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Retrato


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Retrato
Ritratto


Nasci para ser ignorante
Mas os parentes teimaram
(e dali não arrancaram)
em fazer de mim estudante.

Que remédio? Obedeci.
Há já três lustros que estudo.
Aprender, aprendi tudo,
mas tudo desaprendi.

Perdi o nome às Estrelas,
aos nossos rios e aos de fora.
Confundo fauna com flora.
Atrapalham-me as parcelas.

Mas passo dias inteiros
a ver um rio passar.
Com aves e ondas do Mar
tenho amores verdadeiros.

Rebrilha sempre uma Estrela
por sobre o meu parapeito;
pois não sou eu que me deito
sem ter falado com ela.

Conheço mais de mil flores.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como em latim
as crismaram os doutores.

No entanto sou promovido,
mal haja lugar aberto,
a mestre: julgam-me esperto,
inteligente e sabido.

O pior é se um director
espreita pela fechadura:
lá se vai licenciatura
se ouve as lições do doutor.

Lá se vai o ordenado
de tuta e meia por mês,
Lá fico eu de uma vez
um Poeta desempregado.

Se me não lograr o fado,
porém, com tais directores,
e de rios, aves e flores
somente for vigiado.

Enquanto as aulas correrem
não sentirei calafrios,
que flores, aves e rios
ignorante é que me querem.
Son nato per essere ignorante
Ma i miei genitori insistettero
(e da lì non si smossero)
per fare di me uno studente.

Che scelta avevo? Obbedii.
Son già tre lustri che studio.
Imparare, tutto ho imparato,
ma poi tutto ho disimparato.

Ho perso il nome delle Stelle,
dei fiumi, i nostri e quelli lontani.
Scambio fauna con flora.
Mi confondono le frazioni.

Ma passo giorni interi
guardando i fiumi scorrere.
Con gli uccelli e le onde del Mare
ho vere storie d'amore.

Riluce sempre una Stella
al di sopra del mio davanzale;
perché non c’è verso che mi corichi
senz’avere parlato con quella.

Conosco più di mille fiori.
E loro conoscono me.
Però non so dire in latino
che nomi gli han dato i dottori.

Tuttavia son stato promosso,
appena ci sarà un posto vacante,
a insegnante: mi reputano esperto,
colto e intelligente.

Il peggio è se un direttore
spia dal buco della serratura:
la laurea se ne va alla malora
se ascolta le lezioni del dottore.

Ecco il mio stipendio svanito,
è un tozzo di pane al mese,
e di punto in bianco divengo
un Poeta disoccupato.

Se non m’è avverso il fato,
malgrado questi direttori,
spero d’esser sorvegliato
solo da fiumi, uccelli e fiori.

Mentre le lezioni si svolgono
brividi non ne dovrò sentire,
perché uccelli, fiumi e fiori,
ignorante mi voglion tenere.
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Candido Portinari
Bambino con uccellino (1957)
...

Quando tu apareceres…


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Quando tu apareceres…
Quando tu apparirai…


Quando tu apareceres (e então verás
a minha única grandeza)
a Obra que te fiz hei-de a queimar;
não deves conhecer esse caminho
mal talhado, que fiz pra te chegar.
Tão pertinho do Céu te encontrarei,
tão longe de ser mulher,
que te hei-de receber, divina, nos meus braços,
sem teres corpo sequer.
Eu só, Amor, te prenderei na Forma;
é pra seres mais de mim
que as minhas mãos, que Deus abençoou,
te darão os contornos que não tens.
No modelar teus braços e teu peito,
alcançarei, contigo a Perfeição,
e é esse o meu poema, o teu poema:
o milagre daquela criação.
Quando tu apparirai (e allora vedrai
la mia unica grandezza)
l’Opera che per te ho fatto io la brucerò;
non devi venire a conoscere quel cammino
mal tracciato, che ho fatto per arrivare a te.
T’incontrerò così vicino al Cielo,
così lontana dall’essere donna,
che ti riceverò, divina, tra le mie braccia,
senza che tu abbia neppure un corpo.
Io solo, Amore, ti conferirò una Forma;
è perché tu sia più simile a me
che le mie mani, benedette da Dio,
ti daranno i contorni che non hai.
Nel modellare le tue braccia e il tuo petto,
raggiungerò, con te la Perfezione,
e questo è il mio poema, il tuo poema:
il miracolo di quella creazione.
________________

Henry Moore
Figura reclinata (1929)
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O Menino Grande


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O Menino Grande
Il Bambino Grande


Também eu, também eu,
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos...

Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.
Mas nem tudo se foi:
ficou-me,
dos tempos de menino
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.

Vida!,
não me venhas roubar o meu tesoiro:
não te importes que eu ria,
que eu salte como dantes.
E se eu riscar os muros
ou quebrar algum vidro
ralha, ralha comigo, mas de manso...

(Eu tinha um bibe azul...
Tinha berlindes,
tinha bolas, cavalos, papagaios...
A minha Mãe ralhava assim como quem beija...
E quantas vezes eu, só pra ouvi-la
ralhar, parti os vidros da janela
e desenhei bonecos na parede...)

Vida!, ralha também,
ralha, se eu te fizer maldades, mas de manso,
como se fosse ainda a minha Mãe…
Anch’io, anch’io,
giocai a nascondino, feci altalene,
ebbi palloni, biglie, aquiloni,
automobili a molla, cavallini...

Poi son cresciuto,
fino alle dimensioni che ho adesso;
ho perso i miei giocattoli, i bavaglini
non mi servono più.
Ma non tutto è svanito:
m’è rimasto,
del mio tempo d’infanzia
questa ingenua allegria
davanti alle cose nuove
e questa voglia di giocare.

Vita!,
non venirmi a rubare il mio tesoro:
non prendertela se rido,
se salto come prima.
E se io graffio le pareti
o se rompo qualche vetro
sgridami pure, ma con affetto...

(Io avevo un bavaglino blu...
Avevo biglie,
avevo palloni, cavalli, aquiloni…
La mamma mi sgridava come chi bacia...
E quante volte io, solo per sentirla
gridare, ruppi i vetri della finestra
e disegnai figure sopra i muri...)

Vita!, sgridami anche tu,
grida, se io farò bravate, ma con affetto,
come se fosse ancora la mia mamma…
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Juan Gris
Arlecchino seduto (1923)
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Mordaça


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Mordaça
Bavaglio


Puseram-lhe na boca uma mordaça…
Mas o Poeta era Poeta
e tinha que falar.
Fez um esforço enorme,
puxou a voz como quem golfa sangue,
e a mordaça soltou-se-lhe da boca.
Porém, não era já mordaça:
– Agora,
era um poema a queimar
os ouvidos das turbas inimigas
que, na praça,
o tinham querido calar.
Gli misero un bavaglio sulla bocca…
Ma il Poeta era Poeta
e doveva parlare.
Fece uno sforzo enorme,
forzò la voce come chi sputa sangue,
e il bavaglio gli si staccò dalla bocca.
Ecco, non c’era più bavaglio:
– Adesso,
c’era una poesia che ustionava
le orecchie della folla ostile
che, nella piazza,
avrebbe voluto metterlo a tacere.
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Giovanni Bernardino Azzolino
Anima (1640)
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Luz


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Luz
Luce


Ah como é bom fechar os olhos
e volta-los, fechados, para o Sol!....
Venham daí cortar minhas veias !
Venham daí sugar as minhas veias!
Venham todos de aí, se têm sede!
Venham todos beber!

Ah como é bom sentir,
não já sangue, mas Luz em minha veias
que eu quero pôr, rasgadas,
como beijos, nas feridas dos Desgraçados! ...

Ah como é bom saber
como é que a Luz entrou dentro de mim,
se eu tenho os olhos fechados!…
Ah com’è bello chiudere gli occhi
e volgerli, chiusi, al Sole!....
Forza, venite a tagliarmi le vene!
Forza, venite a succhiarmi le vene!
Forza, venite tutti, se avete sete!
Venite tutti a bere!

Ah com’è bello sentire,
non sangue, ma Luce nelle mie vene
che io voglio posare, recise,
come baci sulle ferite degli Sventurati!...

Ah com’è bello sapere
come ha fatto la Luce a entrare in me,
se io tengo gli occhi chiusi!…
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Janne Parviainen
The Unforgiven (2011)
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Andorinha


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Andorinha
Rondine


Tonta de Poesia,
caiu a manhã…
É uma andorinha morta de cansaço.

Deixem-na ficar
caída no chão.
Não façam barulho
podem acordá-la.

Se ela se levanta
mesmo assim cansada
suas asas negras
cobrem o Sol.

Deixem-nas paradas,
suas asas meigas.
Sereninhas dormem
o seu vôo morto…
Ebbra di Poesia,
è caduta stamattina…
È una rondine morta di fatica.

Lasciatela star lì
caduta a terra.
Non fate rumore
la potreste svegliare.

Se lei ora s'alzasse
pur tanto stanca
le sue ali nere
coprirebbero il Sole.

Lasciatele a riposo,
le sue dolci ali.
Serenamente dormono
sul suo volo morto…
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Johan Thomas Lundbye
Studio di una rondine morta (1837)
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Somos de barro


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Somos de barro
Siamo d’argilla


Somos de barro. Iguais aos mais.
Ó alegria de sabe-lo!
(Correi, felizes lágrimas,
por sobre o seu cabelo!)

Depois de mais aquela confissão,
impuros nos achamos;
nos descobrimos frutos
do mesmo chão.

Pecado, Amor? Pecado
fôra apenas não fazer do pecado
a força que nos ligue
e nos obrigue a lutar lado a lado.

O meu orgulho assim é que nos quer.
Há de ser sempre nosso o pão, ser nossa a água.
Mas vencidas os ganham, vencedores,
nossa vergonha e nossa mágoa.

O nosso Amor, que história sem beleza,
se não fôra ascensão e queda e teimosia,
conquista… (E novamente queda
e novamente luta, ascensão… ) Ó meu amor, tão fria,

se nascêramos puros, nossa história!
Chora sobre o meu ombro. Confessamos.
E mais certos de nós, mais um do outro,
mais impuros, mais puros, nós ficamos.
Siamo d’argilla. Uguali agli altri.
Oh, che gioia saperlo!
(Scendete, lacrime felici,
sopra i suoi capelli!)

Dopo quest’altra confessione,
ci ritroviamo impuri;
scopriamo d’esser frutti
dello stesso suolo.

Peccato, Amore? Peccato
sarebbe soltanto non fare del peccato
la forza che ci unisce
e ci costringe a lottare lato a lato.

Il mio orgoglio è così che ci vuole.
Sempre sarà nostro il pane, sarà nostra l’acqua.
Ma, da vincitori, li conquistiamo solo vincendo
la nostra vergogna e il nostro dolore.

Il nostro amore, sarebbe storia senza bellezza,
se non ci fosse l’ascesa e la caduta, la tenacia,
la conquista… (E di nuovo la caduta
e di nuovo la lotta, la risalita… ) Oh, amor mio,

se fossimo nati puri, che fredda la nostra storia!
Piangi sulla mia spalla. Confessiamolo.
E più sicuri di noi, più l'uno dell'altra,
più impuri, più puri, diventiamo.
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Giorgio de Chirico
Gli sposi (1926)
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Sinal


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Sinal
Simbolo


Quanto amor me tens,
com amor te pago
– Trago-te no dedo,
num anel que trago.

Num anel redondo,
todo de oiro fino,
que é o teu sinal,
que é o teu destino.

Este anel me basta
para bater-te à porta.
Truz! truz! truz! – na rua
como o frio corta!

Como a chuva cai,
como o vento mia!
Mas abriste logo,
que eu é que batia.

(Que outro anel tivera
som que te chamasse?)
Já teu vinho bebo,
para que o frio me passe;

já na tua cama
me aconchego e deito;
já te chamo esposa,
peito contra peito.

Como tudo é simples,
como é tudo imenso!
É mistério enorme,
de um anel suspenso!

E eis, na tua mão,
num anel igual,
brilha o teu destino,
luz o meu sinal.
L’amore che per me provi,
è da pari amor ripagato
– Ti porto legata al dito,
dove un anello ho infilato.

È un anello rotondo,
tutto d’oro fino,
che è il tuo simbolo,
che è il tuo destino.

Questo anello mi basta
per bussare alla tua porta.
Toc! toc! toc! – per strada
il freddo come sconforta!

La pioggia come cadeva,
come il vento ululava!
Ma tu mi apristi subito,
perché ero io che bussavo.

(Quale altro anello aveva
un suono che ti chiamasse?)
Ora già bevo il tuo vino,
perché il freddo mi passi;

ora già nel tuo letto
mi vengo a coricare;
già ti chiamo mia sposa,
cuore contro cuore.

Com’è tutto semplice,
com’è tutto grandioso!
È un mistero enorme,
d’un anello prezioso!

Ed ecco, sulla tua mano,
su un identico anello,
riluce il tuo destino,
il mio simbolo brilla.
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Jan Van Eyck
Uomo con anello (1430 ca.)
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Poesia depois da chuva


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Poesia depois da chuva
Poesia dopo la pioggia


    A Maria Guiomar

Depois da chuva o Sol - a graça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça.

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...)
    A Maria Guiomar

Dopo la pioggia il Sole - una grazia.
Oh! la terra bagnata illuminata!
E i rivoli d’acqua che attraversano la piazza
- luce fluente, in un fluire quasi impercettibile.

Canta, felice, un uccellino qualunque.
Subito dopo, tra i rami nudi, volteggia.
Lo sfondo è bianco - calce fresca sulle case della piazza.

Sonagli, ruote che girano, voci chiare nell’aria.

Così gioioso questo Sole! Dio c’è. (Io l’avevo negato
prima del Sole, non dubitavo ora.)
Oh Sera vergine, Senhora Aparecida! Oh Sera identica
alle mattine degli inizi!

E sei passata tu, fiore dagli occhi neri che m’incanta.
Graziosa, così graziosa!… Pura immagine della Sera...
Fiore portato sulle acque, dolcemente...

(Fluiva la luce, in un fluire quasi impercettibile…)
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Vincent van Gogh
Pioggia, Auvers (1890)
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O Zambujeiro


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O Zambujeiro
L’oleastro


Deus disse: "O Zambujeiro nasça".
Viril, rompeu da terra o Zambujeiro.
O tronco é o dum homem das montanhas.
São mãos de cavador seus ramos. Só as folhas,
Delicadas, suaves... Pela noite,
Quando tudo se cala, mesmo os pássaros,
O Zambujeiro canta…
Dio disse: “Che nasca l’oleastro".
Virile, irruppe l’oleastro dalla terra.
Il tronco è da uomo di montagna.
Sono mani di zappatore i suoi rami. Solo le foglie,
Delicate, soavi... Ma di notte,
Quando tutto tace, anche gli uccelli,
L’oleastro canta…
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Félix Vallotton
Il vecchio ulivo (1922)
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«O Sonho»


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«O Sonho»
«Il sogno»


Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
Ao que desconhecemos
E ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.
Dentro un sogno andiamo,
Emozionati e zitti.

Arriviamo? Non arriviamo?
Che ci siano o non ci siano frutti,
È dentro un sogno che andiamo.

Basta aver fede in ciò che abbiamo.
Basta aver speranza in ciò
che forse poi non avremo.
Basta che mettiamo l’anima,
Con la stessa gioia,
In ciò che non conosciamo
E in ciò che è il nostro quotidiano.

Arriviamo? Non arriviamo?
- Partiamo. Andiamo. Siamo.
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Marc Chagall
Il sogno (1939)
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O Outono é triste


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O Outono é triste
L’Autunno è triste


Aonde estou não há outono. O Outono é triste…
Aqui não deixam nunca as folhas de ser verdes
E há a relva e os rebentos e a alegria dos pássaros…
E os sítios em que amámos?... Vou contigo, Mulher,
Vamos de braço dado aos sítios de outro tempo…
Ah! Que não vemos musgo, muros velhos, mofo…
Saudades?... Nem ao menos saudades… Somos os dois
 tão jovens!...
Lá vai uma flor nova romper. Detemo-nos, deixamos
De respirar – e eis o botão rasgado e a flor aberta.
Dove sto io non v’è autunno. L'autunno è triste…
Qui le foglie non smettono mai d’essere verdi
E c’è l’erba e i germogli e l’allegria degli uccelli…
E i luoghi in cui ci amiamo?... Vengo con te, Donna,
Andiamo sottobraccio nei luoghi d’un altro tempo…
Ah! Che non si vedano muschio, muri vecchi, muffa…
Rimpianti?... Nemmeno i rimpianti… Siamo così giovani
 noi due!...
Lì c’è un nuovo fiore che sboccia. Fermi, tratteniamo
Il respiro – ed ecco il bocciolo schiuso e il fiore aperto.
________________

Paul Cézanne
Mandorli in Provenza (1900)
...

Crepuscular


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Crepuscular
Crepuscolare


Já não são horas, meu Amor...
A hora...
passou
em que era grato a gente amar.
É um querer de Irmão este de agora.
Nem a Tarde
é já o cravo rubro de inda há pouco:
é um murmúrio quase... um lírio inexistente
dulcificando as coisas, perfumando-as
de carinhos...

Não é a hora, Amor.
Agora
deixa sorrir em nós a peregrina
ternura da Paisagem.
Não desprendas as mãos
das minhas...

Abandona-as, mas castas como berços... E beija-me na testa...
Quando a Noite
mansa vier vindo,
Amor, beija de manso a minha testa...
De manso, meu Amor...
Como se o lírio da Tarde se fechasse…
Non è più tempo, Amor mio...
Quel tempo...
è passato
quello in cui eravamo grati di amarci.
È un desiderio fraterno questo di ora.
E neppure la sera
è già più il rosso garofano di poco tempo fa:
è quasi un mormorio... un giglio inesistente
che addolcisce le cose, profumandole
di tenerezze...

Non è il momento, Amore.
Adesso
lascia sorridere in noi la vaga
serenità del paesaggio.
Non separare le tue mani
dalle mie...

Adagiale, ma caste come culle...
E baciami la fronte...
Quando la notte
dolcemente verrà,
Amore, baciami dolcemente la fronte...
Dolcemente, Amor mio...
Come se il giglio della sera si chiudesse…
________________

Theo van Rysselberghe
Tramonto ad Ambretsuse (1899)
...

A uma rapariga


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A uma rapariga
A una ragazza


Somos assim aos dezassete.
Sabemos lá que a Vida é ruim!
A tudo amamos, tudo cremos.
Aos dezassete eu fui assim.

Depois, Acilda, os livros dizem,
dizem os velhos, dizem todos:
"A Vida é triste. a Vida leva,
a um e um, todos os sonhos."

Deixá-los lá falar os velhos,
deixá-los lá... A Vida é ruim?
Aos vinte e seis eu amo, eu creio.
Aos vinte e seis eu sou assim.
A diciassette anni siamo così.
Che ne sappiamo che la Vita é crudele!
Tutto amiamo, a tutto crediamo.
A diciassette anni io ero così.

Eppure, Acilda, lo dicono i libri,
lo dicono i vecchi, tutti lo dicono:
"La Vita è triste. La Vita ci porta via,
uno ad uno, tutti i nostri sogni."

Ma lascia che parlino i vecchi,
lasciali là... La Vita é crudele?
A ventisei anni io amo, io credo.
A ventisei anni io sono così.
________________

Marc Chagall
Il pittore della luna (1917)
...

Sweet Ophelia


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Sweet Ophelia
Sweet Ophelia


Entre as pedrinhas dormes, flor absorta,
ó pobre, doce Ofélia! Mas quem sabe?...
- Sobre a dor e a loucura, sobre a morte,
intransparente, mudas, esquecidas,
correm p'ra sempre, Ofélia doce, as águas.

E o teu sono é alga impresumível…
Tra i ciottoli tu dormi, fiore assorto,
oh povera, dolce Ofelia! Ma chissà?...
- Sopra il dolore e la follia, sopra la morte,
inesplicabile, mute e immemori,
scorrono per sempre, Ofelia dolce, l’acque.

E il tuo sonno è un’alga inenarrabile…
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Salvador Dalì
Ofelia (1973)
...

Os que vinham da Dor…


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Os que vinham da Dor…
Quelli che venivano dal Dolore…


Os que vinham da Dor tinham nos olhos
estampadas verdades crudelíssimas.
Tudo que era difícil era fácil
Aos que vinham da Dor directamente.

A flor só era bela na raiz,
o Mar só era belo nos naufrágios,
as mãos só eram belas se enrugadas,
aos olhos sabedores e vividos
dos que vinham da Dor directamente.

Os que vinham da Dor directamente
eram nobres de mais p´ra desprezar-vos,
Mar azul!, mãos de lírio!, lírios puros!
Mas nos seus olhos graves só cabiam
as verdades humanas crudelíssimas
que traziam da Dor directamente.
Quelli che venivano dal Dolore negli occhi
avevano impresse verità crudelissime.
Tutto ciò ch’era difficile, era facile
Per quelli che venivano dritti dal Dolore.

Un fiore era bello solo nella radice,
il Mare era bello solo nei naufragi,
le mani erano belle solo se rugose,
agli occhi consapevoli e vividi
di quelli che venivano dritti dal Dolore.

Quelli che venivano dritti dal Dolore
erano troppo speciali per disprezzarvi,
mare blu!, mani di giglio!, gigli puri!
Ma nei loro occhi gravi ci potevano stare
solo le verità umane più crudeli
ch’essi recavano dritti dal Dolore.
________________

Ismael Nery
Autoritratto (1930)
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Nuvola degli autori (e alcune opere)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adilia Lopes (45) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant’Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (39) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (113) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Paulo Paes (12) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (44) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (40) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (566) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poemas dos dias (31) Poesie inedite (373) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (45) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)