Cassino


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Narlan Matos »»
 
Canto aos homens de boa vontade (2018) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


cassino
casinò


embora tu não saibas
tua vida fede à gasolina
e à gás pobre
tua vida é um produto
à venda pela internet
ou numa loja conveniências

e agora mesmo teu destino
está sendo mercado
nas roletas de algum cassino.
benché tu non lo sappia
la tua vita puzza di benzina
e di gas di sintesi
la tua vita é un prodotto
in vendita su internet
o in un minimarket

e proprio ora il tuo destino
viene messo in gioco
alla roulette di qualche casinò.
________________

Edvard Munch
Tavolo della roulette a Monte Carlo (1892)
...

Espaços


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Ana Luísa Amaral »»
 
Minha Senhora de Quê (1990) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Espaços
Spazi


As nuvens não se rasgaram
nem o sol: só a porta
do meu quarto
 
A abrir-se noutras
portas dando para outros
quartos e um corredor ao fundo
 
Não havia janelas nem
silêncios: sinfonias por dentro
a rasgar o silencio
 
A porta do meu quarto
já nem porta: madeiramento
para o fogo
Le nubi non si sfasciarono
né il sole: solo la porta
della mia stanza
 
E si aprì su altre
porte dando verso altre
stanze e un corridoio in fondo
 
Non c’erano finestre né
silenzi: intime sinfonie
a lacerare il silenzio
 
La porta della mia stanza
ormai non più porta: legname
per il fuoco
________________

Gerhard Richter
Cinque porte (1967)
...

Aniversário


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Ana Luísa Amaral »»
 
Minha Senhora de Quê (1990) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Aniversário
Compleanno


Sentei-me com um copo em restos de
champanhe a olhar o nada.
Entre crianças e adultos sérios
Tive trinta em casa.
Será comovedor os quatro anos
e a festa colorida
as velas mal sopradas entre um rissol
no chão e os parabéns:
quatro anos de vida.

Serão comovedores os sumos de
laranja concentrados (proporções
por defeito) e os gostos tão
diversos, o bolo de ananás,
os pés inchados.

Será soberbamente comovente
toda a gente cantando,
o mau comportamento dos adultos
conversas-gelatinas e os anos
só pretexto.

Mas eu gostei. E contra mim gostei
mesmo no resto:
este prazer pequeno do silêncio
um sapato apertando descalçado
guardanapo e rissol por arrumar
no chão e um copo

olhando o nada
em restos de champanhe
Mi sono seduta con un calice di champagne
avanzato a guardare il nulla.
Tra bambini e adulti seri
In casa si era in trenta.
Saranno commoventi i quattro anni
e la festa colorata
un soffio alle candeline tra un sofficino
a terra e gli auguri:
quattro anni di vita.

Saranno commoventi i succhi
d’arancia concentrati (proporzioni
per difetto) e i sapori così
diversi, la torta d’ananas,
i piedi gonfi.

Sarà superbamente commovente
tutta la gente che canta,
la cattiva condotta degli adulti
discorsi gelatinosi e gli anni
nient’altro che un pretesto.

Ma a me è piaciuto. E non è da me
ma m’è piaciuto anche il resto:
quel piccolo piacere del silenzio
una scarpa stretta abbandonata
tovagliolo e sofficino da togliere
da terra e un calice

guardando il nulla
nello champagne avanzato
________________

Vassily Kandinsky
Linea traversa (1923)
...

A verdade histórica


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
Ana Luísa Amaral »»
 
Minha Senhora de Quê (1990) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


A verdade histórica
La verità storica


A minha filha partiu uma tigela
na cozinha.
E eu que me apetecia escrever
sobre o evento,
tive que pôr de lado inspiração e lápis,
pegar numa vassoura e varrer
a cozinha.

A cozinha varrida de tigela
ficou diferente da cozinha
de tigela intacta:
local propício a escavação e estudo,
curto mapa arqueológico
num futuro remoto.

Uma tigela de louça branca
com flores,
restos de cereais tratados
em embalagem estanque
espalhados pelo chão.

Não eram grãos de trigo de Pompeia,
mas eram respeitosos cereais
de qualquer forma.
E a tigela, mesmo não sendo da dinastia Ming,
mas das Caldas,
daqui a cinco ou dez mil anos
devia ter estatuto admirativo.

Mas a hecatombe
deu-se.
E escorregada de pequeninas mãos,
ficou esquecida de famas e proveitos,
varrida de vassouras e memórias.

Por mísero e cruel balde de lixo
azul
em plástico moderno
(indestrutível)
Mia figlia ha rotto una zuppiera
in cucina.
E io che avevo voglia di descrivere
questo evento,
ho dovuto trascurare ispirazione e lapis
prendere una scopa e ripulire
la cucina.

La cucina privata della zuppiera
aveva un aspetto diverso dalla cucina
con la zuppiera intatta:
luogo propizio allo scavo e allo studio
piccola mappa archeologica
di un futuro remoto.

Una zuppiera di ceramica bianca
a fiori,
avanzi di cereali conservati
in imballaggi sotto vuoto
sparsi sul pavimento.

Non erano chicchi di grano di Pompei,
ma erano rispettabili cereali
in qualche maniera.
E la zuppiera, pur non essendo della dinastia Ming,
ma di Caldas,
da qui a cinque o diecimila anni
dovrebbe avere un ammirevole statuto.

Ma l’ecatombe
è avvenuta.
E scivolata da piccole manine,
è rimasta priva di fama e di valore,
spazzata via da scope e dalla memoria.

In un secchio dei rifiuti misero e crudele
blu
di plastica moderna
(indistruttibile)
________________

Édouard Pignon
Donna con scodella (1943)
...

eu menino


Nome:
 
Collezione:
 
Altra traduzione:
Narlan Matos »»
 
Canto aos homens de boa vontade (2018) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


eu menino
io bambino


quando criança eu subia no telhado
da casa da minha infância
cauto como um gato na noite
quando a noite descia da serra
e na igreja ao lado – na torre –
tocavam a Ave-Maria, de Schubert
observava horas à fio a Via-Láctea
passando sobre minha casa
como se fosse um infinito rio
e eu uma sentinela podia vê-las
uma por uma todas as estrelas
não pensava ainda no mundo
na criatura humana no verso
era apenas um eu menino
numa província remota da Terra
contemplando o universo.
quand’ero piccolo io salivo sul tetto
della casa della mia infanzia
cauto come un gatto di notte
quando la notte calava dalla serra
e nella chiesa accanto – sulla torre –
suonavano l’Ave Maria di Schubert
osservavo per ore ed ore la Via Lattea
che passava sopra la mia casa
come se fosse un fiume senza fine
ed io sentinella potevo vedere
una ad una tutte le stelle
ancora non pensavo al mondo
all’essere umano ai versi
non ero che un io bambino
che in una remota provincia della Terra
contemplava l’universo.
________________

Joan Miró
Canto dell’usignolo di mezzanotte e pioggia del mattino (1940)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (554) Orides Fontela (15) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (361) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)