Este ministro é um mentiroso


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Respiração assistida (2003) »»
 
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Este ministro é um mentiroso
Questo ministro è un bugiardo


Este ministro é um mentiroso
que agonia quando ele discursa
e se fosse só isso: balé sem jeito
às meias horas seguidas – e não pára!

bem-aventurados os duros de ouvido
a quem o céu abrirá as portas
desliguem p.f. o microfone
ou então tirem o país da ficha
Questo ministro è un bugiardo
è uno strazio quando parla
e fosse solo questo: balletto imbarazzante
per delle mezz’ore – e non smette!

fortunati i duri d’orecchio
a loro il cielo aprirà le porte
scollegate p.f. il microfono
oppure togliete il paese dalla scheda
________________

Charles Williams
The Smithfield Parliament (Stampa satirica - 1819)
...

Um vento leve, uma espuma


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Um vento leve, uma espuma
Un vento lieve, una spuma


Do beijo fica um sabor,
do sabor uma lembrança,
um vento leve, uma espuma.

  Do beijo fica um sereno
olhar, o amor de coisas
minúsculas e humildes,
um pássaro que vai e vem
da nossa boca às palavras.

Do beijo fica, suprema,
a descoberta da morte.
Um vento leve, uma espuma
salgada, à flor dos lábios.
Del bacio resta un sapore,
del sapore un ricordo,
un vento lieve, una spuma.

Del bacio resta un sereno
sguardo, l’amore per cose
minuscole e umili,
un uccello che va e viene
dalla nostra bocca alle parole.

Del bacio resta, suprema,
la scoperta della morte.
Un vento lieve, una spuma
salata, a fior di labbra.
________________

Maximilien Luce
Onde (1983)
...

Um tal Fernando Assis Pacheco


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Um tal Fernando Assis Pacheco
Un certo Fernando Assis Pacheco


Vivo com ele há anos suficientes
para poder dizer que o reconheceria
num dia de Novembro no meio da bruma
é como uma pessoa de família

adorava os pais mas tinha medo
quando zangados se punham aos gritos
e se chamavam nomes odiosos
não invento nada vi-o crescer comigo

chorava então desabaladamente
e eu com ele sentindo-nos perdidos
o cobertor puxado sobre a cabeça
seria trágico se não fosse ridículo

mesmo depois a noite que urinasse
no pijama era um protesto civil
encharcou assim grande parte das Beiras
não lhe perguntem se foi feliz
Vivo con lui da tempo sufficiente
per poter dire che lo riconoscerei
in mezzo alla nebbia d’un giorno di novembre
è come una persona di famiglia

adorava i genitori ma s’impauriva
quando arrabbiati alzavano la voce
e si gridavano improperi odiosi
non invento nulla l’ho visto crescere con me

piangeva allora sconsolatamente
e io con lui sentendoci perduti
la coperta tirata sulla testa
sarebbe tragico se non fosse ridicolo

anche il fatto che poi la notte orinasse
nel pigiama era una protesta civile
inzuppò così gran parte delle Beiras
non chiedetegli se sia stato felice
________________

Egon Schiele
Bimbo seduto (1918)
...

Sento-me aqui contigo…



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Sento-me aqui contigo…
Mi siedo qui con te…


Sento-me aqui contigo,
Ignorando o trânsito
Enquanto como transeuntes passam
Perguntas sem resposta
Ou demasiadas respostas
Para uma só pergunta.
Estamos aqui, devagar, a ser
A alegria toda
À sombra do sacrifício.
Ambos sabemos – não vais ficar
Mas aqui estou, aqui fico,
Feliz enquanto estou
Dentro dos teus dias.
 
Mi siedo qui con te,
Ignorando il traffico
Mentre, come viandanti, passano
Domande senza risposta
O troppe risposte
Per una sola domanda.
Stiamo qui, quieti, a esibire
Tutta la gioia
All’ombra del sacrificio.
Io e te lo sappiamo – non resterai
Ma io sto qui, rimango qui,
Felice per il tempo che vivo
Dentro ai tuoi giorni.
________________

Edvard Munch
Due su una panchina (1916)
...

Um Campo Batido pela Brisa


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Um Campo Batido pela Brisa
Un campo battuto dalla brezza


A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminando, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.
La tua nudità mi turba.

Ci sono giorni in cui la tua nudità
é como una barca giunta d’un tratto al molo.
Come un temporale. O come
certe parole ancora non inventate,
certe posizioni sulla chitarra
che il suonatore non conosceva.

La tua nudità mi turba. Apre il mio corpo
in un suo lato misterioso e fragile.
Distende il mio corpo. Poi lo riduce e gli toglie
contorno, peso. Distrugge il mio corpo.
La tua nudità è una violenza
soave, un campo battuto dalla brezza
nel mese di gennaio quando spuntano i fiori
dal ventre della terra fecondata.

Io m’abbrutisco, scrivo, faccio cose
con il vocabolario della tua nudità.
Ho «un pensiero denudato»;
maturazione; alta combustione.
Tenendoti per mano entro dentro di me
come in altri tempi nella piscina
i lebbrosi pieni di speranza.
E succede talvolta che la tua nudità sia un razzo
che lancio con mano tremante e maldestra
per far esplodere e riempire la mia carne
di trasparenza.

Per i sette giorni d’una settimana,
per trenta giorni, quanto dura un mese,
io cammino con coraggio e senza finzione,
illuminato, sicuro, armonioso.
E altre volte succede che sono: inquieto.
Fragile.
Violentato.

Affinché io mi costruisca di nuovo
la tua nudità scuote le mie fondamenta.
________________

Anastasia Kurakina
Nudo femminile (2016)
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Tentas, de longe…


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Tentas, de longe…
Tenti, da lontano…


Tentas, de longe, dizer que estás aqui.
Com peso triste caminha na rua o Outono.
O meu coração debruça-se à janela
a ver pessoas e carros, e as folhas caíndo.

Mastigo esta solidão
como quando era pequeno e jantava
diante dos pais zangados:
devagar, ausente.
Tenti, da lontano, di dire che sei qui.
Con triste fardello va per la via l’autunno.
Il mio cuore s’affaccia alla finestra
a veder gente e macchine, e le foglie che cadono.

Mastico questa solitudine
come quando ero piccolo e cenavo
davanti ai genitori arrabbiati:
poco alla volta, assente.
________________

Kenne Grégoire
Finestra (2017)
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Soneto aos filhos


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Soneto aos filhos
Sonetto ai figli


Toda a epopeia da família cabe aqui
um avô galego chegado a Portugal rapazinho
outro de ao pé de Aveiro que se meteu
num barco para S. Tomé a fazer cacau

de filhos seus nasci
com este pouco de inútil fantasia
nutrida em solidões nas que me vejo
nu como um bacorinho na pocilga

e como ele indefeso e porém quis
mesmo assim ser mais que o animal
no tutano dos ossos pressentido

não peço nada usai o meu nome
se vos praz lembrai-me
o que for costume

mas livrai-vos do luxo e da soberba
L’intera saga della famiglia si riassume qui
un nonno galiziano giunto in Portogallo da bambino
un altro delle parti di Aveiro che s’imbarcò
su un mercantile per S. Tomé per coltivare cacao

dai loro figli nacqui io
con questo pizzico di inutile fantasia
nutrita in solitudine ove mi rivedo
nudo come un maialino in un porcile

e come lui indifeso eppure volevo
comunque essere più di un animale
lo sentivo nel midollo delle ossa

nulla io chiedo usate il mio nome
se vi fa piacere ricordatemi
fate quello che si fa di solito

ma siate liberi dal lusso e dalla superbia
________________

Cerchia di Jacques-Louis David
Ritratto di uomo con la sua famiglia (1800)
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Seria o Amor Português


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Seria o Amor Português
Sarebbe questo l’amore portoghese


Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
— tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?
Tante volte t’ho atteso, ho perso il conto,
lunghe mattine t’ho atteso tremando
sulla soglia degli occhi. Che m’importa
se bussano alla porta, se fanno arrivare
giornali, o lettere, un po’ d’amicizia
— tanta polvere sui mobili la tua assenza.

Se non sei tu, che me ne può importare?
Qualcuno bussa, insiste sopra il legno,
che m’importa se bussano alla porta,
la solitudine è una spina
conficcata insidiosa nella gola.
Un passero morto nel giardino innevato.

Nulla m’importa; ma tu, sì, m’importi.
Importa, per esempio, sui capelli
di seta posare queste labbra afflitte.
Per esempio: distruggere il silenzio.
Aprire certe dighe, piovere su certi campi.
Importa conoscere l’importanza
che c’è nella semplicità estrema dell’amore.
Comunicare questo amore. Fertilizzarlo.
«Che m’importa se bussano alla porta...»
Uscire da dietro la propria porta, cercare
nell’amore la riconciliazione col mondo.

Lunghe mattine t’ho atteso, ho perso il conto.
Meno male che t’ho atteso lunghe mattine
e ne ho perso il conto, perché è come se
nel giorno in cui io aprirò la porta
del tuo amore tutto sia nuovo,
un uomo una donna uniti dalle belle
inesplicabili circostanze della vita.

Che m’importa, adesso che tu m’importi,
che bussino, se non sei tu, alla porta?
________________

Nicola Tenderini
Porta a Cannareggio 4228 (2025)
...

Sem que soubesses


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Sem que soubesses
A tua insaputa


Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.
Di te parlai con le parole più pure,
esplorai, a tua insaputa, il tuo cuore.
Ero gradino perché mi pestassi, tavolo perché mangiassi,
inciampavi in me ed io ero un’ombra
messa lì perché non t’accorgessi di me.

Giravo per le piazze pronunciando il tuo nome,
ti chiamavo barca, fiore, incendio, alba.
In tutto il resto usavo la parsimonia
che quell'ardore esclusivo m’imponeva.

Oggi questi versi sono perché tu comprenda.
Con te condivido un olio inesauribile
che ho tenuto nascosto acceso nella mia lampada
che riluce, a tua insaputa, per tutto ciò che hai fatto.
________________

El Greco
Ragazzo che soffia su un tizzone ardente (1570)
...

Não pude amar mais ninguém…


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Não pude amar mais ninguém…
Non ho più potuto amar nessuno…


não pude amar mais ninguém
e mesmo que te minta
é o contrário disso 

e mesmo que te minta
é a verdade seca
posta ali às avessas;
não pude amar mais claro
non ho più potuto amar nessuno
e di certo mentirei
dicendoti il contrario 

e anche se ti mentissi
è la pura verità
buttata lì a rovescio;
non ho più potuto amare così tanto
________________

Derrick Adams
Fixing My Face (2025)
...

Louvor do Bairro dos Olivais


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Louvor do Bairro dos Olivais
Elogio del Bairro dos Olivais


Não tive nunca nada a ver com as
guitarras estudantes; eu vivia
num lento bairro da periferia
onde a chuva apagava os passos das

pessoas de regresso a suas casas
fazia compras na mercearia
e algum livro mais forte que então lia
já era para mim como um par d'asas

amigos vinham ver-me que eu servia
de ponche ou Madeira malvasia
para soltar as línguas livremente

um que bramava um outro que dormia
eu abria a janela e só dizia
ao menos estas ruas têm gente
Non ho mai avuto niente a che vedere
con gli studenti di chitarra; io vivevo
in un pigro rione di periferia
dove la pioggia cancellava i passi delle

persone di ritorno alle proprie case
facevo acquisti all’emporio e qualsiasi
libro più originale di quelli che leggevo allora
per me era già come un paio d’ali

gli amici venivano a trovarmi e io servivo
loro del punch o Madeira Malvasia
perché sciogliessero la lingua liberamente

c’era chi urlava e c’era chi dormiva
io aprivo la finestra e dicevo solamente
almeno queste strade sono piene di gente
________________

Brasão de armas
da Câmara Municipal dos Olivais (1860)
...

O poema como um sismógrafo…



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O poema como um sismógrafo…
La poesia come un sismografo…


O poema como um sismógrafo de ilusão,
Em cujas palavras vazias de som
Se adivinha o coração suspenso.
O poema como um arar sem revolver,
O lugar de ligar luas longínquas,
Lugar de imaginar um coração:
Poema – câmara de caminhos
Desaguando em múltiplas distâncias.
La poesia come un sismografo d’illusioni,
Nelle cui parole prive di suono
S’indovina il cuore sospeso.
La poesia come un aratro che non fende,
Il luogo per legare lune lontane,
Luogo ove immaginare un cuore:
Poesia – visore di cammini
Che sboccano in molteplici distanze.
________________

František Kupka
Intorno a un punto (1920-1930)
...

Bom rei Afonso


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Bom rei Afonso
Il buon re Alfonso


Lavava-se só de raro em raro
e só como o gato mas era um tal
furor entre as damas e suas aias
que se conta de uma dona Ilduara
Veilaz a filha do crego manco
tê-lo chamado um fim de tarde
no meio de forte trovoada
a Rendufe onde então demorava
para a comer (e recomer é claro)
nas três posições principais
o que ele fez com brio e recato
e isso atira para uma conta calada
mesmo em termos de História Pátria
e sem da Igreja o beneplácito
gritando ela ao fim de cada round
senhor senhor mais do que ao mel
vós a erva-babosa me cheirais

ah e tudo isto para fortalecer a alma!
Si lavava solo molto di rado
e solo come un gatto ma tale era
il furore tra le dame e le sue aie
che si racconta di una donna Ilduara
Veilaz la figlia del prete zoppo
che lo chiamò sul far della sera
nel mezzo di un forte temporale
a Rendufe dove abitava allora
perché la prendesse (e riprendesse è chiaro)
nelle tre posizioni principali
cosa che egli fece con brio e riguardo
e questo rimanda a un dettaglio segreto
anche in termini di Storia Patria
e senza il beneplacito della Chiesa
ove ella gridando alla fine di ogni round
signore signore più che di miele
voi per me olezzate d’aloe vera

ah e tutto ciò per dar vigore all’anima!
________________

Frei Manuel dos Reis
Dom Afonso Henriques in preghiera (1665)
...

As balas


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As balas
Le pallottole


São de ferro. Ou de aço?
Diz-se que fazem à entrada
um pequeno orifício,
seguido de uma grande
devastação de carnes
sangrentas. Por isso matam.
Li tudo sobre a morte.
Escrevi sobre a minha
e depois embebedei-me.
A bala vem pelo ar
(ruído onomatopaico) e
crava-se, cava, ceva-se
nessas carnes. Era a minha.
Tive uma bala marcada:
à última hora telefonei
a desistir. ‘da-se!’
Pior para o Soares que entra
nestes versos já morto.
São de ferro. A tua era,
ó Soares, ou de aço,
e «agora choro contigo»
ausente uma vila
branca do Alentejo: tu.

  Diz-se que fazem assim
um pequeníssimo estúpido
orifício (não quis ver)
como um botão mas
destroem tudo, devastam
tecidos, vísceras nobres,
e então trazem até nós
a morte sanguinolenta.
Se ainda as fabricam
como no meu tempo, creio
que matam num, ah pois,
infinitésimo de segundo.
É brutal. Eu ouvi-as:
perde-se a tesão por um século. 
Sono di ferro. O d’acciaio?
Si dice che facciano all’entrata
un piccolo orifizio,
seguito da una gran
devastazione di carni
insanguinate. Perciò uccidono.
Ho letto tutto sulla morte.
Ho scritto sulla mia
e poi mi sono ubriacato.
La pallottola attraversa l’aria
(suono onomatopeico) e
si ficca, scava, s’incastra
nella carne. Era la mia.
Avevo una pallottola segnata:
all’ultimo istante ho telefonato
per arrendermi. ‘cedo!’
Andò peggio a Soares che entra
in questi versi già morto.
Sono di ferro. La tua lo era,
o Soares, o era d’acciaio,
e «ora piango per te»
assente da un bianco
borgo dell’Alentejo: tu.
 
Si dice che facciano così
un piccolissimo stupido
orifizio (non ho guardato)
come un bottone ma
distruggono tutto, devastano
i tessuti, le frattaglie nobili,
e quindi ci procurano
la morte sanguinolenta.
Se ancora le fabbricano
come ai miei tempi, credo
che uccidano, ah sì,
in un infinitesimo di secondo.
È brutale. Io le ho sentite:
non ti si rizza più per un secolo.
________________

Johnny Chung Lee
High-speed Bottle Smash (2006)
...

A Musa Irregular


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A Musa Irregular
La musa irregolare


Ó Anna Lüsa Uski minha dama de antanho
o que é feito da tua bizarria
continuas bela como na fotografia?
eu quando penso em ti ainda tenho

dentro do pobre coração torcaz
aquele bicho a roer devagarinho
tu eras só pen pal mas tanto faz
mais sede não se tem de um pucarinho

não te perdoo que ficasses por lá
em Likkolampi casando com um qualquer
como pudeste ó Anna ser tão má?
yours sincerely já te chamava mulher

mais tarde eu fiz catorze anos
o amor era no meu peito como um lenho
quereis saber críticos vós fulanos?

inda me arrepia esta dama de antanho
O Anna Lüsa Uski, mia dama d’un tempo
che mai ne è stato della tua bizzarria
sei sempre bella come nella fotografia?
io quando penso a te ancora sento

dentro al mio povero cuore di piccione
quel tarlo che mi rode pian piano
tu eri soltanto una pen pal ma non fa niente
per dissetarsi basta una coppetta solamente

non ti perdono d’essermi rimasta lontana
a Likolampi sposando chissà chi
come hai potuto o Anna esser così inumana?
yours sincerely già donna tu eri per me

più avanti quattordici anni ho compiuto
l’amore mi stava sul cuore come cemento
e volete sapere come andò, voi indiscreti?

ancora io fremo per quella dama d’un tempo
________________

Roy Lichtenstein
Blonde Waiting (1964)
...

A Bela do Bairro


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A Bela do Bairro
La bella del quartiere


Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? Quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor
Lei era molto bella e, Dio la benedica,
molto puttana ed era sempre in attesa
di clienti alla finestra del pianterreno
ma io turbato e, peggio ancora, ignaro di questi amori
che cos'ho? Quindici anni
ecco cos’ho, ho gli occhi per vederla
mentre s’affacciava mostrando i seni
io che l’amai come si ama solamente
una volta un bianco decolleté e persino i gioielli
che lei portava erano lucenti simili alle stelle
io vado a passeggiare a una cert’ora e l’amo
coi suoi capelli sciolti e tutto dà l’impressione
che il cielo stesso in fondo non sia che princisbecco

ancora adesso fremono le mie narici
mi s’ottenebra il cuore spezzato
amandola tanto l’ho amata e senza vergogna
oh peccare così col giaccone sportivo e la sigaretta
penzolante il fascino che io emanavo tra quella
marmaglia non si può scordare neppure nel profondo
come allora tiro su il bavero della giacca
lentamente io le vado incontro
cade una pioggerella
e Dio la benedica per com’è bella e puttana
e quanta devozione io
dissipavo davanti all’amore
________________

Emiliano Di Cavalcanti
Donna al balcone (1961)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (39) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (34) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (41) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (31) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (32) Nuno Rocha Morais (533) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (29) Poesie inedite (342) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (28) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (32) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)