Escada do Paraíso


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Escada do Paraíso
Scala del Paradiso


Corpo feito de vagas
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.

Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.

Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.

Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro nesta
canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.
Corpo fatto d’onde
agitate e chiocciole
sonnolente. Oh corpo
di donna, tra meduse
e portolani di sabbia.

Corpo sedotto dalla
luminosità dei banchi di pesci
dal movimento sinuoso
delle maree. Oh corpo
di terracotta e cristallo.

Corpo abbarbicato al sesso
di Dio. Corpo nudo
di gabbiano nella sera azzurra
scala del paradiso.
Oh corpo che trafigge la notte
e il giorno in diagonale.

Corpo, oh corpo di lava
e lievito, lacerato
dalla cintura di un dio:
io ti celebro in questa
canzone. Sorgente e sbocco
dei peccati capitali.
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Felice Casorati
Nudo rosa accovacciato (1955 )
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Canção felina


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Canção felina
Canzone felina


Esta noite os gatos amam nos telhados
sob os olhos compassivos da lua.
No céu distante dormem as estrelas
abaixando as pestanas fatigadas.
Nesta noite de incesto os gatos amam
e os seus corpos, repletos de volúpia,
mais vibrantes que os arcos dos violinos,
celebram ruidosamente as núpcias
do amor. Ouço o cântico selvagem
que se derrama na taça da noite
igual a um vinho amargo que entontece.
Os gatos amam e seu clamor feroz
ressoa como um grito de presságio
até que se dissipe a madrugada.
Questa notte i gatti si amano sui tetti
sotto gli occhi partecipi della luna.
Nel cielo distante dormono le stelle
abbassando le ciglia affaticate.
In questa notte d’incesto i gatti si amano
e i loro corpi, pervasi di lussuria,
più vibranti di archi di violino,
celebrano rumorosamente le nozze
dell’amore. Odo il cantico selvaggio
che si sparge nella coppa della notte
simile a un vino amaro che stordisce.
I gatti si amano e il loro feroce vocio
risuona come un grido di presagio
finché all’alba la notte svanisce.
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Francisco Goya
Gatti che litigano (1786)
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O anjo que perdeu as asas


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O anjo que perdeu as asas
L’angelo che ha perso le ali


O anjo que perdeu as asas
não perdeu a espada
não perdeu o mistério
nem seu cavalo pálido.

O anjo que perdeu as asas
não perdeu a liberdade
não perdeu a túnica
não perdeu a memória.

O anjo que perdeu as asas
não veio de Sodoma
não veio de Gomorra
não veio de Pasargada.

O anjo que perdeu as asas
não perdeu a simetria
não perdeu o secreto
fascínio da parábola.

O anjo que perdeu as asas
não perdeu a palavra
não perdeu o caminho
da invisível morada.

O anjo que perdeu as asas
não perdeu o prodígio
não perdeu a inocência
da argila emancipada.

O anjo que perdeu as asas
não perdeu a memória
dos dias em que ardeu
nas chamas do purgatório.
L’angelo che ha perso le ali
non ha perso la spada
non ha perso il mistero
né il suo cavallo pallido.

L’angelo che ha perso le ali
non ha perso la libertà
non ha perso la tunica
non ha perso la memoria.

L’angelo che ha perso le ali
non veniva da Sodoma
non veniva da Gomorra
non veniva da Pasargada.

L’angelo che ha perso le ali
non ha perso la simmetria
non ha perso il segreto
fascino della parabola.

L’angelo che ha perso le ali
non ha perso la parola
non ha perso la strada
dell’invisibile dimora.

L’angelo che ha perso le ali
non ha perso il prodigio
non ha perso l’innocenza
dell’argilla emancipata.

L’angelo che ha perso le ali
non ha perso la memoria
dei giorni in cui bruciava
nelle fiamme del purgatorio.
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Herbert James Draper
Lamento per Icaro (1898)
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Disfarce


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Disfarce
Finzione


O espelho não mostra
o homem que eu sou.
O espelho só revela
minha outra face cúmplice.

O homem que eu sou
foi visto no alpendre da aldeia
enquanto o seu sósia
passeia a cavalo.

O homem que eu sou
pergunta por mim.
Não sabe que fui ao enterro
do meu sonho feudal.

Num bulevar de Londres
o homem que eu sou
caiu do nono andar
dum edifício hipotético.

O espelho não mostra
minha origem de escuma.
O espelho só revela
minha outra face póstuma.
Lo specchio non mostra
l’uomo che sono.
Lo specchio rivela soltanto
l’altra mia faccia complice.

L’uomo che sono
l’han visto nell’emporio del paese
mentre il suo sosia
passeggia a cavallo.

L’uomo che sono
sta chiedendo di me.
Non sa che son stato alle esequie
del mio sogno feudale.

In un boulevard di Londra
l’uomo che sono
è caduto dal nono piano
di un edificio irreale.

Lo specchio non mostra
la mia origine di schiuma.
Lo specchio rivela soltanto
l’altra mia faccia postuma.
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Giorgio de Chirico
Cavallo con cavaliere (1960)
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Didática do poema


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Didática do poema
Didattica della poesia


Não sei o que é poesia,
onde começa ou acaba.
Não sei se é pluma de Deu
sou se invenção do diabo.

Não sei quando essa linfa
irriga o sonho e seu caule.
Não sei se viga do corpo
ou se pilastra da alma.

Não sei o que é poesia.
Não sei o momento exato
em que cavalgo a vertigem,
em que sucumbo ao seu rapto.

Não sei se é um anjo torto
ou se malograda idéia.
Só sei quando o verso chega,
mesa posta para a ceia.
Non so che cos’è la poesia,
dove comincia o finisce.
Non so se è penna di Dio
o se invenzione del diavolo.

Non so quando questa linfa
irriga il sogno e il suo stelo.
Non so se è trave del corpo
o se pilastro dell’anima.

Non so che cos’è la poesia.
Non conosco il momento esatto
in cui cavalco la vertigine,
in cui soccombo al suo incanto.

Non so se è un angelo sghembo
o se una malaugurata idea.
So solo che quando il verso arriva,
la tavola è pronta per la cena.
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Kurt Schwitters
Requisite (1947)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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