Victória


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Victória
Victoria


Sei que estás a dançar por trás da porta fechada
do teu quarto. Desculpa denunciar-te, mas essa
é a maneira de entrares no poema, sê bem-vinda
ao poema.

Que tenho eu para conversar com uma menina
de 12 anos? Há perguntas que são como árvores
no outono, morrem devagar, chovem folha a
folha.

Também assim, despedimo-nos constantemente
para sempre. Quando vou chamar-te para jantar,
abres a porta e cresceste de repente. Eras uma
menina

desdentada. Agora, estás no sétimo ano, as tuas
amigas mandam-te mensagens e, talvez por isso,
sou obrigado a acreditar que passou muito
tempo.

Esta casa forjou o nosso parentesco, cruzámo-nos
no corredor, sentámo-nos no sofá, tu nessa ponta,
eu nesta. O nosso parentesco é uma quarentena
privada.

Somos criaturas de raça híbrida, não cabemos
na natureza. precisamos de explicar-nos como
aquelas pessoas que têm sempre de soletrar
o nome.

Tão habituada a elogios, a língua portuguesa falha
ao tentar definir-nos com substantivos obsoletos,
pronunciados como uma espécie de castigo: enteada
e padrasto.

Não cabemos nesse dicionário, repleto de palavras
que não existem, silêncios que são como torneiras
mal fechadas, a desperdiçarem indizível, gota a
gota.
So che stai ballando dietro la porta chiusa
della tua stanza. Scusa se lo rivelo, ma questa
è la maniera in cui entrerai nella poesia, sii benvenuta
nella poesia.

Che argomenti ho per conversare con una bambina
di 12 anni? Ci sono domande che sono come alberi
in autunno, muoiono pian piano, piovono foglia a
foglia.

Eppure, continuamente ci diciamo addio
per sempre. Quando ti chiamo per la cena,
tu apri la porta e d’un tratto sei cresciuta. Eri una
bambina

sdentata. Adesso, sei al settimo anno, le tue
amiche ti mandano messaggi e, forse per questo,
sono obbligato a credere che è passato molto
tempo.

Questa casa ha forgiato la nostra parentela, c’incrociamo
in corridoio, ci sediamo sul divano, tu a un estremo,
io all’altro. La nostra parentela è una quarantena
privata.

Siamo creature di razza ibrida, non apparteniamo
alla natura. abbiamo bisogno di spiegarci come
quelle persone che devono sempre sillabare
il nome.

Così avvezza agli elogi, la lingua portoghese sbaglia
tentando di definirci con sostantivi obsoleti,
pronunciati come una specie di castigo: figliastra
e patrigno.

Non rientriamo in nessun dizionario, pieno di parole
che non esistono, silenzi che sono come rubinetti
mal chiusi, che sprecano un’enormità, goccia a
goccia.
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Edgar Degas
Piccola danzatrice di quattordici anni (1879-1881)
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