Rotina de todos nós


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Rotina de todos nós
La routine di noi tutti


Ser fragmento do transitório,
Analisar-se no mistério do demudado,
Saber perder o que jamais foi possuído
Mas desejado,
Esperar o que nunca foi criado,
Cravar-se em raízes já extintas,
Conduzir-se por idéias não nascidas,
Ver grandezas na própria fraqueza,
Proclamar o amor sobre o desamor,
Ser pureza ao lado da degradação
É existir no que não tem sentido,
É esquecer o que não foi pensado,
É caminhar sem deixar traços,
É ser pássaro sem asas
É tentar sair do chão para os espaços.
Essere un frammento dell’effimero,
Studiarsi nel mistero dei mutamenti,
Saper perdere ciò che mai si è posseduto
Ma solo vagheggiato,
Aspettarsi ciò che mai fu creato,
Aggrapparsi a radici ormai estinte,
Farsi guidare da idee non maturate,
Veder grandezze nella propria fragilità,
Proclamare l’amore al di sopra del disamore,
Essere purezza accanto alla degradazione
È esistere in ciò che non ha senso,
È scordarsi di ciò che non fu pensato,
È camminare senza lasciare impronte,
È essere un uccello senza ali
È tentare di lasciare la terra per lo spazio.
________________

Ismael Nery
Composição surrealista (1929)
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Repetição


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Repetição
Ripetizione


No abrir de cada dia
Está presente a sombra de todas as noites.
Mãos em desespero esvoaçam
Tentando atingir a fímbria da vida.
Lâmpadas reabastecidas
Na esperança da vinda do Grande Esperado.
A carne é devolvida ao pó
Enquanto a memória da nossa infância
Se apaga aos poucos na memória da infância dos
 nossos filhos
Diluída na dos nossos netos.
Memórias sem dono
Substituídas pelos tentáculos do ventre materno
Para a lenta e angustiante viagem para o exílio.
Al sorgere d’ogni giorno
È presente l’ombra di tutte le notti.
Mani disperate si dimenano
Tentando d’aggrapparsi ai bordi della vita.
Lampade ricaricate
Nella speranza della venuta del Grande Atteso.
La carne ritorna alla polvere
Mentre la memoria della nostra infanzia
Si annulla pian piano nella memoria dell’infanzia dei
 nostri figli
Diluita in quella dei nostri nipoti.
Memorie senza padrone
Sostituite dai tentacoli del ventre materno
Per il lento e angosciante viaggio verso l'esilio.
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Vincent van Gogh
L'Arlesiana (Ritratto di M.me Ginoux) (1890)
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Procissão das bestas


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Procissão das bestas
Processione di bestie


  também para Dante Milano

Mundos de conflitos que o silêncio engole,
Sombras lentas e pesadas
Reduzem os olhos a bagaços.
Ruminações da memória
No branco da vida extenuada
Na paisagem sem ninguém.
Nos gritos soltos
Sem a devolução do eco.

No oco das mãos
Ausente o suor de outra mão,
Formas amadas levadas pelo vento
Às nuvens que condensam o cansaço da
 terra,
Canções da carne traduzidas na rosa,
Promessas de fé em cada espera,
Na palavra esquecida do próprio som,

Circunferência de fogo em labaredas
Consumindo a ternura no cansaço.
Imaturas searas de amor,
Morte nos ossos das jornadas sem motivo.

Fadiga anterior à união dos sexos
Decompostos na traição de análises mútuas,
Espreitando sadicamente dois corpos nus fundidos
 na derrota.

Lodo cobrindo pés, atolando ventres,
Transformando bocas em esgotos
Reduzindo o amor a ato
Que o silêncio engole
Como fétida flor da noite.
  ancora per Dante Milano

Mondi in conflitto che il silenzio inghiotte,
Ombre lente e pesanti
Dagli occhi illividiti.
Ruminazioni della memoria
Nel bianco della vita estenuata
Nel paesaggio spopolato.
Nelle grida lanciate
Senza ritorno d’eco.

Nel cavo delle mani
Assente il sudore dell’altra mano,
Amate forme portate dal vento
Verso le nuvole che condensano la stanchezza della
 terra,
Canzoni di carne tradotte in una rosa,
Promesse di fede in ogni attesa,
Nella parola dimentica del proprio suono,

Cerchio di fuoco tra fiamme
Che esauriscono la tenerezza nello sfinimento.
Messi immature d’amore,
Morte nelle ossa per viaggi immotivati.

Tensione che precorre l’unione dei sessi
Madidi nella perfidia di reciproche esplorazioni,
Scrutando sadicamente due corpi nudi fusi nella
 disfatta.

Melma che avvolge i piedi, rende viscidi i ventri,
Trasformando le bocche in fognature
Riducendo l’amore ad atto
Che il silenzio inghiotte
Come fetido fiore della notte.
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Franz von Stuck
La caccia selvaggia (1889)
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Pré-morte


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Pré-morte
Pre-morte


  Para o poeta Dante Milano

O escuro ser profundo, coisa sobrenatural,
Vontade oculta sem objeto,
Pousado na brasa sem lume
Dos ímpetos à procura de um destino.
Companheiro de farsas, mensageiro de aflições,
Mão sustentando a máscara na face intata,
Fuga na palavra dissolvida
No vácuo da imagem esquecida,
Sobra que embala em acalanto
De agonia em agonia,
O volume da tristeza e da alegria,
Nódoa que o desespero não apaga.
Tudo tão certo e tudo tão mal articulado,
Tudo tão fundido no abandono do querer,
Tão floresta sem saída, tão rachadura sem fundo,
Tão treva preexistida
Na corrente de amarrados conjuntos
No conceito de vazios absolutos,
No escuro que não deu à luz.
Oh canção de secura cantada em silêncio!
Oh escuro ser profundo!
  Per il poeta Dante Milano

L’oscuro essere profondo, cosa ultraterrena,
Volontà occulta senza oggetto,
Poggiato sulla brace senza il fuoco
Degli impulsi in cerca d’un destino.
Compagno di farse, messaggero d'afflizioni,
Mano che sostiene la maschera sul volto intatto,
Fuga nella parola dissolta
Nel vuoto dell'immagine dimenticata,
Parvenza che illude in una nenia
Di agonia in agonia,
L’entità di tristezza e d’allegria,
Macchia che la disperazione non cancella.
Tutto così certo e tutto così mal articolato,
Tutto così fuso nell’abbandono voluttuoso,
Così foresta senza uscita, così ferita senza fondo,
Così tenebra preesistente
Nella processione di creature legate
Dal concetto di vuoti assoluti,
Nel buio che non s’è mutato in luce.
Oh canzone d’aridità cantata in silenzio!
Oh oscuro essere profondo!
________________

Edvard Munch
Odore di morte (1895)
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Patrimônio


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Patrimônio
Patrimonio


Pesam nos meus ossos
Os meus pensamentos,
Choram nos meus olhos
As visões neles crescidas,
Soluçam no torpor das minhas carnes
Ancestrais desalentos.

Sangram os meus pés
Na inútil andança
Da imaginação liberta,
Pulveriza o meu espírito
A solidão do suicida ignorado
E cresce assustadoramente dentro de mim
A calmaria que precede o fim.
Pesano sulle mie ossa
I miei pensieri,
Piangono nei miei occhi
Le visioni cresciute lì,
Singhiozzano nel torpore delle mie carni
Sconforti ancestrali.

Sanguinano i miei piedi
Nell'inutile vagare
Dell’immaginazione liberata,
Polverizza il mio spirito
La solitudine del suicida ignorato
E cresce spaventosamente dentro di me
La bonaccia che precede la fine.
________________

Julia Vengiel
La calma prima della tempesta (2024)
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Os cegos


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Os cegos
I ciechi


Não vemos o mostrador do Tempo
Assim como não vemos
Uma forma de vida fundir-se noutra.
Não vemos a vida caminhar sobre nossa origem
Construindo muralhas contra nós mesmos.
Não ouvimos o cântico de guerra
Festejando nossos fracassos
Registrados nas páginas do pensamento.

A cada hora vemos e sentimos menos
O mostrador do Tempo.
Somos mutações desordenadas
Multiplicando-se nos porões fétidos
De galeras negras, abandonadas.
Non vediamo il quadrante del Tempo
E non vediamo neppure
Una forma di vita fondersi in un’altra.
Non vediamo avanzare la vita verso la nostra origine
Costruendo muri contro noi stessi.
Non udiamo il cantico di guerra
Che celebra i nostri fallimenti
Annotati sulle pagine del pensiero.

Ora dopo ora vediamo e sentiamo meno
Il quadrante del Tempo.
Siamo mutazioni caotiche
Che si moltiplicano nelle fetide stive
Di neri galeoni, abbandonati.
________________

William Turner
Stonehenge al tramonto (1811)
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O fado deixa-nos…



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O fado deixa-nos…
Il fado ci lascia…


O fado deixa-nos
Abandonados na praia,
As notas quebrando-nos os olhos,
Lágrimas pelos olhos adentro.
No céu, apaga-se a geografia dos astros,
Saudade súbita
De algo ainda próximo,
Mas é a saudade futura presente.
O fado desatando o coração,
O fado abrindo uma gaveta
Antiquíssima e poeirenta
Onde reencontramos um pouco de nós.
Il fado ci lascia
Abbandonati sulla spiaggia,
E le note ci spezzano gli occhi,
Riversando le lacrime all’interno.
In cielo, si cancella la geografia degli astri,
Rimpianto improvviso
Di qualcosa ancora vicino,
Ma è il rimpianto del futuro che è presente.
Fado che scioglie il cuore,
Fado che apre un cassetto
Vecchissimo e polveroso
In cui ritroviamo un po’ di noi.
________________

Giorgio de Chirico
I danzatori (1970)
...

Mulher


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Mulher
Donna


Na face, a geografia da angústia,
Dos pânicos e das medrosas alegrias.
Cada ruga é um presságio.
E auréola da aflição constante
O esplendor dos cabelos brancos.

Uma só raiz para frutos diversos,
Uma só vida para destinos tão complexos,
Um só pranto para dores tão diversas.

O útero que gera o herói, o sábio, o poeta,
O santo, o miserável e o assassino.
Uma só raiz para frutos tão diversos!

O dom da paz em cada gesto
Cai como noites quietas
Sobre a alma em rancor,
Amor acima do amor.
Sul viso, la geografia dell’angoscia,
Del panico e delle timide gioie.
Ogni ruga è un presagio.
E aureola di costante afflizione
Lo splendore dei capelli bianchi.

Una sola radice per frutti diversi,
Una sola vita per destini tanto complessi,
Un solo pianto per dolori tanto diversi.

L’utero che genera l’eroe, il saggio, il poeta,
Il santo, il miserabile e l’assassino.
Una sola radice per frutti tanto diversi!

Il dono della pace in ogni gesto
Ricade come notti quiete
Sull’anima rancorosa,
Amore sopra l’amore.
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Pablo Picasso
Madre con bambino malato (1903)
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Metamorfose


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Metamorfose
Metamorfosi


No combate entre o gelo e o fogo
A vida universal desdobra-se em ciclos
No espaço de mil séculos.
Tomamos consciência do cósmico,
Tentamos ligações com o espírito há muito abatido
E a alma afunda em dimensões pulverizadas.
Dá-se a recuperação das espécies rejeitadas,
O achado do perdido não procurado.
Do implacável e do flamejante
O universo não está terminado.
Há mutações silenciosas em cada instante que soçobra
E que só percebemos da metamorfose de mil em mil
 séculos.

Somos casulos pendurados nas folhas de árvores sem
 nome,
Casulos à espera da metamorfose cíclica do tempo.
Nella lotta tra il ghiaccio e il fuoco
La vita universale si dispiega nello spazio
In cicli di mille secoli.
Prendiamo coscienza del cosmico,
Tentiamo un contatto con lo spirito da tempo sconfitto
E l’anima precipita in dimensioni disintegrate.
Avviene il recupero delle specie rifiutate,
Il ritrovamento di ciò che andò perso e non ricercato.
Con energia implacabile e ardente
L’universo ancora non è giunto alla fine.
Ci sono silenziose mutazioni ad ogni istante che passa
E noi avvertiamo le metamorfosi soltanto ogni mille
 secoli.

Siamo crisalidi appese alle foglie di alberi senza
 nome,
Crisalidi in attesa della metamorfosi ciclica del tempo.
________________

Bridget Tichenor
Wait (1961)
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Eu me maldigo


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Eu me maldigo
Io mi maledico


Que estalem nos céus os trovões, os relâmpagos,
Que as nuvens se estilhacem
E as montanhas se rachem.
Que as estrelas se embaciem
E o sol se apague para que meu corpo não tenha
 sombra.
Que as correntes marítimas
Carreguem meus braços para as praias fétidas
E o vento impeça meus joelhos de se dobrarem.
Que o raio fulmine a única palavra boa que eu tinha.
Que meus olhos se apodreçam
E se transformem em água
Para que não se levantem além das raízes.
Que a gosma dos vulcões
Soterre meu sexo,
Que os vermes fujam da minha carne
E o pó se levante fugindo antes de eu passar.
Que o cheiro de minha boca
Resseque o grão embaixo da terra
E meus cabelos sirvam de corda para os enforcados.
Que minha língua se enrole enegrecida dentro de
 minha garganta
E me diga as maiores injúrias.
Que a terra seja fendida como um ventre de mulher,
Que a destruição absoluta
Desça sobre meu corpo, meus sentidos,
Meu espírito, meu passado,
Meu presente, meu futuro
E liberte minha origem
Da lembrança dos homens.
Che esplodano in cielo i tuoni, i fulmini,
Che le nuvole si frantumino
E le montagne si disgreghino.
Che le stelle s’offuschino
E s’estingua il sole perché non vi sia ombra per
 il mio corpo.
Che le correnti marine
Trascinino le mie braccia verso fetide spiagge
E il vento impedisca alle ginocchia di piegarsi.
Che il lampo folgori l’unica parola buona che avevo.
Che i miei occhi marciscano
E si convertano in acqua
Affinché non superino le proprie radici.
Che la colata dei vulcani
Seppellisca il mio sesso,
Che i vermi rifuggano la mia carne
E la polvere s’alzi e fugga prima che io passi.
Che l’alito della mia bocca
Rinsecchisca la semente sotto la terra
E i miei capelli servano da corda per gli impiccati.
Che la mia lingua s’arrotoli annerita dentro la
 mia gola
E mi rivolga le peggiori ingiurie.
Che la terra venga lacerata come un ventre di donna,
Che la devastazione assoluta
Scenda sul mio corpo, sui miei sensi,
Sul mio spirito e sul mio passato
Sul mio presente e sul mio futuro
E svincoli la mia origine
Dal ricordo degli uomini.
________________

Frida Kahlo
Ciò che l'acqua mi ha dato (1939)
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Escuro


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Escuro
Buio


Que estranho terreno inexplorado
Na área escura do meu cérebro
Impede o conhecimento de mim mesma?
Muralha intransponível
Que frustra o meu acordar
Para retroceder ao princípio do princípio
Das coisas irrepetidas.
Estranha área do escuro
Onde estaria o berço da luz única
Fechada em mão intocável,
Luz que explicaria a vida na escuridão, e
Não vedaria o despertar de mim mesma.
Que estranha área de trevas no meu cérebro
Impede o meu espírito de receber a luz divina?
Che strano terreno inesplorato
In una zona oscura del mio cervello
Impedisce che io conosca me stessa?
Muraglia invalicabile
Che frustra il mio risveglio
Per retrocedere al principio del principio
Delle singole cose.
Strana zona di buio
Dove starebbe la culla della luce unica
Chiusa in mano intoccabile,
Luce che spiegherebbe la vita nell’oscurità, e
Non impedirebbe il risveglio di me stessa.
Che strana area di tenebra nel mio cervello
Impedisce che il mio spirito riceva la luce divina?
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Stella Levi (Getty Images)
Ansia (2022)
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Aspiração


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Aspiração
Aspirazione


Antes que vingue outra esperança
Quero as sombras do branco espesso.
Antes que mais uma insônia se cumpra
Quero o torpor no abismo indecifrável
Do espírito amortalhado.
Antes que o pensamento acorde
E descubra os espaços petrificados,
Quero narcotizar-me sem sonhos
E deitar-me no mundo sem sombras,
Sem palavras nem gestos.
Antes que alguma crença me recolha,
Antes que eu entenda o obscuro,
Antes que o sensível me assalte,
Antes que eu distinga na lonjura
A morte da estrela cintilante,
O êxtase da solidão vertical,
Quero ser coisa sem motivo
Entregue aos ventos sem destino.
Prima che un’altra speranza s’imponga
Voglio le ombre d’un bianco intenso.
Prima di rivivere un’altra notte insonne
Chiedo il torpore nell’indecifrabile abisso
Dello spirito avvolto in un sudario.
Prima che il pensiero si risvegli
E scopra gli spazi pietrificati,
Voglio narcotizzarmi senza sogni
E stendermi in un mondo senz’ombre,
Senza parole né gesti.
Prima che qualche fede m’attragga,
Prima ch’io comprenda ciò che è oscuro,
Prima che l’emotività m’assalga,
Prima che io distingua in lontananza
La morte della stella scintillante,
L’estasi della solitudine verticale,
Voglio essere una cosa senza ragione
In balia dei venti senza meta.
________________

Will Barnet
Donna davanti al mare (1972)
...

Abandono


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Abandono
Abbandono


A exaustão faminta
Procura elementos ainda vivos no meu ser
Talvez guardados em escuros vácuos
Que carrego sem saber.
Alimenta-se do sopro das imagens
Desenhadas pela minha imaginação
Pelo tato dos meus sentimentos,
Pelo pânico do desconhecido.
Aparece como febre constante dilatando as minhas carnes
Descoloridas e sem sabor de vida.
A exaustão sobe pelos meus pés,
Cobre os meus gestos incipientes,
Prende a minha língua,
Suga o meu cérebro, ninho de aranhas em fogo,
Pousa no meu cabelo como morcego.
Exaustão que funga o ar, que saqueia o meu silêncio,
Último repouso nos meus vácuos devassados.
Una famelica prostrazione
Cerca nell’esser mio elementi ancora vitali
Forse custoditi in oscuri anfratti
Che reco in me senza saperlo.
S’alimenta del respiro delle immagini
Disegnate dalla mia immaginazione
Dal tatto dei miei sentimenti,
Dal panico di fronte all’ignoto.
Appare come febbre costante dilatandomi le carni
Sbiadite e senza sapore di vita.
Lo sfinimento sale dai miei piedi,
Copre i miei gesti incipienti,
Paralizza la mia lingua,
Mi prosciuga il cervello, nido di ragni in fuoco,
S’appende ai miei capelli come un pipistrello.
Prostrazione che risucchia l’aria e depreda il mio silenzio,
Ultima quiete nei miei violati anfratti.
________________

Felix Vallotton
Donna addormentata (1899)
...

Eis uma sede súbita de poemas…



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Eis uma sede súbita de poemas…
Ecco un’improvvisa sete di poesia…


Eis uma sede súbita de poemas –
Sede, não um pião vindo dos astros,
Não um raio, divino de vontade.
Percorro as sarças de palavras crepusculares,
Onde as espigas estão nuas e a terra
Exausta de cores.
Mas eis um pórtico
Onde as águas correm
Eis uma espiga que, de vários ângulos,
Brilha em fulvos diversos.
Eis o reflexo ilegível, eis o poema,
Refracção do dizer, momento
Em que, realmente, o poeta já não diz nada.
O poema é o incerto despertar
Do caminho na bruma,
Sem partitura ou norte,
A distância é ilegível,
Olhando para trás, a estrada
Antiga e fluente dorme,
Cansada do rumo e do tempo.
Ecco un’improvvisa sete di poesia –
Sete, non un capriccio venuto dalle stelle,
Non un baleno, di volontà divina.
Penetro nella sterpaglia di parole crepuscolari,
Dove le spighe sono spoglie e la terra
Disadorna di colori.
Ma ecco un varco
Dove le acque scorrono
Ecco una spiga che, da varie angolazioni,
Risplende in diversi toni di fulvo.
Ecco il riflesso illeggibile, ecco la poesia,
Rifrazione del dire, momento
In cui, in verità, il poeta già non dice più nulla.
La poesia è l’incerto risveglio
Del percorso nella nebbia,
Senza partitura né direzione,
La distanza è illeggibile,
Guardandosi indietro, la strada
Antica e fluida dorme,
Stanca della sua meta e del tempo.
________________

Dexter Dalwood
Night Mirror (2012)
...

A essência imutável


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A essência imutável
L’essenza immutabile


Entre a estrela e o átomo
A matéria viva estabelece o traço original.
A fotossíntese realiza a assimilação
Da energia solar do homem,
Mecanismo-alimento da força biológica
Existente no grão de luz que ronda o corpo inanimado
Vindo da semente viajante dos ventos programados.
Cubos-pedra lançam o elétron
De uma órbita a outra dos planetas tranquilos
E voltam à origem do cansaço.
Desencadeia-se o calor que mata,
O mecanismo complica-se,
O elétron muda de órbita
E a sua volta é seguida de reações em cadeia
Para aniquilar o homem caminhante
Das estradas indecisas.
As múltiplas diferenças de forças
Convocam a origem da vida em cada rumo da poeira
 ardida
Enquanto a procissão do grande mecanismo
Mostra em todos os níveis, em todas as gamas da
 existência,
A sua ativa regulagem
Que ainda é mistério para o homem aniquilado
Pela surpresa do nada saber
Além das suas carnes esfarrapadas pela infinita agonia.
Tra la stella e l’atomo
La materia viva stabilisce la traccia originale.
La fotosintesi realizza l'assimilazione
dell'energia solare da parte dell’uomo,
Meccanismo-carburante di forza biologica
Insito nel frustolo di luce che circonda il corpo inanimato
Proveniente dal seme viaggiante di venti programmati.
Cubi di pietra lanciano l'elettrone
Da un'orbita all'altra di pianeti tranquilli
E tornano all’origine della fatica.
Si scatena il calore che uccide,
Il mecanismo s’inceppa,
L’elettrone cambia orbita
E a sua volta si succedono reazioni a catena
Per annientare l’uomo che s’incammina
Per incerti cammini.
Le molteplici differenze di forze
Evocano l’origine della vita da ogni direzione della polvere
 ardente
Mentre la processione del grande meccanismo
Mostra a tutti i livelli, in tutti gli ambiti dell’umana
 esistenza,
La sua regolazione attiva,
Che ancora è mistero per l’uomo annichilito
Dallo sconcerto di non saper nulla
Al di là delle sue carni devastate dall’infinita agonia.
________________

Paul Klee
I limiti della ragione (1927)
...

Um dia a menina olhou o álbum de retratos


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Um dia a menina olhou o álbum de retratos
Un giorno la ragazza guardò l’album di famiglia


Pela fresta do céu
Desceu um pensamento nos olhos da menina
Que folheava o álbum dos antepassados.
Suas mãos pararam a página com o retrato do homem
 de croisé
Que não era seu pai nem seu avô.
Era o irmão de leite de seu tio
Que havia se suicidado por amor.
As pupilas da menina passearam na boca do retrato,
 desgrenharam o penteado,
Passaram na curva da orelha e por baixo do plastron
Ela sentiu o perfume guardado há tanto tempo.
Puxou com os olhos o álbum bem para dentro do
 seu corpo.
Os seios gritaram em diâmetro, se turgindo,
E ela esfregou, com um movimento de cabeça,
As pontas pesadas da cabeleira em sua nuca.

A menina casou com um homem fora do álbum
Mas seu primeiro filho era igual ao retrato
Do irmão de leite de seu tio
Que havia se suicidado por amor,
E que seus sentidos ressuscitaram e guardaram
Para imprimir formas desconhecidas nos presentes
E amar a memória dos ausentes.
Da uno spiraglio del cielo
Un turbamento discese negli occhi della ragazza
Che sfogliava l’album degli antenati.
Le sue mani si fermarono alla pagina col ritratto dell’uomo
 in doppiopetto
Che non era suo padre né suo nonno.
Era il fratello di latte di suo zio
Che s’era suicidato per amore.
Le pupille della ragazza sfiorarono la bocca del ritratto,
 scompigliarono i capelli,
Passarono lungo la curva dell’orecchio e sotto il plastron
Ella avvertì il profumo serbato per tanto tempo.
Con gli occhi trasse a sé l’album quasi ad accoglierlo
 nel corpo.
I seni sussultarono all’unisono, inturgiditi,
Ed ella strofinò, con un movimento della testa,
Le folte punte dei capelli contro la nuca.

La ragazza si sposò con un uomo estraneo all’album.
Ma il suo primo figlio era uguale al ritratto
Del fratello di latte di suo zio
Che s’era suicidato per amore,
E che era stato resuscitato e custodito dai suoi sensi
Per imprimere forme sconosciute ai presenti
E per amare la memoria degli assenti.
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Giuseppe Amisani
La lettrice (1930)
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