Cicatriz


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Cicatriz
Cicatrice


Algo dentro de mim se faz presente,

Um sentimento sem nome
Uma dor que não some
Um medo da vida.

Caminhos errados que segui

E hoje me fazem ver
Que dessa forma só me destruí
E continuo me destruindo aos poucos sem ninguém
 saber.

Eu não sei pra que lado o vento sopra,

Eu não sei encontrar as respostas
Que deixei escondidas em algum lugar.
E assim tudo se torna tão estranho,
Toda minha certeza se desfaz e eu
Continuo presa dentro dos meus pensamentos.

Nenhum remédio me dá a verdadeira alegria,

Nenhum comprimido dá lugar à sua companhia
E eu continuo esperando tudo isso mudar.

Não sei se sorrio ou se choro

Se fico ou se vou.
Não sei qual a razão de tudo
Nem onde minha alegria ficou.
Qualcosa prende corpo dentro di me,

Un sentimento senza nome
Una pena che non passa
Una paura della vita.

Strade sbagliate che ho seguito

E oggi mi dimostrano
Che così facendo mi son solo distrutta
E continuo pian piano a distruggermi senza che nessuno
 lo sappia.

Io non so da che parte soffia il vento,

Non so trovare le risposte
Che ho lasciato nascoste in qualche posto.
E così tutto m’appare tanto strano,
Ogni mia certezza svanisce ed io
Resto imprigionata nei miei pensieri.

Nessuna medicina mi dà la vera gioia,

Non c’è pastiglia che possa sostituirla
Ed io seguito a sperare che tutto questo cambierà.

Non so se sorrido o se piango

Se me ne vado o rimango.
Non so qual è la ragione di tutto
Né dov’è rimasta la mia gioia.
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Emiliano di Cavalcanti
Mulher triste (1950 ca.)
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Amigas


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Amigas
Amiche


Amigas,
Trago na palma
das mãos, 
não somente a alma,
mas um rubro calo,
viva cicatriz,
do árduo
refazer de mim.

Trago na palma 
das mãos
a pedra retirada 
do meio do caminho.

E quando o meu pulso dobra
sob o peso da rocha
e os meus dedos murcham
feito a flor macerada
pelos distraídos pés
dos caminhantes, 
eu já não
grito mais.
Finjo a não dor.

Tenho a calma
de uma  velha mulher
recolhendo seus restantes 
pedaços. 
E com o cuspo
grosso de sua saliva, 
uma mistura agridoce,
a deusa artesã cola, recola,
lima e nina o  seu corpo  
mil partido. E se refaz inteira
por entre a áspera intempérie
dos dias.
Amiche,
reco sul palmo
delle mani, 
non solamente l’anima,
ma un callo rosso,
vivida cicatrice,
dell’arduo
rigenerarmi.

Reco sul palmo
delle mani
la pietra rimossa 
dal mezzo del cammino.

E quando il mio polso si piega
sotto il peso del sasso
e le mie dita s’infradiciano
come un fiore spappolato
dai piedi distratti
dei viandanti, 
io ormai non
grido più.
Fingo di non soffrire.

Conservo la calma
d’una donna vecchia
che raccoglie quel che resta 
dei suoi pezzi. 
E con lo sputo
denso della sua saliva, 
agrodolce mistura,
la dea artigiana attacca, incolla,
lima e culla il suo corpo  
fatto a pezzi. E intera si ricompone
nel mezzo dell’aspra tempesta
dei giorni.
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Pablo Picasso
Giovane donna (1909)
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A noite não adormece nos olhos das mulheres


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A noite não adormece nos olhos
das mulheres
La notte non s’addormenta negli occhi
delle donne


  em memória de Beatriz Nascimento

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
  in memoria di Beatriz Nascimento

La notte non s’addormenta
negli occhi delle donne
la luna femmina, nostra simile,
in attenta veglia vigila
sulla nostra memoria.

La notte non s’addormenta
negli occhi delle donne
sono di più gli occhi che il sonno
in cui lacrime congelate
marcano le pause
dei nostri umidi ricordi.

La notte non s’addormenta
negli occhi delle donne
vagine aperte
accolgono ed estromettono la vita
dove Ainás, Nzingas, Ngambeles
e altre bambine lune
discostano da sé e da noi
i nostri calici di lacrime.

La notte mai s’addormenterà
negli occhi delle donne
poiché dal nostro sangue muliebre
dal nostro liquido denso di memoria
in ogni goccia che scaturisce
un filo resistente e invisibile
pazientemente tesse la rete
della nostra millenaria resistenza.
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Theka Galvão
Rilettura dell'illustrazione di Ilea
per la copertina del libro (~2016)
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Uma poética no sotão


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Nuno Júdice »»
 
A Matéria do Poema (2008) »»
 
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Uma poética no sotão
Poetica in solaio


No meio de coisas velhas procuro o que
é novo. Em cada fim vejo um princípio;
e todos os cacos se voltam a colar,
mesmo quando faltam pedaços, ou não
se sabe a que parte pertence a outra.

É assim com o poema: faço-o com as
palavras velhas, as que estão cheias de
bolor, as que foram atiradas para um canto
do dicionário. Algumas, não sei o que
querem dizer; outras, disseram tantas vezes
o mesmo que já perdi o sentido do que
dizem. Mas quando as colo, no verso,
o que ouço tem sempre um outro sentido.

Este poema, por exemplo, não tem
nada de novo. As palavras são fáceis,
os sentidos são óbvios. E é por isso
que ando, no meio dele, à procura de
coisas novas; e ao chegar ao fim,
vejo um princípio, e sei que tudo se volta
a colar, como se nada aqui faltasse.

In mezzo ad antiche cose vado cercando ciò che
è nuovo. In ogni fine io vedo un principio;
e tutti i frantumi tornano ad incollarsi,
pur se mancano dei pezzi, o non
si sa quale parte si conformi all’altra.

È così anche con la poesia: la compongo con le
parole antiche, quelle che ora sono coperte
di muffa, quelle che son state lasciate
in un angolo del dizionario. Certe non so
che cosa vogliano dire; altre han detto così spesso
la stessa cosa che già ho scordato il senso di quel
che dicono. Ma quando le rimonto, nel verso,
quel che io sento ha sempre un altro senso.

Questa poesia, ad esempio, non contiene
niente di nuovo. Le parole sono facili,
i significati evidenti. Ed è perciò
che vago, al suo interno, cercando
cose nuove; e giunto alla fine,
vedo un principio, e so che tutto andrà
ad aggiustarsi, come se non mancasse niente.


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Jacques Bizet
Vecchi libri (1650 ca.)
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Cá venho eu...


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Nuno Rocha Morais »»
 
Poesie inedite »»
nunorochamorais.blogspot.com (maggio 2022) »»
 
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Cá venho eu...
Io vengo qui...


Cá venho eu de palavras ao ombro,
Palavras esburacadas por nelas cavar metáforas.
Cá venho para encontrar nas palavras
O teu corpo, e nele, reunir o teu nome,
Esse brilho ou fulgor imarcescível.
Venho em busca de uma enseada de silêncio.
Cá venho, para acalmar os teus olhos,
Encapelados de terra,
Cá venho, para apaziguar o mar e a noite,
Para fazer do sal um tapete
Onde o amor não transborde.
Cá venho, com o erotismo que pula
De poema em poema, fogo latente.

Io vengo qui con le parole in spalla,
Parole trivellate per estrarvi metafore.
Vengo qui per trovare nelle parole
Il tuo corpo, e ad esso, congiungere il tuo nome,
Questo sfavillio o fulgore immarcescibile.
Vengo in cerca d’una rada di silenzio.
Vengo qui, per rasserenare i tuoi occhi,
Increspati di terra,
Vengo qui, per riconciliare il mare e la notte,
Per fare del sale un tappeto
Da cui l’amore non trabocchi.
Vengo qui, con l’erotismo che salta
Di poesia in poesia, fuoco latente.

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Giacomo Balla
Gli stati d’animo dei libri (1940)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

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