Restaurante polaco


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Rui Pires Cabral »»
 
Praças e Quintais (2003) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Restaurante polaco
Ristorante polacco


A noite é sustentada pelos seus enfeites
como um homem morto ligado às máquinas.
Os clientes folheiam livros, tudo polacos
do mesmo quarteirão. Percebemos
de repente: há qualquer coisa acima das palavras
que não se deixa decifrar. Em cidades estranhas
dispomos melhor dos sentidos, somos arriscados
nas nossas intuições. E depois da sopa, do chá
morno, ao sair para a rua, podemos descobrir
que ainda estamos vivos e que no fim de contas
nunca conhecemos outra condição. Esta é a hora
que nos representa. E aquilo a que chamamos realidade
segue connosco na mesma direcção.
La notte è alimentata dalle sue luminarie
come un uomo morto collegato alle macchine.
I clienti sfogliano dei libri, tutti polacchi
dello stesso quartiere. Tutto a un tratto
realizziamo: c’è qualcosa oltre le parole
che non riusciamo a decifrare. In città straniere
facciamo miglior uso dei nostri sensi, siamo più acuti
nelle nostre intuizioni. E dopo la zuppa, dopo il tè
tiepido, uscendo per la strada, possiamo scoprire
d’essere ancora vivi e che in fin dei conti
non abbiamo mai conosciuto altra condizione. Questa
è l’ora che ci rappresenta. E ciò che chiamiamo realtà
prosegue con noi nella stessa direzione.
________________

Alexander Brisac
Night Town (2020)
...

Fotografias


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Rui Pires Cabral »»
 
Praças e Quintais (2003) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Fotografias
Fotografie


Nesta vida — é um facto — estamos sempre
a desaprender coisas novas. O mundo
vai guardando a luz nas suas bainhas negras
e temos a melindrosa companhia dos fantasmas
que nos procuraram: eles governam rudemente
os nossos pequenos reinos e há um ceptro novo

para cada coroação. De repente, com a volta
das estações, damos por nós muito mais velhos
nas fotografias. As razões que nos assistiam
empalidecem em paisagens cruelmente coagidas
pela luz. Fomos expulsos dos grandes palácios

da alegria? Onde estão os mapas que nos guiavam
lá dentro, exactos como o instinto? Não sabemos
responder: o caminho turva-se: são as incertezas
da maturidade. As palavras não nos iluminam
e o amor está condenado aos defeitos naturais
do coração, que ainda assim há-de voltar a arder

sem defesa nem socorro uma vez mais.
In questa vita — è un fatto — non finiamo mai
di disimparare cose nuove. Il mondo
salvaguarda la luce nelle sue nere fondine
e a noi resta l’evanescente compagnia dei fantasmi
che ci cercano: essi governano rudemente
i nostri piccoli regni e c’è uno scettro nuovo

ad ogni incoronazione. D’un tratto, col mutare
delle stagioni, ci scopriamo molto più vecchi
nelle fotografie. Le motivazioni che ci animavano
impallidiscono in scenari crudelmente condizionati
dalla luce. Siamo stati espulsi dai grandi palazzi

della gioia? Dove sono le mappe che ci guidavano
là dentro, esatte come l’istinto? Non sappiamo
rispondere: il cammino s’oscura: sono le incertezze
della maturità. Le parole non c’illuminano
e l’amore è relegato tra i difetti naturali
del cuore, che tuttavia deve tornare ad ardere

senza difesa né ausilio un’altra volta.
________________

Felice Casorati
Gli scolari (1927-1928)
...

Amigos perdidos


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Rui Pires Cabral »»
 
Praças e Quintais (2003) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Amigos perdidos
Amici perduti


Os amigos levados pela vida
são os mais difíceis de aplacar, os mais
tiranos. Bárbaros de um país desconhecido,
bebem à taça os venenos do silêncio e crescem
desmedidamente na distância, desentendidos
da nossa solidão. E pensar que já fomos
irmãos de armas, que desenterrámos tesouros
nas mesmas ilhas, nos livros
mais inóspitos. Como são as coisas.
Terá sido tudo em vão? Dir-se-ia
que estávamos predestinados às mesmas
canções, a uma espécie mais certa de amor.
Pois sim. Nem sequer compreendemos
o que nos aconteceu.
Gli amici che la vita ci ha sottratto
sono i più difficili da placare, i più
tiranni. Barbari di un paese sconosciuto,
sorseggiano i veleni del silenzio e crescono
a dismisura con la distanza, all’oscuro
della nostra solitudine. E pensare che siamo stati
compagni d’armi, che abbiamo dissepolto tesori
sulle stesse isole, sui libri
più inospitali. Come vanno le cose.
Sarà stato tutto invano? Sembrava
che fossimo predestinati alle stesse
canzoni, a un tipo d’amore più durevole.
Macché. Non siamo mai riusciti a capire
che cosa ci è successo.
________________

Guido Peyron
Gli amici nell'atelier (1928)
...

Abril


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Rui Pires Cabral »»
 
Praças e Quintais (2003) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Abril
Aprile


Eu disse: quem pôs aqui este rio?
Alguém tinha desenhado na paisagem
um cenário para a nossa história.
Manchas inteiras de urze, papoilas,
giestas. Até se disse em Terena
que Abril não vinha assim tão verde
 
há muito tempo. Sim, tinha chovido muito
nesse ano, mas nada esteve por acaso,
nem o céu de manhã cedo nos castelos
com a erva a crescer dentro e fora das muralhas,
nem sequer a nossa primeira noite, aquela
 
em que esperaram por mim noutro lugar.
Sozinho, sem outra defesa que não fosse
a minha própria solidão, eu estive onde tu
me pudesses encontrar. E depois subimos juntos
a rua molhada. E já chovia por Abril
sem o sabermos.
Io dissi: chi ha messo qui questo fiume?
Qualcuno aveva disegnato sul paesaggio
un palcoscenico per la nostra storia.
Intere macchie d’erica, papaveri,
ginestre. Si disse perfino a Terena
che non c’era stato un aprile così verde
 
da tanto tempo. Sì, aveva piovuto molto
quell’anno, ma nulla era successo per caso,
né il cielo di prima mattina sui castelli
con l’erba cresciuta dentro e fuori le mura,
e neppure la nostra prima notte, quella
 
in cui m’avevano atteso in un altro luogo.
Da solo, senz’altra difesa tranne
che la mia stessa solitudine, io mi recai dove tu
mi potessi trovare. E poi risalimmo insieme
la via bagnata. E già pioveva ad Aprile
senza che lo sapessimo.
________________

Edward Hopper
Strada e alberi (1962)
...

Winter night


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Rui Pires Cabral »»
 
Música Antológica & Onze Cidades (1997) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Winter night
Winter night


A meio da tarde o dia ainda não foi encetado,
parece barricar-se nas folhas moles
dalgum livro. Tu já sabes como eu gosto dos cafés
nas horas de pouco movimento. Os empregados
podem entregar-se a querelas ruidosas nessa altura
e os reformados na mesa do fundo vão dizer em voz alta
aquilo que pensam sobre o governo.

Ao princípio da noite é como ter sangue
nas mãos. Talvez o tempo ainda se componha, talvez
 possa
telefonar a um amigo. É certo que nas ruas se torna mais
 fácil
distrair o medo, há sempre espaço onde pousar
a cabeça. Mas em que me torno no quarto quando não
 estás
a olhar? O cheiro da comida flutua ainda pelos corredores,
sente-se o peso que dorme no escuro até às entranhas.
Se pudesses ver como isso às vezes me magoa.
A metà pomeriggio il giorno non s’è ancora svegliato,
pare che si sia barricato tra le pagine molli
di qualche libro. Tu sai bene quanto mi piacciono i caffè
nelle ore di scarso movimento. I camerieri
possono abbandonarsi a proteste chiassose a quel punto
e i pensionati del tavolo in fondo proclamano ad alta voce
quello che pensano del governo.

Quando comincia la notte è come aver le mani
sporche di sangue. Forse il tempo può ancora aggiustarsi,
 forse posso
telefonare a un amico. Di certo per strada diventa più
 facile
distrarre la paura, c’è sempre un posto dove appoggiare
la testa. Ma nella stanza a chi chiedo aiuto quando tu non
 sei qui
a guardare? L’odore di cibo ristagna ancora nei corridoi,
se ne sente il peso che dorme al buio fin dentro le viscere.
Se tu potessi vedere quanto tutto ciò a volte mi deprime.
________________

Vincent van Gogh
La camera da letto ad Arles (1888)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (554) Orides Fontela (17) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (361) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)