Houve um poema...


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Houve um poema...
C’era una poesia...


houve um poema
que guiava a própria ambulância
e dizia: não lembro
de nenhum céu que me console,
nenhum,
e saía,
sirenes baixas,
recolhendo os restos das conversas,
das senhoras,
"para que nada se perca
ou se esqueça",
proverbial,
mesmo se ferido,
houve um poema
ambulante,
cruz vermelha
sonâmbula
que escapou-se
e foi-se
inesquecível,
irremediável,
ralo abaixo.
c’era una poesia
che guidava la propria ambulanza
e diceva: non mi ricordo
di nessun cielo che mi dia conforto,
nessuno,
e partiva,
a sirene basse,
raccogliendo gli avanzi dei discorsi,
delle signore,
“perché nulla vada perduto
o sia dimenticato”,
proverbiale,
benché ferita,
c’era una poesia
ambulante,
croce rossa
sonnambula
che si dileguò
e se ne andò
indimenticabile,
irrimediabile,
giù per lo scarico.
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Carlos Rosales Silva
Fiume (2021)
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Eu penso...


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Eu penso...
Io penso...


Eu penso
a face fraca do poema/ a metade na página
partida
Mas calo a face dura
flor apagada no sonho
Eu penso
A dor visível do poema/ a luz prévia
dividida
Mas calo a superfície negra
pânico iminente do nada.
Io penso
alla faccia debole della poesia/ la pagina a metà
stracciata
Ma ne taccio la faccia dura
fiore svanito nel sogno
Io penso
alla pena visibile della poesia/ la luce iniziale
ripartita
Ma ne taccio la nera superficie
incombente panico del nulla.
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Giuseppe Uncini
Materia bruta (1957)
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Contagem Regressiva


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Contagem Regressiva
Conto alla rovescia


Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três a quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
Credevo che se avessi amato di nuovo
avrei dimenticato per lo meno
gli altri tre o quattro volti che avevo amato
In un delirio di archivistica
ho strutturato la memoria in alfabeti
come chi contando le pecore si placa
però con la ferita aperta non dimentico
e in te amo gli altri volti
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Leonora Carrington
Ferret Race (1950-51)
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Como rasurar a paisagem


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Como rasurar a paisagem
Come depennare il paesaggio


a fotografia
é um tempo morto
fictício retorno à simetria

secreto desejo do poema
censura impossível
do poeta
la fotografia
è un tempo morto
un ritorno fittizio alla simmetria

segreta aspirazione della poesia
censura impossibile
del poeta
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Serge Hamad
Spiaggia 4 (2011)
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Chove


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Chove
Piove


A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.
La pioggia cade.
I tetti sono bagnati,
Le gocce scorrono lungo i vetri.
Il cielo è bianco,
Il tempo è nuovo.
Lavata la città.
Il pomeriggio meriggia,
Senza il frinire delle cicale,
Senza il giubilo degli uccelli,
Senza il sole, senza il cielo.
Piove.
La pioggia piove bagnata,
Sul tetto degli ombrelli.
Piove.
La pioggia piove leggera,
Sui nostri occhi e li bagna.
Il vento ventila ventoso,
Sui vetri che vibrano,
Sulle piante che si tendono.
Piove sulle spiagge deserte,
Piove sul mare ingrigito,
Piove sull’asfalto nero,
Piove sui cuori.
Piove su ogni anima,
Su ogni riparo piove;
E quando hai guardato in me,
Con lo sguardo che mi seguiva,
Mentre la pioggia cadeva
Sul mio cuore pioveva
La pioggia del tuo sguardo.
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Gregory Thielker
Under the Unminding Sky (2010)
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