Verdade ou consequência


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Verdade ou consequência
Verità o conseguenza


Houve dias cheios de sol e jogos ágeis
em redor dos lagos, uma jornada na montanha
para ouvir o eco e a sombra da nuvem
ganhando alento nas vertentes como um barco
prodigioso.

Perseguíamos nas raízes do dia uma ausência
que alastrava para o norte, para essas planícies
 inventadas
onde pássaros ávidos tomariam por sementes
as palavras que dizíamos.

Éramos demasiado jovens
e aos nossos olhos
o mundo tinha a idade que mais nos convinha.
C’erano giorni pieni di sole e di giochi d’agilità
intorno ai laghi, un’escursione in montagna
per sentire l’eco e l’ombra d’una nuvola
che prendeva slancio sui declivi come una barca
prodigiosa.

Cercavamo alle radici del giorno un’assenza
che s’espandeva a nord, verso quelle pianure
 inventate
dove avidi uccelli avrebbero preso per sementi
le parole che dicevamo.

Eravamo troppo giovani
e ai nostri occhi
il mondo aveva l’età che più ci conveniva.
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Katherine Bello
D'ora in poi (2020)
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Escuro


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Escuro
Buio


Pergunto-me desde quando
deixou de haver futuro
nas janelas.
Janeiro dói nos olhos
como areia
e tu e eu estamos para sempre
sentados às escuras
no Verão.
Mi domando da quando
ha smesso d’esserci un futuro
alle finestre.
Gennaio irrita gli occhi
come sabbia
e tu ed io stiamo per sempre
seduti al buio
in estate.
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Jean Fautrier
Composizione (1958)
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Só de sol a minha casa


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Conceição Evaristo »»
 
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Só de sol a minha casa
Tutta di sole la mia casa


  A Adélia Prado, com licença,
  que também sou mineira


Durante muito tempo,
também tive um sol
a inundar a nossa casa inteira,
tal a pequenez do cômodo.

Pelas fendas do machucado zinco,
folhas escaldantes de nosso teto,
invasivos raios confrontavam
pontos de mil quentura.
E jorrantes jatos de fogo
abrasavam o vazio
de um estorricado chão.

Em dias de maior ardência,
minha mãe alquebrava
seu milenar e profundo cansaço
no recorte disforme
de um buraco - janela sem janela –
acontecido no centro de uma frágil parede.
(rota de fuga de uma presa a inventar a
 extensão de um prado)

Eu não sei por que, ela olhava o tempo
e nos chamava para perscrutar
em que lugar morava a esperança.
Olhávamos.
Salvou-nos a obediência.
  A Adélia Prado, con licenza,
  ché anch’io sono del Minas


Per un lungo periodo di tempo,
c’è stato anche un sole
ad inondare la nostra casa intera,
tant’era l’esiguità del locale.

Dalle fessure dello zinco crepato,
fogli surriscaldanti del nostro tetto,
raggi invadenti si scontravano
con punti d’un calore infernale.
E spruzzando schizzi di fuoco
infiammavano il vuoto
d’un suolo abbrustolito.

Nei giorni di massima calura,
mia madre cullava
la sua millenaria e profonda stanchezza
davanti ai margini difformi
di un buco - finestra senza finestra –
capitato al centro d’una fragile parete.
(via di fuga d’una preda che immaginasse
 l’estendersi d’un prato)

Io non so perché ella guardasse il tempo
e ci chiamava per scoprire
in che luogo dimorava la speranza.
Noi guardavamo.
Ci salvò l’obbedienza.
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Vasily Perov
Bambini dormienti (1870)
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Nunca a paz...


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Nuno Rocha Morais »»
 
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Nunca a paz...
Mai la pace...


Nunca a paz
Em que os gestos são tempos estrangulados.

Nunca se extingam as conjuras,
O perigo, os inimigos;
A súplica que é o ódio,
Nunca a paz com ninguém,
Gritos desmembrados, sangue,
Dores pendulares,
Nunca a paz serena,
De rosto branco e inertes horas.
 
Nunca a paz de haste morta,
Para que de raiva
A vida espume vida.

Mai la pace
Nella quale i gesti sono tempi strangolati.

Non s’estinguano mai le congiure,
Il pericolo, i nemici;
La supplica che è odio,
Mai la pace con nessuno,
Grida smembrate, sangue,
Dolori oscillatori,
Mai la pace serena,
D’un viso bianco e di ore inerti.
 
Mai la pace d’uno stelo morto,
Affinché di rabbia
La vita schiumi via la vita.

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Otto Dix
Pragerstrasse (1920)
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Inquisição


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Inquisição
Inquisizione


  Ao poeta que nos nega

Enquanto a inquisição
interroga
a minha existência
e nega o negrume
do meu corpo-letra
na semântica
da minha escrita,
prossigo.

Assunto não mais
o assunto
dessas vagas e dissentidas
falas.

Prossigo e persigo
outras falas,
aquelas ainda úmidas,
vozes afogadas,
da viagem negreira.

E apesar
de minha fala hoje
desnudar-se no cálido
e esperançoso sol
de terras brasis, onde nasci,
o gesto de meu corpo-escrita
levanta em suas lembranças
esmaecidas imagens
de um útero primeiro.

Por isso prossigo.
Persigo acalentando
nessa escrevivência
não a efígie de brancos brasões,
sim o secular senso de invisíveis
e negros queloides, selo originário,
de um perdido
e sempre reinventado clã.
  Al poeta che ci nega

Mentre l’inquisizione
interroga
la mia esistenza
e nega la nigrizia
del mio corpo-lettera
nella semantica
della mia scrittura,
io proseguo.

Non dò più peso
all’oggetto
di questi vaghi e discordanti
discorsi.

Proseguo e inseguo
altre parlate,
quelle ancora umide,
voci affogate,
del viaggio negriero.

E benché
oggi la mia lingua
si denudi al caldo
e fiducioso sole
delle terre del brasile, ove io nacqui,
il gesto del mio corpo-scrittura
richiama tra i suoi ricordi
immagini sbiadite
di un utero primigenio.

Per questo io proseguo.
E cullandomi in questa
scrittura del vissuto, ambisco
non all’effigie di bianche insegne,
ma al millenario senso di invisibili
e neri cheloidi, marchio originario,
di un perduto
e sempre reinventato clan.
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Abdias do Nascimento
Maschera ancestrale (1988)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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