Dançaste e dançaste e dançaste...


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Dançaste e dançaste e dançaste...
Hai ballato e ballato e ballato...


Dançaste e dançaste e dançaste
Como um perfume,
Como a sombra de uma brisa
Na fronde, magia
De uma cor ainda desconhecida,
O mais leve dos meses.
O meu pensamento fragmentou-se
Em ilhas intermitentes
E à deriva, mas creio
Talvez me encontres como um seixo
Depois de no coração
Te terem corrido muitos rios.
Partilharemos então os gomos
De sol que nos restarem.

Hai ballato e ballato e ballato
Come un profumo,
Come l’ombra d’una brezza
Tra le fronde, magia
D’un colore ancora sconosciuto,
Il più leggiadro dei mesi.
Il mio pensiero s’è frantumato
In isole intermittenti
E alla deriva, ma io credo
Che forse mi ritroverai come un sasso
Dopo che nel tuo cuore
Saranno passati molti fiumi.
Allora spartiremo gli spicchi
Di sole che ci resteranno.

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Olimpia Zagnoli
Dance Dance Dance (2017)
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Anos sem fim, à luz do mar aceso...


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Anos sem fim, à luz do mar aceso...
Anni sterminati, alla luce del mare focoso...


Anos sem fim, à luz do mar aceso,
te vi nudez quase total, tão grácil
figura juvenil, ambígua e fácil,
e ao longe às vezes totalmente nua
em só relance de malícia crua.

Tudo isso me atraía e me afastava,
embora a vista retornando escrava,
a teus lugares me tivesse preso.

E quase sempre então tua figura,
sentada estátua, ou falsa sesta impura,
lá era, ao sol, o tempo congelado.

Hoje, subitamente, tu não viste
ninguém senão o meu olhar quebrado,
e com lenta inocência te despiste.

Mas quantas rugas no sorriso ansiado!

Anni sterminati, alla luce del mare focoso,
t’ho vista nudità quasi totale, tanto gracile
figura giovanile, ambigua e docile,
e da distante talvolta totalmente nuda
in un solo sguardo di maliziosità cruda.

Tutto ciò m’attraeva e mi respingeva,
benché la vista avesse reso schiava,
e nei tuoi luoghi mi tenesse rinchiuso.

E, quasi sempre, ecco la tua figura,
statua assisa, o falsa siesta impura,
era là, al sole, in un tempo sospeso.

Oggi, d’un tratto, tu non hai visto
altro che il mio sguardo frustrato,
e con lenta innocenza ti sei spogliata.

Ma quante rughe in quel sorriso anelato!

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Amedeo Modigliani
Nudo seduto su un divano (1917)
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A Portugal


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A Portugal
Al Portogallo


Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
á luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
com esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.

Questa è la mia amata patria benedetta. No.
Non è benedetta, poiché non se lo merita.
E non è mia amata, è solo matrigna.
E non è mia patria, poiché io non merito
la scarsa sorte d'esservi nato.

Niente mi stringe o lega alla sua grettezza
pari a un grande rutto di passate glorie.
Là ho i miei più cari amici,
li rimpiango là, ma sono amici
solo per essermi amici, e nulla più.

Ributtante sterco del romano impero;
rimasuglio d’invasioni; sudicia salsedine
di fogna atlantica; grottesca faccia
di palta, di cupidigia, e di viltà,
di bassezza, di frivola ignoranza;
terra di schiavi, deretano in mostra a sentir
cigolare nella nebbia la nave dell'Ignoto;
terra di burocrati e di prostitute,
tutti credenti nel miracolo, casti
nelle ore incerte di morbo recondito;
terra d’eroi a peso d'oro e di sangue,
e di santi con bottega di generi vari
come essenza della virtù; terra triste
calcinata dalla luce del sole, incipriata, falsa,
piena di gente affabile con gli stranieri
che lasciano monete ed esportano pulci,
oh pulci lusitane, verso l'Europa;
terra di monumenti dove il popolo
con la merda firma il proprio anonimato;
terra-museo dove si vive ancora,
coi maiali per strada, in case celtiche;
terra di poeti tanto sentimentali
da andare in trance per un tanfo d’ascella;
terra di pietre spianate, aride
come quei sentimenti di otto secoli
di ruberie e padroni, baroni o conti;
oh terra di nessuno, nessuno, nessuno:

io ti appartengo. Sei dissoluta, spregevole,
sei peggio d’una cagna in calore,
sei peste e fame e guerra e mal di cuore.
Io ti appartengo: ma che tu sia mia, no.

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Ambrogio Lorenzetti
Allegoria del Cattivo Governo (1338-1339)
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Chopin: Um inventário


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Chopin: Um inventário
Chopin: Un inventario


Quase sessenta mazurcas; cerca de trinta estudos;
duas dúzias de prelúdios; uma vintena de nocturnos;
umas quinze valsas; mais de uma dúzia de “polonaises”;
“scherzos”, improvisos, e baladas, quatro de cada;
três sonatas para piano; e dois concertos para piano
 e orquestra,
uma “berceuse”, uma barcarola, uma fantasia, uma
 tarantela, etc.,
além de umas dezassete canções para canto e piano; uma
 tuberculose mortal;
um talento de concertista; muitos sucessos mundanos; uma
 paixão infeliz;
uma ligação célebre com mulher ilustre; outras ligações
 sortidas;
uma pátria sem fronteiras seguras nem independência
 concreta;
a Europa francesa do Romantismo; várias amizades com
 homens eminentes;
e apenas trinta e nove anos de vida. Outros viveram menos,
 escreveram mais,
comeram mais amargo o classicamente amargo pão do
 exílio, foram ignorados
ou combatidos, morreram abandonados, não se passearam
 nas alcovas
ou nos salões da glória, confinaram-se menos ao
 instrumento que melhor dominavam,
e mesmo foram mais apátridas sofrendo de uma pátria que
 não haja.
Além disso, quase todos escaparam mais à possibilidade
 repelente
de ser melodia das virgens, ritmo dos castrados,
requebro de meia-tijela, nostalgia dos analfabetos,
e outras coisas medíocres e mesquinhas da vulgaridade,
 como ele não. Ou de ser
prato de não-resistência para os concertistas que tocam
 para as pessoas que julgam
que gostam de música mas não gostam. Ainda por cima
era um arrivista, um pedante convencido da aristocracia que
 não tinha,
um reaccionário ansiando por revoluções que libertassem
 as oligarquias
da Polónia, coitadinhas, e outras. E, para cúmulo,
a gente começa a desconfiar de que não era sequer
 um romântico,
pelo menos da maneira que ele fingiu ser e deixou entender
 que era.
Uma arte de compor a música como quem escreve
 um poema,
a força que se disfarça em languidez, um ar de inspiração
ocultando a estrutura, uma melancolia harmónica por sobre
a ironia melódica (ou o contrário), a magia dos ritmos
usada para esconder o pensamento – e escondê-lo tanto,
que ainda passa por burro de génio este homem que tinha
 o pensamento nos dedos,
e cuja audácia usava a máscara do sentimento ou das
 formas livres
para criar-se a si mesmo. Tão hábil na sua cozinha, que
 pode servir-se
morno, às horas da saudade e da amargura,
quente, nas grandes ocasiões da vida triunfal,
e frio, quando só a música dirá o desespero vácuo
de ser-se piano e nada mais no mundo.

Quasi sessanta mazurche; circa trenta studi;
due dozzine di preludi; una ventina di notturni;
sui quindici valzer; più di una dozzina di “polacche”;
scherzi, improvvisi, ballate, quattro di ciascuno;
tre sonate per piano; e due concerti per piano
 e orchestra,
una “berceuse”, una barcarola, una fantasia, una
 tarantella ecc.,
oltre a diciassette canzoni per voce e piano; una
 tubercolosi mortale;
un talento da concertista; molti successi mondani; una
 passione infelice;
una celebre relazione con una donna famosa; altre
 relazioni assortite;
una patria senza confini sicuri né un’indipendenza
 concreta;
l’Europa francese del Romanticismo; varie amicizie con
 uomini di prestigio;
e trent’anni scarsi di vita. Altri vissero meno, scrissero
 di più,
masticarono più amaramente il classico pane amaro
 dell’esilio, furono ignorati
o perseguitati, morirono abbandonati, non indugiarono
 tra le alcove
o nei saloni della gloria, si isolarono meno con lo strumento
 che meglio dominavano,
eppure furono più sradicati, soffrendo per una patria che
 non esisteva.
E inoltre, quasi tutti sfuggirono alla ripugnante
 possibilità
d’essere la melodia delle vergini, o il ritmo dei castrati,
leziosità per le mezze calzette, nostalgia per gli analfabeti,
e altre cose volgari, mediocri e meschine – cose cui egli
 non sfuggì. O d’essere
il piatto insipido per i concertisti che suonano per quelli
 che credono
d’amare la musica senza amarla davvero. E soprattutto,
era un arrivista, un pedante imbevuto di un’aristocrazia che
 non possedeva,
un reazionario smaniante per rivoluzioni che liberassero
 le oligarchie
della Polonia, poverine, e anche le altre. E, per finire,
qualcuno comincia a sospettare che non fosse nemmeno
 un romantico,
per lo meno del genere che egli finse d’essere e lasciò
 intendere d’essere.
Una capacità di comporre musica come se scrivesse
 una poesia,
la forza camuffata da languore, un’aria ispirata
che occulta la struttura, una malinconia armonica sopra
l’ironia melodica (o tutto il contrario), la magia dei ritmi
usata per nascondere il pensiero – e nasconderlo al punto
che riesce anche a passare per asino di genio quest’uomo
 che pensava con le dita,
e la cui audacia usava la maschera del sentimento o
 di forme libere
per creare se stesso. Tanto abile nella sua cucina, da poter
 essere servito
tiepido, nelle ore del rimpianto e della pena,
caldo, nelle grandi occasioni della vita trionfante,
o freddo, quando solo la musica dirà il vacuo tormento
d’essere solamente piano e nulla più al mondo.

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Henryk Siemiradzki
Chopin suona il piano per il Principe Radziwill (1887)
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A Piaf


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A Piaf
La Piaf


Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do
  “Ça irá”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio
 ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se
 não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que
 adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.
Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

Questa voce che sapeva farsi abbietta e roca,
o dolcemente lirica e sentimentale,
o impetuosamente gridata per i sacri furori del
  “Ça irá”,
o appena recitare riflessiva, intonata, di sogni perduti,
di amori d’una notte che lasciano una memoria gloriosa,
e di quelli che lasciano soltanto, per anni, amarezza e un
 vuoto accanto
nelle notti disperate della carne nostalgica che non
 si rassegna
a non aver posseduto appieno la carne che l’ha tradita,
questa voce persiste garbata e sinistra, dopo la morte,
esattamente come la vita che gli altri continuano a vivere
davanti agli occhi che diventano gola e parole
per esprimere non quel che han sempre visto ma quel
 che indovinano
in quest’ombra che si stende luminosa nel profondo
delle moltitudini solitarie che ostinate resistono
come melodici valzer di periferia
nei vicoli dell’amore
e del mondo.

Solo chi aveva la morte nella voce
e nella vita.
Solo chi come lei ha perso
tutta la gioia e tutta la speranza
può cantare con questa sapienza
la disperazione di sentirsi un essere umano
tra gli umani che così poco lo sono.

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Steven Ponsford
Edith Piaf (2013)
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