O que por ilusão…



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O que por ilusão…
Ciò che per inganno…


O que por ilusão dissemos pertencer-nos
Enleou-se em nós, como canto de sereia,
Induziu-nos a uma espécie de estase
Que confundimos com permanência.
E, no entanto, agora tudo é um passado
Que reconhecemos passado de mão em mão,
Quanto nos pertenceu apenas emprestado,
Algo de outros e que será de outros,
Sem marca alguma de ter sido nosso.
Ciò che per inganno abbiamo detto appartenerci
S’è avviluppato in noi, come un canto di sirena,
Ci ha indotti ad una sorta di stasi
Che abbiamo scambiato per permanenza.
E, comunque, ora tutto è passato
Un passato ch’è passato di mano in mano,
Quanto ci è appartenuto era solo prestato,
Cosa d’altri e che ad altri apparterrà,
Senza prova alcuna che sia stato nostro.
________________

Marc Chagall
Baia degli Angeli (1962)
...

A Desobediência Castigada


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O Decote da Dama de Espadas (1988) »»
 
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A Desobediência Castigada
La disubbidienza castigata


Não foi culpa minha
se caí na selha e se meu irmão
correu para dentro a chamar
o criado que a mana estava
a molhar os vestidos quando eu
estava mas era a afogar-me
não foi culpa minha
se desobedeci a minha mãe
por sem sua licença passar a ferro
o vestido azul da boneca e assim
fazer no pulso com o ferro em brasa
uma queimadura rubra e sépia
como uma pétala de rosa macerada
que escondi com um lenço que anda
a menina a esconder com o seu lenço
nada minha mãe nada é uma arranhadela
que o gato arranhou por o não querer largar eu
não foi culpa minha
se a criada esqueceu a porta das traseiras
aberta e eu tropecei no degrau
e caí no lajedo e parti a cabeça
para ainda hoje trazer na testa
uma cicatriz que disfarço
com uma madeixa de cabelo
não foi culpa minha
se porém sempre por desobediência
minha mãe me privou da sobremesa
Non fu colpa mia
se caddi nel mastello e se mio fratello
corse dentro a chiamare
il servo ché sua sorella si stava
bagnando i vestiti mentre io
più che bagnarmi stavo per affogare
non fu colpa mia
se disubbidii a mia madre
per aver stirato col ferro senza permesso
il vestito blu della bambola e così
essermi fatta sul polso col ferro rovente
una bruciatura rossa e seppia
come un petalo di rosa macerata
che nascosi con un fazzoletto che la bimba
tenta di nascondere con il suo fazzoletto
niente, madre mia, niente è un graffietto
ché il gatto mi ha graffiato perché non lo lasciavo
non fu colpa mia
se la cameriera lasciò aperta la porta
posteriore e io inciampai nel gradino
e caddi sul lastricato e mi ruppi la testa
sicché ancor oggi reco in fronte
una cicatrice che copro
con una ciocca di capelli
non fu colpa mia
se tuttavia per quella disubbidienza
mia madre mi lasciò senza dolce
________________

Giovanni Boldini
Ragazza con gatto nero (1885)
...

Quadra já antiga


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A Pão e Água de Colónia (1987) »»
 
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Quadra já antiga
Quartina ormai vecchia


A rapariga que esperava muito
as cartas do namorado
que lhe escrevia muito pouco
casou-se com o carteiro
La ragazza che tanto aspettava
le lettere dell’innamorato
che le scriveva assai poco
si sposò con il postino
________________

J.P. Hall
Il postino di campagna (1859)
...

Minha avó e minha mãe…


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Minha avó e minha mãe…
Mia nonna e mia madre…


Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim

uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficámos porém umas com as outras
para não arranjar complicações
Mia nonna e mia madre
le ho perse di vista in un grande magazzino
mentre facevano acquisti di Natale
oggi io stessa lavoro per quel magazzino
che a sua volta si è preso cura di me

una nonna e una madre mi erano state
frattanto riportate
ma non erano affatto le mie
tuttavia restammo le une con le altre
per non creare complicazioni
________________

Dio Marvelouis Mulyadi
Busy Shopping Mall (2009)
...

Aproveitaram a esperada ausência…


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Aproveitaram a esperada ausência…
Approfittarono dell’agognata assenza…


Aproveitaram a esperada
ausência das tias
para a sete chaves
se fecharem no quarto
mais húmido da casa
aí a sete chaves
elas fizeram-se comer uma à outra
bombons
Approfittarono dell’agognata
assenza delle zie
per chiudersi
a sette chiavi nella stanza
più umida della casa
lì chiuse a sette chiavi
esse s’abbuffarono scambiandosi
caramelle
________________

Kurt Schwitters
Merzz. 53. rotes bonbon (1920)
...

Para um Vil Criminoso


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Para um Vil Criminoso
Per un vile criminale


Fizeste-me mil maldades
e uma maldade muito grande
que não se faz
acho que devo ter sido a pessoa
a quem fizeste mais maldades
nem deves ter feito a ninguém
uma maldade tão grande
como a que me fizeste a mim
não sei se tens remorsos
tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também sou uma vil criminosa
mas não para ti
desconfio que tens o remorso
de ter alguns remorsos
por me teres feito mil maldades
e uma maldade muito grande
a maldade muito grande está feita
e não se faz
acho que essa maldade muito grande
nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe
M’hai fatto mille cattiverie
e una cattiveria molto brutta
che non si deve fare
penso d’essere stata la persona
a cui hai fatto più cattiverie
e che non devi aver fatto a nessuno
una cattiveria così brutta
come quella che hai fatto a me
non so se hai dei rimorsi
tu dici di non provare alcun rimorso
perché dici di essere un vile criminale
per me
anch’io sono una vile criminale
ma non per te
sospetto che tu provi rimorso
per aver provato dei rimorsi
per avermi fatto mille cattiverie
e una cattiveria molto brutta
la cattiveria molto brutta ormai è fatta
e non si fa
penso che questa cattiveria molto brutta
ci abbia avvicinato l’una all'altro
invece di allontanarci
ma per me è un drôle de chemin
e dev’essere così anche per te
ma con un vile criminale non si sa mai
________________

Wifredo Lam
Senza titolo (1960)
...

O presente


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O presente
Il regalo


Vou-te dar um presente
eu gosto de presentes
é uma caixa de jóias
é tão bonita
dentro está um anel com uma pedra preciosa
porque é tão grande?
toma cuidado
dentro está um anel com uma pedra preciosa
mas talvez nunca o chegues a pôr no dedo
na caixa está uma serpente
para pegares no anel tens de abrir a caixa
se abrires a caixa a serpente pode picar-te o dedo
e tu podes morrer
se não abrires a caixa
Voglio farti un regalo
mi piacciono i regali
è uno scrigno di gioielli
è proprio bello
dentro c’è un anello con una pietra preziosa
ma perché è così grande?
stai attento
dentro c’è un anello con una pietra preziosa
ma forse non riuscirai mai a mettervi un dito
nello scrigno c’è un serpente
per prendere l’anello devi aprire lo scrigno
se apri lo scrigno il serpente può morderti il dito
e tu puoi morire
se non apri lo scrigno
________________

Kelly Louise Judd
Ouroboros (2021)
...

Com o fogo não se brinca…


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Com o fogo não se brinca…
Non si scherza col fuoco…


Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo
Non si scherza col fuoco
perché il fuoco brucia
col fuoco che arde senza che lo si veda
si deve scherzare ancor meno
che col fuoco che fa fumo perché
il fuoco che arde senza che lo si veda
è un fuoco che brucia
molto
e dato che brucia molto
è più difficile
da spegnere
del fuoco che fa fumo
________________

Enrico Baj
Al fuoco! Al fuoco! (1963)
...

Dizes…



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Dizes…
Tu dici…


Dizes:
“Oxalá as cerejas fossem como os morangos silvestres”,
e o mundo abre-se em dois cachos
pendurados na alegria,
com os caroços da atenção
deitados fora pelo vermelho.
Dizes dos morangos
como se diria da dor
de os partilhar, selvagens.
Dizes da loucura silvestre
dos lábios percorridos 
pelo sumo agreste
da fusão das cores.
Esqueces-te, porém, que as cerejas
terminam o difícil trabalho
de serem felizes
no dia que agora se encerra.
Tu dici:
“Se almeno le ciliegie fossero come le fragole di bosco”,
e il mondo si dischiude in due grappoli
sospesi alla gioia,
con i noccioli dell’attenzione
messi in risalto dal rosso.
Parli delle fragole
come se parlassi del dolore
di condividerle, selvatiche.
Parli della follia silvestre
di labbra inondate 
dal succo agreste
della fusione dei colori.
Ti scordi, però, che le ciliegie
portano a termine il difficile compito
d’essere felici
nel giorno che ora sta per finire.
________________

Osias Beert
Natura morta con ciliegie e fragole (1608)
...

Arte Poética


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Arte Poética
Arte Poetica


Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer
Scrivere una poesia
è come prendere un pesce
con le mani
non ho mai pescato così un pesce
ma so di poter dire così
so che non tutto ciò che viene alle mani
è un pesce
il pesce si dibatte
tenta di sfuggire
sfugge
io insisto
lotto corpo a corpo
con il pesce
o moriremo entrambi
o entrambi ci salviamo
devo stare attenta
ho paura di non arrivare alla fine
è una questione di vita o di morte
quando arrivo alla fine
scopro che occorreva afferrare il pesce
per liberarmi del pesce
mi libero del pesce con un sollievo
che non so descrivere
________________

Henri Matisse
Pesci rossi (1911)
...

A propósito de estrelas


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A propósito de estrelas
A proposito di stelle


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas
Non so se m’interessai a quel ragazzo
perché lui s’interessava alle stelle
se m’interessai alle stelle per interessarmi
di quel ragazzo oggi quando penso al ragazzo
penso alle stelle e quando penso alle stelle
penso al ragazzo e mi pare anche
che mi dedicherò alle stelle
fino alla fine dei miei giorni mi pare che
non smetterò d’interessarmi a quel ragazzo
fino alla fine dei miei giorni
non saprò mai se m’interesso alle stelle
se m’interesso a quel ragazzo che s’interessa
alle stelle ormai più non ricordo
se vidi per prime le stelle
se vidi prima quel ragazzo
se quando vidi il ragazzo vidi le stelle
________________

Jan Matejko
L'astronomo Niccolò Copernico, o Conversazione con Dio (1872)
...

Sugestões


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Sugestões
Suggestioni


A chuva cai sobre as folhas
Enquanto o vento dobra a intenção das flores
O hálito da terra molhada
Avoluma sugestões no pensamento
Desenha na penumbra da memória
Restos de século, sonhos partidos
E imprecisas causas de sofrimento.
A chuva traz para o meu corpo
O vestido de uma mulher sem nome
Sepultada numa hora sem fixação.
O vento penteia meus cabelos
Com a forma dos ninhos em abandono
Olho o céu intumescido de tristeza
E reconheço que uma forma surgindo na neblina
Tem os meus ombros e o contorno da minha cabeça
Ouço o vento regressando das infâncias esquecidas
Trazendo as cantigas de roda
Contando as histórias de fadas
Quando a minha voz
Era a voz de menina.
Eu sinto a chuva cair com volúpia
Sobre o solo agradecido
E o vento levar para as distâncias novamente
Fragmentos de muitas vidas
E a evasão dos meus pensamentos.
La pioggia cade sulle foglie
Mentre il vento piega la volontà dei fiori
L’alito della terra bagnata
Riempie di suggestioni i pensieri
Disegna nella penombra della memoria
Resti di secolo, sogni infranti
E imprecisate cause di sofferenza.
La pioggia consegna al mio corpo
L’abito di una donna senza nome
Sepolta in un tempo imprecisato.
Il vento pettina i miei capelli
Dando la forma di nidi in abbandono
Scruto il cielo rigonfio di tristezza
E riconosco una forma che emerge dalla nebbia
Che ha le mie spalle e il contorno della mia testa
Sento il vento che ritorna da infanzie scordate
Recando con sé le filastrocche
E il racconto di storie di fate
Quando la mia voce
Era la voce d’una bimba.
Sento la pioggia cadere con voluttà
Sul suolo riconoscente
E il vento portare lontano nuovamente
Frammenti di molte vite
E l’evasione dai miei pensieri.
________________

Jeremy Mann
The last train (1929)
...

Poesia entre o cais e o hospital


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Poesia entre o cais e o hospital
Poesia tra il molo e l’ospedale


Geme no cais o navio cargueiro
No hospital ao lado, o homem enfermo.
O vento da noite recolhe gemidos
Une angústias do mundo ermo.
Maresia transborda do mar em cansaço,
Odor de remédios inunda o espaço.
Máquina e homem, ambos exaustos
Um, pela carga que pesa em seu bojo
Outro, na dor tomando o seu corpo.
Cais, hospital: Portos de espera
E começo de fim da longa viagem.
Chaminés de cargueiros gritando no mar,
Garganta do homem em gemidos no ar.
No fundo, o universo,
O mar infinito,
O céu infinito,
O espírito infinito.
Neblinados em tristezas e medos
Surgem silêncios entre os rochedos.
Chaminés de cargueiros gritando no mar
E a garganta do homem em gemidos no ar.
Geme al molo la nave mercantile
All’ospedale lì accanto, l’uomo infermo.
Il vento della notte raccoglie gemiti
Unisce angosce del mondo desolato.
Salsedine trabocca dal mare a riposo,
Odore di farmaci inonda lo spazio.
Macchina e uomo, ambedue esausti
Uno, per il carico che pesa nelle stive
L’altro, per il dolore che gli attanaglia il corpo.
Molo, ospedale: Porti d’attesa
E inizio della fine di un lungo viaggio.
Ciminiere di mercantili che gridano sul mare,
Gola dell’uomo che geme all’aria.
In fondo, l’universo,
Il mare infinito,
Il cielo infinito,
Lo spirito infinito.
Offuscati fra tristezze e timori
S’innalzano silenzi tra gli scogli.
Ciminiere di mercantili che gridano sul mare,
E la gola dell’uomo che geme all’aria.
________________

Miguel Freitas
Down by the River (2018)
...

Evolução


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Evolução
Evoluzione


Depois da vida outras mortes viverão
Trazendo o pólen dos silêncios insepultos
Nos ventos desatados pelos prantos.
Depois do amor outros cansaços se levantarão
Marcando as carnes gretadas pelo tédio
Na aparência de satisfação.
Depois da virgindade outros mercados surgirão
Vendendo os corpos fecundados
Sob o prazer, o asco e a exaustão.
Depois dos túmulos ficará o pó dos ossos
Cobrindo as imagens mutiladas
Pela consciência insone dos enfermos.
Depois da colheita outros frutos apodrecerão.
Outros rebanhos fugirão das pestes
E novas águas brotarão do solo novo
Removendo os universos tombados.
Depois do sono agitado da memória
Outras lembranças vestirão outros sentidos
Com o manto insistente do remorso
E com a palavra fatal da solidão.
Depois da invasão da alma outros massacres se
 repetirão
Em destinos de sangue e maldição
Cultivados em rancores dormidos.
Depois da morte outras vidas surgirão
Carregando consciências em angústia
Corpos de amores saturados
Olhos vazados em dores ancestrais
Vencendo os múltiplos limites do tempo
Que levam aos abismos das mortes reais.
Depois do vácuo
Outras vidas mortas nascerão.
Dopo la vita altre morti vivranno
Recando il polline dei silenzi insepolti
Nei venti scatenati dai lamenti.
Dopo l’amore altri fastidi sorgeranno
Segnando la carne screpolata dalla noia
Sotto l’apparenza dell’appagamento.
Dopo la verginità altri mercati nasceranno
Vendendo i corpi fecondati
Chi col piacere, chi col disgusto o allo stremo.
Dopo la sepoltura resterà la polvere degli ossi
A coprire le immagini mutilate
Dalla coscienza insonne dei malati.
Dopo il raccolto altri frutti marciranno.
Altre greggi fuggiranno dalla peste
E nuove acque sorgeranno dal suolo nuovo
Rimuovendo gli universi caduti.
Dopo il sonno agitato della memoria
Altri ricordi assumeranno altri significati
Con l’insistente cappa del rimorso
E con la parola fatale della solitudine.
Dopo l’invasione dell’anima, altri massacri si
 ripeteranno
In destini di sangue e maledizione
Covati in rancori sopiti.
Dopo la morte altre vite sorgeranno
recando in sé coscienze angosciate
Corpi saturi di amori
Occhi scavati da dolori ancestrali
Vincendo le molteplici soglie del tempo
Che portano agli abissi delle morti reali.
Dopo il vuoto
Altre vite morte nasceranno.
________________

Ruota della vita o ruota del Samsara
Monastero di Kopan, Kathmandu, (Nepal)
...

Do fim para o princípio


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Do fim para o princípio
Dalla fine al principio


Nada mais acontecerá
Porque tudo já aconteceu.
Amanhã é ontem e ontem é hoje.
Meu nascimento, minha vida,
Minha morte e meu julgamento
Já chegaram dentro de mim
Antes de chegar para todos.
Sei que ninguém mais nascerá,
Se alguém nasceu foi um instante
E os que vivem foram abafados
Antes de acabar como cosmos, como universo.
Em tudo e para tudo
o mundo já começou por acabar dentro de mim mesma.
Espero o princípio, porque o fim
Já está comigo desde a minha formação.
Niente più succederà
Perché tutto già è successo.
Domani è ieri e ieri è oggi.
La mia nascita, la mia vita,
La mia morte e il mio giudizio
Già dentro di me son giunti
Prima di giungere per tutti.
So che nessun altro nascerà,
Se qualcuno è nato, è stato per un attimo
E quelli che vivono sono stati soffocati
Prima di finire come cosmo, come universo.
In tutto e per tutto
il mondo ha già cominciato a finire dentro di me.
Aspetto il principio, perché la fine
Già mi sta accanto fin dalla mia creazione.
________________

Roberto Crippa
Spirali (1952-1953)
...

Distâncias perdidas


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Distâncias perdidas
Distanze perdute


Iluminados por luz que nasce na distância
E largados à vontade sem destino
Cavalgamos campos e relvados
Vazios de montes ou vales aguados.
A colheita de horizontes é farta
Mas inatingível para a fome de repouso.
No céu os mares sonolentos ou raivosos,
Na terra, do canto morto e irrevelado
Nascem braços como espigas ressecadas,
Na paisagem
Exuberante cresce a solidão
Sem deixar rastros da nossa passagem.
Illuminati da una luce che nasce in lontananza
E abbandonati a noi stessi senza nessuna meta
Cavalchiamo per campi e praterie
Prive di alture o di vallate umide.
Abbondante è il raccolto di orizzonti
Ma inarrivabile per la fame di quiete.
Nel cielo i mari sonnolenti o rabbiosi,
Sulla terra, dall’angolo morto e riposto
Nascono braccia come spighe disseccate,
Nel paesaggio
Esuberante cresce la solitudine
Senza che resti traccia del nostro passaggio.
________________

Félix Valloton
Tramonto (1911)
...

Vivência


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Erosão (1973) »»
 
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Vivência
Esistenza


Começamos a viver
Quando saímos do sono da existência,
Quando as distâncias se alongam nas partículas do corpo.

Começamos a viver
Quando confusos e sem consolo
Não sentimos os traços do irmão perdido.
Quando antes da força
Surge a sombra do insignificante.
Quando o sono é transformado em sonhos superados,
Quando o existir não é contradição.

Começamos a viver
Quando percebemos a mutação das células,
Quando fugimos de dentro de nós mesmos
E escondemos a nossa carne num caramujo oco.
Quando o espírito falsificado esquece
As tortuosas estradas
E quando deixamos de ser escaravelhos laboriosos.

Começamos a viver
Quando velamos além do sono
A vida irreal dos nossos passos.
Cominciamo a vivere
Quando usciamo dal sonno dell’esistenza,
Quando le distanze s’allungano nelle cellule del corpo.

Cominciamo a vivere
Quando confusi e sconsolati
Non distinguiamo le orme del fratello perduto.
Quando di fronte alla forza
Sorge l’ombra dell’insignificante.
Quando il sonno si trasforma in sogni superati,
Quando l’esistenza non è contraddizione.

Cominciamo a vivere
Quando avvertiamo la mutazione delle cellule,
Quando fuggiamo da dentro di noi stessi
E nascondiamo la nostra carne in un guscio vuoto.
Quando lo spirito contraffatto dimentica
Le strade tortuose
E quando smettiamo d’essere scarabei industriosi.

Cominciamo a vivere
Quando sorvegliamo al di là del sonno
La vita irreale dei nostri passi.
________________

Kazuko Shiihashi
Cobalt Blue Hill (2022)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (24) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (39) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (41) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (31) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (32) Nuno Rocha Morais (545) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (30) Poesie inedite (353) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (28) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (32) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)