Percepção


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Percepção
Percezione


Entre mergulhos
uma pedra rasa salta três vezes
na água.
E assim se divide,
assim se parte
o rio. A infância
dum lado. Do outro
a terra firme
onde isto se passou.
Tra rimbalzi
una pietra piatta salta tre volte
sull’acqua.
E così si divide,
così si separa
il fiume. L’infanzia
da un lato. Dall’altro
la terraferma
dove questo è accaduto.
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Meg Walters
Profondo scorre il fiume (2020)
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Memória descritiva


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Memória descritiva
Memoria descrittiva


A sombra dos tectos altos
não deixa respirar. A pintura
esboroada como os ossos.
A moldura verde das portas
na solidão de ferro abandonada.
Serradura nas frestas da madeira.
Gonzos, chaves, uma gaveta
com bocados e uma cama.
Luzes fugazes em jornais antigos.
Ganchos, fios, fendas.
Uma almofada, restos
dum romance francês, o metal
de um candeeiro. Recantos,
esquinas, manchas irregulares,
pratos, móveis trôpegos, uma parede
onde estala a cal. Tábuas pequenas,
traves, bolor num espelho, vidrinhos,
relógios, autocolantes, fechaduras,
uma arca da qual ninguém
se aproxima, pedaços de tecido
alegre e tantas cadeiras.
L’ombra dei soffitti alti
non lascia respirare. L’imbiancatura
sfarinata come le ossa.
L’intelaiatura verde delle porte
abbandonata in una solitudine di ferro.
Segatura nelle fessure del legno.
Cardini, chiavi, un cassetto
con delle briciole e un letto.
Luci fugaci su vecchi giornali.
Ganci, fili, crepe.
Un cuscino, spoglie
di un romanzo francese, il metallo
di un candelabro. Cantucci,
angoli, macchie irregolari,
piatti, mobili traballanti, una parete
dove la calce si screpola. Tavolini,
travi, muffa su uno specchio, flaconi,
orologi, autoadesivi, serrature,
una madia a cui nessuno
si avvicina, ritagli di un tessuto
allegro e tante sedie.
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Vassily Kandinsky
La mia sala da pranzo (1909)
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Homens sem mulheres


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Homens sem mulheres
Uomini senza donne


Durante meses ou anos (ou,
em todo o caso, um múltiplo
de semanas) trazia debaixo
do braço, com os livros da lei,
Men Without Women,
de Ernest Hemingway.
Hábito exterior de mostrar
leituras ou de passear,
como legendas, frases sintéticas
e duras, não o tolerava
nos outros, mas só em mim,
na minha edição velha
e laranja da Penguin.
Eu não queria que o livro
terminasse, e o plural
do título era um disfarce.
Nel corso di mesi o anni (o,
comunque, un multiplo di
settimane) mi sono portato sotto
il braccio, insieme ai libri di legge,
Men Without Women,
di Ernest Hemingway.
Superficiale abitudine di esibire
letture o di andare a spasso,
come didascalie, frasi sintetiche
e dure, non lo sopportavo
negli altri, ma in me soltanto,
nella mia edizione vetusta
e arancione della Penguin.
Io non volevo che il libro
finisse e il plurale
del titolo era una messinscena.
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Copertina di Men Without Women
di Ernest Hemingway (Penguin Books)
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Ao crepúsculo...


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nunorochamorais.blogspot.com (luglio 2024) »»
 
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Ao crepúsculo...
Al crepuscolo...


Ao crepúsculo, as casas empalidecem,
Preparando-se para a longa travessia da noite,
Despedem-se com os últimos fulgores das vidraças do sol.
Registo coralífero à luz moribunda,
As casas crescem agora por dentro,
Agitam-se de vozes e crianças,
São inundadas por odores,
Abrem as paredes à lembrança.
Que vidas escondem?
As casas tudo calam,
Libertando, quando consentido,
Monossílabos de janelas abertas ou portas
Ou roupas dispostas ao calor.
São assim as casas, fiéis,
Calorosos túmulos da vida.
Al crepuscolo, le case impallidiscono,
Disponendosi alla lunga traversata della notte,
Si dileguano con gli ultimi fulgori delle vetrate del sole.
Registro corallifero nella morente luce,
Ora le case crescono all’interno,
Si movimentano di voci e di bambini
Sono inondate di effluvi,
Aprono le pareti al ricordo.
Che vite nascondono?
Le case tutto celano,
Esternando, quando consentito,
Monosillabi di finestre aperte o di porte
O d’indumenti sistemati al caldo.
Sono così le case, fedeli,
Calorosi avelli della vita.
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Egon Schiele
Sole al tramonto (1913)
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Funerais


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Funerais
Funerali


Nos funerais encontramos a família.
Nunca fomos tão claros
como no luto
e nas memórias anedóticas
que amenizam o morto.
Que sangue é o teu
para que o meu se assemelhe?
Alguns velhos trazem flores
que já ofereceram nos casamentos
e entre eles decidem
que somos uma família,
conhecem os primos que não
conheço, lamentam a sorte
daqueles cuja sorte é conhecida,
são ainda mais graves
do que nós, e usam
diminutivos carinhosos.
O meu nome far-se-á pó
com o meu corpo, pensa
uma mulher que já é viúva,
há irmãos completamente mudos
e as crianças jogam à cabra-cega.
Seguimos em cortejo
compondo as gravatas,
o vento não percebe que morreu gente.
Dez pessoas acompanham o padre,
os outros já não se lembram
das orações,
dez pessoas pensam
no que têm pela frente,
os outros acompanham o caixão.
O coveiro mais novo
dentro de pouco tempo
enterrará o mais velho.
Ai funerali incontriamo la famiglia.
Mai siamo stati così trasparenti
come nel lutto
e nelle memorie aneddotiche
che ravvivano il morto.
Che tipo di sangue è il tuo
perché il mio sia simile?
Qualche vecchio porta dei fiori,
gli stessi già donati ai matrimoni,
e decidono tra loro
che siamo una famiglia,
conoscono i cugini che io non
conosco, compiangono la sorte
di quella la cui sorte è nota,
sono ancora più seri
di noi, e usano
diminutivi affettuosi.
Il mio nome tornerà alla polvere
con il mio corpo, pensa
una donna che è già vedova,
ci sono fratelli completamente muti
e i bambini giocano a mosca cieca.
Seguiamo il corteo
aggiustando le cravatte,
il vento non capisce che qualcuno è morto.
Dieci persone accompagnano il prete,
gli altri non ricordano già più
le preghiere,
dieci persone pensano
a quello che li aspetta,
gli altri seguono la bara.
Il più giovane dei becchini
tra breve tempo
sotterrerà il più vecchio.
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André Derain
Funerale (1899)
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