Pulsação da treva


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Pulsação da treva
Pulsazione delle tenebre


Fundiu-se a roda do Sol
entre os cedros afilados.
Desfez-se em azuis rosados,
tinturas de tornesol.
 
Agora, solenemente,
como um corpo que se enterra,
ao som de um sino plangente
desce a noite sobre a terra.
 
Campânula asfixiante.
Circula um terror nas veias.
Zumbem estrelas em colmeias
num céu alheio e distante.
 
Numa dormência de cova,
suspensa em leite de Lua,
toda a vida se renova
e a guerra se continua.
 
Nas marés do protoplasma
flui, reflui, perene e forte.
Espreita as pegadas da morte,
persegue-a como um fantasma.
 
Cega e surda, impenetrável,
lateja, na treva urdida,
essa coisa inevitável
que é a vida.
S’è fusa la ruota del Sole
tra i cedri affilati.
S’è dissolta in azzurri rosati,
tinture di girasole.
 
Ora, solennemente,
come un corpo che s’interra,
al suono d’una campana piangente
cala la notte sulla terra.
 
Vitrea calotta asfissiante.
Nelle vene circola il terrore.
Ronzano le stelle come in alveare
in un cielo straniero e distante.
 
In un torpore d’avello,
galleggiando in latte di Luna,
tutta la vita si rinnovella
mentre la guerra prosegue.
 
Sulle maree del protoplasma
fluisce e defluisce, perenne e forte.
Pedina le orme della morte,
l’insegue come un fantasma.
 
Cieca e sorda, impenetrabile,
palpita, nella tenebra ordita,
questa cosa inevitabile
che è la vita.
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Angelo Molinari
La notte ha la mia voce (2017)
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Pedra filosofal


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Pedra filosofal
Pietra filosofale


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
Loro non sanno che il sogno
è una costante della vita,
concreta, definita
come ogni altra cosa,
come questa pietra grigia
su cui mi siedo e riposo,
come questo mite ruscello
con sereni soprassalti,
come questi pini alti
che si agitano verdi e oro,
come questi uccelli gridanti
in ebbrezze d'azzurro.

Loro non sanno che il sogno
è vino, è spuma, è fermento,
bestiola alacre e assetata
con il musetto appuntito
che scava per ogni dove
in perpetuo movimento.

Loro non sanno che il sogno
è tela, è colore, è pennello,
base, fusto, capitello,
vetrata, arco ogivale,
pinnacolo di cattedrale,
contrappunto, sinfonia,
maschera greca, magia,
storta d'alchimista,
mappa del mondo distante,
rosa dei venti, Infante,
caravella del Cinquecento,
Capo di Buona Speranza,
oro, cannella, avorio,
fioretto di spadaccino,
telaio, passo di danza,
Colombina e Arlecchino,
mongolfiera che vola,
parafulmine, locomotiva,
nave pavesata a festa,
altoforno, generatore,
scissione dell'atomo, radar,
ultrasuono, televisione,
sbarco di navicella
sulla superficie lunare.

Loro non sanno, e non sognano,
che il sogno è motore di vita,
che ogni volta che un uomo sogna
il mondo salta e rimbalza
come una palla colorata
nelle mani d’una creatura.
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Candido Portinari
Três Marias (1940)
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Gota de água


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Gota de água
Goccia d’acqua


Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.
Quando io piango,
non sono io a piangere.
Piange quel che negli uomini
da sempre ha causato dolore.
Sono mie quelle lacrime
ma il pianto non m’appartiene.
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Rogier van der Weyden
Deposizione di Cristo (particolare) (1435 circa)
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Forma de inocência


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Forma de inocência
Forma d’innocenza


Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.
Morirò innocente
esattamente
come son nato.
Senza aver mai scoperto
ciò che vi è di falso o di certo
in quello che ho veduto.

Tra me e l’Evidenza
fluttua una bruma insistente.
Una forma d’innocenza,
sconcertante.

Più che sconcertante:
raggelante
come una spada
incombente.
Una sorta di gelosia
che non ti fa vedere chiaramente.
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Gerhard Richter
Seing and looking away (1965)
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Espelho de duas faces


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Espelho de duas faces
Specchio a due facce


Ajuda-me a esquecer as tuas faltas
e a ignorar os teus crimes
para melhor te amar.
Dá-me a febre em que te exaltas
e o que nos olhos exprimes
quando não sabes falar.

Espelho de duas faces, plana e curva:
és, e não és.
Imagem dupla, ora límpida, ora turva,
numa te afirmas, noutra te negas, em ambas te crês.

Queria sentir-te em outros sentidos.
Queria ver-te sem olhos e ouvir-te sem ouvidos.
E queria as tuas mãos numa aldeia fraterna.
Essas mãos que ainda ontem, de manhã, aturdidas,
com duas varas secas e folhas ressequidas
arrepiaram de luz as sombras da caverna.
Aiutami a dimenticare le tue mancanze
e a ignorare i tuoi crimini
per poterti meglio amare.
Donami la febbre in cui t’esalti
e che con gli occhi esprimi
quando non sai parlare.
 
Specchio a due facce, piana e incurvata:
Sei, e non sei.
Immagine doppia, ora limpida, ora opaca,
in una t’affermi, nell'altra ti rinneghi, in entrambe ti credi.
 
Vorrei sentirti con altri sensi.
Vorrei vederti senz’occhi e senz’orecchi udirti.
E le tue mani vorrei come una contrada fraterna.
Quelle mani che, ancor ieri mattina, sbalordite,
con due bacchette e delle foglie disseccate,
di luce strabiliarono le ombre della caverna.
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Pascal Vochelet
Familiarità (Serie - 2017)
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