seu horizonte não existe. Desenho
os contornos desse mar com um lápis de
névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos
os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha
nas grutas do litoral: as aves assustadas da
solidão. «É um mundo impenetrável», diz
quem está só. Senta-se na margem, olhando
o seu caso. Nada mais existe para além dele, até
esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se
que está vivo. Então, espera que a maré suba,
nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.

Un mare cinge il mondo di chi sta solo. È
il mare senza onde della fine del mondo. È nera
la sua acqua; non esiste orizzonte. Disegno
i contorni di questo mare con una matita di
nebbia. Cancello dalla sua superficie tutti
gli uccelli. Li vedo cercar riparo dalla gomma
nelle grotte del litorale: gli uccelli atterriti dalla
solitudine. “È un mondo impenetrabile”, dice
chi sta solo. Si siede al margine, pensando
alla propria sorte. Nulla più esiste al di là di questo,
neppure questo bianco albeggiare che lo obbliga a ricordarsi
d’esser vivo. Frattanto, aspetta che salga la marea,
in questo mare senza maree, per prendere una decisione.


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Gino Marotta
Alluminio (1957)
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Viagem nocturna


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Regresso a um Cenário Campestre (2020) »»
 
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Viagem nocturna
Viaggio notturno


Apanho o comboio da noite. Os comboios
da noite costumam ter grandes compartimentos
vazios, bancos onde podemos sonhar, janelas
fechadas para o mundo que não se vê. Nesses
comboios o tempo passa devagar, como o
passageiro que atravessa a carruagem à procura
de alguém que perdeu ao longo da sua vida,
e poderia estar nalgum sítio, talvez no bar, mas
naquela viagem o bar ficou fechado. Vou nesse
comboio à espera da primeira luz da madrugada,
quando se começa a ver o rio, tento adivinhar
em que direcção vão as suas águas e pergunto em
que estação nos iremos encontrar, em que
horizonte as linhas do comboio se cruzarão
com as linhas do destino, e se estarás
em frente do degrau por onde irei descer,
olhando à volta, à tua procura. E
entro em todos os comboios da noite, saio
em todos os apeadeiros da madrugada, e conto
as constelações que faltam para chegar
a esse ponto em que a tua presença deteve
o curso do rio, para que nos encontrássemos
entre uma estação e um cais, entre uma
e outra carruagem do comboio que perdemos.

Prendo il treno della notte. I treni
della notte solitamente hanno grandi scompartimenti
vuoti, sedili sui quali possiamo sognare, finestrini
chiusi sul mondo che non si vede. Su questi
treni il tempo passa lentamente, come il
passeggero che attraversa la carrozza in cerca
di qualcuno che ha perduto nel corso della sua vita,
e potrebbe trovarsi da qualche parte, magari al bar, ma
in quel viaggio il bar era chiuso. Vado su questo
treno in attesa delle prime luci dell’alba,
quando s’inizia a vedere il fiume, tento d’indovinare
in che direzione vanno le sue acque e mi domando
in che stazione c’incontreremo, in che
orizzonte le rotaie del treno s’incroceranno
con le linee del destino, e se tu starai
davanti al gradino dal quale io scenderò,
guardandomi in giro, in cerca di te. Ed
entro in tutti i treni della notte, scendo
a tutte le fermate dell’alba, e conto
le costellazioni che mancano per arrivare
al punto in cui la tua presenza ha trattenuto
il corso del fiume, affinché c’incontrassimo
tra una stazione e un attracco, tra un vagone
e l’altro del treno che abbiamo perso.


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Edward Hopper
Compartment C, Car 293 (1938)
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Negócio


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Negócio
Smercio


A idade de uma árvore mede-se pelos anéis
do tronco, quando o cortam. A árvore ainda
tinha muito para viver, e os anéis continuariam
a suceder-se com o seu desenho circular. Agora,
ao vê-los, penso apenas nos que lá faltam,
e faço contas aos séculos que a árvore
perdeu, quando a cortaram. Mas não desperdiço
a oportunidade: os anéis de uma árvore
talvez tenham algum valor na loja de penhores
da eternidade, sobretudo os mais antigos. E
levarei o anel que tem a idade dos profetas,
ou aquele que ouviu a voz dos amantes, e
ainda o que acompanhou um ruído de exércitos
numa das primeiras cruzadas, para saber quanto
me dão por eles. São eles os mais pequenos, e
é mais fácil caberem no dedo de quem os compre.

L’età di un albero si misura dagli anelli
del tronco, quando lo tagliano. L’albero potrebbe
vivere ancora per molto, e gli anelli continuerebbero
a succedersi con il loro disegno circolare. Adesso,
vedendoli, penso soltanto a quelli che mancano,
e faccio il conto dei secoli che l’albero
ha perso, quando l’hanno tagliato. Ma non rinuncio
all’occasione: gli anelli di un albero
forse hanno un qualche valore al banco dei pegni
dell’eternità, soprattutto quelli più antichi. E
io vi porterei l’anello che ha l’età dei profeti,
o quello che ha udito la voce degli amanti, e
anche quello che ha inteso il fragore degli eserciti
in una delle prime crociate, per sapere quanto
mi danno in cambio. Sono infatti i più piccoli, e
sarebbe più facile infilarli al dito di chi li comprasse.


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Aldo Romano
Sezione di tronco disseccato (particolare) (2017)
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Instruções para sobreviver a uma quarentena


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Instruções para sobreviver a uma quarentena
Istruzioni per sopravvivere a una quarantena


Põe à tua frente um rosto pousado numa almofada,
como se dormisse, mas com os olhos abertos e um brinco
que sobressai sobre os cabelos.

Pensa nas palavras que lhe poderias dizer, ao ouvido,
com cuidado para não perder nenhuma sílaba entre o brinco
e o puro desenho do seu perfil.

Não as digas todas de uma vez, e guarda uma parte para
os dias que ainda faltam, como se tivesses de multiplicar
por catorze dias cada um dos versos do soneto.

Sente aqueles lábios como se tivessem o sabor de uma romã,
e não saboreies tudo porque, tal como os bagos da romã, também
a boca tem de ser provada passo a passo, com todo o seu sumo.

Lembra-te da voz que entrou nos teus ouvidos e ainda
hoje, quando a angústia de um silêncio te percorre, volta
a soar com a doce lentidão da sua música.

Não precisas de pensar em urgencias, em inutéis ansiedades,
no tempo que parece não chegar ao fim, e segura nas tuas
  mãos a forma
das mãos que por elas passaram, como se o tempo não passasse.

Poupa o que tens de dizer, agora, e espera que as suas palavras
te ensinem a conhecer a expectativa de um encontro para que,
  então,
gastes todas as palavras que poupaste.

E não te esqueças de passar os dedos da memória por dentro
daqueles cabelos, e respirar, de novo, o perfume da vida
que brilha no leve desenho de um sorriso.

Mettiti di fronte a un viso posato su un cuscino,
come se dormisse, ma con gli occhi aperti e un orecchino
che spicca tra i capelli.

Pensa alle parole che gli potresti dire, all’orecchio,
con cautela perché non si perda nessuna sillaba tra l’orecchino
e il puro disegno del suo profilo.

Non dirle tutte insieme, e serbane una parte per
i giorni che mancano, come se dovessi moltiplicare
per quattordici giorni ciascuno dei versi del sonetto.

Immagina quelle labbra come se avessero il sapore d’una melagrana,
e non assaporare tutto perché, come i grani della melagrana, anche
la bocca dev’essere gustata poco a poco, con tutto il suo succo.

Ricordati della voce che entrò nelle tue orecchie e ancora
oggi, quando l’angoscia d’un silenzio ti percorre, torna
a risuonare con la dolce lentezza della sua musica.

Non occorre che pensi a cose urgenti, ad inutili ansie,
per quel tempo che sembra non aver fine, e stringi nelle tue
  mani la forma
delle mani che le hanno sfiorate, come se il tempo non passasse.

Risparmia quel che devi dire, ora, e aspetta che le sue parole
t’insegnino a conoscere l’attesa d’un incontro affinché,
  allora,
tu esaurisca tutte le parole che hai risparmiato.

E non dimenticare di passare le dita della memoria dentro
quei capelli, e respirare, di nuovo, il profumo della vita
che brilla nel lieve profilo d’un sorriso.


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Frida Kahlo
Radici (1943)
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Relatório


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Relatório
Resoconto


Faço o inventário dos móveis nesta casa vazia,
com um caderno de escola, enchendo as linhas
com um desenho minucioso de palavras:
um armário de almas, uma cadeira de balouço,
um aparador de ecos, uma mesa sem pernas,
um espelho de sombra, um ângulo interrompido
na cesura do verso, uma estante de imagens.

Levo esta lista ao notário; e peço-lhe que
risque os objectos inúteis, para que o caderno
sirva para alguma coisa. Mas ele pede-me que
substitua as palavras pelos objectos. Então,
ponho a alma no armário, balouço o corpo na
cadeira, grito no abismo do aparador, faço
andar a mesa, olho-me no espelho do verso,
e tiro da estante todas as imagens.

«Que casa é esta?», pergunta-me o
empregado. Digo-lhe que as salas são
as estrofes, que os muros são feitos com
o tijolo dos versos, que um gesso de rimas
preenche os interstícios. Só não sei indicar
a rua, o número, a cor das paredes. É uma casa
que não existe, embora seja a minha casa.

E esvazio-a de móveis, de objectos, de palavras,
até ficar apenas com o poema que a construiu.

Compilo l’inventario degli arredi di questa casa vuota,
con un quaderno di scuola, riempiendo le righe
con un disegno meticoloso di parole:
un guardaroba d’anime, una seggiola a dondolo,
una dispensa d’echi, un tavolo senza gambe,
uno specchio d’ombre, uno spigolo interrotto
nella cesura del verso, una scansia d’immagini.

Consegno l’elenco al notaio; e lo prego di
depennare gli oggetti inutili, perché il quaderno
serva a qualcosa. Ma lui mi prega di
rimpiazzare le parole con gli oggetti. Allora,
ritiro l’anima nel guardaroba, dondolo il corpo sulla
seggiola, urlo nell’abisso della dispensa, spingo
il tavolo in giro, mi osservo nello specchio del verso,
e rimuovo dalla scansia tutte le immagini.

“Che casa è mai questa?”, mi domanda
il notaio. Gli dico che i vani sono
le strofe, che le pareti sono fatte coi
mattoni dei versi, che uno stucco di rime
ripara le fenditure. Quel che non so indicare
sono la via, il numero, il colore dei muri. È una casa
che non esiste, malgrado sia casa mia.

E la sgombro dai mobili, dagli oggetti, dalle parole,
finché non resta che la poesia che l’ha assemblata.


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Edward Hopper
Casa sulla ferrovia (1923)
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Para escrever o poema


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Para escrever o poema
Per scrivere una poesia


O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.

Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito.

Il poeta vuol scrivere di un uccello:
e l'uccello gli sfugge via dal verso.

Il poeta vuol scrivere della mela:
e la mela gli cade dal ramo dove l’ha messa.

Il poeta vuol scrivere del fiore:
e il fiore s’affloscia nel vaso della strofa.

Allora il poeta fa una gabbia di parole
perché l’uccello non gli sfugga.

Allora il poeta chiama il serpente
perché convinca Eva a mordere la mela.

Allora il poeta versa acqua nella strofa
perché il fiore non s’afflosci.

Ma un uccello non canta
quando lo chiudono in gabbia.

Il serpente non esce dalla tana
perché Eva ha paura dei serpenti.

E l’acqua che dovrebbe ravvivare il fiore
scorre via in mezzo ai versi.

E non appena il poeta ebbe posato la penna,
l'uccello cominciò a volare,
Eva corse tra gli alberi di melo
e tutti i fiori sbucarono dal terreno.

Il poeta riprese la sua penna,
scrisse quel che aveva visto,
ed ecco fatta la poesia.


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Paul Klee
Paesaggio con uccelli gialli (1923)
...

Eva


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Eva
Eva


Quando Eva andava nua pelo paraíso,
disfarçava o tédio à sombra das árvores,
colhendo as flores, cheirando o seu perfume,
e pensando como seria bom ter um céu
para espreitar.

Um dia, uma dessas flores transformou-se
em fruto; e Eva levou-o à boca,
trincou-o, provou a sua polpa.
Por um estranho efeito
de causa e consequência, o sabor da maçã
obrigou Eva a cobrir a sua nudez
com folhas e flores, que passaram
a ser uma metáfora do corpo
que escondem.

Então, o pecado tornou-se uma simples
figura de retórica, e o sexo um exercício
de interpretação.

Quando Eva passeggiava nuda per il paradiso,
scacciava la noia all’ombra degli alberi,
cogliendo i fiori, aspirandone il profumo,
e pensando come sarebbe bello avere un cielo
da scrutare.

Un giorno, uno di questi fiori si trasformò in
frutto; e Eva lo portò alla bocca,
lo addentò, ne assaporò la polpa.
Per una strana reazione
di causa ed effetto, il sapore della mela
costrinse Eva a coprire la sua nudità
con foglie e fiori, che si convertirono
in una metafora del corpo
che nascondono.

Allora, il peccato divenne una semplice
figura retorica, e il sesso un esercizio
d’interpretazione.


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La cacciata di Adamo ed Eva dal Giardino dell'Eden
Illustrazione di William Blake (1807)
per il Paradiso Perduto di Milton
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Verbo


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Verbo
Verbo


Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.

Metto delle parole sul tavolo; e lascio
che se ne servano, che le taglino a fette, sillaba per
sillaba, per portarle alla bocca – dove le parole
tornano a ricomporsi, per ricadere sul tavolo.

Così, conversiamo gli uni con gli altri. Ci scambiamo
parole; e rubiamo parole altrui, quando non ne
abbiamo; e regaliamo parole, quando sappiamo che ce n’è
di troppo. In tutte le conversazioni avanzano le parole.

Ma ci sono parole che rimangono sul tavolo, quando
noi ce ne andiamo. Diventano fredde, di notte; se una finestra
si apre, il vento le getta a terra. Il giorno dopo,
la donna a ore dovrà spazzarle nella pattumiera.

Perciò, quando me ne vado via, verifico se sono rimaste
parole sul tavolo; e me le ficco in tasca, senza che nessuno
se ne accorga. Poi, le conservo nel cassetto della poesia. Un
giorno o l’altro, queste parole mi serviranno a qualcosa.


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Renato Guttuso
Caffè Greco (1976)
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Braile


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Braile
Braille


Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.

Leggo l’amore nel libro
della tua pelle; mi soffermo su ogni
sillaba, nel morbido solco
delle vocali, in un breve ostacolo
di consonanti, in cui le mie dita
affondano, per arrivare
al profondo dei sensi. Sfoglio
le pagine aperte dal tuo desiderio,
sentendo il sussurro del tocco
lieve di parole che si
uniscono, come corpi, nell’abbraccio
di ogni frase. E arrivo alla fine
per tornare al principio, ripetendo
ciò che già so, ma è sempre nuovo
quando lo leggo sulla tua pelle.


________________

Camille Claudel
Il valzer (1889-1901)
...

Como se faz o poema


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Como se faz o poema
Come si fa una poesia


Para falarmos do meio de obter o poema,
a retórica não serve. Trata-se de uma coisa simples, que não
precisa de requintes nem de fórmulas. Apanha-se
uma flor, por exemplo, mas que não seja dessas flores
 que crescem
no meio do campo, nem das que se vendem nas lojas
ou nos mercados. É uma flor de sílabas, em que as
pétalas são as vogais, e o caule uma consoante. Põe-se
no jarro da estrofe, e deixa-se estar. Para que não morra,
basta um pedaço de primavera na água, que se vai
buscar à imaginação, quando está um dia de chuva,
ou se faz entrar pela janela, quando o ar fresco
da manhã enche o quarto de azul. Então,
a flor confunde-se com o poema, mas ainda não é
o poema. Para que ele nasça, a flor precisa
de encontrar cores mais naturais do que essas
que a natureza lhe deu. Podem ser as cores do teu
rosto – a sua brancura, quando o sol vem ter contigo,
ou o fundo dos teus olhos em que todas as cores
da vida se confundem, com o brilho da vida. Depois,
deito essas cores sobre a corola, e vejo-as descerem
para as folhas, como a seiva que corre pelos
veios invisíveis da alma. Posso, então, colher a flor,
e o que tenho na mão é este poema que
me deste.

Se vogliamo parlare di come si fa una poesia,
la retorica non serve. Si tratta di una cosa semplice, che non
richiede ricercatezze né formule. Si prenda
un fiore, per esempio, ma non uno di quei fiori
 che crescono
in mezzo ai campi, né di quelli che si vendono nei negozi
o nei mercati. Che sia un fiore di sillabe, in cui i
petali sono le vocali e il gambo una consonante. Lo si metta
nel vaso della strofa e lo si lasci stare. Perché non muoia,
basta un po’ di primavera nell’acqua, che va
cercata nell’immaginazione, se la giornata è di pioggia,
o che si fa entrare dalla finestra, quando l’aria fresca
del mattino riempie la stanza di blu. Allora,
il fiore si confonde con la poesia, ma non è ancora
la poesia. Affinché questa prenda vita, al fiore occorre
trovare colori più naturali di quelli
che la natura gli ha dato. Possono essere i colori del tuo
volto – il suo candore, quando il sole si posa su di te,
o il fondo dei tuoi occhi in cui tutti i colori
della vita si confondono con lo sfolgorio della vita. Dopo,
stendo questi colori sulla corolla, e li guardo scendere
sulle foglie, come linfa che scorra nelle
vene invisibili dell’anima. Allora, posso cogliere il fiore,
e quel che tengo in mano è questa poesia che
tu m’hai dato.


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Guillaume Apollinaire
Fiori (1918)
...

Génesis


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O Estado dos Campos (2003) »»
 
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Génesis
Genesi


No princípio era o verbo, e eu traduzia-o
em palavras com um sentido fundo como o poço
de onde as mulheres puxavam os baldes de água,
à tarde, para refrescar o chão de agosto. Nas
cordas de roupa do quintal, eu estendia as palavras
para as secar: e via o sol atravessá-las até ao osso,
dissecando o seu corpo mais vago — as vogais fechadas
do fim, ou a enunciação de um infinito
Até ao limite do verbo.

No principio também eram as coisas: umas
sobre as outras, no alinhamento curvo do destino,
como se não estivessem para cair nessa trepidação
de rimas que um fim de verso pode trazer. Então,
levantava-as do chão onde se tinham partido em pedaços,
as coisas brancas da lua e as coisas vermelhas do sol,
e colava-as na parede, vendo o muro subir
até ao tecto celeste.

E no fim, volta a ser o verbo. Arranha-me a língua
com as suas unhas de consoantes; e pego-lhe ao colo,
para que não fira os pés nas pedras do campo, ouvindo
a sua voz de carne e osso escrever-me, no fundo
da cabeça, e a toda a largura da alma, a frase
redonda do amor. Trabalho a sua sintaxe, até
descobrir as articulações do segredo; e abraço
o corpo que nasce na conjugação
das suas pálpebras, abertas até ao fundo
dos olhos, onde te vejo.

In principio era il verbo, ed io lo traducevo
in parole con un senso profondo come il pozzo
dal quale le donne sollevavano i secchi d’acqua,
la sera, per rinfrescare il suolo d’agosto. Sulle
corde da bucato del cortile, io stendevo le parole
ad asciugare: e vedevo il sole trapassarle fino all’osso,
sezionando il loro corpo svuotato — le vocali chiuse
della fine, o l’enunciazione d’un infinito
Fino al limite del verbo.

In principio c’erano anche le cose: le une
sulle altre, nel curvo allineamento del destino,
come se stessero per cadere in quella trepidazione
di rime che può verificarsi alla fine di un verso. Allora,
le sollevavo da terra dove s’erano rotte in mille pezzi,
le cose bianche della luna e le cose rosse del sole,
e le incollavo alla parete, vedendo il muro salire
fino al soffitto celeste.

E alla fine, torna ad esserci il verbo. Mi graffia la lingua
con le sue unghie di consonante; ed io lo prendo in braccio,
perché non si ferisca i piedi sui sassi del campo, sentendo
la sua voce in carne e ossa scrivermi, ben dentro
la mia testa, e per tutta l'ampiezza dell’anima, la frase
rotonda dell’amore. Ritocco la sua sintassi, fino
a scoprire le articolazioni del segreto; e abbraccio
il corpo che nasce dalla congiunzione
delle sue palpebre, aperte fino al fondo
degli occhi, dove ti vedo.


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Paul Klee
Dal grigiore della notte (1918)
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Princípios


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Altra traduzione:
Nuno Júdice »»
 
Pedro, lembrando Inês (2001) »»
 
Francese »»
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Princípios
Principi


Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

Potremmo sapere un po’ di più
sulla morte. Ma non per questo
avremmo voglia di morire più
alla svelta.

Potremmo sapere un po’ di più
sulla vita. Forse non ci servirebbe vivere
tanto, quando la sola cosa che serve è sapere
che ci tocca vivere.

Potremmo sapere un po’ di più
sull’amore. Ma non per questo smetteremmo
di amare, sapendo esattamente che cos’è l’amore, né
ameremmo di più, constatando che, anche così, nulla
sappiamo sull’amore.


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Elizabeth Shippen Green
La Biblioteca (1905)
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Ausência


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Ausência
Assenza


Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais – um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-me de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

Voglio dirti una cosa semplice: la tua
assenza mi fa male. Mi riferisco a quel male che non
ferisce, che si limita all’anima; ma che, non
per questo, rinuncia a lasciare qualche segnale - un peso
sugli occhi, al posto della tua immagine, e
un vuoto nelle mani, come se alle tue mani
avessero rubato il tatto. Sono queste le forme
dell’amore, potrei dirti; e aggiungere che
le cose semplici possono anche essere
complicate, quando ci rendiamo conto della
differenza tra il sogno e la realtà. Tuttavia,
è il sogno che mi riporta il tuo ricordo; e la
realtà m’avvicina a te, ora che
i giorni scorrono più in fretta, e le parole
restano imprigionate in una rifrazione d’istanti,
quando la tua voce mi chiama da dentro di
me - e mi fa rispondere una cosa semplice,
come dire che la tua assenza mi fa male.


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Edvard Munch
Malinconia (1894-1896)
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