Veneza


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Veneza
Venezia


Falaste a noite toda sobre a vida na Colômbia
com o rastro dos postes intermitindo no teu rosto
atento, quase hierático. Tinha havido a comoção
provocada por Gabriella na cabine dos jugoslavos
e aquele italiano ruivo repetindo pedagogicamente
paesi, castelli, àlberi, uma ladainha para pontuar
o curso obstinado da nossa travessia.

Por fim restava a madrugada sobre a água recolhida
na laguna – por que me senti tão desarmado quando vi
as fachadas de Veneza? E tu disseste que talvez
nos voltássemos a encontrar, eram seis da manhã
  nosilêncio
por onde os canais cumpriam mais depressa
a sua lenta função.
Tutta la notte hai parlato della vita in Colombia
con l’ombra dei lampioni a intervalli sul tuo viso
assorto, quasi ieratico. C’era stata l’emozione
provocata da Gabriella nella cabina degli iugoslavi
e quell’italiano fulvo che ripeteva pedagogicamente
paesi, castelli, alberi, una cantilena per puntualizzare
il corso ostinato della nostra traversata.

Alla fine rimaneva l’aurora sull’acqua raccolta
nella laguna – perché mi son sentito così indifeso quando
ho visto le facciate di Venezia? E tu hai detto che magari
ci saremmo ritrovati, erano le sei del mattino
  nel silenzio
entro cui i canali compivano più rapidamente
la loro lenta incombenza.
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John Ruskin
Ca’ d’Oro (1845)
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Paris


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Paris
Paris


Quando vi o mar nas janelas, achei que podia
 alterar
o meu itinerário. Ao descer para a praia
já era quase escuro, havia um casal de aspecto
 aborrecido
sentado nas dunas. Não estava à espera de nenhuma
 revelação
mas as ondas recurvavam com fastio e eu regressei ao
 molhe
onde todas as famílias eram negligentes
e estavam em férias.

O coreto tinha sido assaltado
por jovens excursionistas no engate, velhos em
 calções
falavam nas cervejarias a coçar os joelhos, riam com
 estridência
para dentro dos copos. O verão ia no seu segundo
 dia
e parecia ter-se desdobrado no céu da Gasconha
como um lençol gasto. Não saberei nunca
se havia uma história à minha espera na Gare du Nord
 essa noite.
Quando dalle finestre vidi il mare, pensai di poter
 modificare
il mio itinerario. Quando scesi alla spiaggia
era già quasi buio, c’era una coppia dall’aria
 annoiata
seduta sulle dune. Non ero in attesa di nessuna
 rivelazione
ma le onde si rifrangevano con astio e io ritornai nella
 bolgia
dove tutte le famiglie erano trasandate
ed erano in vacanza.

Il chiosco era stato assaltato
da giovani escursionisti lì per rimorchiare, vecchi in
 bermuda
discutevano nelle birrerie grattandosi le ginocchia, ridevano
 striduli
dentro i loro boccali. L’estate stava entrando nel suo
 secondo giorno
e pareva essersi dispiegata nel cielo di Guascogna
come un lenzuolo usato. Non saprò mai
se c’era una storia ad attendermi alla Gare du Nord
 quella notte.
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Walt Kuhn
Bagnanti in spiaggia (1915)
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Cancioneiro


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Nuno Rocha Morais »»
 
Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (giugno 2022) »»
 
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Cancioneiro
Canzoniere


Deixa-te ouvir cada palavra,
Deixa cada palavra ver-te ouvi-la
Até que confie em ti
E te deixe segui-la no seu silêncio.
Segue-a, pois em silêncio,
Numa atenção desatenta,
Esquecida de si própria
E, porém, rapace.
Conhece o silêncio de cada palavra
Para a poderes perseguir, seduzi-la,
Sabe como convocá-la sem a dispersar.
Mas podes buscá-la ainda
Nas suas zonas de iluminação pobre,
Afastadas de um centro radiante,
Talvez aí a encontres.
Não precisa de ser impoluta
O verso é um efeito
Da pureza por artifício.
 
As primeiras falhas de um lirismo,
A primeira máscara arrancada
A um rosto assustado. 

Fa’ in modo d’ascoltare ogni parola,
Fa’ sì che ogni parola ti veda in ascolto
Affinché di te si fidi
E lasci che tu la segua nel suo silenzio.
Seguila, dunque in silenzio,
Con un’attenzione disattenta,
Dimentica di sé stessa
E, tuttavia, rapace.
Riconosci il silenzio d’ogni parola
Per poterla inseguire, sedurla,
Sappi come attrarla senza disperderla.
Ma puoi cercarla anche
Nelle sue zone meno illuminate,
Discosta da un centro in piena luce,
Lì forse la puoi trovare.
Non serve che sia immacolata
Il verso produce un effetto
Di purezza con l’artificio.
 
Le prime anomalie di un lirismo,
La prima maschera strappata
A un volto spaventato.

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Cheryl Sorg
Spinning Yarns (2009)
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Our darkness


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Our darkness
Our darkness


  para a Otília

Os dois tínhamos vindo do interior e fumado
os primeiros charros em garagens a cheirar a óleo
e a vinho azedo. O ar do atlântico que entrava pela
 avenida
era uma aventura, as casas faziam uma roda para
 proteger
a nossa inépcia. E na altura em que prendemos as mãos
nas águas fundas sobre a mesa e prometemos
que havíamos de ser sempre assim, como sabíamos
tão pouco ainda das regras naturais e do espaço sem luz
que já ameaçava essa promessa. De noite era onde
 fermentavam
as canções, e nós podíamos abrir uma garrafa de
 champanhe
na Praça da República, até parecia que nunca mais
 voltaríamos
a estar sós.
  per Otília

Noi due eravamo arrivati dall’interno e avevamo fumato
le nostre prime canne dentro garage che odoravano d’olio
e vino andato a male. L’aria dell’Atlantico che entrava dal
 viale
era un’avventura, le case stavano a semicerchio per
 proteggere
la nostra idiozia. E nel momento in cui stringemmo le mani
nelle acque profonde sopra il tavolo e promettemmo
che saremmo rimasti sempre così, quanto poco ancora
sapevamo delle leggi della natura e dello spazio buio
che già minacciava questa promessa. Era di notte che
 fermentavano
le canzoni, e noi potevamo aprire una bottiglia di
 champagne
in Piazza della Repubblica, sembrava persino che mai
 saremmo tornati
a star da soli.
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Osvaldo Licini
Amalasunta con sigaretta (1951)
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Münster


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Münster
Münster


Os jovens turcos viviam com desenvoltura
a rotina dos subúrbios, tinham herdado a consciência
do exílio e um bigode etnográfico. Podiam ser vistos
a vender haxixe na zona de Hiltrup, discursando
no seu alemão indeclinável.

À noite vingavam a raça com os carros remendados
nas grandes avenidas, circundavam as rotundas cheias de
 coelhos
a pular na relva. Diziam caralho enquanto enrolavam
um charro, julgo que em nossa homenagem.
I giovani turchi vivevano con disinvoltura
il trantran dei sobborghi, avevano ereditato la coscienza
dell’esilio e dei baffi etnografici. Li si poteva trovare
a vendere hashish nella zona di Hiltrup, discorrendo
nel loro tedesco indeclinabile.

Di notte vendicavano la loro razza con auto truccate
lungo i grandi viali, giravano intorno alle rotonde piene di
 conigli
che saltavano sull’erba. Dicevano cazzo e si rollavano
una canna, suppongo per renderci omaggio.
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Andrea Mantegna
Orazione nell’orto (particolare) (1459 ca.)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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