Obsessão do Mar Oceano


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Obsessão do Mar Oceano
Ossessione dell’Oceano


Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças nas janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

Me ne vado felice lungo vie senza nome…
Che buon vento spira dall’Oceano!
Il mio amore, non so neppure come si chiami
Né so se è molto distante l’Oceano…
Ma ci son vasi ricoperti di conchiglie
Sui tavoli… e ragazze alle finestre
Con orecchini e braccialetti di corallo…
Cipree attaccate alle porte… caravelle
Che sognano, immobili, su vecchi pianoforti…
Inoltre,
Nella vetrina del rigattiere il tuo sorriso, Antinoo,
E ho ripensato al povero imperatore Adriano,
Alla sua animuccia leggiadra, persa nella nebbia…
Ma come soffia il vento sull’Oceano!
Se morissi domani, non lascerei che
Una cassetta di musica soltanto,
Una bussola,
Una cartina illustrata,
Delle poesie dotate dell’unica bellezza
D’essere incompiute…
Ma come spira il vento per queste vie d’autunno!
E io non so, non so neppure come ti chiami…
Ma ci ritroveremo sull’Oceano,
Quando neanch’io avrò più un nome.

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Amedeo Modigliani
Donna con collana di corallo (1918)
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O poema do amigo


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O poema do amigo
La poesia dell’amico


Estranhamente esverdeado e fosfóreo,
Que de vezes já o encontrei, em escusos bares
 submarinos,
O meu calado cúmplice!

Teríamos assassinado juntos a mesma datilógrafa?
Encerráramos um anjo do Senhor nalgum escuro
 calabouço?

Éramos necrófilos
Ou poetas?
E aquele segredo sentava-se ali entre nós todo o tempo,
Como um convidado de máscara.

E nós bebíamos lentamente a ver se recordávamos...
E através das vidraças olhávamos os peixes maravilhosos e terríveis cujas complicadas formas eram tão difíceis de compreender como os nomes com que os catalogara Marcus Gregorovius na sua monumental Fauna Abyssalis.

Stranamente verdognolo e fosforescente,
Che già m’è capitato d’incontrare, in reconditi bar
 sottomarini,
O mio silenzioso complice!

Abbiamo forse assassinato insieme la stessa dattilografa?
Abbiamo forse rinchiuso un angelo del Signore in qualche
 tenebrosa gattabuia?

Eravamo necrofili
O poeti?
E quel segreto stava sempre lì tra di noi,
Come un convitato mascherato.

E noi bevevamo lentamente per vedere se ricordavamo...
E attraverso le vetrate guardavamo i pesci fantastici e terribili le cui forme complicate erano così difficili da capire quanto i nomi coi quali li aveva catalogati Marcus Gregorovius nella sua monumentale Fauna Abyssalis.

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Damien Hirst
La mano del naufrago (2017)
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Noturno


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Noturno
Notturno


Não sei por que, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca...
Eu penso em ti, em Deus, nas voltas inumeráveis que
 fazem os caminhos...
Em Deus, em ti, de novo...
Tua ternura tão simples...

Eu queria, não sei por que, sair correndo descalço pela
 noite imensa
E o vento da madrugada me encontraria morto junto de
 um arroio,
Com os cabelos e a fronte mergulhados na água límpida...
Mergulhados na água límpida, cantante e fresca de
 um arroio!

Non so perché, d’un tratto ho sorriso
E un sapore di stella mi è venuto alla bocca...
Penso a te, a Dio, agli incalcolabili giri che fanno
 le strade...
A Dio, a te, di nuovo...
La tua dolcezza così ingenua...

Io vorrei, non so perché, uscire scalzo di corsa
 nell’immensa notte
E il vento dell'aurora mi troverebbe morto vicino ad
 un ruscello,
Coi capelli e la fronte immersi dentro l'acqua chiara...
Immersi nell'acqua chiara, sonora e fresca d’un
 ruscello!

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Gustave Courbet
Il ruscello del pozzo nero (1865)
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No silêncio terrível do Cosmos...


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No silêncio terrível do Cosmos
Nel terribile silenzio del Cosmo


No silêncio terrível do Cosmos
Hà de ficar uma última lâmpada acesa
Mas tão baça
Tão pobre
Que eu procurarei, às cegas, por entre os papéis revoltos,
Pelo fundo dos armários,
Pelo assoalho, onde estarão fugindo imundas ratazanas,
O pequeno crucifixo de prata
 — O pequenino, o milagroso crucifixo de prata que tu me deste um dia
Preso a uma fita preta.
E por ele os meus lábios convulsos chorarão
Viciosos do divino contato da prata fria …
Da prata clara, silenciosa, divinamente fria — morta!
E então a derradeira luz se apagarà de todo…

Nel terribile silenzio del Cosmo
Dovrà restare accesa un’ultima lampada
Ma così fioca,
Così stentata
Che andrò cercando, alla cieca, tra le carte confuse,
Sul fondo degli armadi,
Nella soffitta, dove dei ratti immondi prenderanno la fuga,
Il piccolo crocifisso d’argento
 — Il minuscolo, il miracoloso crocifisso d’argento che tu un giorno m’hai donato
Legato a un nastro nero.
E per lui le mie labbra febbrili piangeranno
Avvezze al divino contatto dell’argento freddo…
Dell’argento puro, silente, divinamente freddo — morto!
E allora la luce finale s’estinguerà del tutto…

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Victor Hugo
Pianeta Saturno (1854)
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Bar


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Bar
Bar


No mármore da mesa escrevo
Letras que não formam nome algum.
O meu caixão será de mogno,
Os grilos cantarão na treva…
Fora, na grama fria, devem estar brilhando as gotas
pequeninas do orvalho.
Há sobre a mesa, um reflexo triste e vão
Que é o mesmo que vem dos óculos e das carecas.
Há um retrato do Marechal Deodoro proclamando
a República.
E de tudo irradia, grave, uma obscura, uma lenta música…
Ah, meus pobres botões! eu bem quisera traduzir, para vós,
uns dois ou três compassos do Universo!…
Infelizmente não sei tocar violoncelo…
A vida é muito curta, mesmo…
E as estrelas não formam nenhum nome.

Sul marmo del tavolino io scrivo
Lettere che non formano alcun nome.
La mia bara sarà di mogano,
I grilli canteranno nelle tenebre…
Fuori, sull’erba fredda, ora staran brillando delle
minuscole gocce di rugiada.
C’è sopra il tavolo, un riflesso triste e vacuo
Che è lo stesso che viene dagli occhiali e dalle teste calve.
C’è un ritratto del Maresciallo Deodoro che proclama
la Repubblica.
E da tutto irradia, grave, un’oscura, una lenta musica…
Ah, miei poveri bottoni! avrei tanto voluto tradurre, per voi,
due o tre accordi dell’Universo!…
Purtroppo non so suonare il violoncello…
La vita è molto breve, davvero…
E le stelle non formano alcun nome.

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William Michael Harnett
Natura morta, Violino e musica (1888)
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