Epígrafe


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
A. M. Pires Cabral »»
 
A Noite em que a Noite ardeu (2015) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Epígrafe
Epigrafe


Se algum dia alguém chegar a ler
este dizer agreste,
provavelmente pensará: que pálida lanterna;
não é deste metal que a luz é feita.

Calma. Pois não.

Mas quem assiduamente
visita os desvãos onde a noite se acoita
não precisa de mais que o clarão desta treva,
desta cegueira sem cão e sem bengala,
para no escuro rasgar o seu caminho
e nele ir progredindo às arrecuas.
Se un giorno qualcuno riuscirà a leggere
questo rustico scritto,
probabilmente penserà: che pallida lanterna;
non è di questo metallo ch’è fatta la luce.

Calma. Certo che no.

Ma a chi assiduamente
visita le soffitte ove la notte si raccoglie
non occorre altro che il chiarore di questa tenebra,
di questa cecità senza cane né bastone,
per rintracciare al buio la sua strada
e percorrerla camminando all’indietro.
________________

René Magritte
Donatore felice (1966)
...

Amar


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
A. M. Pires Cabral »»
 
A Noite em que a Noite ardeu (2015) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Amar
Amare


Amar foi durante muito tempo
gravar iniciais adolescentes,
no fuste das tílias.

Era então uma espécie
de idade de ouro do amor.

Mas tive de aprender à minha custa
que amar pode ser tão envolvente
como um polvo:
ama-se em muitas frentes.

Aprendi que amar, entre outras coisas,
é também navegar nas águas da noite
adultamente
sem bússola e sem cautelas,
à proa fugidia dum batel.

E que, em casos mais desesperados,
é ir aos trambolhões de mar em mar.
Tumultuosamente. Sem ser correspondido.
E em chamas, se preciso for.
Amare per molto tempo è stato
incidere le adolescenti iniziali
sul tronco dei tigli.

Allora era una specie
di età dell’oro dell’amore.

Ma dovetti imparare a mie spese
che amare ti può anche avviluppare
come un polpo:
si ama su molti fronti.

Ho imparato che amare, tra l’altro,
è anche navigare in acque notturne
adultamente
senza bussola né cautele,
sulla prua fuggiasca di un battello.

E che, nei casi più disperati,
è andare all’impazzata di mare in mare.
Tumultuosamente. Senza esser corrisposto.
E in fiamme, se fosse necessario.
________________

Ivan Aivazovsky
Mar Nero di notte (1874)
...

Vento


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
A. M. Pires Cabral »»
 
Gaveta do fundo (2013) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Vento
Vento


1
Toda a noite fez vento sobre os campos.
Rodopiaram folhas mortas nos caminhos,
em busca de refúgio
onde o vento não viesse perturbar
a sua propensão para a inércia.

2
Também eu - folha morta ou em vias disso
que aspira às delícias da imobilidade -
busco algures abrigo contra essa
outra classe de vento que me abrasa,
desinquieta e toca a rebate
sinos sonoros no vazio sem limites
do meu interior.
1
Tutta la notte spirò il vento sopra i campi.
Volteggiarono foglie morte per le strade,
in cerca d’un rifugio
ove il vento non venisse a perturbare
la loro attitudine all’inerzia.

2
Anch’io - foglia morta o sul punto d’esserlo
che aspira alle delizie dell’immobilità -
perduto cerco riparo contro questa
altra specie di vento che mi devasta,
m’inquieta e suona a martello
cupi rintocchi nel vuoto sconfinato
dentro di me.
________________

Paul Klee
Wohin? (1919)
...

Punhal excelente


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
A. M. Pires Cabral »»
 
Gaveta do fundo (2013) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Punhal excelente
Pugnale eccellente


Já quase não há, o punhal excelente
com que a mim próprio me esventrei algumas vezes
para melhor me desentranhar em versos –

– esse lícitos salpicos de lama,
essas coisas à toa, hossanas, ambições,
promessas, juras, astutas
ingenuidades: toda essa merda que há
dentro do poeta e com que ele gosta
de borrifar os outros. Para que
não se fiquem a rir.

E eis que agoniza: o gume rombo,
manchas inamovíveis de ferrugem,
incapaz de incisões, definitivamente
inoperacional o punhal excelente.

Paz ao seu aço.
Ormai non c’è quasi più, il pugnale eccellente
con cui certe volte ho sventrato me stesso
per meglio sviscerarmi in versi –

– quei legittimi schizzi di fango,
quelle cose a casaccio, osanna, ambizioni,
promesse, giuramenti, astute
ingenuità: tutta quella merda che c’è
dentro il poeta e con cui si compiace
di schizzare gli altri. Affinché
non si mettano a ridere.

Ed ecco che agonizza: la lama spuntata,
macchie indelebili di ruggine,
incapace d’incidere, definitivamente
inefficace il pugnale eccellente.

Pace all’acciaio suo.
________________

Anna Maria Maiolino
Glu Glu Glu (1966)
...

Pensando melhor


Nome :
 
Collezione :
 
Altra traduzione :
A. M. Pires Cabral »»
 
Gaveta do fundo (2013) »»
 
Francese »»
«« precedente /  Sommario / successivo »»
________________


Pensando melhor
Ripensandoci meglio


Mesmo em tardes muito quentes de Verão,
há sempre uma ave aventureira
que sobrevoa a terra.

(Pensando melhor, o que de facto há
é terra, apenas terra — que a seu tempo
há-de sobrevoar o voo das aves.)
Anche nei pomeriggi assai caldi d’estate,
c’è sempre un uccello temerario
che sorvola la terra.

(Ripensandoci meglio, quel che in effetti c’è
è terra, solamente terra — che a suo tempo
dovrà sorvolare il volo degli uccelli.)
________________

Leonardo da Vinci
Codice sul volo degli uccelli (1505)
...

Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (555) Orides Fontela (27) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (362) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)