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Só de sol a minha casa


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Só de sol a minha casa
Tutta di sole la mia casa


  A Adélia Prado, com licença,
  que também sou mineira


Durante muito tempo,
também tive um sol
a inundar a nossa casa inteira,
tal a pequenez do cômodo.

Pelas fendas do machucado zinco,
folhas escaldantes de nosso teto,
invasivos raios confrontavam
pontos de mil quentura.
E jorrantes jatos de fogo
abrasavam o vazio
de um estorricado chão.

Em dias de maior ardência,
minha mãe alquebrava
seu milenar e profundo cansaço
no recorte disforme
de um buraco - janela sem janela –
acontecido no centro de uma frágil parede.
(rota de fuga de uma presa a inventar a
 extensão de um prado)

Eu não sei por que, ela olhava o tempo
e nos chamava para perscrutar
em que lugar morava a esperança.
Olhávamos.
Salvou-nos a obediência.
  A Adélia Prado, con licenza,
  ché anch’io sono del Minas


Per un lungo periodo di tempo,
c’è stato anche un sole
ad inondare la nostra casa intera,
tant’era l’esiguità del locale.

Dalle fessure dello zinco crepato,
fogli surriscaldanti del nostro tetto,
raggi invadenti si scontravano
con punti d’un calore infernale.
E spruzzando schizzi di fuoco
infiammavano il vuoto
d’un suolo abbrustolito.

Nei giorni di massima calura,
mia madre cullava
la sua millenaria e profonda stanchezza
davanti ai margini difformi
di un buco - finestra senza finestra –
capitato al centro d’una fragile parete.
(via di fuga d’una preda che immaginasse
 l’estendersi d’un prato)

Io non so perché ella guardasse il tempo
e ci chiamava per scoprire
in che luogo dimorava la speranza.
Noi guardavamo.
Ci salvò l’obbedienza.
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Vasily Perov
Bambini dormienti (1870)
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Inquisição


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Inquisição
Inquisizione


  Ao poeta que nos nega

Enquanto a inquisição
interroga
a minha existência
e nega o negrume
do meu corpo-letra
na semântica
da minha escrita,
prossigo.

Assunto não mais
o assunto
dessas vagas e dissentidas
falas.

Prossigo e persigo
outras falas,
aquelas ainda úmidas,
vozes afogadas,
da viagem negreira.

E apesar
de minha fala hoje
desnudar-se no cálido
e esperançoso sol
de terras brasis, onde nasci,
o gesto de meu corpo-escrita
levanta em suas lembranças
esmaecidas imagens
de um útero primeiro.

Por isso prossigo.
Persigo acalentando
nessa escrevivência
não a efígie de brancos brasões,
sim o secular senso de invisíveis
e negros queloides, selo originário,
de um perdido
e sempre reinventado clã.
  Al poeta che ci nega

Mentre l’inquisizione
interroga
la mia esistenza
e nega la nigrizia
del mio corpo-lettera
nella semantica
della mia scrittura,
io proseguo.

Non dò più peso
all’oggetto
di questi vaghi e discordanti
discorsi.

Proseguo e inseguo
altre parlate,
quelle ancora umide,
voci affogate,
del viaggio negriero.

E benché
oggi la mia lingua
si denudi al caldo
e fiducioso sole
delle terre del brasile, ove io nacqui,
il gesto del mio corpo-scrittura
richiama tra i suoi ricordi
immagini sbiadite
di un utero primigenio.

Per questo io proseguo.
E cullandomi in questa
scrittura del vissuto, ambisco
non all’effigie di bianche insegne,
ma al millenario senso di invisibili
e neri cheloidi, marchio originario,
di un perduto
e sempre reinventato clan.
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Abdias do Nascimento
Maschera ancestrale (1988)
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Clarice no quarto de despejo


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Clarice no quarto de despejo
Clarice nel bugigattolo


No meio do dia
Clarice entreabre o quarto de despejo
pela fresta percebe uma mulher.
Onde estiveste à noite, Carolina?
Macabeando minhas agonias, Clarice.
Um amargor pra além da fome e do frio,
Da bica e da boca em sua secura.
De mim, escrevo não só a penúria do pão,
cravo no lixo da vida, o desespero,
uma gastura de não caber no peito,
e nem no papel.
Mas, ninguém me lê, Clarice,
Para além do resto.
Ninguém decifra em mim
a única escassez da qual não padeço,
– a solidão –

E ajustando o seu par de luvas claríssimas
Clarice futuca um imaginário lixo
e pensa para Carolina:
– a casa poderia ser ao menos de alvenaria –
E anseia ser Bitita inventando um diário:
páginas de jejum e de saciedade sobejam,
a fome nem em pedaços
alimenta a escrita clariceana.

Clarice no quarto de despejo
lê a outra, lê Carolina,
a que na cópia das palavras,
faz de si a própria inventiva.
Clarice lê :
– despejo e desejos –
A metà della giornata
Clarice socchiude il bugigattolo
e dallo spiraglio intravede una donna
Dove sei stata stanotte, Carolina?
A nutrire, come Macabea, le mie angosce, Clarice.
Un’afflizione che va oltre la fame e il freddo,
oltre la secchezza della gola e della bocca.
Di me, io scrivo non solo la scarsità di pane,
estraggo dall’immondizia della vita, lo sconforto,
un affanno che il petto non sa contenere,
e nemmeno la carta.
Ma, nessuno mi legge, Clarice,
Oltre a tutto il resto.
Nessuno in me riconosce
l’unica scarsità di cui non difetto,
– la solitudine –

E indossando i suoi due guanti chiarissimi
Clarice rovista in un immaginario pattume
e pensa a Carolina:
– la casa potrebbe essere almeno in muratura –
E aspira ad essere Bitita che inventa un diario:
pagine di digiuno e di sazietà abbondano,
la fame neppure a pezzetti
alimenta la scrittura di Clarice.

Clarice nel bugigattolo
legge l’altra, legge Carolina,
che nel profluvio di parole,
fa di sé materia del suo scrivere.
Clarice legge:
– rifiuti e desideri –
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Brendon Reis
Quarto de despejo (2018)
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Certidão de óbito


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Certidão de óbito
Certificato di morte


Os ossos de nossos antepassados
colhem as nossas perenes lágrimas
pelos mortos de hoje.

Os olhos de nossos antepassados,
negras estrelas tingidas de sangue,
elevam-se das profundezas do tempo
cuidando de nossa dolorida memória.

A terra está coberta de valas
e a qualquer descuido da vida
a morte é certa.
A bala não erra o alvo, no escuro
um corpo negro bambeia e dança.
A certidão de óbito, os antigos sabem,
veio lavrada desde os negreiros.
Le ossa dei nostri antenati
raccolgono le nostre perenni lacrime
per i morti di oggi.

Gli occhi dei nostri antenati,
stelle nere tinte di sangue,
si sollevano dalle profondità del tempo
soccorrendo la nostra dolorosa memoria.

La terra è coperta di fosse
e a qualunque distrazione della vita
la morte è certa.
La pallottola non manca il bersaglio, al buio
un corpo nero vacilla e danza.
Il certificato di morte, gli antichi lo sanno,
fu istituito ai tempi dei negrieri.
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Johann Moritz Rugendas
Navio negreiro (1830)
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Carolina na hora da estrela


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Carolina na hora da estrela
Carolina nell’ora della stella


No meio da noite
Carolina corta a hora da estrela.
Nos laços de sua família um nó
- a fome.
José Carlos masca chicletes.
No aniversário, Vera Eunice desiste
do par de sapatos,
quer um par de óculos escuros.
João José na via-crúcis do corpo,
um sopro de vida no instante-quase
a extinguir seus jovens dias.
E lá se vai Carolina
com os olhos fundos,
macabeando todas as dores do mundo...
Na hora da estrela, Clarice nem sabe
que uma mulher cata letras e escreve
“De dia tenho sono e de noite poesia”.
Nel cuore della notte
Carolina incrocia l’ora della stella.
A legare la sua famiglia un nodo
- la fame.
José Carlos mastica chewing gum.
Per il compleanno, Vera Eunice rinuncia
a un paio di scarpe,
vuole un paio di occhiali da sole.
João José lungo la via crucis del corpo,
un soffio di vita nell’istante-preludio
all’estinzione dei suoi giovani giorni.
Ed è là che va Carolina
con i suoi occhi profondi,
come Macabea, gravata da tutte le pene del mondo...
Nell’ora della stella, Clarice non sa
che una donna raccoglie parole e scrive
“Di giorno ho sonno e di notte poesia”
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João Pinheiro
Carolina Maria de Jesus (2016)
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A menina e a pipa-borboleta


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A menina e a pipa-borboleta
La bimba e l’aquilone-farfalla


A menina e a pipa
ganha a bola da vez
e quando a sua íntima
pele, macia seda, brincava
no céu descoberto da rua
um barbante áspero,
másculo cerol, cruel
rompeu a tênue linha
da pipa-borboleta da menina.

E quando o papel, seda esgarçada 
da menina estilhaçou-se
entre as pedras da calçada
a menina rolou
entre a dor e o abandono.

E depois, sempre dilacerada,
a menina expulsou de si
uma boneca ensangüentada
que afundou num banheiro
público qualquer.
La bimba con l’aquilone
talvolta vince la palla
e mentre la sua intima
pelle, morbida seta, giocava
all’aria aperta della via
un filo tagliente, come
un virile e crudele rasoio
recise il sottile filo
dell’aquilone-farfalla della bimba.

E mentre la carta velina squarciata 
della bimba si lacerava
tra le pietre del marciapiede
la bimba ruzzolò
tra il dolore e l’abbandono.

E poi, sempre straziata,
la bimba espulse da sé
una bambola insanguinata
che affogò in un bagno
pubblico qualunque.
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Bertina Lopes
Maternità (1971)
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A Empregada e o Poeta


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A Empregada e o Poeta
La Cameriera e il Poeta


Na suspeição de que a empregada envenenaria o poeta
anteciparam as dores dos livros.
Folhas mortas despencariam dos troncos,
lombadas folheadas em ouro,
tesouro do poeta,
que a mesma serviçal
eficiente e justa cuidava em sua obra.

A empregada envenenaria o poeta,
um mofo podre avolumaria
De cada letra morta.
E a biblioteca manuseada
pela mente assassina
esperaria uma nova edição
de um debochado cordel,
que cantaria a história do poeta
e do bife envenenado,
trazendo o verso final:
“ o peixe morre é pela boca.”

Todos suspeitariam,
condolências antecipadas
surgiriam em prosa e verso.
Entretanto suspeição alguma
ouviu e leu a história da empregada.
Ela jamais assassinaria o poeta.

Quando o bife passou
quase amargo e cru,
foi porque o tempo logrou
as tarefas de Raimunda.
O não e o mal feito da empregada
eram gastos às escondidas em leituras
do tesouro que não lhe pertencia.
No entanto ela sabia, mesmo antes do poeta,
que rima era só rima.
E em meio às lacrimejantes cebolas
misturadas às dores apimentadas
nos olhos do mundo,
Raimunda entre vassouras, rodos,
panelas e pó desinventava de si
as dores inventadas pelo poeta.
Sospettando che la cameriera avvelenasse il poeta
si anticiparono i dolori dei libri.
Libri come foglie morte staccate dai rami,
coste decorate in foglia d’oro,
tesoro del poeta,
di cui quella stessa servetta
efficiente e onesta s’occupava nel suo lavoro.

La cameriera avrebbe avvelenato il poeta,
una putrida muffa si sarebbe sviluppata
in ciascuna delle lettere morte.
E la biblioteca manipolata
dalla mente assassina
dovrà attendere una nuova edizione
d'un depravato cordel,
che canterà la storia del poeta
e della bistecca avvelenata,
avendo come verso finale:
“il pesce muore dalla bocca.”

Tutti sospetterebbero,
condoglianze anticipate
sboccerebbero in versi e in prosa.
Invece nessun sospetto
udì e lesse nella sua storia la cameriera.
Ella non avrebbe mai assassinato il poeta.

Se la bistecca risultò
piuttosto amara e cruda,
fu perché troppo tempo dedicò
ai suoi lavori Raimunda.
Il non fatto e il mal fatto della cameriera
erano il frutto delle letture fatte di soppiatto
di quel tesoro che non le apparteneva.
Però ella sapeva, ancor meglio del poeta,
che rima è solo rima.
E in mezzo alle lacrimevoli cipolle
mischiate ai dolori infusi
negli occhi del mondo,
Raimunda fra scope, spatole,
padelle e polvere disinventava da sé
i dolori inventati dal poeta.
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Armando Vianna
Lucidando l'argenteria (1923)
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Vozes-mulheres


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Vozes-mulheres
Voci di donne


A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
    e
    fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
La voce della mia bisnonna
riecheggiò bambina
nelle stive della nave.
Riecheggiò lamenti
di un’infanzia perduta.
La voce della mia nonna
riecheggiò obbedienza
ai bianchi-padroni di tutto.
La voce della mia mamma
riecheggiò, in sordina, la rivolta
in fondo alle cucine altrui
sotto i fagotti
di panni sporchi dei bianchi
lungo il polveroso sentiero
verso la favela.
La mia voce ancora
riecheggia versi perplessi
con rime di sangue
    e
    fame.
La voce di mia figlia
riunisce tutte le nostre voci
riunisce in sé
le voci mute taciute
intasate nelle gole.
La voce di mia figlia
riunisce in sé
la parola e l’azione.
Il passato – l’oggi – l’adesso.
Nella voce di mia figlia
si farà sentire la risonanza
l’eco della vita-libertà.
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Moisés Patrício
Retrato da Nitinha de Osum (2020)
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Todas as manhãs


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Todas as manhãs
Ogni mattina


Todas as manhãs acoito sonhos
e acalento entre a unha e a carne
uma agudíssima dor.
Todas as manhãs tenho os punhos
sangrando e dormentes
tal é a minha lida
cavando, cavando torrões de terra,
até lá, onde os homens enterram
a esperança roubada de outros homens.
Todas as manhãs junto ao nascente dia
ouço a minha voz-banzo,
âncora dos navios de nossa memória.
E acredito, acredito sim
que os nossos sonhos protegidos
pelos lençóis da noite
ao se abrirem um a um
no varal de um novo tempo
escorrem as nossas lágrimas
fertilizando toda a terra
onde negras sementes resistem
reamanhecendo esperanças em nós. 
Ogni mattina dò ricetto ai sogni
e covo tra l’unghia e la carne
un’acutissima pena.
Ogni mattina ho i pugni
sanguinanti e intorpiditi
per la mia grande fatica
nello scavare, scavare zolle di terra,
fin dove gli uomini interrano
la speranza rubata ad altri uomini.
Ogni mattina allo spuntar del giorno
odo la mia voce-banzo,
ancora delle navi della nostra memoria.
E credo, sì credo
che i nostri sogni protetti
dai lenzuoli della notte,
nel dischiudersi uno ad uno
sullo stenditoio d’un nuovo tempo,
facciano sgocciolare le nostre lacrime
fertilizzando tutta la terra
in cui nere sementi resistono
risvegliando dentro di noi speranze.
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Bertina Lopes
Totem (1970)
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Recordar é preciso


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Recordar é preciso
Ricordare è indispensabile


O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos.
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.

O movimento de vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.

Uma paixão profunda é a boia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.
Il mare s’agita ondeggiando sotto i miei pensieri.
La memoria spietata dirige il timone:
Ricordare è indispensabile.

Il movimento di viavai nelle acque-ricordo
dei miei occhi lacrimosi m’inonda la vita,
salandomi il volto e il gusto.
Sono eternamente naufraga,
ma il fondo degli oceani non mi spaventa
né mi paralizza.

Una passione profonda è la boa che mi tiene a galla.
So che il mistero sussiste al di là delle acque.
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Archibald John Motley Jr.
Portrait of my Grandmother (1922)
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Poema de Natal


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Poema de Natal
Poesia di Natale


O frio assola
os meninos no Natal
nas grutas, nas vielas,
nos condomínios...

O frio no Natal assola
a vida de muitos.
Na solidão do vazio prato,
o esbanjar da ceia
cerceia o paladar
de quem apenas em sonho,
molha a farinha seca,
no vinho tinto e extinto
pelo derramamento
do cálice do outro.

O frio no Natal
não tem nascedouro
em dezembro.
Há longas datas
o frio assola
a boca vazia
do ano inteiro.

Em dezembro porém
uma lembrança erupciona
a pele de todos.
O frio do outro Menino,
o frio do outro...

E então, no afã de exterminar
o nosso frio, fabricamos
o calor de um só dia, esquecidos
de que como deuses
também podemos milagrar a vida.

Basta tomar
o fogo-brilho da estrela
e com a chama do divino-humano
que em nós habita,
maravilhar o mundo com
a estrela-guia da justiça.
Il freddo affligge
i bambini a Natale
nelle grotte, nei vicoli,
nei condomini...

Il freddo a Natale affligge
la vita di molti.
Nella solitudine d’un piatto vuoto,
l’eccesso della cena
appiattisce il gusto
di chi, appena in sogno,
intinge il biscotto secco
nel vin santo, estinto
a causa dello svuotamento
del calice d’un altro.

Il freddo a Natale
non ha nascituro
a dicembre.
Da tanto tempo
il freddo affligge
la bocca asciutta
dell’anno intero.

A dicembre però
un ricordo irrita
la pelle di tutti.
Il freddo dell’altro Bambino,
il freddo dell’altro...

Ed ecco, nell’ansia di annullare
il nostro freddo, costruiamo
il calore d’un sol giorno, dimentichi
del fatto che, come dei,
possiamo anche noi miracolare la vita.

Basta prendere
l’ardente scintillio della stella
e con la fiamma del divino-umano
che in noi dimora,
stupire il mondo con
la stella-guida della giustizia.
________________

Rico de Candia
Madonna nera bizantina (XVI sec.)
...

Pedra, pau, espinho e grade


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Pedra, pau, espinho e grade
Pietra, bastone, spina e grata


“No meio do caminho tinha uma pedra”,
Mas a ousada esperança
de quem marcha cordilheiras
triturando todas as pedras
da primeira à derradeira
de quem banha a vida toda
no unguento da coragem
e da luta cotidiana
faz do sumo beberragem
topa a pedra pesadelo
é ali que faz parada
para o salto e não o recuo
não estanca os seus sonhos
lá no fundo da memória,
pedra, pau, espinho e grade
são da vida o desafio.
E se cai, nunca se perdem
os seus sonhos esparramados
adubam a vida, multiplicam
são motivos de viagem.
“Nel mezzo del cammin c'era una pietra”,
Ma l’audace speranza
di chi valica cordigliere
frantumando tutte le pietre
dalla prima all’ultima
di chi unge tutta la vita
nell’unguento del coraggio
e della lotta quotidiana
fa della linfa beveraggio
inciampa nella pietra incubo
è lì che fa la scelta
verso il balzo, non per la rinuncia
non lascia ristagnare i suoi sogni
là nel fondo della memoria,
pietra, bastone, spina e grate
sono le sfide della vita.
E se cade, mai vanno perduti
i suoi sogni sparpagliati
concimano la vita, si moltiplicano
stimolano il viaggio.
________________

Bertina Lopes
Mafalala (n.d.)
...

Para a menina


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Para a menina
Alla bambina


Para todas as meninas e meninos de cabelos
  trançados ou sem tranças.


Desmancho as tranças da menina
e os meus dedos tremem
medos nos caminhos
repartidos de seus cabelos.

Lavo o corpo da menina
e as minhas mãos tropeçam
dores nas marcas-lembranças
de um chicote traiçoeiro.

Visto a menina
e aos meus olhos
a cor de sua veste
insiste e se confunde
com o sangue que escorre
do corpo-solo de um povo.

Sonho os dias da menina
e a vida surge grata
descruzando as tranças
e a veste surge farta
justa e definida
e o sangue se estanca
passeando tranqüilo
na veia de novos caminhos,
esperança.
Per tutte le bambine e i bambini coi capelli
  intrecciati o senza trecce.


Disfo le trecce della bambina
e le mie dita tremano
paure lungo i sentieri
separati dei suoi capelli.

Lavo il corpo della bambina
e le mie mani avvertono
dolori sulle tracce-ricordo
d’una sferza traditrice.

Vesto la bambina
e ai miei occhi
il colore della sua veste
insiste e si confonde
col sangue che scorre
dal corpo-suolo d’un popolo.

Sogno i giorni della bambina
e la vita risorge grata
disfacendo le trecce
e la veste risorge piena
giusta e definita
e il sangue torna
a scorrere tranquillo
nella vena di nuovi cammini,
speranza.
________________

Loïs Mailou Jones
Madre del Senegal (1985)
...

Negro-Estrela


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Negro-Estrela
Negro-Stella


Em memória de Osvaldo, doce companheiro meu,
 pelo tempo que a vida nos permitiu.


Quero te viver,
vivendo o tempo exato
de nossa vida.
Quero te viver na plenitude
do momento gasto
vivido em toda sua essência
sem sobra ou falta.
Quero te viver
me vivendo plena
do teu, do nosso
vazio buraco.

Quero te viver, Negro-Estrela,
compondo em mim constelações
de tua presença
para quando um de nós partir,
a saudade não chegar sorrateira,
vingativa da ausência,
mas chegar mansa,
revestida de lembranças
e amena cantar no peito
de quem ficou um poema
que transborde inteiro
a certeza da invisível presença.
In memoria di Osvaldo, mio dolce compagno,
 per il tempo che la vita ci ha concesso.


Voglio viverti,
vivendo il tempo preciso
della nostra vita.
Voglio viverti nella pienezza
del momento gustato
vissuto in tutta la sua essenza
senza eccessi o mancanze.
Voglio viverti
vivendomi piena
del tuo, del nostro
posto vuoto.

Voglio viverti, Negro-Stella,
creando in me costellazioni
della tua presenza
sicché quando uno di noi se ne andrà,
il rimpianto non giungerà di soppiatto,
per vendicarsi dell’assenza,
ma arriverà dolcemente,
ricolmo di ricordi
e ameno canterà nel petto
di chi è rimasto una poesia
che riversi per intero
la certezza dell’invisibile presenza.
________________

Con Silva Naif
Asé Abdias (2020)
...

Meu rosário


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Meu rosário
Il mio rosario


Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos e ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, onde as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos nas minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas, 
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,
eu diria, porém, que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço entumecidos
sonhos de esperanças.
Nas contas de meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas de meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
no estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas do meu rosário,
eu falo de mim mesma em outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo-caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuda em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.
Di grani neri e magici è fatto il mio rosario.
Sui grani del mio rosario io intono Mamma Oxum e dico
padri nostri e ave marie.
Nel mio rosario io posso sentire i lontani tam tam della mia gente
e ritrovo nella memoria appena assopita
le preghiere mariane della mia infanzia.
Le incoronazioni di Nostra Signora, dove le bimbe negre,
seppur desiderose d’incoronare la Regina,
si dovevano accontentare di stare presso l’altare
gettando fiori.
I grani del mio rosario han fatto venire i calli sulle mie mani,
poiché sono grani dei lavori della terra, delle fabbriche,
delle case, delle scuole, delle strade, del mondo.
Sono grani vivi i grani del mio rosario.
(Un giorno qualcuno disse che la vita è un’orazione,
io, però, direi che ci sono vite sacrileghe).
Sui grani del mio rosario io vado tessendo turgidi
sogni di speranze.
Sui grani del mio rosario io vedo visi nascosti
da inferriate visibili e invisibili
e cullo il dolore per la lotta perduta nei grani del mio rosario.
Nei grani del mio rosario canto e grido e taccio.
Col mio rosario avverto il brontolio della fame
nello stomaco, nel cuore e nelle teste vuote.
Quando faccio scorrere i grani del mio rosario,
io parlo di me stessa con un nome diverso.
E sogno coi grani del mio rosario luoghi, gente,
vite che poco alla volta riconosco reali.
Vado su e giù tra i grani del mio rosario,
che sono pietre che scandiscono il mio corpo-cammino.
E in questo viavai di grani-pietre,
il mio rosario si trasforma in inchiostro,
mi orienta il dito,
m’instilla la poesia.
E dopo aver macerato i grani sgranando il mio rosario,
io qui ritrovo me stessa
e scopro di chiamarmi ancora Maria.
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Carybé
Acarajé (1953)
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