Marianna e Chamilly


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Dobra - 1983-2023 (2024) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Marianna e Chamilly
Marianna e Chamilly


Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares
se ficares
terei saudades

Terei
sempre saudades
e gosto assim
Quando tu partirai
se partirai
io sentirò nostalgia
e quando tu resterai
se resterai
io sentirò nostalgia

Sentirò
sempre nostalgia
ed è così che mi piace
________________

Jean-Baptiste Santerre
Illustrazione delle Lettres portugaises de Gabriel de Guilleragues, 1669 (1699)
...

Lisboa


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Dobra - 1983-2023 (2024) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Lisboa
Lisbona


Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu

Cidade negra
como um beco

Cidade desabitada
como um armazém

Cidade lilás
semeada
de jacarandás

Cidade dourada
semeada
de igrejas

Cidade prateada
semeada
de Tejo

Cidade que se degrada
cidade que acaba
Città bianca
disseminata
di pietre

Città blu
disseminata
di cielo

Città nera
come un vicolo

Città disabitata
come un magazzino

Città lilla
disseminata
di jacaranda

Città d’oro
disseminata
di chiese

Città d’argento
disseminata
di Tejo

Città che si degrada
città che scompare
________________

Carlos Botelho
Lisboa (1962)
...

Ficar à escuta


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Dobra - 1983-2023 (2024) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Ficar à escuta
Stare in ascolto


Ficar
à escuta

À escuta
do silêncio
Stare
in ascolto

In ascolto
del silenzio
________________

Julius Schmid
Beethoven a spasso nella natura (1901)
...

O fim começa-se…



Nome:
 
Collezione:
Fonte:
 
Altra traduzione:
Nuno Rocha Morais »»
 
Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (giugno 2026) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


O fim começa-se…
La fine ha inizio…


O fim começa-se
No próprio princípio,
Na sua negação prolongado.
Assim, também a voz
Tantas vezes, em si mesma
Prisioneira
Da morte de tantos poetas
E ninguém sabe.
La fine ha inizio
Nel proprio principio,
Nella sua negazione prolungata.
Così, molto spesso anche
la voce, è in sé stessa
Prigioniera
Della morte di tanti poeti
E nessuno lo sa.
________________

Carla Accardi
Fonda notte (1986)
...

Deus é um boomerang


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Dobra - 1983-2023 (2024) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Deus é um boomerang
Dio è un boomerang


Deus é um boomerang
e eu sou a sua filha pródiga
Dio è un boomerang
e io sono la sua figliola prodiga
________________

Pittura rupestre aborigena (Mani e boomerang)
Carnarvon Gorge, Queensland (Australia)
...

As Vénus esteatopígias…


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Dobra - 1983-2023 (2024) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


As Vénus esteatopígias…
Le Veneri steatopigie…


As Vénus esteatopígias pré-históricas
são tão belas como a Vénus de Milo
o que há é pouca gente para dar por isso
ainda haverá alguém?
Le Veneri steatopigie preistoriche
sono belle quanto la Venere di Milo
ma c’è poca gente che se ne rende conto
ce ne sarà ancora qualcuno?
________________

La Venere di Willendorf
(Paleolitico superiore, 23000 a.C.)
...

A minha Musa


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Dobra - 1983-2023 (2024) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


A minha Musa
La mia Musa


A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra
La mia Musa prima d’essere
la mia Musa mi avvertì
hai scritto versi senza sapere
che far versi costa una lingua
ora ti taglierò la lingua
perché tu impari a far versi
la mia Musa è crudele
ma io non ne conosco un'altra
________________

Gisèle Vienne
A Puppet Play (2023)
...

Quando as irmãs no Carnaval…


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Manhã (2015) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Quando as irmãs no Carnaval…
Quando le sorelle a Carnevale…


Quando as irmãs no Carnaval
(sobretudo no Carnaval)
iam a bailes
e ela ficava em casa
porque não a tinham convidado
escrevia no diário
"a verdadeira vida estás no bailes de Carnaval
a que as minhas irmãs vão"
e quando uma noite num baile de Carnaval
a que as irmãs pediram que fosse
mascarada de órfã
ela ficou sentada entre um espelho e um reposteiro
a ver as irmãs dançar
pensou
quem me dera estar no meu quarto
a escrever no meu diário
“perdi o hábito de escrever no meu diário”
“gostava de dançar”
Quando le sorelle a Carnevale
(soprattutto a Carnevale)
andavano a ballare
e lei restava a casa
perché non l’avevano invitata
scriveva sul diario
"la vita vera è nei veglioni di Carnevale
quelli dove vanno le mie sorelle"
e quando una notte a un veglione di Carnevale
a cui le sorelle le avevano chiesto di andare
mascherata da orfanella
lei rimase seduta fra uno specchio e un tendaggio
a guardare le sorelle ballare
pensò
almeno fossi rimasta nella mia stanza
a scrivere sul mio diario
“ho perso l’abitudine di scrivere sul mio diario”
“mi piacerebbe ballare”
________________

Federico Zandomeneghi
Ragazza che scrive (1910 ca.)
...

Dansar


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Manhã (2015) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Dansar
Dansare


Desde que comecei a dansar escrevo dansar com s
como a Sophia. Danso na minha cozinha descalça.
Danso sozinha para os gatos. Gosto de dansar sem música
o tempo que a ampulheta do meu Avô Raul mede:
10 minutos. Posso virar a ampulheta ao contrário e
dansar mais 10 minutos. Posso dansar assim até o infinito.
Tenho diabetes tipo 2, devo dansar por dia 30 minutos.
Também ponho a caixa de música a tocar e danso.
É a caixa de música que minha mãe me trouxe do
aeroporto de Frankfurt, no final dos anos 60, quando
voltou de um congresso de Botânica em Darmstadt.
Esta caixa de música é um abeto com um casamento
de passarinhos à volta. É cor-de-rosa e verde. Há um
romance de Stendhal que se chama Le rose et vert.
Ainda não li. Mas tenho o livro. Posso ler.
Gosto de pensar nessas coisas enquanto danso. Enquanto
danso, penso. Penso e giro. De girar e de gerir. Enquanto
danso, raciocino e raciocino melhor. Enquanto danso,
rezo pela paz. Enquanto danso, descanso. O meu
pâncreas melhora. Só coisas boas. Tenho uma cassette
de rock jugoslavo que a minha intérprete em Sarajevo,
a Amra, gravou para mim. Estive em Saravejo em Maio de 1991 num encontro de poetas. Também danso rock.
Dansar é leve e intenso como diz a Tereza Amado.
Da quando ho cominciato a dansare scrivo dansare
con la s come Sophia. Danso scalza nella mia cucina.
Danso da sola per i gatti. Mi piace dansare senza musica
il tempo che la clessidra di mio nonno Raul misura:
10 minuti. Posso girare la clessidra al contrario e
dansare altri 10 minuti. Posso dansare così all'infinito.
Soffro di diabete di tipo 2, devo dansare 30 minuti al giorno.
Metto anche il carillon in carica e danso.
È il carillon che mia madre mi portò dall’aeroporto
di Francoforte, alla fine degli anni ’60, quando
tornò da un congresso di Botanica a Darmstadt.
Questo carillon è un abete con un matrimonio di
uccellini tutt’intorno. È color di rosa e verde. C’è un
romanzo di Stendhal che s’intitola Le rose et vert.
Ancora non l’ho letto. Ma ho il libro. Posso leggerlo.
Mi piace pensare a queste cose mentre danso. Mentre
danso, penso. Penso e giro. Di girare e di dirigere. Mentre
danso, ragiono e ragiono meglio. Mentre danso,
prego per la pace. Mentre danso, mi rilasso. Il mio
pancreas migliora. Solo cose buone. Ho una cassetta
di rock jugoslavo che la mia traduttrice a Sarajevo,
Amra, ha inciso per me. Mi trovavo a Saravejo nel maggio
del 1991 a un incontro di poeti. Danso anche il rock.
Dansare é lieve e intenso come dice Tereza Amado.
________________

Ernst Ludwig Kirchner
Ballerina (1914)
...

Colares


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Manhã (2015) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Colares
Colares


Em Colares, vi um bulldog branco anão em
em cima de uma coluna branca no jardim de uma
vivenda. É a minha recordação mais antiga. É es-
tranha. Parece inventada. Mas não é.

Fui com minha avó materna no eléctro da
Praia das Maçãs a Sintra. Tudo isto é muito prous-
tiano, é claro.

Quando era muito criança, passava alguns
dias de Verão numa pensão em Colares com a
minha família. Iam os meus pais, a minha avó
materna e irmã da minha avó materna.
Na quinta da pensão, vi uma porca deitada no
chão a dar de mamar a muitos leitõeszinhos. Adorei.

Em Colares, vi no céu o rasto de um avião a
jacto. Pensei que era um raio que ia cair em
 Lisboa
em cima de um armário de que gostava muito.
A minha mãe disse-me que não era assim. Há um
verso de Rimbaud que me lembra muito esta visão
da minha infância mas agora não encontro.

Há cinquenta anos, vi maçãs na Praia das
Maçãs trazidas por um riacho ou talvez seja con-
fusão minha.

Lembro-me de andar a passear à noite com os
meus pais em Colares pela estrada. A minha mãe
dizia-me: «Olha, um pirilampo.» Acho que nunca
vi nenhum. Ainda posso ver.

Ia muitas vezes a Sintra visitar o palácio da vila.
O cicerone já me conhecia. Dizia que eu gostava
mais de visitar o palácio do que de fazer covinhas
na praia. Não era assim. Gostar gostar era da Praia
Grande. Fui lá uma vez com minha prima Vera.
Fizemos um castelo com um fosso.
A Colares, ho visto un bulldog bianco nano in
cima a una colonna bianca nel giardino di una
villa. È il mio ricordo più antico. È
strano. Sembra inventato. Ma non lo è.

Andai con la mia nonna materna in tram da
Praia das Maçãs a Sintra. Tutto questo è molto prous-
tiano, è chiaro.

Quando era molto piccina, passavo alcuni
giorni d’estate in una pensione a Colares con la
mia famiglia. Ci venivano i miei genitori, la nonna
materna e la sorella della nonna materna.
Nella fattoria della pensione vidi una scrofa stesa a
terra che allattava molti lattonzoli. Incantevoli.

A Colares, vidi nel cielo la scia di un aereo a reazione.
Pensai che fosse un fulmine che stava per cadere su
 Lisbona
sopra un armadio che mi piaceva molto.
Mia madre mi disse che non era vero. C’è un
verso di Rimbaud che mi ricorda molto questa visione
della mia infanzia ma adesso non la trovo.

Cinquant’anni fa, ho visto delle mele sulla Spiaggia delle
Mele trasportate da un torrente o forse sto
facendo confusione.

Mi ricordo che di sera andavo a passeggio con i
miei genitori a Colares lungo la strada. Mia madre
mi diceva: «Guarda, una lucciola.» Credo di non
averne mai vista nessuna. Posso ancora vederne.

Spesso andavo a Sintra per visitare il palazzo comunale.
Il cicerone mi conosceva già. Diceva che io preferivo
visitare il palazzo piuttosto che fare delle buche sulla
spiaggia. Non era vero. Piacere mi piaceva la Spiaggia
Grande. Ci andai una volta con mia cugina Vera.
Facemmo un castello con un fossato.
________________

Alexis Rockman
La fattoria (2000)
...

45 Anos


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
A Árvore Cortada (2006) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


45 Anos
45 anni


É tempo
de regressar
a casa

A poesia
não está
na rua
È tempo
di ritornare
a casa

La poesia
non sta
per strada
________________

John William Waterhouse
Dolce Far Niente (1879)
...

21 Anos


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
A Árvore Cortada (2006) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


21 Anos
21 anni


Os meus cavalos
espantaram-se

Como o Hipólito
da tragédia grega
bocados de mim
pendem
dos arbustos
I miei cavalli
si sono spaventati

Come l’Ippolito
della tragedia greca
brandelli di me
pendono
dagli arbusti
________________

Antonio Ligabue
Cavalli imbizzarriti nella tempesta (1957)
...

A noite demora-se…



Nome:
 
Collezione:
Fonte:
 
Altra traduzione:
Nuno Rocha Morais »»
 
Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (giugno 2026) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


A noite demora-se…
La notte s’attarda…


A noite demora-se a passear
Pelas figuras que a povoam:
O orvalho da nostalgia,
Uma melancolia,
Uma tristeza antiquíssima
Que sobe aos olhos.
Pelas ruas, pelo silêncio,
Algo secreto rege brumas
E amplia os ângulos da sombra.
La notte s’attarda passeggiando
tra le ombre che l’affollano:
La rugiada della nostalgia,
Una malinconia,
Un’antichissima tristezza
Che sale agli occhi.
Per le vie, nel silenzio,
Qualcosa di segreto governa le nebbie
Ed amplia gli angoli d'ombra.
________________

Grant Haffner
Full Moon Gerard Drive (2021)
...

É um quadro de Edward Hopper…


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
César a César (2003) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


É um quadro de Edward Hopper…
È un quadro di Edward Hopper…


É um
quadro
de Edward Hopper
de 1924
chama-se
“New York pavements”
mostra
uma freira
a empurrar
um carrinho de bebé
contra o vento
pelas ruas
pelos passeios
de Nova Iorque
o véu
do hábito
da freira
esvoaça

Que freira
desalmada!
comenta
uma amiga

Este
quadro
de Edward Hopper
que tenho
em postal
puxa-me
ou empurra-me
a alma
È un
quadro
di Edward Hopper
del 1924
s’intitola
“New York pavements”
mostra
una suora
che spinge
un passeggino
controvento
per le strade
per i marciapiedi
di New York
il velo
dell’abito
della suora
svolazza

Che suora
senza cuore!
commenta
un’amica

Questo
quadro
di Edward Hopper
che ho
in cartolina
attrae
e respinge
l’anima mia
________________

Edward Hopper
New York Pavements (1924)
...

Louvor do lixo


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
A mulher-a-dias (2002) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Louvor do lixo
Lode dell’immondizia


  para a Amra Alirejsovic
  (quem não viu Sevilha não viu maravilha)

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer o pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão
  per Amra Alirejsovic
  (chi non vide Siviglia mai vide meraviglia)

Bisogna disentropizzare
la casa
tutti i giorni
per rimandare il Caos
la poetessa è la domestica
riordina la poesia
come riordina la casa
minacciata dal terremoto
dacci oggi
l’entropia giornaliera
la polvere e l’amore
si formano
come la poesia
nella quotidianità
il pane lo si mangia
o lo si butta via
nel cartoccio
(un piccione potrebbe
intrufolarsi nell’immondizia)
la poesia disentropizza
la polvere si deposita sulla poesia
la poesia cantava l’amore
grazie all’amore
e alla poesia
il puzzle ch’ero io
s’è ricomposto
ma si deve ringraziare la polvere
la polvere che rende il libro
illeggibile come la tigre
l’amore non si rovina
i libri sì
il tavolino cade
al passaggio del cane
e il puzzle resta incompiuto
sul pavimento
________________

John French Sloan
Bucato al sole in terrazza (1940 ca.)
...

Um figo


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Obra (2000) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Um figo
Una leccornia


Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atrás dela
para lha entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
Eu não posso ter deixado cair isto
porque isto não é meu
não queria que ninguém
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma relação
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um lenço cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo à boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
é um retrato da senhora
pode ser o retrato de alguém muito parecido comigo
mas não sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
não insistiu
e como sabia que os mendigos
não têm dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo
Lasciò cadere la fotografia
uno sconosciuto la rincorse
per ridargliela
lei si rifiutò di prendere la fotografia
ma, lei signora, l’ha lasciata cadere
Io non posso averla lasciata cadere
perché non è mia
Lei non voleva che qualcuno
e soprattutto uno sconosciuto
sospettasse che ci fosse una relazione
tra lei e la fotografia
era come se avesse lasciato cadere
un fazzoletto sporco di sangue
perché era lei quella che stava sulla fotografia
e nulla ci appartiene più del sangue
infatti quando una persona si punge un dito
si porta subito il dito alla bocca per succhiare il sangue
lo sconosciuto s’era accorto di questo
è un suo ritratto, signora
può essere il ritratto di qualcuno che mi somiglia molto
ma non sono io
lo sconosciuto che era una persona cortese
non insistette
e siccome sapeva che i mendicanti
non hanno soldi per fare fotografie
diede la fotografia a un mendicante
che la prese per una leccornia
________________

Lionel LeMoine FitzGerald
Donna con macchina fotografica in esterno (1917)
...

Reconciliada com as memórias


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Adília Lopes »»
 
Obra (2000) »»
 
Francese »»
«« precedente / Sommario / successivo »»
________________


Reconciliada com as memórias
Riconciliata con i ricordi


Eu no espelho
colada com cola
mais bela
do que dantes
como o prato Zen
que tem as fracturas
sublinhadas
com ouro
obra da fortuna
má e boa
obra da falta de afecto
e do afecto
Narciso e anti-Narciso
viver para crer
Io incollata
allo specchio con la colla
sono più bella
d’un tempo
come quel piatto Zen
le cui incrinature
sono esaltate
con l’oro
frutto della sorte
la buona e la cattiva
frutto dell’affetto
e della mancanza d'affetto
Narciso e anti-Narciso
vivere per credere
________________

Naoko Fukumaru
Timeless Magic (kintsugi artwork) (2023)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (40) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (39) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (41) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (31) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (32) Nuno Rocha Morais (547) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (30) Poesie inedite (355) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (28) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (32) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)