Poema simples


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Poema simples
Poesia semplice


Deixa-me recolher as rosas que estão morrendo nos
 jardins da noite,
Deixa-me recolher o fruto antes que este volva as raízes
 da terra,
Deixa-me recolher a estrela úmida
Antes que sua luz desapareça na madrugada,
Deixa-me recolher a tristeza da alma
Antes que a lágrima banhe a pálpebra
Do órfão abandonado e faminto,
Deixa-me recolher a ternura parada
No coração da mulher que desejou ser mãe.
Deixa-me recolher a esperança dos que acreditam,
Recolher o que ainda não passou
E mais do que tudo dá-me a recolher
A palavra de amor e de doçura para que reparta
Com os ouvidos que esperam como uma gota de mel
Caindo na alma e no coração,
Como a única luz dentro de tanta escuridão.
Lascia che io colga le rose che stanno morendo nei giardini
 della notte,
Lascia che io colga il frutto prima che questo torni alle radici
 della terra,
Lascia che io colga la stella umida
Prima che la sua luce svanisca all’alba,
Lascia che io colga la tristezza dell’anima
Prima che la lacrima bagni la palpebra
Dell’orfano negletto e affamato,
Lascia che io colga la tenerezza gelata
Nel cuore della donna che voleva esser madre.
Lascia che io colga la speranza di quelli che credono,
Che io colga ciò che ancora non è passato
E soprattutto fa’ sì che io colga
La parola d’amore e di dolcezza da condividere
Con orecchie che l’aspettano come una goccia di miele
Che cade nell’anima e nel cuore,
Come l’unica luce in tanta oscurità.
________________

Frederick Childe Hassam
Notte di luglio (1898)
...

Poema de amor


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Poema de amor
Poesia d’amore


Ouve-me com teus olhos
Porque minha queixa é muda.
Acaricia-me com teu pensamento
Porque meu corpo está imóvel.
Beija-me com tuas mãos
Porque minha boca te espera.
Fala-me com o silêncio dos momentos de amor
Porque os ouvidos da minha vida
Se abrirão como as flores

Na úmida e infinita madrugada.
Ascoltami coi tuoi occhi
Perché il mio lamento è muto.
Accarezzami col tuo pensiero
Perché il mio corpo è immobile.
Baciami con le tue mani
Perché la mia bocca ti aspetta.
Parlami con il silenzio dei momenti d’amore
Perché le orecchie della mia vita
Si apriranno come i fiori

Nell’aurora umida e infinita.
________________

Ismael Nery
O Encontro (1928)
...

Poema da amante


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Poema da amante
Poesia dell’amante


Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.
Io ti amo
Prima e dopo ogni accadimento
Nella profonda vastità del vuoto
E ad ogni lacrima dei miei pensieri.

Io ti amo
In tutti i venti che cantano,
In tutte le ombre piangenti,
Nella durata infinita del tempo
Fino al paese ove i silenzi vivono.

Io ti amo
in tutte le mutazioni della vita,
In tutti i sentieri della paura
Nell’affanno della volontà perduta
E nel dolore che di nascosto s’indossa.

Io ti amo
In tutto ciò in cui sei presente,
Nello sguardo degli astri che ti avvistano
E in tutto ciò da cui sei ancora assente.

Io ti amo
Sino dalla creazione delle acque,
sino dall’idea del fuoco
E prima del primo riso e della prima pena.

Io ti amo perdutamente
A partire dalla grande nebulosa
Fino a dopo che l’universo sarà caduto su di me
Dolcemente.
________________

Vassily Kandinsky
Curva dominante (1936)
...

Pobreza


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Pobreza
Povertà


O manto de linho tecido para a minha infância
Ao lavá-lo ao rio
A corrente o levou.

O manto de seda tecido para a minha adolescência
Ao mostrá-lo ao sol
O vento o levou.

O manto de lã tecido para a minha morte
Ao aquecê-lo ao fogo
A chama o queimou.
Il manto di lino tessuto per la mia infanzia
Venne lavato al fiume
E la corrente lo portò via.

Il manto di seta tessuto per la mia adolescência
Venne esposto al sole
E il vento lo portò via.

Il manto di lana tessuto per la mia morte
Venne scaldato al fuoco
E la fiamma lo bruciò.
________________

Giuseppe Pelizza da Volpedo
Panni al sole (1894-1895)
...

Liberdade…



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Liberdade…
Libertà…


Liberdade. Será que a posso amar
Se nunca aprendi a perdê-la?
Não posso dizer que a liberdade
Seja a ave, quase ponto indefinido, no céu...
Ou um vento anárquico que remexe nas árvores...
Não posso dizer sequer Liberdade
(Palavra de arestas tão gastas)
Porque nem sequer a sei dizer, 
Dizer verdadeiramente – Liberdade!
Liberdade, será que te posso conhecer,
Será que te posso amar
Se nunca te perdi? 
Libertà. Come la posso amare
Se mai ho appreso a perderla?
Non posso affermare che la libertà
Sia un uccello, punto quasi indistinto, in cielo...
O un vento anarchico che infuria tra gli alberi...
Non posso neanche dire Libertà
(Parola dai contorni consumati)
Perché non so nemmeno dirla, 
Dire consapevolmente – Libertà!
Libertà, come posso conoscerti,
Come ti posso amare
Se non t’ho mai perduta?
________________

Frederico Draw
25 de Abril (Mural em Lisboa) (2019)
...

O inevitável


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O inevitável
L’ineluttabile


A consciência do fim crava-se em minha fronte indiferente
E o silêncio pousa como ave cansada
Sobre as pálpebras e a minha língua, docemente.

Meus gestos lentos mergulham em neblina de morte,
No sigilo e na treva da noite infindável
Sem pedir a graça do bem ou temer o mal da sorte.

Vozes do mar, gemidos do vento
Caem como soluços humanos
Na quietude dos meus pensamentos.

Meus olhos vêem a angústia que habita o imenso do
 horizonte,
Que dorme na copa das árvores,
Deita-se nas águas dos rios e borbulha na boca das
 fontes.

Do ilimitado do universo um canto poderoso
Estanca meus movimentos e para meus desejos
E novamente cai sobre mim um vácuo eterno e tenebroso.
La coscienza della fine s’infigge sulla mia fronte indifferente
E il silenzio si posa come un uccello stanco
Sulle mie palpebre e sulla lingua, dolcemente.

I miei gesti lenti affondano nella nebbia della morte,
Nel segreto e nella tenebra della notte infinita
Senza chiedere la grazia del bene o temere la malasorte.

Voci del mare, gemiti del vento
Cadono come singhiozzi umani
Nella tranquillità dei miei pensieri.

I miei occhi vedono l’angoscia che abita la vastità
 dell’orizzonte,
Che dorme nella chioma degli alberi,
Si stende sulle acque dei fiumi e gorgoglia sulla bocca delle
 fonti.

Dall’immensità dell’universo un canto poderoso
Blocca i miei movimenti e frena le mie brame
E nuovamente cade su di me un vuoto eterno e tenebroso.
________________

Francesco Laurana
Eleonora D'Aragona (1468)
...

Eu em ti


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Eu em ti
Io in te


Desejaria estar contigo
quando eras no pensamento de Deus,
Quando tua mãe te concebeu
e te alimentou com sua vida

Desejaria estar contigo na primeira vez
que distinguiste as formas, as cores e os sons.
Na tua primeira lágrima eu quisera estar contigo
e assim na tua primeira alegria.

Desejaria estar contigo na tua infância e na tua
 adolescência,
acompanhando as transformações do teu físico.
Ao teu lado desejaria estar quando, do teu corpo,
constataste as primeiras células reprodutoras.

No teu primeiro pudor e no teu primeiro carinho, eu
 quisera estar a teu lado.
Desejaria estar contigo na noite de tuas núpcias
e no momento em que te uniste a outra mulher
com o pensamento no teu primeiro filho.

Desejaria estar contigo no primeiro vestígio de tua velhice
E ainda desejaria estar contigo no momento da separação
 de tua alma,
Na decomposição de tuas carnes, do teu cérebro, de tua
 boca, do teu sexo,
Para poder continuar contigo, no mundo sem espaço e
 sem tempo.
Vorrei esserti accanto
ai tempi in cui eri nel pensiero di Dio,
Quando tua madre ti concepì
e ti nutrì con la sua vita.

Vorrei esserti accanto la prima volta
che hai distinto le forme, i colori e i suoni.
Alla tua prima lacrima vorrei esserti accanto
e anche alla tua prima gioia.

Vorrei esserti accanto nella tua infanzia e nella tua
 adolescenza,
seguendo le trasformazioni del tuo fisico.
Al tuo lato vorrei essere quando, del tuo corpo,
hai scoperto le prime cellule riproduttrici.

Al tuo primo pudore e alla tua prima carezza vorrei
 stare al tuo lato.
Vorrei esserti accanto nella notte delle tue nozze
e nel momento in cui ti unisti a un’altra donna
pensando già al tuo primo figlio.

Vorrei esserti accanto al primo indizio della tua vecchiaia
E ancora vorrei esserti accanto nel momento della
 separazione della tua anima,
Nella decomposizione della tua carne, del tuo cervello,
 della tua bocca, del tuo sesso,
Per poter continuare con te, nel mondo senza spazio e
 senza tempo.
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Coperchio di sarcofago etrusco (IV sec. a.C.)
Museo Archeologico di Firenze
...

Estigma


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Estigma
Stigma


Não receio que partas para longe,
Que faças por fugir, por te livrares
Da força da minha voz
E da compreensão do meu olhar.
Não temo que os mares te levem
No bojo dos transatlânticos
Nem tampouco me amedronta
Que em possantes aviões
No céu e na terra,
Em todos os seres me encontrarás
Cortes espaços sem conta.
Serena ficarei se disseres
Que na certa me olvidarás
No ventre da mata virgem,
Nas areias dos desertos
Ou no amor de outras mulheres que terás.
Não importa.
Nada temo e desejo mesmo que o faças
Para que saibas o quanto estou em teus sentidos
E que a minha forma, o meu espírito
Jamais da tua existência passa.
Se fugires pelos mares
Tu me veras na espuma leve da onda,
Me sentiras no colorido de um peixe
E a minha voz escutaras dentro de uma concha.
Se partires pelos ares,
Certamente na brancura de uma nuvem
Tu sentirás a maciez e a alvura
Das minhas carnes.
Se fores para a floresta
Hás de me ver
Na árvore mais florida e harmoniosa.
Atravessando areias cálidas do deserto
Sei que trocarias o lenitivo de um oásis
Pela certeza de me teres perto.
E nas mulheres que encontrares,
Dos seios o perfume, das nucas a palidez,
Das ancas as curvas
E das peles a cor e a tepidez,
Fica certo, não te evadirás.
Porque desde a tua sombra
Ao teu mais rápido pensamento
Não serás livre de mim
Num um momento.
Non temo che tu te ne vada lontano,
che tenti di fuggire, per liberarti
della forza della mia voce
e della clemenza del mio sguardo.
Non ho paura che i mari ti rapiscano
nel ventre dei transatlantici
né tanto meno mi spaventa
saperti in potenti aeroplani
in cielo e in terra,
in ogni essere m’incontrerai
pur se interponi spazi enormi.
Resterò serena se dirai
che di certo mi scorderai
nel cuore della foresta vergine,
fra le sabbie dei deserti
o nell’amore di altre donne che avrai.
Non importa.
Nulla temo e anzi voglio che lo faccia
perché tu sappia come sono presente nei tuoi sensi
e che la mia essenza, il mio spirito
mai dalla tua esistenza si stacca.
Se fuggirai per mare
tu mi vedrai nella spuma lieve dell’onda,
mi sentirai nei colori di un pesce
e la mia voce ascolterai in una conchiglia.
Se te ne andrai per i cieli,
di certo nel candore di una nuvola
tu rivivrai la morbidezza e il biancore
delle mie carni.
Se riparerai nella foresta
finirai per vedermi
nell’albero più fiorito e armonioso.
Attraversando le calde sabbie del deserto
so che baratteresti la freschezza di un’oasi
con la certezza di tenermi accanto.
E nelle donne che incontrerai,
dei seni il profumo, delle nuche il pallore,
delle anche le curve
e della pelle il colore e il tepore,
stai certo, non ti sfuggirà.
Perché a partire dalla tua ombra
fino al tuo pensiero più fuggente
non sarai libero di me
neppure un solo istante.
________________

Chiara Enzo
Nuca (2021)
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Escombros


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Escombros
Macerie


Caída no espaço, por todo o eterno momento,
Sem projetos, sem desejos,
Sem o menor ideal, sem o mínimo pensamento,
Sem o prazer de ouvir,
Sem o ímpeto de amparar,
Sem o hábito de rir
E a tendência de chorar,
Com a memória na ausência
De todo o mal, todo o bem,
De qualquer reminiscência,
Sem o sol atravessar
A fímbria das minhas pálpebras
Para as cores devassar,
Queimando meu espírito no tédio
E pousada em minha testa a consciência do fim,
Sem solução, sem remédio,
Eis tudo o que resta de mim.
Caduta nello spazio, per tutto l’eterno momento,
Senza progetti, senza desideri,
Senza il minimo ideale, né il minor convincimento,
Senza la gioia di udire,
Senza lo slancio d’aiutare,
Senza l’abitudine di ridere
E la tendenza a piangere,
Con la memoria all’assenza
Di ogni male e di ogni bene,
Di una qualunque reminiscenza,
Senza che il sole penetrasse
Nella fessura delle mie palpebre
Per dar rilievo ai colori,
Consumando il mio spirito nel tedio
E posando sulla mia fronte la coscienza della fine,
Senza soluzione, senza rimedio,
Ecco tutto ciò che di me rimane.
________________

Anselm Kiefer
La caduta dell'angelo (2023)
...

A poesia se esfrega nos seres e nas cousas


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A poesia se esfrega nos seres e nas cousas
La poesia si strofina negli esseri e nelle cose


Nunca sentiste uma força melodiosa
Cercando tudo o que teus olhos vêem,
Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa
Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres
 bem?

Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas
Deparando com um campo devoluto
Semelhante a uma viagem esquecida?

Num circo, nunca se apoderou de ti um amargor sutil
Vendo animais amestrados
E logo depois te mostrarem
Seres humanos imitando um réptil?

Nunca reparaste na beleza de uma estrada
Cortando as carnes do solo
Para unir carinhosamente
Todos os homens, de um a outro pólo?

Nunca te empolgaste diante de um avião,
Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,
Ou de qualquer outra invenção?

Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho
 do dia
Ao mistério da noite,
Na extensão da tua dor
E na delícia da tua alegria?

Pois então, faz de teus olhos o cume da mais alta
 montanha
Para que vejas com toda a amplitude
A grandeza infindável da poesia que não percebes
E que é tamanha
Hai mai sentito un’energia melodiosa
Avvolgere tutto ciò che vedono i tuoi occhi,
Un misto di tristezza in un natura grandiosa
O un grido di gioia nella morte d’un essere a cui vuoi
 bene?

Hai mai provato nostalgia per l’essenza di cose perdute
Imbattendoti in un campo desolato
Simile a uno già visto in un viaggio dimenticato?

In un circo, non t’ha mai colto un’amarezza sottile
Nel vedere animali ammaestrati
E subito dopo l’esibizione
D’esseri umani intenti ad imitare un rettile?

Hai mai notato la bellezza di una strada
Che incide la carne del terreno
Per unire amorevolmente
Tutti gli uomini da uno all’altro polo?

Ti sei mai esaltato davanti a un aeroplano,
Nel vedere una locomotiva, la chiglia d’una nave,
O qualunque altra invenzione?

Hai mai sentito questa forza circondarti dal sorgere
 del giorno
Al mistero della notte,
Nell’intensità del tuo dolore
E nella delizia della tua allegria?

E dunque, fai dei tuoi occhi la vetta della montagna
 più alta
Affinché tu veda in tutta la sua vastità
L’infinita grandezza della poesia che tu non avverti
E che è smisurata
________________

Marc Chagall
Circus (1967)
...

A mulher dentro da noite


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A mulher dentro da noite
La donna nel cuore della notte


Foge do seio da noite
Um perfume mais penetrante, mais forte,
Mais ácido e insinuante
Do que o das flores nascidas da morte.

Cai de dentro das estrelas tranqüilas
Uma luz tão cintilante
Vazando as minhas pupilas
Que chego a pensar contente que o fim não está mui
 distante.

Passam roçando meu rosto,
fatigados, os últimos ventos
E deles meus ouvidos tiram
Cânticos e lamentos.

É o momento em que as pastagens do deserto são
 regadas pela lua
E as colinas se adornam de alegria,
É o instante em que meu espírito deixa que sobre meu
 corpo influa
A sensação do nada e o tudo da poesia.
Sfugge dal cuore della notte
Un profumo più penetrante, più forte,
Più acido e insinuante
Di quello dei fiori sbocciati dalla morte.

Cade dal cuore delle stelle tranquille
Una luce così scintillante
Da svuotarmi le pupille
Ed io giungo a pensare contenta che la fine non sia molto
 distante.

Passano sfiorandomi il volto,
esausti, gli ultimi venti
E in essi i miei orecchi colgono
Cantici e lamenti.

È il momento in cui i pascoli del deserto sono irrorati
 dalla luna
E le colline s’adornano d’allegria,
È l’istante in cui il mio spirito fa sì che il mio corpo
 sia pervaso
Dal sentimento del nulla e del tutto della poesia.
________________

Paul Klee
Luna piena (1919)
...

Poema ao Silêncio


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As Fronteiras da Quarta Dimensão (1952) »»
 
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Poema ao Silêncio
Poesia al silenzio


Silêncio, cobre meu pensamento e o meu coração
Cobre o meu corpo do desejo dos homens
E a minha sombra da luz do sol
Cobre a te a lembrança dos meus passos
E o som da minha voz

Cobre a minha caridade e a minha fé
A vontade de morrer e também a de viver
Estende-te sobre o colorido das paisagens
Interpõe-te na minha respiração e no meu pestanejar
Cobre-me desde o início da minha concepção

Enrola-te no duplo de mim mesma
Transforma-me em fragmento de ti próprio,
Penetra no meu principio e no meu fim,
Cobre-me bem, com tanta amplitude e intensidade
Que possa eu ser esquecida
E me esquecer por toda a eternidade!
Silenzio, proteggi il mio pensiero e il mio cuore
Proteggi il mio corpo dal desiderio degli uomini
E la mia ombra dalla luce del sole
Vorrei che tu ti ricordassi dei miei passi
E del suono della mia voce

Proteggi la mia pietà e la mia fede
La voglia di morire e anche quella di vivere
Stenditi sopra i colori dei paesaggi
Elevati tra il mio respiro e il mio esitare
Proteggimi fin dall’inizio del mio concepimento

Avvolgiti sulle pieghe di me stessa
Trasformami in un frammento di te
Penetra nel mio principio e nella mia fine,
Proteggimi bene con tanta grandezza e intensità
Che io possa essere scordata
E me stessa scordare per tutta l’eternità!
________________

Helene Schjerfbeck
Autoritratto (1915)
...

On the road com Kerouac



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nunorochamorais.blogspot.com (aprile 2026) »»
 
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On the road com Kerouac
On the road con Kerouac


Nada mais do que a batida
De um saxofone pela estrada
Interior. A América cresce
Ao ritmo da voz negra
De um branco numa sala traseira.
A estrada protege-nos o rosto,
Afinal é o ponto da perda,
O lugar onde tudo se reflecte
No espectro dos pássaros da tarde.
Droga-te com estas palavras
Que roçam o asfalto da vida.
A loucura é o nível mais alto
Do mundo a curva de um trópico
Rumo à Terra do Fogo:
Burn, burn, burn
Like fabulous yellow roman candles
Exploding like spiders across the stars.

E arder não é mais do que uma pradaria
Soprada pelo sol da noite que floresce.
A estrada segue sobre rodas
Em direcção ao inferno, uma densa 
Eternidade amortalhada penetra
Na boca em transe, suspensa
Na limpidez de um grito harmónico.
O Mississippi lava a América,
O seu corpo em carne viva. Agora
A estrada é água, cola-se à transparência
E move-se por entre um barco que voa
Na crescente ausência do espaço.
Assim se atravessa a eternidade,
Na dissolução do Grande Golfo da Noite,
Nos quilómetros desolados da paisagem,
Nos espaços azuis rasgados pelo céu,
Como se a página fosse o Vale do Mundo.
Estremece-se com a intuição do tempo
Ao receber o mundo em bruto. A nudez.
O lugar comum, but no matter,
The road is life.

Nunca se morre o suficiente
Para se poder chorar, dirias,
Guardando a vida na mão como um bocado de lixo.
Das borboletas ainda brotam nuvens,
Afinal é possível que a poeira suba até às estrelas
Que trespassam a escuridão.
Lonely as America,
A throatpierced sound in the night:

A tua solidão explode com o som entrecortado
Do saxofone borbulhando ondas
De música brutal. A estrada do som
A estrada dos santos,
A estrada dos doidos,
A estrada do arco-íris,
A estrada interminável,
Um demoníaco reflexo da noite negra
No asfalto. Os sonhos terminam,
O mundo espraia-se, trémulo,
Palpita pela estrada fora,
É a ira que chega à velha dança.
Um rochedo explode em flor, o abismo oscila
Ao mais pequeno toque,
É um precipício seráfico e frenético.
Tudo vibra, a grande serpente emerge
Na imobilidade dos gestos,
Um insecto sai da tarde americana
Picando a realidade, a estrada está prestes
A sair da América, de toda essa terra bruta
De pessoas dispersas na imensidão.
No regresso, resta apenas
Percorrer a virgindade da berma.
Nient’altro che il ritmo
D’un sassofono lungo la strada
Interna. L’America cresce 
Al ritmo della voce nera
D’un bianco in una stanza sul retro.
La strada ci protegge il volto,
Dopotutto è il punto della perdita,
Il luogo in cui tutto si riflette
Nello spettro degli uccelli della sera.
Lasciati esaltare da queste parole
Che sfiorano l'asfalto della vita.
La follia è il livello più alto
Del mondo, la curva d’un tropico
Verso la Terra del Fuoco:
Burn, burn, burn
Like fabulous yellow roman candles
Exploding like spiders across the stars.

E bruciare non è altro che una prateria
Investita dal sole della notte che fiorisce.
La strada prosegue sulle ruote
Diretta verso l’inferno, avvolta nel sudario
Una densa eternità penetra
Nella bocca in estasi, sospesa
Nel nitore d’un grido armonioso.
Il Mississippi lava l’America,
Il suo corpo è una ferita aperta. Ora
La strada è acqua, s’aggrappa alla trasparenza
E s’insinua dentro una barca volante
Nella crescente assenza di spazio.
Così si attraversa l’eternità,
Nella dissoluzione del Grande Golfo della Notte,
Nei desolati chilometri di paesaggi,
Negli spazi blu solcati lungo il cielo,
Come se la pagina fosse la Valle del Mondo.
Si sussulta nell’intuire il tempo
Nel ricevere il mondo allo stato puro. La nudità.
Il luogo comune, but no matter,
The road is life.

Non si muore mai abbastanza
Per potersi piangere, diresti tu,
Celando la vita nella mano come fosse immondizia.
Dalle farfalle ancora sbocciano nuvole,
Dopotutto è possibile che la polvere salga alle stelle
Che attraversano l’oscurità.
Lonely as America,
A throatpierced sound in the night:

La tua solitudine esplode col suono singhiozzante
Del sassofono che fa ribollire ondate
Di musica brutale. La strada del suono
La strada dei santi,
La strada dei folli,
La strada dell’arcobaleno,
La strada interminabile,
Un demoniaco riflesso della notte nera
Sull’asfalto. I sogni finiscono,
Il mondo s’espande, tremante,
Palpita per tutta la strada,
È la collera che riprende la vecchia danza.
Una roccia esplode in mille fiori, l’abisso oscilla
Al minimo tocco,
È un precipizio serafico e frenetico.
Tutto vibra, il grande serpente emerge
Nell’immobilità dei gesti,
Un insetto esce dal pomeriggio americano
Pungendo la realtà, la strada è pronta
Ad uscire dall’America, da tutta questa terra selvaggia
Di persone sparse nella vastità.
Al ritorno, non resta che
Percorrere la purezza della berma.
________________

Grant Haffner
Neon Sunset (2015)
...

Paisagem


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Cantos da Angústia (1948) »»
 
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Paisagem
Paesaggio


Restam nos meus olhos
Séculos de planícies áridas
E o vento ríspido que trouxe as lamentações
Das sombras agitadas
Sobre os pântanos desconhecidos.
Distantes estão os caminhos
Onde eu encontraria a suprema fraqueza
Para vergar os meus joelhos
E deitar no pó a minha boca moribunda.
Invisíveis estão as estrelas
Que me levariam a contemplar os céus abençoados.
E só espaços sem medida
Onde a música da noite
É livre sobre os pensamentos em sono.
Desconhecida para mim a praia onde eu me deitaria
De olhos cerrados e sentiria
O último movimento da onda
Balançar os meus pés
Como as algas sem direção.
Como os detritos rejeitados pela pureza do mar.
Restam dentro da minha sombra
Fragmentos de agitações de outras vidas
Plantadas no meu grito de revolta
Que eu não libertarei
Até que no deserto universal
A flor de um cardo movimente
A paisagem silenciosa.
Albergano nei miei occhi
Secoli di aride pianure
E il vento rude che trasportò i lamenti
Delle ombre inquiete
Sopra le paludi sconosciute.
Distanti sono i sentieri
Ove io potrò con estrema stanchezza
Piegare le mie ginocchia
E posare sulla polvere la mia bocca moribonda.
Invisibili sono le stelle
Che mi porterebbero a contemplare i cieli beati.
E solamente spazi smisurati
Là dove la musica della notte
Si libra sopra i pensieri addormentati.
A me ignota la spiaggia ove potrei distendermi
Ad occhi chiusi e sentirei
L’ultimo movimento dell’onda
Cullare i miei piedi
Come le alghe fluttuanti qua e là.
Come i detriti respinti dalla purezza del mare.
Rimangono dentro la mia ombra
Frammenti di conflitti d’altre vite
Piantati nel mio grido di rivolta
Che io non emetterò
Finché nel deserto universale
Ci sarà un fior di cardo ad animare
Il paesaggio silente.
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Edvard Munch
Giovane donna sulla spiaggia (1896)
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Mistérios


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Collezione:
 
Altra traduzione:
Adalgisa Nery »»
 
Cantos da Angústia (1948) »»
 
Francese »»
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Mistérios
Misteri


Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.
Ci son voci nella notte che chiedono di me,
Ci son voci nelle fonti che gridano il mio nome.
La mia anima tende le orecchie
E la mia memoria scende agli abissi oscuri
In cerca di chi chiama.
Ci son voci che corrono nel vento chiedendo di me.
Ci son voci sotto le pietre che gemono il mio nome
Ed io guardo gli alberi tranquilli
E le montagne impassibili
In cerca di chi chiama.
Ci son voci sulla bocca delle rose che cantano il mio nome
E le onde s’infrangono sulle spiagge
Lanciando esauste un grido per me
E i miei occhi si volgono verso il ricordo del paradiso
Per sapere chi chiama.
Ci son voci nei corpi senza vita,
Ci son voci lungo il mio cammino,
Ci son voci nel sonno dei miei figli
E il mio pensiero come un fulmine sfreccia
Oltre il limite della mia esistenza
Nell’ansia di sapere chi sta gridando.
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Edvard Munch
Malinconia II (1898)
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