Três epitáfios


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Três epitáfios
Tre epitaffi


I
Sob este mármore negro
polido pelo vento e a chuva
repousam as cinzas do filho de Domício
e de Agripina.
Aquele que declamava versos
quando Roma inteira ardia,
saberá que a eternidade não termina?

II
Sob esta lápide apodrecem
reminiscências do corpo mutilado
da rainha Ana Bolena.
A lua de Londres costuma
visitá-la naquelas horas da noite
em que o Tâmisa deságua na eternidade.

III
Os faraós não precisam
de epitáfios
nem de vanglórias esculpidas
no frio e duro bronze.
Basta-lhes a eternidade das pirâmides.
I
Sotto questo marmo nero
levigato dal vento e dalla pioggia
riposano le ceneri del figlio di Domiziano
e di Agrippina.
Quello che declamava versi
quando tutta Roma era in fiamme,
saprà che l’eternità non ha fine?

II
Sotto questa lapide imputridiscono
reminiscenze del corpo mutilato
della regina Anna Bolena.
La luna di Londra è solita
visitarla in quelle ore della notte
in cui il Tamigi sfocia nell’eternità.

III
I faraoni non hanno bisogno
di epitaffi
né di vanaglorie scolpite
nel freddo e duro bronzo.
A loro basta l’eternità delle piramidi.
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Albert August Zimmermann
Le Piramidi di Giza (XIX sec.)
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Poema felino


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Poema felino
Poesia felina


Tigre é o poema que se esconde
na selva das palavras. Como qualquer fera
o poema dardeja quando está no cio.
Exala odores de orquídea selvagem, ruge
à beira dos rios e dos pântanos
e esfrega o traseiro nas estacas da semiótica.
Tigre é o poema que se esgueira entre
as fendas dos vocábulos. Se balança a cauda
ou mostra a ponta afiada da língua
o poema te dilacera com a sensualidade
de uma hiena faminta.
Tigre è la poesia che si nasconde
nella selva delle parole. Come qualunque fiera
la poesia rifulge quando è in calore.
Esala sentori d’orchidea selvaggia, ruggisce
in riva ai fiumi e alle paludi
e sfrega il didietro contro i paletti della semiotica.
Tigre è la poesia che sguscia tra
gli spiragli dei vocaboli. Se agita la coda
o mostra la punta affilata della lingua
la poesia ti graffia con la sensualità
d’una iena affamata.
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Andrea Marchisio
La tigre Nouma-Hava dal vero (1903)
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Poder da palavra


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Poder da palavra
Il potere della parola


Uma palavra
basta
para acordar os
demônios
que se hospedam
no poema.

Uma palavra
basta
para estancar
as veias desatadas
do poema.

Uma palavra
basta
para ferir de morte
o poema.
Una parola
basta
per risvegliare i
demoni
che allignano
nel poema.

Una parola
basta
per ostruire
le vene sciolte
del poema.

Una parola
basta
per ferire a morte
il poema.
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Marlene Dumas
Mamma Roma (2012)
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Não sou um robô


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Não sou um robô
Non sono un robot


Não sou um robô
sou um aglomerado de moléculas
e nervos e sensações.
Mas isso não me confere o direito
de zombar da cauda do primata
e de seus vícios tribais.

Sou unidade na diversidade
santuário de desejos antagônicos.
A cada minuto sinto que estou esvaziando
a taça de areia do tempo. Logo
serei um fragmento de escória expulso
das entranhas do mar.

Não sou um robô
sou uma constelação de átomos e células
em permanente atrito
sou água e fogo, pedra e mineral
dinâmica, imobilidade, evasão, recusa
do tempo, contemporâneo da morte.
Non sono un robot
sono un agglomerato di molecole
e nervi e sensazioni.
Ma questo non mi dà il diritto
d’irridere la coda dei primati
e le loro abitudini tribali.

Sono unità nella diversità
santuario di desideri antitetici.
Ad ogni istante sento che sto svuotando
la coppa di sabbia del tempo. Presto
sarò un residuo di scoria espulso
dalle viscere del mare.

Non sono un robot
sono una costellazione di atomi e cellule
in permanente attrito
sono acqua e fuoco, pietra e minerale
dinamica, immobilità, evasione, rifiuto
del tempo, contemporaneo della morte.
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Umberto Boccioni
Dinamismo di un corpo umano n° 1 (1913)
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Modus vivendi


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Modus vivendi
Modus vivendi


Viver é estar morrendo a cada
minuto que nos trespassa com os seus
punhais de átomo.
Escrever mil vezes o epitáfio em lápides
de água. Ver as orquídeas do amor
apodrecerem num pântano de gametas
cor-de-rosa. Ir ao banquete com
a túnica manchada de sangue e a memória
sufocada pelos punhos do remorso.
Vivere è star per morire ad ogni
attimo che ci trapassa coi suoi
pugnali d’atomo.
È scrivere mille volte l’epitaffio su lapidi
d’acqua. Vedere le orchidee dell’amore
marcire in un pantano di gameti
color di rosa. Andare al banchetto con
la tunica macchiata di sangue e con la memoria
soffocata dai pugni del rimorso.
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Emilio Scanavino
Appeso (1973)
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