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Antielegia à enchente


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A Terra dos Viventes (2023) »»
 
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Antielegia à enchente
Antielegia all’alluvione


Amo a água maternal,
água de me beber o sonho,
ou de ir-me purificando
na chama da luz.
E banha o tempo.

Amo a vegetação
da água, quando
a natureza se acende
no fulgor dos animais.
Ou a chuva que, em ervas,
canta e o sol na água nua,
como mulher que, de amor,
se apura.

Mas chuva, se excessiva,
mata, inunda casas, estronda
cargas de velhas nuvens,
afoga e é como as enchentes
roem a sombra de meu povo,
em tambor bate a fome.
E o desastre não socorre
a imberbe vida.

E vejo ruas, praças invadidas,
com água que nos engole,
água de perversa índole,
ferina, desatenta.
E sei que nosso pampa
na peleja, resiste.

Erguemos a cabeça
e a água não derruba
o povo. Não, a água
não. O povo é mais
que o rio, a enchente.

O povo é força
que brota na semente.
E árvore de gerações
faz a floresta,
que, de crescer,
não cessa.
Amo l’acqua materna,
acqua che il mio sogno beve,
o che mi purifica
alla fiamma della luce.
E bagna il tempo.

Amo la vegetazione
dell’acqua, quando
la natura s’accende
nello splendore degli animali.
O la pioggia che, tra l’erba,
canta e il sole sull’acqua nuda,
come donna che, con l’amore,
s’eleva.

Ma la pioggia, se eccessiva,
uccide, inonda case, fa rintronare
masse di vecchie nuvole,
affoga ed è come se la piena
divorasse l’ombra della mia gente,
la fame rimbomba come un tamburo.
E la calamità non va in aiuto
alla vita nascente.

E vedo strade, piazze invase
dall’acqua che c’inghiotte,
acqua d’indole perversa,
ferina, indifferente.
E so che la nostra pampa
in questa lotta, resiste.

Alziamo la testa
e l’acqua non abbatte
la gente. No, l’acqua
no. La gente è più forte
del fiume, della piena.

La gente è forza
che germina nella semente.
Ed è albero che da generazioni
fa la foresta,
che, di crescere,
mai non cessa.
________________

Claude Monet
Inondazione a Giverny (1886)
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Afluentes


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Afluentes
Affluenti


Eram os executados.
Os dias intumesciam
e como frutos caíam.

Eram os executados
Sem o título ou família,
sem o tempo, sem o espaço
que de viver lhes cabia.

Percebi os vários rostos,
percebi que eles baixavam
e suas penas subiam.
A voz ninguém divisava,
A senha não existia.

Eram os executados.
Quando? Como? Quem sabia?
O mundo já os viu deitados,
agora o mundo os erguia.

Executados por fardo?
No leito da amada, um dia?
Por algum golpe de estado?
Numa conversa ou litígio?
Numa batalha ou na esquina?

Eram os executados
que desde sempre partiram
e desde sempre chegavam.
Ecco i giustiziati.
I giorni s’inturgidivano
e come frutti cadevano.

Ecco i giustiziati
Senza cognome, né titolo,
senza lo spazio né il tempo
che gli spettava di vivere.

Intuivo i vari volti,
intuivo che loro affondavano
e le loro pene crescevano.
La voce non la si sentiva,
Parola d’ordine non c’era.

Ecco i giustiziati.
Quando? Come? Chi sapeva?
Il mondo che già li vide prostrati,
quel mondo ora li innalzava.

Giustiziati per una colpa?
Nel letto di un’amante, una volta?
Per qualche colpo di stato?
Per una chiacchiera o un litigio?
Sul campo di battaglia o dietro l’angolo?

Ecco i giustiziati
che da sempre se ne andavano
e da sempre ritornavano.
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Michelangelo Buonarroti
Diluvio Universale (1508-1512)
dettaglio dell'affresco della Cappella Sistina (Vaticano)
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De longo curso


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A espuma do fogo (2002) »»
 
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De longo curso
Di lungo corso


  Para Elza

Minha alma descansa
na tua alma,
onde a luz jamais
desativada:
é um navio de longo
curso pela água.

Redonda a luz e nós
atracamos na foz
com o fundo calmo.
Em mim te almas
E te amando, eu almo.
  Per Elza

Riposa l’anima mia
nella tua anima,
ove giammai la luce
viene spenta:
è un vascello di lungo
corso sull’oceano.

Sferica la luce e noi
approdiamo alla foce
con il fondale calmo.
In me tu ti ravvivi
e amandoti, io ravvivo.
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Paul Signac
Antibes, le nuage rose (1916)
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Tenho saudade…


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Tenho saudade…
Ho nostalgia…


Tenho saudade
do que amei
e às vezes,
miraculosamente,
do que não amei,
porque tudo dói
nos ossos.
Ho nostalgia
di ciò che ho amato
e certe volte,
per miracolo,
di ciò che non ho amato,
poiché tutto fa male
fin nelle ossa.
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Yoko Ono
Pozzanghera di cielo (2011-2015)
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Os cavalos


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Os cavalos
I cavalli


Os cavalos tinham o ardor de nuvens se empinando.
Vinham, inteiros, no nitrir das tardes, junto às oliveiras.
Meninos, em férias, focinhavam dálias. Eram exaltados,
amoráveis e as ervas das crinas mugiam de verdor.
As pálpebras amor baixavam. E às vezes, os cavalos
se riam, a dentuça à mostra. Coçavam-se nas ancas com
a ferrugem de sediciosas vespas.
Eternos, quando saltam. Ou descarregam rolos de ares
bêbados. Todo galope é um pássaro.
I cavalli avevano l’irruenza delle nuvole imbizzarrite.
Venivano insieme, nitrendo alla sera, in mezzo agli olivi.
Fanciulli festosi, si strofinavano tra le dalie. Erano eccitati,
calorosi e le erbose criniere s’agitavano nel verde.
La palpebre trasudavano amore. E a volte, i cavalli
ridevano, mostrando i denti. Si sfregavano i fianchi per
il prurito di sediziose vespe.
Sono eterni quando saltano. O sollevano turbini d’aria
inebriati. Ogni galoppo è un uccello.
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Franz Marc
Cavalli Blu (1913)
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O homem sempre é mais forte...


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O homem sempre é mais forte…
L’uomo è sempre più forte…


O homem sempre é mais forte
se a outro homem se aliar;
o arado faz caminho
no seu tempo de cavar.

No mesmo mar que nos leva,
o vento nos quer buscar;
o que é da terra é do homem,
onde o arado vai brotar.

Por mais que a morte desfaça,
há um homem sempre a lutar;
o vento faz seu caminho
por dentro, no seu pomar.
L’uomo è sempre più forte
se con un altro uomo s’è alleato;
l’aratro traccia il proprio solco
quando il tempo di scavare è arrivato.

Nello stesso mare che ci trasporta,
il vento ci vuole ritrovare;
ciò che è della terra è dell'uomo,
dove l’aratro farà attecchire e germinare.

Per quanto la morte distrugga,
sempre c’è un uomo a lottare;
il vento aprirà la sua strada
inoltrandosi nel suo verziere.
________________

Charles Emmanuel Roussel
Il ritorno dei pescatori (1930)
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Lisura


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Lisura
Discrezione


Entras na morte,
como se entra em casa,
desvestindo a carne,
pondo teus chinelos
e pijama velho.

Entras na morte,
como alguém que parte
para uma viagem:
não se sabe o norte
mas começa agora.

Entras na morte,
sem escuros,
sem punhais ocultos
sob o teu orgulho.

Entras na morte,
limpo
de cuidados breves;
como alguém que dorme
na varanda enorme,
entras na morte.
Entri nella morte,
come si entra in casa,
spogliandoti della carne,
infilando le tue pantofole
ed il pigiama vecchio.

Entri nella morte,
come chi parte
per un viaggio:
non se ne sa la meta
ma sta per cominciare.

Entri nella morte,
senza misteri,
senza pugnali nascosti
sotto il tuo orgoglio.

Entri nella morte,
liberato
da effimeri fastidi;
come chi dorme
su un enorme terrazzo,
entri nella morte.
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Renato Guttuso
Uomo che dorme (1938)
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Sintaxe


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Amar, a mais alta constelação (1991) »»
 
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Sintaxe
Sintassi


Eu me acrescento aos rios e aos rios me descem.
E me acrescento aos peixes. Nele deito
e com os musgos preparo alguns projetos.
Nos liquens boto andaimes que florescem.

E me caso com as pedras, conchas e ecos,
onde as lesmas pernaltas se intumescem.
E me acrescento a todos os espécimes
que se aleitam na orla, entre os insetos.

Ovos de larvas, vespas renitentes
e os mais jovens orvalhos em resíduos
se acendem. Borboletas se acrescentam

à sintaxe de um sol intermitente.
E eu vento, vento algas e líbidos.
E em rios me acrescento, onde não venta.
Io mi unisco ai fiumi e i fiumi in me sfociano.
E mi unisco ai pesci. In loro mi stendo
e con il muschio pianifico progetti.
Sui licheni installo ponteggi che fioriscono.

E mi sposo con le pietre, le conchiglie e gli echi,
dove le lumache come trampolieri crescono.
E mi unisco a tutti gli esemplari
che lungo le rive si nutrono, tra gli insetti.

Uova di larve, vespe assillanti
e le più recenti rugiade tra i detriti
s’infiammano. Farfalle si uniscono

alla sintassi di un sole intermittente.
E io sono vento, vento alghe e bramosia.
E nei fiumi m’espando, dove non c’è vento.
________________

Vassily Kandinsky
Fiume in autunno (1944)
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Formoso é o fogo


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Amar, a mais alta constelação (1991) »»
 
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Formoso é o fogo
È bello il fuoco


Formoso é o fogo e o rosto
da amada junto a ele.
No lume de seu corpo
tudo em redor clareia.

Depois o que era fogo,
é espuma que se alteia.
E o mundo se faz novo
nas curvas da centelha.

Já não existe esboço,
mas desenhos, e teimam
— unos e justapostos.

Já não existe corpo:
são almas que se queimam
no amor de um mesmo sopro.
È bello il fuoco e il volto
dell’amata a lui accanto.
Alla luce del suo corpo
tutto d’intorno si rischiara.

Poi quel ch’era fuoco,
si fa spuma che s’eleva.
E il mondo si rinnova
nel guizzar di scintille.

Non v’è più schizzo alcuno,
ma disegni, e persistono
— uniti e sovrapposti.

Non esiste più corpo,
ma anime che avvampano
d’amore in uno stesso anelito.
________________

Sam Uhrdin
Donna accanto al fuoco (1940)
...

Abandonei-me ao vento


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Amar, a mais alta constelação (1991) »»
 
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Abandonei-me ao vento
Mi sono arreso al vento


Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro, livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o seu despojo vão. Em toda a parte
o vento há de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.
Mi sono arreso al vento. Chi sono, può
spiegartelo il vento che m’invade.
E ho già perso il nome al suono della morte,
ne ho avuto un altro, libero, che mi riconoscerà

quando mi rialzerò e il corpo si libererà
della sua vana spoglia. Da ogni parte
il vento spirerà, là dove per la morte
non ci sarà più posto. La morte dissolve la morte.

E i suoi frammenti ricadono nella brezza
e ciò che lei è stata sulla pietra si consuma.
Mi sono arreso al vento come pulviscolo.

Senza l’ossessione dei profitti, da oggetto,
mi sono arreso. E così son rimasto essenziale,
eterno. Ma l’amore ha serbato il mio nome.
________________

Adolf Boehm
Albero nella tempesta (1897)
...

Gazel para a sílaba sonhada


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Livro de Gazéis (1984) »»
 
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Gazel para a sílaba sonhada
Gazhal per la sillaba sognata


Ao te dizer amor, dizia árvore
e desenhava alguma palavra.
O amor que crescia vegetal
na tua alma era a sílaba sonhada.

Ao te dizer memória, quis o amor
que fosse planura desenhada.
E morte não a disse porque, amada
a árvore cumpriu-se no que sou.

Teu nome sobre a folha:
era lenta gota de água.
Mas a sombra quem a terminava?
Per dirti amore, dicevo albero
e tracciavo qualche parola.
L’amore che cresceva vegetale
nella tua anima era la sillaba sognata.

Per dirti memoria, l’amore voleva
che fosse una pianura disegnata.
E morte non l’ho detta perché, amata,
l’albero s’è avverato in ciò che sono.

Il tuo nome sulla pagina:
era una lenta goccia d’acqua.
Ma l’ombra chi l’avrebbe finita?
________________

Gustav Klimt
Albero di melo - II (1912)
...

Gazel da Paciente Espera


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Livro de Gazéis (1984) »»
 
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Gazel da Paciente Espera
Gazhal della paziente attesa


  Para Regina Célia Colónia

Quanto te esperei
nas portas do dia
e te esperei
quando a terra nascia:
o espírito metáfora
boiava.

E te esperava
mas nenhuma nebulosa
te envolvia e nenhum
peixe era tu e nenhuma
circular água apascentava
esta maternidade.

Te esperava
e o dia voltava
e vinha
e nas portas
o relógio de sinais
rangia.

E te esperava,
ave lua
ovelha de tuas mãos
a noite.
Te esperava
porque as palavras
as palavras
batem à porta
e se abrem.

E te esperarei
a vida repleta
e a morte.

Depois na eternidade
recomeço.
  Per Regina Célia Colónia

Quanto t’aspettai
alle soglie del giorno
e t’aspettai
mentre la terra nasceva:
lo spirito metafora
fluttuava.

E t’aspettavo
ma nessuna nebulosa
t’avvolgeva e nessun
pesce eri tu e nessuna
acqua ti cingeva alimentando
questa maternità.

T’aspettavo
e il giorno andava
e veniva
e sulle porte
l’orologio di segnali
strideva.

E t’aspettavo,
uccello luna
pecora per le tue mani
di notte.
T’aspettavo
perché le parole
le parole
bussano alla porta
e si aprono.

E t’aspetterò
per tutta la vita
e la morte.

Poi nell'eternità
io ricomincio.
________________

Philippe Charles Jacquet
Il padre (2015)
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Sem revolver o fogo


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Obra poética (1980) »»
 
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Sem revolver o fogo
Senza soffiare sul fuoco


1
Escrever a dor
sem revolver o fogo,
a envelhecida cinza.

O que pode o amor
com os dons aprisionados?

Escrever
a ferocidade das coisas.


2
Era preciso
limo e pedra
para te ver.

Escrever a dor,
Abandonar
minha guitarra
o sol.

Um homem não respira
sem o mundo à soleira.
1
Scrivere del dolore
senza soffiare sul fuoco,
la cenere smorzata.

Che mai può fare l’amore
dei suoi doni incartati?

Scrivere
della ferocia delle cose.


2
Ci sono voluti
fango e pietra
per poterti vedere.

Scrivere del dolore,
Abbandonare
la mia chitarra
il sole.

Un uomo non respira
senza il mondo alla soglia.
________________

Carla Accardi
Rossonero (1991)
...

Ritual


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Os Viventes (1979) »»
 
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Ritual
Rituale


    A Fabrício

Sabias que as minhas roupas
conservavam a epiderme
de meu sonho
e estavam ali,
não viajavam comigo,
estavam ali,
guardiãs da primavera
na gaveta
de um retorno pródigo
ao pai inconsolável.
Sabias, filho,
e conversavas longamente
com as roupas,
conversavas entardeceres muitos
com minha longa ausência.

Havia rumor nelas:
peixes num aquário
de flanela e linho.
Um subterrâneo ritmo
as removia.
O mundo vegetal e animal
eram rabiscos
no embaralhar
ocioso das sombras.
O que procuravas
entre as roupas:
algum amor banido,
a lágrima, o instinto
de me sobreviver?
    A Fabrício

Tu sapevi che i miei abiti
mantenevano l'epidermide
del mio sogno
e restavano lì,
non partivano con me,
restavano lì,
guardiani della primavera
dentro il cassetto
di un ritorno prodigo
al padre inconsolabile.
Tu lo sapevi, figlio mio,
e parlavi lungamente
con gli abiti,
parlavi spesso verso sera
con la mia lunga assenza.

In essi c’era un fruscio:
pesci dentro un acquario
di flanella e di lino.
Un ritmo ipogeo
li scuoteva.
Il mondo vegetale e animale
erano ghirigori
nell’ozioso viavai
delle ombre.
Che cosa cercavi
in mezzo agli abiti:
un amore respinto,
la lacrima, l'istinto
di sopravvivermi?
________________

Giacomo Balla
Abiti futuristi (1914)
...

Os fuzilados de Goya


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Os fuzilados de Goya
I fucilati di Goya


Morremos
mas não abrimos mão
do que sonhando,
é mais do que estar vivo,
é ter vivido
o último percalço
do equilíbrio.

Os homens não toleram
a consciência, nem
se toleram como feras.
E se à luz não se apegam,
são mais tristes, duros,
solitários. Gorjeando
contra o frio, os ledos
ossos.

Morremos. Onde é alma,
sobrevive. E toda a eternidade
é ver o instante
que as armas nos apontam
com seu fogo.

E mais que a pontaria,
o grito enorme,
como flores caladas
junto aos olhos.
São pálpebras que falam
o seu ódio.

O pelotão explode
e nós olhamos na cara
o vosso susto, a morte
que nos dais, o sonho
florescendo igual a um campo,
onde fuzis plantados
se levantam.

E esta porta
aberta
sobre a morte.
Moriamo
però non rinunciamo
a quel ch’è il nostro sogno,
che è più che essere vivi,
è aver sorpassato
l’ultimo intralcio
all’equilibrio.

Gli uomini non tollerano
la coscienza, ma neppure
tollerano sé stessi come bestie.
E se non s’aggrappano alla luce,
sono più tristi, più duri,
più solinghi. Gorgheggiano
contro il freddo, le liete
ossa.

Noi moriamo. Ma dove c’è un’anima,
essa sopravvive. E tutta l’eternità
sta nel veder l’istante
in cui le armi ci puntano contro
con il loro fuoco.

E più che le armi puntate,
il grido enorme,
come taciti fiori
vicino agli occhi.
Sono palpebre che esprimono
il proprio odio.

Il plotone esplode
e noi vi leggiamo in faccia
lo spavento, la morte
che ci date, il sogno
che fiorisce come un campo,
da cui fucili piantati
si sollevano.

E questa porta
aperta
sopra la morte.
________________

Goya
El tres de Mayo (1813)
...

O cego da guitarra (Goya)


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O cego da guitarra (Goya)
Il cieco con la chitarra (Goya)


Cego com os olhos
e morto. Cegos
os ouvidos. Cegos os olhos
de remota lembrança.
Nariz adunco e morto.
Chapéu entornado
E morto. Sob a capa,
Mortalha. Morto
morto morto.

Mas a guitarra
salta, a guitarra
letrada e casta
jorra a alegria
de um povo
em torno.

A guitarra é o cego.
A guitarra é o cego.
A guitarra tem os olhos
acesos.
Cieco con gli occhi
e morto. Ciechi
gli orecchi. Ciechi gli occhi
di remota memoria.
Naso aquilino e morto.
Cappello schiacciato
E morto. Sotto la cappa,
Sudario. Morto
morto morto.

Ma la chitarra
salta, la chitarra
colta e casta
diffonde la gioia
della gente
intorno.

La chitarra è il cieco.
La chitarra è il cieco.
La chitarra ha gli occhi
ardenti.
________________

Goya
Il cieco con la chitarra (1778)
...

Minha voz se chamava Carlos


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Minha voz se chamava Carlos
La mia voce si chiamava Carlos


Minha voz se chamava Carlos
mas não tinha serventia alguma.
Era Carlos de vez em quando.

E um Luiz obscuro adormecia
na poltrona de tevê,
enquanto minha voz
andava de calça listrada
e se comportava na sala
com suntuosa altivez.

Minha voz se chamava Carlos
no café
mas quando súbito
ia pela escada,
surpreendia-se
não era mais Carlos
- eram seus comparsas
e eles ficavam eternos
de repente,
com a equivalência ao sonho
na sua maior altura.

Depois Carlos se hospedava
em Carlos e o caos se agitava intruso
na criação.
La mia voce si chiamava Carlos
ma proprio a nulla serviva.
Era Carlos di tanto in tanto.

E un oscuro Luiz si appisolava
sulla poltrona davanti alla tivù,
mentre la mia voce
indossava pantaloni gessati
e si comportava in sala
con pomposo sussiego.

La mia voce si chiamava Carlos
al caffè
ma quando d’un tratto
saliva la scala
si stupiva
non era più Carlos
- erano i suoi figuranti
e loro rimanevano eterni
all'improvviso,
con l'equivalenza al sogno
al suo apice assoluto.

E dopo Carlos si rifugiava
in Carlos e il caos si agitava da intruso
nella creazione.
________________

Ibere Camargo
Ritratto di Carlos Nejar (1975)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (564) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (371) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (44) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)