Vozes-mulheres


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Vozes-mulheres
Voci di donne


A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
    e
    fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
La voce della mia bisnonna
riecheggiò bambina
nelle stive della nave.
Riecheggiò lamenti
di un’infanzia perduta.
La voce della mia nonna
riecheggiò obbedienza
ai bianchi-padroni di tutto.
La voce della mia mamma
riecheggiò, in sordina, la rivolta
in fondo alle cucine altrui
sotto i fagotti
di panni sporchi dei bianchi
lungo il polveroso sentiero
verso la favela.
La mia voce ancora
riecheggia versi perplessi
con rime di sangue
    e
    fame.
La voce di mia figlia
riunisce tutte le nostre voci
riunisce in sé
le voci mute taciute
intasate nelle gole.
La voce di mia figlia
riunisce in sé
la parola e l’azione.
Il passato – l’oggi – l’adesso.
Nella voce di mia figlia
si farà sentire la risonanza
l’eco della vita-libertà.
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Moisés Patrício
Retrato da Nitinha de Osum (2020)
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Todas as manhãs


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Todas as manhãs
Ogni mattina


Todas as manhãs acoito sonhos
e acalento entre a unha e a carne
uma agudíssima dor.
Todas as manhãs tenho os punhos
sangrando e dormentes
tal é a minha lida
cavando, cavando torrões de terra,
até lá, onde os homens enterram
a esperança roubada de outros homens.
Todas as manhãs junto ao nascente dia
ouço a minha voz-banzo,
âncora dos navios de nossa memória.
E acredito, acredito sim
que os nossos sonhos protegidos
pelos lençóis da noite
ao se abrirem um a um
no varal de um novo tempo
escorrem as nossas lágrimas
fertilizando toda a terra
onde negras sementes resistem
reamanhecendo esperanças em nós. 
Ogni mattina dò ricetto ai sogni
e covo tra l’unghia e la carne
un’acutissima pena.
Ogni mattina ho i pugni
sanguinanti e intorpiditi
per la mia grande fatica
nello scavare, scavare zolle di terra,
fin dove gli uomini interrano
la speranza rubata ad altri uomini.
Ogni mattina allo spuntar del giorno
odo la mia voce-banzo,
ancora delle navi della nostra memoria.
E credo, sì credo
che i nostri sogni protetti
dai lenzuoli della notte,
nel dischiudersi uno ad uno
sullo stenditoio d’un nuovo tempo,
facciano sgocciolare le nostre lacrime
fertilizzando tutta la terra
in cui nere sementi resistono
risvegliando dentro di noi speranze.
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Bertina Lopes
Totem (1970)
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Salmo


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Salmo
Salmo


Meu Deus, que a poesia me salve, e salve o meu amor.
Que a minha voz ainda seja humana.
Que alguém, cansado do caminho,
Entre no meu coração para dormir.
Que o deserto não seja tudo em mim,
Que algum fruto me seja confiado.
Que a crueza em mim não encontre ninguém.
Que alguma lua seja um segredo meu
E com ela eu possa salvar um forasteiro.
Que o amor não me sepulte.

Mio Dio, che la poesia mi salvi e salvi il mio amore.
Che ancora umana sia la mia voce.
Che ci sia chi, stanco del cammino,
Entri nel mio cuore per dormire.
Che in me non sia tutto un deserto,
Che qualche frutto mi sia dato in custodia.
Che nessuno in me incontri la durezza.
Che qualche luna sia un mio segreto
E con lei io possa salvare uno straniero.
Che l’amore non mi seppellisca.

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Mario Tozzi
L’Apparizione (1966)
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Recordar é preciso


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Recordar é preciso
Ricordare è indispensabile


O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos.
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.

O movimento de vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.

Uma paixão profunda é a boia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.
Il mare s’agita ondeggiando sotto i miei pensieri.
La memoria spietata dirige il timone:
Ricordare è indispensabile.

Il movimento di viavai nelle acque-ricordo
dei miei occhi lacrimosi m’inonda la vita,
salandomi il volto e il gusto.
Sono eternamente naufraga,
ma il fondo degli oceani non mi spaventa
né mi paralizza.

Una passione profonda è la boa che mi tiene a galla.
So che il mistero sussiste al di là delle acque.
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Archibald John Motley Jr.
Portrait of my Grandmother (1922)
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Poema de Natal


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Poema de Natal
Poesia di Natale


O frio assola
os meninos no Natal
nas grutas, nas vielas,
nos condomínios...

O frio no Natal assola
a vida de muitos.
Na solidão do vazio prato,
o esbanjar da ceia
cerceia o paladar
de quem apenas em sonho,
molha a farinha seca,
no vinho tinto e extinto
pelo derramamento
do cálice do outro.

O frio no Natal
não tem nascedouro
em dezembro.
Há longas datas
o frio assola
a boca vazia
do ano inteiro.

Em dezembro porém
uma lembrança erupciona
a pele de todos.
O frio do outro Menino,
o frio do outro...

E então, no afã de exterminar
o nosso frio, fabricamos
o calor de um só dia, esquecidos
de que como deuses
também podemos milagrar a vida.

Basta tomar
o fogo-brilho da estrela
e com a chama do divino-humano
que em nós habita,
maravilhar o mundo com
a estrela-guia da justiça.
Il freddo affligge
i bambini a Natale
nelle grotte, nei vicoli,
nei condomini...

Il freddo a Natale affligge
la vita di molti.
Nella solitudine d’un piatto vuoto,
l’eccesso della cena
appiattisce il gusto
di chi, appena in sogno,
intinge il biscotto secco
nel vin santo, estinto
a causa dello svuotamento
del calice d’un altro.

Il freddo a Natale
non ha nascituro
a dicembre.
Da tanto tempo
il freddo affligge
la bocca asciutta
dell’anno intero.

A dicembre però
un ricordo irrita
la pelle di tutti.
Il freddo dell’altro Bambino,
il freddo dell’altro...

Ed ecco, nell’ansia di annullare
il nostro freddo, costruiamo
il calore d’un sol giorno, dimentichi
del fatto che, come dei,
possiamo anche noi miracolare la vita.

Basta prendere
l’ardente scintillio della stella
e con la fiamma del divino-umano
che in noi dimora,
stupire il mondo con
la stella-guida della giustizia.
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Rico de Candia
Madonna nera bizantina (XVI sec.)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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