Quando a escrita a si mesmo se molda



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Quando a escrita a si mesmo se molda
Quando la scrittura si forgia da sola


Muito britânicos, fomos tomar café de monóculo.
Galinhas rasgavam de som as horas, algures.
Havia sonhos muito decotados, muito seios,
Havia candeeiros onde as mãos se substituíam.
Alguém escrevia com bolas de ténis
Um guarda-chuva bebia conhaque com um peru.

Escrita automática
Esgrima autónoma
Auto escrita automática
Atemática escrita
Estro astro
Bestial escrita
Antónima escrita
Molto all’inglese, prendemmo il caffè col monocolo.
Le galline, da qualche parte, raspavano chiassose le ore.
Vi erano sogni molto scollacciati, un bel po’ di seni,
Vi erano candelabri su cui le mani si alternavano.
Qualcuno scriveva con palle da tennis
Un ombrello beveva cognac con un tacchino.

Scrittura automatica
Scherma autonoma
Autoscrittura automatica
Scrittura atematica
Estro astrale
Scrittura bestiale
Scrittura antonima
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Shibata Zeshin
Gallo, gallina e pulcini (1892)
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Cântico


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Canga (Jesualdo Monte) (1971) »»
 
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Cântico
Cantico


Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.

Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.

Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.
Levigherai la tua speranza
fino a consumare la mola;
pure senza mola, levigherai
contro il fato e lo sconforto.

Finché tutto per te sarà
più doloroso e profondo.
Levigherai senza mani né braccia,
con animo risoluto.

Conoscerai la speranza,
dopo la morte di tutto.
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Caspar Netscher
Arrotino ambulante (1662)
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Canga


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Canga
Giogo


Jesualdo Monte, não és homem.
És um burro
carregado de ossos;
as palavras, insetos,
volteiam-te a garupa;
até a carne é hostil
sob a carcaça
e o presságio dos seres
te enternece.

Não te movem as fendas,
nem as urzes,
nem o jogo de vozes,
o repouso das tardes
e as vigas
que desceram ao rio
no teu lombo.

O mundo te apertou com sua cincha
e tudo em ti
transpõe o desespero,
desapegando patas e raízes.

É esta a condição de não ser homem:
dormir, placidamente, sem remorsos,
no curral dos mortos.

É esta a condição de não ser homem:
ruminar o assombro, junto ao feno,
receber o milagre sem transtorno,
seguindo sempre, onde manda o dono.

É esta a condição de não ser homem:
lanhado o casco por chicote lesto,
zurrar, apenas, mastigando o freio.

É esta a condição de não ser homem.
Jesualdo Monte, tu non sei un uomo.
Sei un asino
gravato di ossa;
le parole, insetti,
t’avvolgono la groppa;
anche la carne è ostile
sotto la carcassa
e il presentimento degli esseri
t’intenerisce.

Non ti emozionano le crepe,
né l'erica,
né il gioco delle voci,
il riposo delle sere
e la legna
condotta verso il fiume
sopra la tua schiena.

Il mondo ti tiene stretto con la cinghia
e tutto in te
trascende la disperazione,
separando zampe e radici.

È questa la condizione di chi non è uomo:
dormire, placidamente, senza rimorsi,
nel recinto dei morti.

È questa la condizione di chi non è uomo:
ruminare lo spavento, insieme al fieno,
accettare il miracolo senza turbamento,
andando sempre, dove vuole il padrone.

È questa la condizione di chi non è uomo:
spronato il fianco da veloce sferza,
ragliare appena masticando il morso.

È questa la condizione di chi non è uomo.
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Marc Chagall
Asino verde (1911)
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Considerações sobre a Morte e seus Hábitos


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Considerações sobre a Morte
e seus Hábitos
Considerazioni sulla Morte
e le sue abitudini


Visitante insólita
A morte e seu consumo.
A morte e seu apuro.
O repuxo que ela traz, o soldo.

Desde antanho
concebemos seu vulto.
Desde antanho
a projetamos
no muro do que somos.

Limpa nos parece:
arroio, lebre.

O recuo não cabe
quando, adrede,
se cala.
Eis o aviso prévio.

Para que serve então
nossa vigília,
a escola, o calendário?

Que argumento a demove
do faro,
de unha aguçada,
do presságio?

Desde antanho
o aviso que ela dá
é de hora certa,
sem rádio, telefone
ou rezas.

O aviso é sem aviso,
recibo
de contas a pagar,
atavios, conceitos.
Está onde está.

E todos mudam de lotação
ou velocípede.
Todos mudam de cômodos.
O aluguel de nível.
Todos mudam de emprego.

Só a morte,
desde antanho,
não mudou,
não se converteu
ao rebanho.
Visitatrice insolita
La morte e il suo consumo.
La morte e il suo decoro.
L’intento che la muove, la mercede.

Sin dall’antichità
c’immaginiamo il suo aspetto.
Sin dall’antichità
la proiettiamo
sul muro che noi siamo.

Pura ci appare:
ruscello, lepre.

Non ci si può sottrarre
quando, intenzionalmente,
resta in silenzio.
Ecco l’annuncio previo.

A che serve dunque
la nostra cautela,
la scuola, il calendario?

Quale motivo la dissuaderebbe
dal suo istinto,
dal suo artiglio affilato,
dal presagio?

Sin dall’antichità
l’annuncio che ci dà
è che c’è un’ora sicura,
senza radio, né telefono
o preghiere.

L’annuncio è senza annuncio,
quietanza
di conti da pagare,
ornamenti, concetti.
Sta dove sta.

E tutti cambiano mezzi pubblici
o bicicletta.
Tutti cambiano ufficio.
Aspirazione all’ascesa sociale.
Tutti cambiano occupazione.

Solo la morte,
sin dall’antichità,
non è cambiata,
non s’è conformata
al gregge.
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Friedrich Wilhelm Theodor Heyser
Ofelia (1900)
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Victória


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Victória
Victoria


Sei que estás a dançar por trás da porta fechada
do teu quarto. Desculpa denunciar-te, mas essa
é a maneira de entrares no poema, sê bem-vinda
ao poema.

Que tenho eu para conversar com uma menina
de 12 anos? Há perguntas que são como árvores
no outono, morrem devagar, chovem folha a
folha.

Também assim, despedimo-nos constantemente
para sempre. Quando vou chamar-te para jantar,
abres a porta e cresceste de repente. Eras uma
menina

desdentada. Agora, estás no sétimo ano, as tuas
amigas mandam-te mensagens e, talvez por isso,
sou obrigado a acreditar que passou muito
tempo.

Esta casa forjou o nosso parentesco, cruzámo-nos
no corredor, sentámo-nos no sofá, tu nessa ponta,
eu nesta. O nosso parentesco é uma quarentena
privada.

Somos criaturas de raça híbrida, não cabemos
na natureza. precisamos de explicar-nos como
aquelas pessoas que têm sempre de soletrar
o nome.

Tão habituada a elogios, a língua portuguesa falha
ao tentar definir-nos com substantivos obsoletos,
pronunciados como uma espécie de castigo: enteada
e padrasto.

Não cabemos nesse dicionário, repleto de palavras
que não existem, silêncios que são como torneiras
mal fechadas, a desperdiçarem indizível, gota a
gota.
So che stai ballando dietro la porta chiusa
della tua stanza. Scusa se lo rivelo, ma questa
è la maniera in cui entrerai nella poesia, sii benvenuta
nella poesia.

Che argomenti ho per conversare con una bambina
di 12 anni? Ci sono domande che sono come alberi
in autunno, muoiono pian piano, piovono foglia a
foglia.

Eppure, continuamente ci diciamo addio
per sempre. Quando ti chiamo per la cena,
tu apri la porta e d’un tratto sei cresciuta. Eri una
bambina

sdentata. Adesso, sei al settimo anno, le tue
amiche ti mandano messaggi e, forse per questo,
sono obbligato a credere che è passato molto
tempo.

Questa casa ha forgiato la nostra parentela, c’incrociamo
in corridoio, ci sediamo sul divano, tu a un estremo,
io all’altro. La nostra parentela è una quarantena
privata.

Siamo creature di razza ibrida, non apparteniamo
alla natura. abbiamo bisogno di spiegarci come
quelle persone che devono sempre sillabare
il nome.

Così avvezza agli elogi, la lingua portoghese sbaglia
tentando di definirci con sostantivi obsoleti,
pronunciati come una specie di castigo: figliastra
e patrigno.

Non rientriamo in nessun dizionario, pieno di parole
che non esistono, silenzi che sono come rubinetti
mal chiusi, che sprecano un’enormità, goccia a
goccia.
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Edgar Degas
Piccola danzatrice di quattordici anni (1879-1881)
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